XIV
É por isso que, entre os grandes genios, fadados para ousados commettimentos, entre os ministros energicos em emprehender e vigorosos em executar, não ha nenhum que se lhe avantaje, nenhum que, em menos tempo, mais se distinguisse, maiores benefícios prodigalisasse ao povo e mais gloria alcançasse ao rei:
—Restaurou a disciplina militar.
—Fortificou as praças d'armas.
—Renovou a marinha.
—Reanimou a agricultura.
—Restaurou e desenvolveu as artes, de todo esquecidas, e vivificou o commercio moribundo.
—Restabeleceu e firmou o credito publico, e organisou as finanças.
—Reformou e ampliou os estudos superiores, segundo os progressos litterarios e scientificos do seculo.
—Abriu as portas da instrucção popular, fechadas pelo jesuitismo, áquelles que durante seculos haviam sido condemnados ás trevas da ignorancia e da superstição.{25}
—Instituiu mais de oitocentas escholas gratuitas para o ensino primario.
—Creou e dotou collegios, escholas secundarias e professionaes para a navegação, commercio e outras industrias.
—Diminuiu as prerogativas, cerceou os privilegios e abateu o orgulho da nobreza.
—Tentou apagar odios de raças e extinguir luctas de crenças religiosas.
—Abriu caminho amplo á confusão das classes e á egualdade perante a lei.
—Tornou livres os indigenas do Brazil, e levantou barreiras ao trafico infame e degradante da escravatura.
—Reprimiu as despoticas exigencias e a preponderancia orgulhosa da insaciavel Inglaterra.
—Frustrou os planos ambiciosos da Hespanha.
—Celebrou tractados politicos e commerciaes com muitas nações da Europa, e com outras o pacto da nossa independencia e dignidade nacional.
—Fundou e organisou companhias de commercio e industria, para reanimar as nossas colonias, ou de todo abandonadas, ou preza da cubiça de estranhos especuladores.
—Restringiu o tremendo poder da inquisição, e proscreveu os autos de fé.
—Dobrou e venceu a preponderancia pontificia,{26} e refreou, por vezes, a cholera do Vaticano, apontando ao Papa quaes os limites onde devia expirar o seu poder temporal e politico.............
—Substituiu á auctoridade dos jurisconsultos romanos e ás argucias e sophysmas dos glossadores, que mantinham agrilhoadas as leis e a jurisprudencia ao imperio absoluto d'uma sciencia convencional, curvada sob o peso de muitos seculos e já decrepita—a auctoridade da Razão, esse poder soberano, capaz de descubrir a verdade; alargando assim o campo de exploração a um dos maiores genios do seculo—Paschoal José de Mello Freire, o sabio jurisconsulto portuguez, que por si só egualou, se não é que excedeu, ao mesmo tempo Montesquieu e Beccaria.
—Vendo que as artes e as sciencias floresciam na Inglaterra e por quasi toda a Allemanha, para logo viu tambem a necessidade de operar uma revolução completa no mundo scientifico, litterario e artistico; e foi ella tão profunda e salutar, que, no dizer de Almeida Garrett «tudo mudou de face; cahiu o collosso jesuitico, o reino de Aristoteles e a barbaridade Thomistica, para lhe succeder Milton, Baccon, Descartes, Newton, Lineu e outros.»
É que o reflexo d'uma nova luz brilhava do lado do septemptrião, para inundar com o seu esplendor a nós «os meridionaes, que estudavamos as cathegorias{27} e as summas, aguçavamos distincções, alambicavamos conceitos, retorciamos a phrase no discurso e torciamos a razão no pensamento» nada produzindo de bom e util ao progresso da humanidade.
A reforma da universidade produziu: José Anastacio da Cunha, Avelar Brotero, Monteiro da Rocha, Mello Freire e muitas outras illustrações, que, exterminando a barbaridade, haviam de produzir a civilisação, e, fundando a republica das letras, pela soberania da razão, unica verdadeira e legitima, abater se não destruir o imperio absoluto d'uma auctoridade prepotente, acoitada sob a roupeta jesuitica e intrincheirada por detrás do volumoso, mas indigesto, corpus juris romanorum, das leis canonicas e dos mil in folio dos glossadores e reinicolas.
E a universidade de Coimbra começou de ser mais uma prova eloquente, não só da influencia, mas tambem da fecunda iniciativa, que as universidades desenvolveram sempre em preparar e promover as revoluções do progresso pela liberdade.
Bem sabia elle, porque a reflexão e a experiencia poucas vezes deixam illudir os homens de genio, que á republica das letras, á emancipação da intelligencia devia succeder—a democracia politica e a liberdade para o povo.
Foi tambem em virtude d'esta lei que á reforma religiosa do seculo XVI succedeu—a revolução social{28} de 1688 em Inglaterra; e á revolução litteraria e scientifica das idéas no seculo XVIII—a revolução politica de 1789 em França.
—Ordenou que as execuções por dividas parassem deante das portas das cadeias, que até 1774 em Portugal, até 1867 em França, se abriam como ainda hoje em Inglaterra para sequestrar a liberdade d'aquelles, que muitas vezes não tinham outro crime alem da pobreza, outro peccado alem da miseria!
E quando ainda hontem a imprensa liberal de todos os paizes saudava, em nome do progresso, e applaudia, como gloriosa e civilisadora, a abolição de tão odiosa pena, havemos de ficar silenciosos ante a memoria do Marquez de Pombal, que a eliminou, um seculo primeiro, em nome da humanidade?!
Finalmente, o Marquez de Pombal, usando da oppressão e da tyrannia, empregando o terror e o despotismo, mirava á grande transformação social, que em França se operou depois; preparava, pacifica e diplomaticamente, o que ella só pôde alcançar por meio de uma conflagração geral, e entregando-se louca e desvairada a todos os excessos, a todos os horrores da guerra civil, á guilhotina e ás barricadas, com que immolava os seus proprios filhos e assolava as cidades, as villas e os campos, ensanguentados pelos combates fratricidas ou entregues á voracidode das chammas, á pilhagem e á carnificina!...{29}