XXX

O Marquez de Pombal obstou por uma sabia politica—ao despotismo do rei, á oligarchia dos nobres, á theocracia dos jesuitas, á miseria e á degradação do povo.

«Foi, como se exprimem alguns, odiado dos nobres pelo seu nascimento e pelo seu liberalismo; dos inquisidores pela sua tolerancia e moderada piedade; dos jesuitas pelo seu saber e perseverança; da populaça por sua severidade; dos inglezes pelos obstaculos que lhes oppoz, e com que abateu a sua omnipotencia commercial e politica.»

Os inimigos implacaveis do ministro só com a morte do rei poderam derribal-o, mas não perdel-o. Affastaram-n'o dos negocios publicos; mas nos dias do seu poder nem lhe torceram o animo nem lhe afrouxaram os esforços, que continuadamente empregou para o engrandecimento e regeneração da sua patria.

Interrogae a politica, a moral, a jurisprudencia, as finanças, a agricultura, o commercio, a industria, as artes, a navegação, a milicia, a instrucção publica, e até a propria religião; numa palavra, consultae{52} as leis, as instituições e os costumes, e por toda a parte encontrareis ainda hoje a sua acção benefica e reformadora.

A guerra implacavel, que então lhe fizeram os retrogrados e os absolutistas, os nobres e os jesuitas, a inquisição, a Hespanha e até a propria Inglaterra, é a mesma que a reacção machína e promove ainda hoje e tem promovido sempre contra os liberaes.

Se o Marquez de Pombal foi despota, se empregou o terror e a tyrannia, não lhe vinham d'alma taes excessos, nem lh'os inspirava o seu genio altivo e severo, mas liberal e bemfazejo; provocava-lh'os a reacção dos nobres e dos fanaticos, exigiam-lh'os as necessidades da patria e os velhos e inveterados prejuisos do passado.

Não foi para exaltar o despotismo, nem para lisonjear o monarcha, que, por amor do povo e para bem da nação, parecia adorar a realeza.

Não foi para satisfazer vaidosas ambições de quem nunca mostrara tel-as, que a memoria do augusto principe se gravou no bronze da estatua equestre, nem o monumento levantado para impôr ao povo a idolatria monarchica.{53}