I
Fatal meditação da Eternidade,
Dos vivos illusão, vida dos mortos;
Ou gloria para sempre, ou sempre inferno;
De desordens, de crimes oppressora,
Não forjada por despotas, por bonzos,
Mas sim por divinal credulidade;
Dogma infallivel, que o prazer arreigas
Quando a sizania c'o remorso arrancas;
Dogma infallivel, favoravel crença,
Digno premio de peitos innocentes,
Das delicias gosando, que mal fingem
Impavidos á furia Centimanos,
Que vomitando estão perpetua chamma;
Superiores motejam seu engano
No limiar das Parcas, eis o quadro
Que observa em vivas côres a ignorancia,
Egualmente a sciencia em vivas côres;
Inda que eu por sciente só conheço
A quem teme os castigos no ameaço,
A quem teme tornar um páe tyranno,
A quem lamenta inuteis suas preces,
Por mais que em giro ao throno elle as espalhe.
Teme o sabio que um Deus irado o fira,
E penitente vae, supplíca a venia
Ao dispenseiro seu, nobre, e sagrado.
Que ora as graças lhe abre, ora as ferrolha;
As graças, que co'as leis da natureza
Se ligam sempre, eternas, necessarias,
E só quando a vontade as torna em crimes
Cruel desunião n'ellas fomenta;
Por vêl-a rebellada lhe fulmina
Prisões suaves no jejum, cilicio,
Que n'um geral conselho só lhe arbitra;
Humilde, pode resarcir-se a benção;
Suberba, porque quer desenfadar-se
No jugo, que remata nas delicias,
Recáe n'outro maior, que a morte vende.