III
N'este quadro fatal bem vês, Marilia,
Que em tenebrosos seculos envolta
Desde aquelles crueis, infandos tempos
Dolosa tradição passou aos nossos.
Do coração, da idéa, ah! desarreiga
De astutos mestres a fallaz doctrina,
E de credulos paes preoccupados
As chimeras, visões, phantasmas, sonhos:
Ha Deus, mas Deus de paz, Deus de piedade,
Deus de amor, pae dos homens, não flagello.
Deus, que ás nossas paixões deu ser, deu fogo,
Que só não leva a bem o abuso d'ellas,
Porque á nossa existencia não se ajusta,
Porque inda encurta mais a curta vida:
Amor é lei do Eterno, é lei suave;
As mais são invenções, são quasi todas
Contrarias á razão, e á natureza:
Proprias ao bem d'alguns, e ao mal de muitos.
Natureza, e razão jámais differem:
Natureza, e razão movem, conduzem
A dar soccorro ao pallido indigente,
A pôr limite ás lagrimas do afflicto,
E a remir a innocencia consternada,
Quanto nos debeis, magoados pulsos
Lhe roxêa o vergão de vís algemas:
Natureza, e razão jámais approvam
O abuso das paixões, aquella insania,
Que pondo os homens ao nivel dos brutos,
Os infama, os deslustra, os desacorda.
Quando aos nossos eguaes, quando uns aos outros
Traçâmos fero damno, injustos males
Em nossos corações, em nossas mentes,
És, oh remorso, o precursor do crime,
O castigo nos dás antes da culpa,
Que só na execução do crime existe,
Pois não pode evitar-se o pensamento,
E é innocente a mão, que se arrepende.
Não vem só d'um principio acções oppostas:
Taes dimanam de um Deus, taes do exemplo,
Ou do cego furor, moleslia d'alma.