O MUNDO E A CONSCIENCIA

I

ALVORADA

Algures brilha o sol no azul do firmamento, E expõe com resplendor das cousas o espectaculo! Aqui, na escuridão, o mundo é tabernaculo Onde os frageis mortaes descançam um momento!...

Alem, o Sol incita o mundo ao movimento, Á lucta pela Vida, o esteio e o sustentaculo Desde o ser da Rasão ao minimo animaculo, Aqui, o somno esparse em todos novo alento!

Ó Luz! tu és do mundo a Força, a Alma, a Vida, A essencia do meu Ser, a minha propria Ideia, O proprio Deus, talvez!... Belleza, Amor, Verdade!

Atraz de Ti caminha a Terra, mãe querida! Bemdito caminhar! Por Ti minha alma anceia!... Bemvinda sejas, pois, oh doce claridade!

Lisboa, 1898.

II

Á LUZ

Oh Luz dourada e pura! Oh Luz, irmã do Amor! Espelho e formusura Da Alma do Senhor!

Em ti eu vejo e abraço O author da creação, Soltando pelo espaço Explendida canção

Meus olhos que te admiram, Bem como a Terra e os Ceus, Ao verem-te, sentiram O proprio olhar de Deus!

O ceu, mal vens n'aurora, Mais alva que a alva lã, De purpura colora As faces de manhã!

A Terra, envolta em galas, Mais bella que as Huris, Reveste-se de opálas, De perolas e rubis!

As aves innocentes, Sentindo o teu fulgor, Gorgeiam, de contentes, Seus canticos d'amor!

Os lyrios junto ás fontes, Perdendo o teu clarão, As suas lindas fontes Inclinam-se para o chão!

Eu mesmo, se em verdade Sonhei, com Jesus, O bem da Humanidade, A Ti o devo oh Luz!

Oh candida alegria! Espirito de Deus, Que animas noite e dia A Terra, o mar, e os ceus,

Adoro-te portento!... E a Ti levando as mãos, Como ante o sacramento! Os simplices christãos!...

D'esta alma és o esteio! Que a tua essencia pura Ampare-me no meio Da minha desventura!...

E quando a morte um dia Roubar aos olhos meus, A esplendida harmonia Que formam Terra e ceus:

Seguindo prasenteiro A lei que me conduz, Meu grito derradeiro Será por ti oh Luz!

III

AO SOL!

Oh maravilha esplendida engastada Na fronte augusta do azul profundo, Qual lamina brilhante onde gravada Se visse a face de quem fez o mundo,

Eu te saudo oh Sol? qual religioso O Indio quando viu a vez primeira Surgir do mar teu facho luminoso E alegrar com a luz a terra inteira!

Ah! quiz cantar o braço omnipotente Que por nós trabalhava a cada instante: E a terra, o mar, e quanto vive e sente, Apontou para Ti, astro brilhante!

Possam teus raios que nos ceus se expandem Ricos da gloria e cheios d'alegria, Fazer com que do peito meu debandem As sombras da tristeza que trazia,

E ouve-me um canto alegre como o côro Das aves quando, envolto em magestade, Tu transpões do oriente as portas d'ouro E abençoas dos ceus a Humanidade!

Oh astro, coração tres vezes santo, De cujo seio foi por Deus emmerso O movimento e a vida e tudo quanto Forma hoje a harmonia do Universo!

Ouvi louvar-te, num concerto vario, Montanhas, mares, flôres e arvoredos, Que do meu peito, como d'um sacrario, Confiaram seus intimos segredos!

Louvam-te as aves; louvam-te as creanças, E os velhos que não teem fogo nos lares, Buscando a doce luz que tu lhes lanças, Como a imagem de Deus junto aos altares!

Louva-te, oh Sol! a terra a quem quizeste Por tua esposa, na epocha sombria, Em que de crepe a abbobada se veste, Lacrimosa chorando noite e dia;

E os jubilios e os mil festões de gala Com que cingio de noiva delirante A casta fronte, quando a enamoral-a Sentiu de novo o teu olhar brilhante!

Oh Sol! oh Sol! a minha lingua é pobre Para cantar-te em verso o quanto vales Perante as maravilhas que descobre A vista humana por montanha e vales!...

