II

Em vão prégador rançoso
Lá do pulpito vozêa,
Quando a triste imagem fêa
Traça do inferno horroroso:
É systema fabuloso,
Que á razão embota o gume;
Não, não ha Tartareo lume,
Que devore a humanidade:
Sabeis vós o que é verdade?
O inferno do Ciume.


Venha cá, sô Boticario

Venha cá, sô Boticario,
Vossê sabe em que se mette,
De tão rafado cadete
Sendo terceiro, está vario?
Advirta que é necessario
Reportar acções insanas;
Estude em fazer tisanas,
Algum purgante ligeiro,
Mas não seja alcoviteiro
Muito menos de sacanas.


P'ra que viva a cosinheira

P'ra que viva a cosinheira,
Que tão boas papas fez!
Confesso por esta vez
Que bem me sabe, e me cheira:
O Papa em sua cadeira
Vestido de estola e capa,
Não faz cousa tão guapa:
A cosinheira faz mais;
O Papa faz Cardeaes,
A cosinheira faz papas.


[Dialogo entre o Poeta, e o Tejo.]

Poeta.

Tejo, que tens, estás quedo?
Não banhas hoje esta praia?
De que o teu valor desmaia?

Tejo.

Eu t'o digo, mas segredo:
Confesso que tenho medo
Do teu ranchinho infernal.

Poeta.

O teu susto é natural,
Parecem tres furiasinhas;
Mas comtudo são mansinhas,
Não mordem, nem fazem mal.


São uns cornos mui bem feitos

São uns cornos mui bem feitos,
Uns cornos mui delicados,
São cornos, que torneados
Se podem trazer aos peitos:
Cornos que sobem direitos,
Pela sua varonia,
E sem mais chronologia
Tem gravados na armadura
Os timbres da fidalguia.


[IMPROVISO.]

Á meia noute
Saíu de um cano
Cheio de merda
Crispiniano.

Eis que da ronda
Tropel insano
Divisa ao longe
Crispiniano.

Capuz o cobre;
«És franciscano?»
— Sou (lhe responde)
«Crispiniano.»

Chega o Alcaide,
Dá-lhe um abano;
Sáe da gravata
Crispiniano..


[ELEGIA.
Á MORTE DE UMA FAMOSA ALCOVITEIRA.]

