*ODE*
Ao Senhor Nuno Alvares Pereira Moniz
Já meu estro, Moniz, apenas sólta
Desmaiadas faiscas;
Em que as frôxas idéas mas se aquecem;
Elmano do que ha sido
Qual no gésto desdiz, desdiz na mente;
Diástole tardia
Já da fonte vital me esparge a custo
O licor circulante,
Que he rosa entre os jasmins de virgem Face,
Que outr'ora esperto, accezo
De santa Agitação, de Ardor sagrado,
No cérebro em tumulto
(Estancia então de hum Deos!) me borbolhava.
Respiração Divina,
Enthusiasmo augusto, alma do Vate!
Que rápidos portentos,
Portentos em tropel, não déste á Fama,
Não déste á Natureza,
Á Patria, ao Mundo, a Amor na voz de Elmano!
Ora, aplanando os sulcos,
Com que a Saturnia mão semblantes lavra,
A Razão pensadora
Erguia aos graves sons o grave aspecto:
Ora ao ver-se anteposto
Por deleitosa insânia, a Ella, a Tudo,
O grato, Cyprio Nume,
Fadava docemente o doce canto
No Coração de Anália.
Oh extase! oh relampagos da Gloria!
Faustos momentos de ouro,
Com que meu gráo comprei na Eternidade!
Do Tempo meu voando,
Do Tempo que anuvião negros Males,
Brilhais inda em minha alma,
Entre sombrias, áridas Idéas,
Qual entre Aves escuras,
(Orgãos do Agouro, Interpretes da Morte)
Requebros annulando,
Das Aves de Cithéra o coro alveja…!
Mas ah, saudosos Dias,
Vós sois memoria só, não sois influxo!
Não me reluz comvosco
O Espirito, abysmado em funda trévas,
Com gasto, debil fio
Prêzo á Materia vil, que rálão Dores!
Ante meus olhos tristes,
(Que já d'amiga luz se despedírão)
Sahe de eterna Voragem
Vapor funéreo, que exhalais, oh Fados!
Eis meu termo negreja,
Eis no Marco fatal meu fim terreno!…
Mas surgirei nos Astros
Para nunca morrer: com riso impune
Lá zombarei da sorte.
Moniz! oh puro Amigo: oh Socio! oh Parte
Do já ditoso Elmano!
Ás Musas, como a mim, suave, e caro!
De lagrimas, e flores
Honra-me a cinza, o túmulo me adorna,
Não só longa Amizade,
Novo Sacro Dever te exige extremos:
Da Lyra minha herdeiro
Menu Nume Fébo, e teu te constitue;
Fébo apôs mim te augura
Vasto renome, que sobeje[1] aos Evos:
(He dos Annos vantagem,
Não vantagem do Engenho a precedencia)
Teu metro magestoso,
Que já, todo fulgor, zoilos deslumbra,
Teu metro scintilante,
Das virtudes mimoso, acceito ás Graças,
Turvem saudades: canta
Alguma vez de Elmano, e chora-o sempre,
E Amor, e Anália o chorem:
Amor, e Anália, meus piedosos Numes.
Sem, por mim suspirem.
Bocage
[1] Em Lucena, e em outros Quinhentistas de summo apreço, vem sobejar por exceder.
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Por largo campo, indómito, e fremente,
Corre o Nilo espumoso:
Feroz alaga a rápida corrente
O Egypto fabuloso:
Mas se na grã carreira, ás ondas grato,
Tributo de caudaes rios acceita,
Soberbo não regeita
Pobre feudo de incógnito regato.
Diniz. Ode I.
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