Desde o negro carvão que o fogo atêa Ao cédro altivo que no mundo avulta; Desde o meu sangue á luz da minha idêa: Por tudo existe a tua essencia occulta!...

Hostia de luz esplendida, patente Perante os povos em perpetua missa! Tu, que és de Deus o espelho resplendente, Throno de gloria e séde de Justiça:

Se apagares nos ceus teu facho enorme, Suspensa a vida no labor interno, Tu verás como a terra logo dorme Entre as sombras da noite um somno eterno!...

Seja pois o meu canto um desafogo Da nossa gratidão, astro, jocundo! Coração formosissimo de fogo Que em nome do Senhor dás vida ao mundo!

E prosegue no carro flammejante A derramar teus bens por mundos novos, Que emquanto vês na marcha triumphante Infindas tribus d'animaes e povos:

Eu, deslumbrado ainda com os vestigios Da tua luz, de tantas coisas bellas, Louvarei o author de taes prodigios Sob esse manto esplendido d'estrellas!

Lisboa, 1872.

IV

AO MAR!

Senhor! eu canto o mar, que no psalterio D'esses orbes de luz que além se avista, Com a vóz d'um tristissimo psalmista Teu nome ousa louvar no espaço ethereo!

Canto o apostolo, o mestre da Verdade, Que, aprendendo de ti altos segredos: Contra os negros tyrannos dos rochedos Vae prégando o sermão da Liberdade!

Ah cuja grande vóz, d'além do abysmo, Apraz-me ouvir por noite tenebrosa Imponente crescer, bramir raivosa D'encontro á rocha onde eu medito e scismo!

Eil'o sempre n'aquelle arfar profundo, Em lucta collossal, guerra infinita, Contra o sopro do ceu que eterno o agita, Desde o dia em que Deus o trouxe ao mundo!

Se tudo quanto ahi á luz se cria, Tudo trabalha mas descança e dorme, Porque anda sempre oh mar, teu seio enorme N'essa lucta cruel de noite e dia?!

Em ancia egual só tenho a comparar-te Á marcha d'esses mundos que o Senhor Tornou em corações do seu amor, Para a vida accordar por toda a parte!

Tu és o irmão dos astros; és da Terra O immenso coração profundo e triste, Que eterno off'rece a vida a quanto existe, Co'o auxilio do Sol, que tudo encerra!...

Ah muito seja embora o desgraçado, Muita a miseria occulta n'esse abysmo, Desde as scenas do horrivel cataclysmo, De que resam as biblias do Passado:

Eu vejo em ti o pae dos pobresinhos, A quem nada deixando as leis avaras, Tornas-te-lhes os peixes em cearas, Para matar a fome a seus filhinhos!...

O eterno confidente de infelizes, De quem pareces ser tão grato espelho, Que servindo para elles d'evangelho, Eu não sei que palavras tu lhes dizes,

Que fico ahi por tempos esquecidos, Tão preso a escutar-te a voz das aguas, Que obtenho acalmar a dôr ás magoas E adormecer meus males tão compridos!...

Oh! mar! oh! mar! quando eu a sós medito Nas rochas sobre os pincaros calado, Recorda o teu rumor cadenceado Um pendulo suspenso no infinito!...

Harpa de Deus exposta aos quatro ventos, Onde o sopro, que a vaga á vaga impelle, Descanta harmonioso um hymno Áquelle, Que a terra e os ceus encheu de mil portentos!...

Quer a colera accesa da tormenta Te divida em terriveis multidões De tigres, de pantheras, de leões, Rugindo em cada vaga que rebenta;

Quer ouça pelas algas verde negras, E as praias solitarias onde eu choro... Cantar o teu amor em vasto côro De rolas, rouxinoes ou toutinegras:

Ou fera ou pomba, egual amor me atêa O teu gentil amor e altivo orgulho, Quando este arroja á praia o pedregulho, E aquelle as lindas conchas lhe semeia!...

És sempre o mesmo! És sempre o grande amigo, Sobre cuja espantosa immensidade Vejo passar o sopro da Verdade, Da doutrina de Deus, que adoro e sigo!

Buarcos, 1869.

V

ÁS NUVENS

Vapores que em vistosos cortinados Armaes dos ceus o templo de safira Com purpura e finissimos broxados, Sêde hoje o assumpto para a vóz da lyra!