Genio só dado a sordidas torpezas,
Que usas comprar na immunda Cotovia
Chochos agrados de venaes bellezas:
Solto o cabello, as carnes arripia
Na morte d'esta illustre recoveira,
E inspira-me tristissima elegia.
Honrada, e a mais sabida alcoviteira,
A ti consagro este cypreste umbroso,
Com que te enramo a esqualida caveira;
Em quanto pelo rio pantanoso
A ouvir te leva o pallido Charonte
Severas leis de Minos rigoroso.
Alçando para o ar a crespa fronte
Os ouvidos estende ás vozes minhas,
Quando no mundo os teus louvores conte.
Vós, moças do Bairro-Alto e Fontainhas,
Vós testemunhas sois da grande falta
Que chorando contais entre as visinhas.
Ai! Que ha de ser de vós, gente de malta!
Eu vejo em vossas faces o desgosto,
E a dor, que os corações vos sobresalta!
Morreu a vossa mãe, o vosso encosto,
Que vos ganhava o pão honradamente,
Inda que com suor do vosso rosto!
Não mais vereis entre a mundana gente
D'aquella honrada bôca o grato riso,
Que descubria um solitario dente!
Morreu a discrição, foi-se o juizo,
Vós o sabeis: melhor que esta viuva
Ninguem fez um recado de improviso.
Embrulhada na capa ao vento, á chuva,
Ella comprar-vos ia caridosa
As ginjas, os melões, a pêra, a uva:
Vendo qualquer de vós triste e chorosa,
Ella desassocega, ella trabalha
Por livrar-vos da pena lamentosa:
Conhecia os tafues já pela malha,
Ella vos apartava dos sovinas,
Para aquelles que dão maior medalha:
Chupista de dinheiro e de tolinas,
Por todas repartindo esta pendanga,
Ella era o vosso bem, e as vossas minas.
C'os homens depravados tinha zanga,
Gostava da modestia, e da virtude
Dos que dão a beijar cordão e manga.
Se a mandavam beber, era um almude,
E ás vezes não parava até que a bôca
Se lhe punha mais grossa do que grude.
A que a buscava, e que não era louca,
A recolhia em casa, e pela mamma
Apenas lhe levava cousa pouca.
Sempre de todas dava boa fama,
De freguezes lhe armava quantidade,
Té as pôr sobre si com casa e cama.
Nos ganhos não levou nunca metade;
Qualquer cousa aceitava, porque pensa
Que o mais era faltar á charidade.
Dotada foi de charidade immensa;
Sempre ao lado se achou da sua amiga
No tempo da saude, e da doença.
Aquella moça gordalhuda o diga;
Ella pode pintar mais vivos quadros
D'esta estimavel, d'esta amante liga.
No tempo em que ella andou vagando os adros
Mil vezes lhe curou c'os seus inventos
Crueis camadas de piolhos ladros.
Ella mesma c'os dedos fedorentos
Cheia de amor, de charidade cheia,
Lhe ministrava os fetidos unguentos.
Á frouxa luz da tremula candêa,
Que tem no chammejar seus intervalos,
As chagas cura, a porquidade aceia:
De alvissima pomada untando os callos,
As partes amacîa, que mordêra
O dente de ardentissimos cavallos.
Jámais no seu trajar luxo tivera,
Nem na sua cabeça houve polvilhos,
Depois que seu marido lhe morrêra.
Foi a primeira em dar ensino aos filhos;
Procurai este trilho verdadeiro
Vós, oh paes, que seguis diff'rentes trilhos.
Uma filha, que Deus lhe deu primeiro,
Arrimada a deixou com loja aberta;
Teve um filho, que foi alcoviteiro.
Eia, paes de familias, olho álerta;
Se quereis vossos filhos empregados,
Tendes seculo bom, e é móca certa.
Dispoz da sua terça, que tirados
Os gastos funeraes, que lhe fariam
Os devotos irmãos, gatos-pingados,
Os seus testamenteiros comprariam
C'o resto uma barraca, em que decente
Uma casa d'alcouce erigiriam:
Que haveriam noviças e regente;
Proveu logo este cargo na Coveira,
Por ser mais respeitosa, e mais prudente:
A Santarena fica thesoureira;
Chamou para escrivan a Ignacia China,
Felicia de Chaté madre rodeira.
Ninguem melhor os seus vintens destina,
Porque para solteiras e casadas
Vejam que seminario de doctrina!
Entre as ultimas vozes já truncadas,
Chamando a filha com afago, e rogo
Ficaram entre os braços enlaçadas.
«A mecha (lhe diz ella) junto ao fogo
«É facil de pegar…» Ia adiante,
Porém não disse mais, que morreu logo.
De pallidez cobriu-se-lhe o semblante,
Ouviram-se ao redor gritos immensos
Da turba feminil, pouco constante.
Ternos suspiros pelos ares densos
Vão abraçar o seu cadaver frio,
Cobrem-se os olhos de engomados lenços.
Cortou a Parca d'esta vida o fio,
O esp'rito nú, da carne desatado,
Lá vai cruzando o lutulento rio.
Oh dia com razão amargurado!
Em quanto nos lembrar tão triste imagem,
Sempre serás dos bons tafues chorado.
Cobrir tu viste com pesada lagem
Aquella que nos fez o beneficio
De nos dar uma casa d'estalagem.
Ninguem soube melhor do seu officio;
Nem se achára tão destra alcoviteira
Sómente com trinta annos d'exercicio.
E vós, mulheres, que gostais d'asneira,
Honrai as suas cinzas, os seus ossos,
E respeitai-lhe a funebre caveira.
A morte dá nos velhos e nos moços;
Ninguem se escapa da carranca feia
Depois de preso em seus calabres grossos.
Conservai pois esta fatal idéa,
E rodeando o corpo desditoso,
Accendei cada qual uma candêa,
E fazei-lhe um sepulchro apparatoso.


[NOTAS.]

[Pag. 5] — A Ribeirada.

Este poema parece ter sido um dos primeiros ensaios da musa de Bocage. Inducções fundadas em boa razão nos levam a conjecturar que a composição d'elle data de tempos anteriores ao da partida do poeta para Gôa, isto é, do anno 1785. O transumpto pelo qual se fez a presente edição, é sem duvida preferivel por sua correcção ao de que se serviu quem ha já bastantes annos fez imprimir em Paris o referido poema, juntamente com outras poesias do mesmo genero em um folheto de oitavo grande. Posto que sobejem fundamentos para julgar reaes as personagens, e passados em verdade os factos, que despertaram a vêa satyrica do poeta, suscitando-lhe a idéa de tal composição, não é comtudo possivel entrar em algumas particularidades a esse respeito: e até julgâmos pouco provavel que, mesmo em Setubal, se conserva ainda a memoria das façanhas do azevichado heróe, que mereceu obter a immortalidade nos versos do Bardo do Sado.

[Pag. 19] — A Manteigui.

