IV
Os meus leitores, se forem imparciaes, hão de confessar, que nunca leram scena de tanto effeito, nem de interesse tão palpitante.
O sr. Dyonisio, tyranno interino, typo de janota portuense (vide romances de Camillo Castello Branco) vinha embuçado n'um capote de camellão. Ora sabido é, que todos os embuçados, mesmo em chales-mantas, são terriveis; mas os embuçados em capotes de camellão attingem as raias da sublimidade melodramatica!
A victima masculina é Eduardo Teixeira, que um defluxo, complicado por uma grande{104} frialdade de pés, torna duplamente interessante aos olhos de todos os leitores compassivos. A victima feminina é D. Emilia Guimarães, a qual, comprehendendo a situação n'um abrir e fechar d'olhos, elevou-se rapidamente á altura do seu papel, caindo artisticamente em cima d'uma poltrona, á falta de confidente, a quem dissesse como nas tragedias classicas:
Desmaiar vou! Recebe-me em teus braços.
—Então quem é bossenhoria? Que fazia o senhor n'este quarto? perguntou o sr. Dyonisio, tirando o chapéu desabado com gesto magestoso, e armando-se de luneta, á falta de punhal.
—Eu... senhor... eu, tornou Eduardo, convencido que era o irmão, e conscio por conseguinte do direito que elle tinha para fazer a pergunta.
—Dyonisio, juro-te que sou innocente, exclamou a menina Emilia, levantando-se rapidamente, e correndo a ajoelhar-se aos pés do homem de capote de camellão, acredita-me Dyonisio.{105}
—Levantai-vos, senhora, vós não sois culpada; mas o infame seductor...
—Oh! senhor eu não seduzi ninguem.
—Calai-vos.
—Dyonisio, peço-te justiça, e não indulgencia. Eu não trahi os meus deveres, juro-o perante o ceu, que estende sobre as nossas cabeças o seu manto azul, puro como a minha alma.
Exageração de metaphora. Sobre as suas cabeças estava apenas o tecto, que nem era azul, nem puro; porque estava muito sujo das moscas.
—Póde acreditar o que sua irmã lhe diz, atalhou Eduardo, posso asseverar-lh'o debaixo da minha palavra de honra.
—Minha irmã? As filhas da casa de Val-de-Camellos portam-se d'um modo mui differente do d'esta menina, indigna mesmo de sustentar o nome honrado de seu pae, o sr. Bernardo Guimarães.
—Não lhe admitto mais insultos, sr. Dyonisio Antunes de Val-de-Camellos, tenho a honra de lhe apresentar meu marido, o sr. Eduardo Augusto d'Almeida Teixeira.{106}
—Perdão, perdão, minha senhora, interrompeu com vivacidade o moço alferes, eu não hesitaria um momento em a chamar minha esposa, se devesse a v. ex.ª uma reparação, mas não ha coisa alguma que a isso se assimelhe, e, visto este senhor não ser seu irmão, vou ter com elle uma explicação mais corrente. Direi pois ao sr. Dyonisio de Val-de-Camellos, que está perfeitamente equivocado a meu respeito. Esta senhora lhe explicará, se a isso quizer descer, o motivo porque entrei no quarto d'ella. Poder-lhe-ia eu perguntar tambem o motivo porque veio cá metter o nariz. Comtudo, dir-lhe-hei unicamente que não tenho que lhe dar satisfações, a não ser n'um sitio mais conveniente do que este a explicações da natureza, das que hão de ter logar entre nós. O modo insolente com que me tratou a principio, merece uma correcção, e hade tel-a. Estou ás suas ordens.
—Um duello, e por minha causa, bradou Emilia, despenteando-se e procurando arranjar um olhar desvairado, oh! não façaes com que o sangue venha manchar as minhas vestes virginaes.{107}
—Vamos embora, sr. Dyonisio.
—Vamos lá, respondeu o homem de capote de camellão, em tom um pouco menos arrogante.
—Suspendei! Dyonisio, sr. Eduardo, horror! Meu Deus, valei-me!
E desmaiou.
«Bravo!»—diria um espectador do theatro normal, enthusiasta da Dama de S. Tropez.
Eu e o leitor applaudimos silenciosamente, e vamos seguir os nossos dois heroes, que sairam pela janella, perdendo-se assim todo o effeito de uma saida solemne pela porta de fundo, cujos batentes de papelão se abrissem de par em par.