Que eu quero ter a intima certeza Que, antes da hora da fatal partida, A minha alma no mundo fica preza Ás coisas bellas que adorei na vida...

Horas felizes que ainda hoje eu passo, Pelas tardes calmosas do verão, Seguindo-as uma a uma pelo espaço, Dizei ás nuvens se eu as amo ou não!...

Eu que vou pelo mundo imaginando Visões sobre visões, sempre illusorias: Comprazo-me em vos vêr de quando em quando, Fórmas aereas, sombras transitorias!...

Vós que nas tardes e manhãs amenas, Passando como timidas deidades, Deixaes os ceus juncados d'açucenas, D'alvos jasmins e rôxas saudades;

Vós que andaes presurosas, fugitivas, Os ceus cruzando n'um lidar constante: Sorris-me como as multiplas missivas Que envia ao Sol a Terra sua amante!...

Imagens lindas d'um amor jocundo, E espectros negros d'intimos rancores, Do grande coração que agita o mundo, O mar, que tem como eu paixões e amores!...

Á tarde quando o Sol, cratera ardente, Vae prestes a apagar-se e, em desafago, Inflamma as grandes portas do Occidente E faz da terra e ceus um mar de fogo:

Ah! deixo os olhos espraiando a vista Pelos paineis de mil preciosidades, Aonde desenhaes, com mãos d'artista, Em telas d'ouro olympicas cidades!...

E agora são rochedos e campinas!... Fulvos leões e timidas gazellas!... E logo apoz castellos em ruinas, Visões d'amor, phantasticas donzellas!...

Umas vezes são guerras estrondosas, Luctas crueis d'impavidos gigantes, Onde ha rios de sangue e pavorosas Sombras de heroes, e incendios fumegantes!...

E outras vezes, então, nuvens ligeiras, Convertei-vos em lyrios e violetas, Em acacias floridas e palmeiras, E em vultos de Romeus e Julietas!...

E eu amo a nuvem negra que imponente Abre nos ceus a fulgida garganta, E vomita do seio o raio ardente, E com elle o trovão que o mundo espanta,...

E a pudibunda nuvem d'alvorada Quando, ante o Sol esplendido que assoma, Parece virgem pura e delicada, Branca de neve com dourada coma!...

Oh nuvens que passaes no firmamento, Bandos aereos d'illusões perfeitas!... Vós que tão lindas sois, e n'um momento, No chão cahis em lagrimas desfeitas!

Quando vos vejo pelo azul profundo, Voluptuosas, gentis e transparentes: Lembraes-me os sonhos que lancei ao mundo, Como um bando de pombas innocentes!...

Bem mais felizes vós, que, n'um momento, Passando aereo fumo em valle e serra, Levaes comvosco, a vida, o movimento De quanto nasce e vive sobre a terra!...

Já não assim meus sonhos, muito embora Levem comsigo as novas do futuro: São nuvens bellas d'esplendente aurora, Desfeitas sobre um chão ingrato e duro!...

Carvalhaes, 1873.

VI

ÁS FLORES

Eu venho-vos cantar, mimosas flôres, A vós irmãs da luz, gentis e bellas, Do chão que piso vívidas estrellas, Com mil perfumes, mil viçosas côres!

Á vossa encantadora companhia, Toda cheia de graça e de candura, Eu devo em parte a luz serena e pura Do amor, que meu espirito allumia!...

Cercando-me dos vossos esplendores, Nos quaes eu pasto dia e noite a vista, Consigo converter meu lar d'artista N'um Louvre de riquissimos lavores

Em porphirio, alabastro, em prata e oiro, E em fulgidos setins!... Primores d'arte, Por onde o Artista Maximo reparte Co'os olhos meus bellissimo thesouro!...

Entre nós não ha festas verdadeiras, No templo, no palacio ou na choupana, Que em todo o grão matiz da vida humana, Prescindam de vos ter por companheiras!...

Ninguem na Terra vos disputa a palma D'expor, com fidelissima justeza De côr e fórma, cheias de belleza, Os varios sentimentos da nossa alma!...

A timida donzella, ingenua e pura, Temendo-se dos bens que ella imagina, Nas petalas da candida bonina Procura lêr seus sonhos de ventura!...