Resumindo aqui as indicações constantes de uma nota, que encontrámos appensa a um antigo manuscripto d'este poema, sem todavia nos responsabilisarmos por sua veracidade, diremos que a protagonista D.nna Jacques Manteigui, natural de Damão, vivia na cidade de Gôa em companhia de um marido de boa feição (cujo nome e circumstancias não vieram ao nosso conhecimento). Esta dama tornava-se notavel não menos pela sua belleza que por sua desenvoltura e ambição; e sabia fazer dos seus encantos um trafico por extremo lucrativo. D. Frederico Guilherme de Sousa, então Governador geral da India, apaixonando-se por ella, a tomara por sua amiga; porém isso não obstava a que ella não lhe fizesse repetidas infidelidades. Entre outras era accusada pela voz publica de entreter luxurioso commercio com um negro, seu escravo, moço bem fornido, ao qual dava de graça o mesmo que o Governador só podia comprar por alto preço! — Disse-se que na presente composição entrara por muito a vingança pessoal de Bocage, despeitado porque a dama se recusara abertamente a corresponder-lhe, pleiteando elle com ancia os seus favores. O que parece fóra de duvida é que d'aqui lhe proveiu em parte a sua desgraça; pois que chegando esta satyra ás mãos de D. Frederico, este se julgou altamente offendido na pessoa da sua bella, e irritado contra o poeta o mandou incontinente deportado para Macau, d'onde a muito custo pôde obter licença e meios de transportar-se a Lisboa.

De poema «Manteigui» temos visto tres ou quatro edições diversas; todas feitas, ao que parece, em Lisboa. Não nos ligámos a alguma em particular, mas aproveitámos de todas as variantes que offereciam visos de mais correctas, confrontando-as sempre com os manuscriptos que possuiamos, e preferindo em todos os casos o que se nos afigurava por mais exacto, e conforme ao texto original.

[Pag. 29] — A Empreza Nocturna.

Esta peça, mais conhecida sob a denominação de «Noute de Inverno» e já por vezes impressa, tem sido quasi universalmente attribuida a Bocage; pareceu portanto que não devia omittir-se na presente edição. Devemos porém declarar aos leitores, que segundo o testemunho de pessoas mui auctorisadas, ella não é obra do nosso poeta, e sim do seu contemporaneo e amigo Sebastião Xavier Botelho. De outras, que estão em caso analogo, e que similhantemente vão aqui incorporadas, iremos dando razão nos logares competentes.

[Pag. 35] — Epistola a Marilia.

Todas as pessoas lidas na historia de Bocage sabem que esta epistola, e o soneto que damos a pag. 111 do presente volume, lhe serviram principalmente de corpo de delicto, quando, perseguido por ordem da Intendencia geral da policia, foi a final preso em 10 de agosto de 1797; sendo então transportado de bordo da embarcação onde se refugiara para os segredos da cadêa do Limoeiro, e d'ahi passados alguns mezes removido para os carceres da Inquisição. (Veja-se o «Estudo Biographico» que vem no tomo I. das Poesias de Bocage, edição de 1853, a pag. XL e seguintes.)

Antonio Maria do Couto nas «Memorias» que escreveu ácerca da vida do poeta, affirma em tom decisivo — que a Epistola a Marilia fora feita por occasião de ser seu mestre um frade (graciano) que a requestava: assim será; mas parece-nos, lendo esta composição, que o poeta exigia da sua bella mais alguma cousa do que pol-a de aviso contra as seducções do frade.

Quando começaram a divulgar-se algumas copias d'esta epistola, varios engenhos devotos e de animo timorato, escandalisados justamente da erronea philosophia do auctor, e muito mais do modo impio e libertino com que elle dogmatisara, estabelecendo e propalando principios tão anti-religiosos, e anti-sociaes, entenderam que era do seu dever opporem-se a taes doctrinas: para que o antidoto seguisse de perto o veneno, julgaram por melhor servir-se das mesmas armas, empregando egualmente a linguagem das musas, e ligando á força dos raciocinios as graças da metrificação. Das «Refutações» que n'este sentido appareceram conservâmos duas em nosso poder; e como as suppomos desconhecidas para o commum dos leitores, ahi lh'as apresentamos, desejando que n'ellas encontrem um correctivo seguro contra as falsas e seductoras maximas da epistola bocagiana.

A primeira é obra de Manuel Thomás Pinheiro de Aragão, admirador e amigo de Bocage, falecido ha poucos annos, e que por muitos exerceu em Lisboa com bons creditos o magisterio na instrucção da mocidade. Quanto á segunda não podémos, apesar de toda a diligencia, conhecer até agora o nome do seu auctor.

[ANTI-PAVOROSA — PARODIA CHRISTAN.]