*ODE*
Ao Senhor Manoel Maria Barbosa du Bocage.
Do boto engenho a sequidão, e a mingoa
Suppri, vós Amizade, e sentimento,
E a frase ingenua, a Candidez saudosa,
Tebêos thesouros valhão.
Tinta sempre de negro a Fantasia,
Em vão tactêa o viço dos Prazeres;
As sombras medrão, desaparece o esmalte
Dos Parnásidos sonhos.
Anciado o coração, palpita, e pede
Amenos quadros, que o vigor lhe abonem;
Mas, o seu oppressor, o Pensamento,
Se produz, produz lucto,
E como affugentar, banir-lhe as trévas
Se de hum, se de outro lado eu sinto, eu vejo
Duros arremessões, pendentes golpes
Do meu verdugo, o Fado.
Daqui me aponta a pálida Amizade,
O Amigo, o Vate, o Pensador, o Tudo
(Socio nas ditas, e nas mágoas socio)
Desviado, e penando.
Dalli me punge o indomito Destino:
Novo Tantalo eu sou! Vejo a Ventura,
Cresce o desejo, esfórços se redobrão,
Mas não posso abrangella.
Impertinentes, faceis Conselheiros,
Sizudo Aristocrata me pertendem
Systema, e Genio me prohidem; soffro
Affanoso contraste.
Nos grilhões de hum dever, que me flagélla,
Nem do meu coração disponho livre!
Quantas vezes me vês, Amor, oh quantas!
Cobiçar-te, e fugir-te
Na varia compressão, no cerco infando
De Pezar, e Pezar conheço o pouco,
Que resiste a Razão, e quanto, e quanto
Filosofia he futil!
A Sensassão dispotica ensurdece
Da sã Prudencia ao madurado Aviso,
E contra a innata propensão dos Entes
Politica o que avulta?
Mente quem me disser, que em homens cabe
Não gemer, se Afflicção irrita, e lacera:
Não mais póde o Atilado, o Sapiente,
Que evitar-se ao naufragio.
Eu, que desde a bemvinda Primavera,
Em que a Luz da Razão dourou meu clima,
Tive sempre comigo, e meus Destinos
Atinada pelêja.
Votado desde então a Amor, e ás Musas,
Filosofo, os espinhos acamando,
Horas tenho, assim mesmo, em que a meus olhos
A existencia negreja.
Ditoso tempo aquelle, Elmano, o caro,
Que em amiga união (volvendo a teia
Do Porvir, do passado, e do presente,)
Nos davamos constancia!
Então (oh! tempos, que valeis saudades)
Amizade interesses enlaçando,
Delicias extrahia ás mãos da sorte,
Que trovejava inutil.
Então as Nynfas do Pierio esquivo,
Com teus Olympios sons extasiadas,
Folgavão de me ver medrado Alumno,
Rastear-te, e com gloria.
Ah! bem que nos separa occulta força,
Inda te segue o socio Pensamento:[1]
Se Poder, e Vontade condissessem,
Moniz fôra comtigo.
Menos agros talvez teus dias forão,
E os turvos dias meus, que enlutão mágoas,
Com doce languidez amenizára
O Prazer fugidio.
Matiz equivalente a Paraisos,
Variado entre Amor, entre Amizade,
Me enchera o vácuo da existencia ensôssa,
Que se definha inerte.
Eu amo, eu sou amado, eu lucro, eu gózo;
Mas, aí! que a hum dia de prazer succedem
Dias, e dias de Afflicção teimosa,
Que o coração me azédão.
Amas, como eu tambem, tambem amado,
Mas avesso Poder te engelha os fructos,
Que já colheste em tempos fortunosos
De perpétua lembrança!
Cumpria, que a Amizade suppridora
Instantes affagasse amargurados,
Mesmo d'entre os negrumes do Destino
Tirasse hum riso a furto.
Infelizes de nós, se não restasse
No fundo d'alma, de sofrer cansada,
Divino não sei que, que aos males todos
Nos torna sobranceiros.
Eia, pois ao porvir se appelle, Elmano,
Fonte de gostos, ideaes amenos,
O Fôlego alargando ao soffrimento,
Leda Esperança ondêa.
Ella espinhos crueis em flores torna,
Sustenta o fio, e dá sabor á vida;
Retem suicidas mãos, angustias doura,[2]
Deve ser nosso Numen.
Se dize com Ovidio: "Eu perdi forças,[3]
Perdi côr, e mal cobre a pelle o osso,"
Tambem com elle eu digo: "Immensos males[4]
A velhice me avanção."
A Aurora do Prazer talvez que enflore,
Ermo invernoso da existencia nossa,
Á Fama vividoura, assombros novos
Na Lyra então daremos.
Por Nuno Alvares Pereira Moniz.
[1] Affectus que animi, qui fuit ante manet.
Ovid. Trist. lib. 5. Eleg. 2.
[2] Me quoque conantem gladio finire dolorem,
Arguit, injectas continuit que manus.
Ovid. de Pont. lib. I. Eleg. 6.
[3] Nam neque sunt vires, nec qui color ante solebat,
Vixque habeo tenuem, quae tegat ossa, cutem.
Ovid. Tris. lib. 4. Eleg. 6.
[4] _Me quaque debilisat series immensa laborum,
Ante meum tempus, cogor et esse senex.
Ovid. de Pont.
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Carminibus quaero miserarum oblivia rerum. Ovid.