Com finas mãos, as pallidas Ophelias, Por darem mais realce aos fios d'ouro Das bastas tranças: seu cabello louro Adornam com alvissimas camellias!

Afim de se dizer á bem amada Do intenso amor o rapido delirio: Da rosa pudibunda ou branco lyrio Se faz missiva pura e perfumada!...

Os tristes na viuvez, e na orfandade, Roidos por uma intima amargura: Desfolham na chorada sepultura, As petalas do lyrio e da saudade!...

Eu mesmo, que do publico debando; Dos mortos devorciado, e alheio aos vivos: Se vejo d'entre sonhos fugitivos, Abrirem-se-me os ceus de quando em quando;

Suppondo em vida os povos numerosos, Unindo-se em espirito e verdade, Viverem ante Deus e a Humanidade, Como irmãos, solidarios, venturosos;

E encontro, em torno ás candidas chimeras, Crueis dissilusões por toda a parte: Em guerra os homens, a virtude e a arte Sem o fogo sagrado d'outras eras...

Oh minhas flôres! viva embora eu triste, Que as vossas serenissimas imagens Conseguem libertar-me das voragens Com quanto bello na minha alma existe!...

Ah quando caio e vejo das miserias Cavar-se aos pés um sorvedoro infindo: Seguindo as esperiaes d'um sonho lindo, Por vós remonto ás regiões ethereas!...

Em horas de fraqueza, horas mofinas, Se eu ouso vos fitar, sinto na face Um subito rubor, qual se me olhasse Deus Pae, sob essas formas peregrinas!...

Urnas santas, a mim que deposito No vosso olôr subtil e perfumado As scenas mais gentis do meu passado, Perdidas para sempre no infinito!...

Deixae que em testemunho da verdade: Do muito que vos quiz e amei na vida, Como echo da minha alma agradecida, Meu canto o atteste á luz da eternidade!...

Carvalhaes, 1870.

VII

Á ARVORE

Quando contemplo em paz teu nobre vulto Erguido aos ceus: envolto em verde manto, Supponho contemplar um justo,... um santo,... Um pae,... um Deus,... algum mysterio occulto!...

Ha não sei bem que força em mim tão forte, Não sei que grande instincto inabalavel A levar para quanto é bello e estavel Esta alma, para quem só Deus é norte,

Que em ti, oh mãe, em ti achei guarida... A tua sombra off'rece a paz e a esperança A quem no mundo é triste e em vão se cança Para aos ceus dirigir a propria vida!...

Quantas vezes em horas d'agonia, Que deixavam meus olhos rasos d'agua, Eu não deixei ficar-te aos pés a magoa, Buscando tua sombra noite e dia?!...

Quantas horas fitando os ceus pasmado Eu não passei, deixando o olhar suspenso N'aquelle vasto seio azul e immenso, Do verde de teus ramos marchetado?!...

De dia, quando o Sol aquece o mundo, E os entes se propagam, nascem, crescem; De noite quando os astros resplandecem N'aquellas solidões d'um mar sem fundo:

Se á tua sombra estou, sinto n'esta alma Cair da doce côr que o Sol te veste, Da paz que tens, o balsamo celeste Que em meu peito as paixões serena e acalma!...

Ou quando o vento chega, e eu não sei d'onde... E passa sobre ti, murmura e canta, E eu olho e nada vejo, e a fé mais santa Me leva a crer no Deus que o mundo esconde;

Ou quando á noite, n'um propicio agouro, As estrellas dos ceus que mais fulguram Das pontas dos teus ramos se penduram Como ideias de Deus em fructos d'ouro:

Amo-te muito e muito, e não me admira, Quando tu á minha alma um Deus revellas E lhe mandas um hymno em que as estrellas São as notas, e a tua coma a lyra!...

Oh arvore! no amor que a Ti me prende, Confesso ao mundo haver bem mais lucrado, Que em muito livro d'ouro encardenado, Que ahi se espalha e muita gente aprende!...

