II
Oh Deus, não oppressor, não vingativo,
Não vibrando co'a dextra o raio ardente
Contra o suave instincto, que nos déste;
Não carrancudo, rispido arrojando
Sobre os mortaes a rigida sentença,
A punição cruel, que excede o crime,
Até na opinião do cego escravo.
Que te adora, te incensa, e crê qu'és duro!
Monstros de vís paixões, damnados peitos
Regidos pelo sofrego interesse
(Alto, impassivo numen!) te attribuem
A cholera, a vingança, os vicios todos,
Negros enxames, que lhe fervem n'alma!
Quer sanhudo ministro dos altares
Dourar o horror das barbaras cruezas,
Cobrir com véo compacto e venerando
A atroz satisfação de antigos odios,
Que a mira poem no estrago da innocencia,
Ou quer manter asperrimo dominio,
Que os vaivens da razão franquêa, e nutre:
Eil-o, em sancto furor todo abrasado,
Hirto o cabello, os olhos côr de fogo,
A maldição na bocca, o fel, a espuma,
Eil-o, cheio de um Deus tão mau como elle,
Eil-o citando os horridos exemplos
Em que aterrada observe a phantasia
Um Deus o algoz, a victima o seu povo:
No sobr'olho o pavor, nas mãos a morte,
Envolto em nuvens, em trovões, em raios
De Israel o tyranno omnipotente;
Lá brama do Sinay, lá treme a terra!
O torvo executor dos seus decretos,
Hypocrita feroz, Moysés astuto,
Ouve o terrivel Deus, que assim traveja:
«Vae, ministro fiel, dos meus furores!
Corre, vôa a vingar-me: seja a raiva
De esfaimados leões menor que a tua:
Meu poder, minhas forças te confio,
Minha tocha invisivel te precede:
Dos impios, dos ingratos, que me offendem,
Na rebelde cerviz o ferro ensopa:
Extermina, destroe, reduz a cinzas
As sacrilegas mãos, que os meus incensos
Dão a frageis metaes, a deuses surdos:
Sepulta as minhas victimas no inferno,
E treme, se a vingança me retardas!…»
Não lh'a retarda o rabido propheta;
Já corre, já vozêa, já diffunde
Pelos brutos, attonitos sequazes
A peste do implacavel fanatismo:
Armam-se, investem, rugem, ferem, matam,
Que sanha! que furor! que atrocidade!
Foge dos corações a natureza;
Os consortes, os paes, as mães, os filhos
Em honra do seu Deus consagram, tingem
Abominosas mãos no parricidio:
Os campos de cadaveres se alastram,
Susurra pela terra o sangue em rios,
Troam no polo altissimos clamores.
Ah! Barbaro impostor, monstro sedento
De crimes, de ais, de lagrimas, d'estragos,
Serena o phrenesi, reprime as garras,
E a torrente de horrores, que derramas,
Para fundar o imperio dos tyrannos,
Para deixar-lhe o feio, o duro exemplo
De opprimir seus eguaes com ferreo jugo;
Não profanes, sacrilego, não manches
Da eterna divindade o nome augusto!
Esse, de quem te ostentas tão valido,
É Deus do teu furor, Deus do teu genio,
Deus creado por ti, Deus necessario
Aos tyrannos da terra, aos que te imitam,
E áquelles, que não crêm que Deus existe.