XXIX

Á transformação, que Portugal experimentou pela acção previdente e reformadora do grande ministro, aos elementos de força e prosperidade, que não só indicou, mas com que legalmente dotou a patria, ás instituições politicas e economicas, e aos germens de educação popular, que semeou, devemos em grande parte os beneficios, que com razão se attribuem á revolução liberal.

Sem o genio fecundo, sem a intelligencia vasta e a dedicação inexcedivel de Sebastião de José Carvalho, seria Portugal conquista partilhada entre a França e a Hespanha, ou nação livre e independente?

No estado de desorganisação politica, de desordem moral e economica, de miseria e degradação, a que Portugal tinha chegado antes da sua administração, seria possivel o triumpho glorioso do partido liberal em 1820?

Cremos firmemente que não: assim nol-o dizem a razão e a consciencia, firmadas na historia e esclarecidas pela philosophia dos factos.

É por isso que entre as causas remotas, mas essencialmente{50} determinativas, da transformação liberal, que depois se operou, devemos considerar, como uma das mais importantes e efficazes, o governo forte e energico, a administração sabia e illustrada, a politica severa e, por vezes, intolerante do Marquez de Pombal.

Abone a historia imparcial a verdade que o paradoxo esconde.

Que importa a expulsão dos jesuitas?

Era uma necessidade para o estabelecimento da liberdade politica e da tolerancia religiosa, que o Marquez de Pombal amava, queria fundar, e que elles detestavam.

Que importa que do alto do cadafalso rolassem as cabeças de alguns nobres, que, ociosos e embriagados no mais escandaloso luxo, conspiravam contra o rei, odiavam as reformas do ministro, queriam privilegios e prerogativas injustificaveis, opprimiam e vexavam o povo, nada fazendo em beneficio da patria; e, de mãos dadas com os inquisidores, discipulos de Loyola, dedicados familiares do sancto officio, procuravam a morte do rei, a queda do ministro e a ruina da nação?!{51}