Se eu vira, como os fructos dos teus ramos, D'entro d'esta alma abrir-se a flôr da ideia Á luz deste ideal que em nós se ateia Para que nós do mal ao bem subamos;

Se ás novas gerações, no meu psalterio, Cantar podesse a nova luz que assoma, Como os orgãos da tua verde coma Lançando a vóz de Deus no espaço ethereo;

Se eu fora como tu viver piedoso, E a qualquer desgraçado e pobre amigo Offerecer no meu seio o mesmo abrigo, Que estende sobre o ninho o ramo umbroso;

Se eu conseguisse, emfim, levar meu dias, Perante o mal que sempre me acompanha, Como a arvore sonora da montanha, Que descanta ao soprar das ventanias:

Só assim chegaria um dia a ser O espirito sereno, sabio e justo, A que deve aspirar, a todo o custo, O Senhor da Rasão, que pensa e quer!

Bussaco, 1869.

VIII

Á TERRA

Oh Terra, Virgem mãe da Humanidade, Pelos fructos que dás eu te bemdigo! Cheia de graça e cheia de bondade, O espirito de Deus seja comtigo!

Tu que és do Sol a esposa immaculada, Que entre perfumes, canticos e flôres, Passas no azul dos ceus, virgem coroada Com o candido mimbo dos amores:

Como escuta piedosa a mãe seu filho, E d'elle acceita o mais pequeno objecto, Ouve a harpa d'esta alma onde dedilho Por ti um canto d'entranhado affecto!

Um canto aonde a propria naturesa, Em cujo seio o astro meu se inspira, Reflecte o seu conjuncto de belleza, Unindo a eterna vóz á vóz da lyra!

O mar que te circunda a fronte bella, Que espelha ao longe a luz que o Sol t'envia; Te muda a negra crosta em linda estrella, E dá-te um canto cheio de harmonia;

E o subtil pingo d'agua onde escondes-te D'inquietos vibriões um mar profundo, Tão vasto como a abbobada celeste, Contendo a tantos como os soes do mundo;

A arvore a prumo erguida ao firmamento, Posta por Deus na paz a mais completa, Quando, ao passar-lhe o espirito do vento, Descanta como a harpa d'um propheta:

E a semente da flôr, qual grão d'areia, Que, inerte, fria, escura e pequenina, Contém as pompas da divina ideia: O lyrio branco ou a rosa purpurina;

O leão, implacavel creatura, Quando a victima arrasta inda arquejante Tinto de sangue, offerta-a com ternura Á leôa parida, sua amante:

E a indefeza timida ovelhinha, Entre as flôres gentis do verde prado. Meiga balando á mãe que se avesinha, Por dar-lhe o leite doce e perfumado;

A aguia quando solta a envergadura Das largas azas pelo azul do espaço, E, em marcha triumphal, a enorme altura Passa nos céus sem lucta, e sem cançaço;

E a crysalida que abre á luz do dia Do involucro o sedifero thesouro, E, nos enlevos d'intima alegria, Expande á luz do Sol as azas d'ouro:

Quanto, emfim, é teu filho a mim me pede, Que em nome d'elles eu te louve e cante, Suppondo achar n'esta alma o centro, a séde, O altar, de quanto o Sol lhe põe diante!...

Oh minha mãe! a magua me entristece De que Deus, cujas dadivas divide Por tanta gente, a mim me não cedesse Para cantar-te a harpa de David!...

Dos proprios paes e estranhos mal tratado, Fui pôr-me á tua sombra hospitaleira, E em teu seio de mãe abençoado Achei d'esta alma a patria verdadeira!

Não sei como surgio o homem na terra!... Não sei onde os meus sonhos se dirigem...; Mas quanto bello e bom minha alma encerra, Em ti encontra a perenal origem!...

Quer sobre os cumes dos altivos montes, Quer á sombra dos vales verdejantes; Quer ouça a meiga vóz das claras fontes, Quer as furias das ondas espumantes:

Por onde quer que eu vá, minha alma sente Cercal'a tão solicito cuidado, Que quanto me concebe um dia a mente, Encontra sempre em ti o objecto amado!...

Por isso, embora eu viva como o paria Junto ás margens do Ganges crystalino, Levando vida incerta, rude e varia, Entre os baldões d'um impobro destino:

Vivo entre flôres, musicas e festas, Tendo por luz suprema o pensamento; Por palacios as múrmuras florestas, E alampadas os soes no firmamento!

Por orchestras as musicas plangentes Que geme ao longe o mar no captiveiro, Com os concertos das aves innocentes, E os murmurios do limpido ribeiro!

