XV
Não recuou o Marquez de Pombal, porque o julgou necessario e de maravilhoso effeito para libertar o povo, deante do cadafalso, levantado para rolarem algumas cabeças nobres.
Não tremeu o Marquez de Pombal, quando lavrou o decreto que expulsava os jesuitas; pois com tão rasgada medida não só beneficiou Portugal, mas a Europa inteira e o Novo Mundo; com este acto de sabia politica quebrava as cadeias, com que os padres da companhia amarravam as consciencias ao poste d'uma fé convencional; limpava o corpo social da lepra da superstição e do fanatismo, que rapidamente se propagava e desinvolvia, por toda a parte, aonde penetrava o morbido contagio da roupeta dos máos e falsos companheiros de Jesus!
Para alguns são estes dous factos dous grandes e execrandos crimes; para outros duas louvaveis virtudes; para nós—dura necessidade, consequencia forçada na realisação de um plano salutar e benefico.
A nobreza e o jesuitismo eram, naquella epocha,{30} os obstaculos gigantes, que se oppunham ao estabelecimento da liberdade.
A nobreza e o jesuitismo, desherdando, espoliando o povo de tudo o que podia tornal-o livre e independente, disputando o poder, a influencia e a preponderancia monarchica, eram estorvo invencivel ao systema representativo, á adopção e reconhecimento legal das garantias constitucionaes e das prerogativas da corôa, que a philosophia politica de seculo, as necessidades do tempo e o exemplo da Inglaterra instantemente reclamavam, cujo disco luminoso começava já a brilhar nos horisontes do futuro em muitos estados da Europa, cuja triangulação havia sido habilmente traçada sobre—a inviolabilidade do rei—a responsabilidade do ministro e a soberania, do povo.