Dyonisio e Eduardo atravessaram o quintal silenciosos; chegando a uma portinha que deitava para a estrada, o sr. de Val-de-Camellos tirou uma chave que trazia na algibeira, abriu a porta, e os dois contendores sairam.
—O sangue de um de nós ha de ser hoje derramado, vociferou o illustre janota do Porto, com tetrica intonação.
—Está dito; mas, a proposito, parece-me{108} que não temos remedio senão jogar o sôcco; parque não temos armas, nem padrinhos, de sorte que o nosso duello tem todas as condições d'irregularidade.
—Ora diga-me uma cousa, tornou Dyonisio, descendo das regiões melodramaticas ao terreno das explicações prosaicas, isto não se poderia conciliar amigavelmente?
—Oh! homem, isso é impossivel, o senhor descompoz-me atrozmente, abusando da identidade do seu nome com o do irmão d'Emilia, e realmente eu não vim ao Minho para receber descomposturas.
—Oh! senhor, tenha paciencia, a Emilia gosta d'essas cousas, e eu não tive remedio senão fazer aquella scena. Eu não tinha intenção offensiva. Mas que relações tem o senhor com a rapariga?
—Um simples namorico.
—Olhe, tornou Dyonisio coçando a cabeça, a D. Emilia Guimarães é uma senhora muita estimavel.
—Não duvido.
—Muito prendada!
—Apoiado.{109}
—Formosissima, continuou o sr. de Val-de-Camellos animando-se pouco a pouco.
—Pois não!
—Espirituosa! bradou o homem encaixando a luneta magestosamente no rubicundo nanz.
—Oh!
—Senhora, a quem amo delirantemente!
—Muitos parabens, sr. Dyonisio, muitos parabens!
—Unica mulher, que me pode tornar feliz.
—Oh! sr. Dyonisio, não me commova!
—Adoro-a, senhor, adoro-a como a uma estrella, que reluz nas trevas do meu viver.
—Bravo, ia-me arrancando lagrimas.
—E tem um dote de vinte contos de reis! concluiu o homem do capote de camellão com sublime expressão d'enthusiasmo.
—Muito bem, sr. Dyonisio, muito bem. Permitta-me que o abrace. Que rasgos de sentimento! Commoveu-me profundamente. Foi o coração quem lhe dictou essas phrases enthusiasticas. Esse argumento dos vinte contos revela claramente a pureza dos seus sentimentos.{110} Ó patriarchal Dyonisio, cedo-vos Emilia. Não serei eu quem vá perturbar a felicidade conjugal, tão solidamente baseada. O amor, fugindo das grandes cidades, vem, segundo vejo, aninhar-se á sombra de vinte contos nos corações desinteressados dos jovens provincianos. Sr. Dyonisio Antunes de Val-de-Camellos, não servirei de obstaculo á sua felicidade. Adeus, seja venturoso!
—Oh! muito obrigado, generoso desconhecido! volveu Dyonisio, que estava decididamente infectado de romanticismo sombrio.
—Ámanhã parto para o Porto. Deixo-lhe o campo livre.
—Espero que me perdoe a involuntaria offensa.
—Não fallemos n'isso. O que lá vae, lá vae. Adeus.
—Adeus. Disponha do meu fraco prestimo.
Se os nossos dois amigos estivessem em Lisboa, tinham ido juntos a uma ceia no Matta, ceia, que (se elles fossem bem conhecedores dos costumes portuguezes em materia de duello) deveriam ter encommendado antes do desafio.{111}
Assim, Dyonisio embuçou-se simplesmente no capote de camellão, e voltou para a cama, onde resonou pacificamente o resto da noite, sonhando que tinha comprado, com o dote de Emilia, uma junta de bois, e dois pedaços de terra, em que semeára milho, obtendo uma colheita formidavel, e grangeando deste modo tal consideração em Santo Thyrso, que tinha sido nomeado por unanimidade de votos... juiz eleito.
Eduardo meteu-se na cama, aqueceu os pés, transpirou muito, e no outro dia estava quasi livre do defluxo teimoso, que o apoquentára tanto.
Apesar de ter tido a felicidade de se curar com rapidez, o nosso alferes, que era um rapaz prudente, jurou nunca mais ter namoro com raparigas romanticas em noites de novembro{112}
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