De manhã, com os crystaes do fresco orvalho, Fulgentes scintiliando á luz do dia, Pisam meus pés, riquissimo trabalho, Tapetes de preciosa pedraria!

Á tarde, quando o sol deixa as alturas, Qual Vinci, Miguel Angelo ou Ticiano, Pões-me nos ceus esplendidas figuras, Como eguaes as não tem o Vaticano!...

Á hora em que é dado o somno acoite Em doce paz meu corpo fatigado, Desdobras-me sobre elle o veu da noite, De fulgidos brilhantes recamado!...

E quando, emfim, entrar na noite fria Do tumulo, onde nada se condemna, Do meu cadaver tirarás um dia O branco lyrio e a pudica açucena!...

Taes os bens que offertas-te ás almas ternas, Simples, crentes em Deus, ideal fecundo...! E dás-lhes n'estas coisas sãs e eternas Bem mais riquezas do que aos reis do mundo!...

E assim vaes entre os soes deixando o aroma Dos ineffaveis dons da Providencia, Como exhala riquissima redoma Em dourado salão a fina essencia!...

Oh Terra, Virgem mãe da Humanidade, Pelos fructos que dás eu te bemdigo! Cheia de graça, e cheia de bondade, O espirito de Deus seja comtigo!

Carvalhaes, 1870.

IX

AOS ASTROS!

Quando ergo á noite os olhos scismadores Á cupula do ceu, cheia de mundos, E perco-me nos páramos profundos D'um mar sem fim de tremulos fulgores:

O ceu, qual templo levantado á Vida, Armado de riquissimo thesouro, De par em par descerra as portas d'ouro, E attrae a si minha alma embevecida!...

Chovem-me então das cellicas alturas, Das luminosas, candidas estrellas, Visões sublimes, ideaes e bellas Da Causa que deu o ser ás creaturas!...

Amor as fez, Amor no espaço as guia!... E é sob o influxo d'esta Lei Suprema, Que cada qual realisa o seu problema, Preso ao das mais em intima harmonia!...

Sim, cada estrella, vêmol'o sem custo, Sendo dos ceus bellissimo ornamento, É um centro de vida e movimento Posto ao serviço d'um principio justo!...

Por todo o ethereo azul da immensidade, Dos soes sem fim a fulgida colmeia, Trabalha em traduzir, na humana ideia, De Deus a perfeição, toda bondade!...

Oh cupula celeste, no teu seio Aprendo a ler em paginas de fogo O espirito das coisas que interrogo Por toda a parte, e em cuja essencia creio!...

Tu, co'o teu docel azul sem fundo, Cheio de fogos d'alma claridade, Em multipla e febril actividade; Sorris-me como a fabrica do mundo;

O vasto pavilhão onde é servida Em mesas d'ouro, festivaes e bellas, N'esses milhões de esplendidas estrellas, A eterna comunhão dos Bens da Vida!...

Permitte, pois, que em sã fraternidade, Reunindo os habitantes d'esta esphera Aos que ha em ti, minha alma, sã e austera, Saúde a mãe commum==a Humanidade==;

E adore, á luz dos fachos sempre novos, Do teu santuario, o espirito fecundo De Deus, Supremo Bem, que ampara o mundo, Inspira as almas e dirige os Povos!...

E emquanto a vida vae em seu caminho, Por entre o dia claro e a noite escura, Conserva intacta esta alma crente e pura, Porque possa voltar ao patrio ninho!...

Á luz da minha critica profana, A Lei Suprema, que de Deus deriva, Eleva aos soes, em marcha progressiva, De virtude em virtude a alma humana!...

Se duvidas tivesse, a fé e a esperança Levavam em contrario a vida minha, E a bussola, que ignora onde caminha, Segue o seu norte e d'elle emfim descança!...

Astros sem fim, oh soes que estaes por cima, Longe da Terra, em região mais pura! Deixae que o corpo desça á sepultura E a vós se eleve o espirito que o anima!

O irmão da Luz, o amante da Verdade, Hade ir, deixando o envolucro que veste Como hospede da abbobada celeste, Internar-se feliz na immensidade!...

Astros! egual é a lei que nos governa! Na Terra, o nosso espirito fecundo Penetra nos reconditos do mundo, E vive como vós a Vida Eterna!

Beselga, 1872.