XXVIII

Era forçoso, em tão arriscado e perigosissimo lance, em circumstancias tão anormaes, oppôr á tyrannia de alguns a tyrannia de um só, ao despotismo de{46} muitos o despotismo em nome do rei; de outra sorte não conseguiria desarmar as ciladas, desfazer as intrigas, cortar os tramas, frustrar manejos, surprehender conspirações, que tudo e por toda a parte a nobreza e o jesuitismo estendiam e machinavam ao rei, ao seu ministro e ao povo, que, ligando-se por um pacto inviolavel, não tardariam a destruir-lhes a insolente preponderancia, a extinguir-lhes os privilegios, a supprimir-lhes as regalias, a alevantar-lhes os foros, a picar-lhes os brazões, em uma palavra a dobrar-lhes as orgulhosas servis sob o jugo inflexivel da—egualdade perante a lei.

Se o Marquez de Pombal não fosse victima de falsas accusações e vis intrigas, se se conservasse mais algum tempo á testa dos negocios publicos investido do supremo governo da nação, se houvesse gozado juncto do throno de D. Maria da mesma confiança, apoio e favor, que alcançara perante D. José, a constituição teria apparecido primeiro em Portugal do que em França, em Hespanha e em outros paizes, e o systema representativo seria proclamado entre nós, pelo menos, ao mesmo tempo.

É esta uma verdade, que immediatamente deriva dos factos, e que difficilmente poderá escurecer-se.

O despotismo, a tyrannia de que se argúe Pombal, era imposta pelas necessidades, como o unico meio de chegar á liberdade.{47}

Não ignorava por certo este grande homem—que a liberdade e a tolerancia só com a liberdade e com a tolerancia podem solidamente fundar-se no seio de uma nação.

Bem sabia elle—que os partidarios da liberdade e da tolerancia devem deixar o emprego da força aos partidarios da força e da intolerancia.

Mas este conselho evangelico, que só hoje começa a converter-se em preceito obrigatorio, este grande principio theorico, era naquella epocha, attentas as circumstancias, de impossivel applicação na pratica.

O que no seculo XIX em 1868 não pôde realisar a Hespanha, era nos fins do seculo XVIII uma utopia impraticavel em Inglatarra, em França, e muito mais em Portugal.

Os designios do grande estadista e as suas vistas eram patrioticas; o seu ideal a emancipação politica, religiosa, moral e economica do povo, que elle conhecia—grande, opulento e soberano na historia,—pequeno, pobre e escravo no presente; o mobil que o determinava o amor da liberdade.

Sebastião José de Carvalho mostrava em muitos dos seus actos ser no interior da sua alma, no intimo da sua consciencia, pela razão e pelo sentimento, um dos maiores e mais enthusiasticos liberaes do seculo XVIII.

Se não pôde ver executado o seu plano e levar{48} ao cabo tão gloriosa empresa, arremessando para longe a mascara do despotismo, foi porque o não deixaram; foi ainda a reacção, que lh'o impediu, a injustiça que lh'o estorvou.

Despojado do poder, privado da acção governativa, condemnado ao ostracismo politico, exilado para longe da côrte, afastado dos negocios publicos, viu mallograda a sua obra; não lhe embaciaram porem a gloria, não lhe quebraram os brazões, e, o que é de maior valia, não lhe extinguiram a gratidão no coração dos povos; e se ao tumulo baixam esperanças, devia acompanhal-o a lembrança de que um dia as suas ideias haviam de ser realisadas, os seus principios triumphar, e o plano, que lhe absorvera a existencia inteira, posto em plena execução, o seu nome exaltado, a sua reputação glorificada e os seus inimigos, os inimigos do povo e da liberdade, confundidos.

Se ao Marquez de Pombal não permittiu Deos continuar a obra do constitucionalismo, cabe-lhe todavia a bem-merecida gloria de preparar o paiz e os povos para a proclamarem trinta annos depois da sua morte.{49}