V

Ainda que as intenções madrugadoras de Eduardo Teixeira fossem as mais sinceras deste mundo, passou segunda vez pelo desgosto de não assistir ao almoço da familia. O nosso alferes chegou a convencer-se de que o almoço em Santo Thyrso, como a tremenda nos conventos dos monges negros, era lá por alta noite.

Quando entrou na sala achou a menina Emilia sósinha sentada ao piano. O vestido branco, que tinha envergado apesar do intenso frio, o cabello muito de proposito em desalinho, as olheiras, que supponho tinham origem identica á das do Silvestre da Silva, de Camillo Castello{114} Branco, mostravam que Emilia se tinha caracterisado convenientemente para representar a ultima scena de um melodrama.

Quando viu Eduardo, levantou-se, e caminhou a encontral-o, hirta e vagarosa. O joven official estacou á porta pasmado.

—Qual dos dois morreu? perguntou ella solemne e lugubremente.

—Fui eu, minha senhora!

Seguiu-se um curto silencio.

—O senhor está zombando de mim? tornou Emilia.

—Não, minha senhora, estou respondendo á pergunta de v. ex.ª Com effeito, morri para o seu amor, sr.ª D. Emilia. Interroguei o meu coração, achei-o frio de mais para sentir uma d'essas paixões ardentes, que v. ex.ª deve inspirar. Não acontece o mesmo com Dyonisio. Minha senhora, vim descobrir um vulcão em Santo Thyrso, desmentindo por esta fórma a geographia. Esse Vesuvio desconhecido é o coração do sr. de Val-de-Camellos... Hontem os discursos de Dyonisio, se não me aqueceram os pés, que tinha muito frios, como v. ex.ª sabe, pelo menos aqueceram-me... o coração.{115} Na lava candente, que brotou espontanea do peito d'aquelle joven, accendi eu o lume prompto da generosidade. Entendi que devia aconselhal-a a visitar essa cratera de paixão. Asseguro-lhe que se ha de abrazar. Digo-lh'o eu.

—Não zombe tanto de mim, sr. Eduardo. Se tive ligeiro namoro com esse rapaz, o amor verdadeiro, que sinto agora, dissipou completamente esse frivolo galanteio.

—Mas, minha senhora, v. ex.ª deve fazer a felicidade d'um Dyonisio. Attenda, por amor de Deus, á influencia dos nomes nos destinos dos individuos. O nome de Dyonisio dá logo a conhecer que o possuidor deve ter um caracter patriarchal. Ora casem, casem, meus pombinhos, tenham muitos filhos, e sejam muito felizes.

—Assim me despresa, sabendo que o amo!

—Não, minha senhora, não creia tal. Hei de ser sempre o maior dos seus admiradores.

—E mais nada?

—E de v. ex.ª o mais attento venerador.

—Ingrato, perfido! Disse-lhe que o amava, menti-lhe, detesto-o!{116}

E a romantica menina ia aproveitar a situação, e a proximidade d'uma poltrona para desmaiar, quando felizmente entraram as duas manas.

Acabados os comprimentos preliminares:

—Que pena tenho, minhas senhoras, de as ter conhecido, disse Eduardo; os momentos deliciosos, que aqui passei, servem apenas para tornar mais pungente a saudade, que me vae atormentar.

—Porque, deixa-nos? bradaram em côro as tres provincianas.

—Sim, minhas senhoras, recebi hontem noticia de ter obtido passagem para um regimento da capital, de forma que hoje mesmo tenciono partir para o Porto.

—Partir, quem falla aqui em partir? bradou o sr. Bernardo que entrava n'esse instante.

—Eu, sr. Guimarães, replicou Eduardo, que, depois de lhe agradecer immenso o modo amabilissimo com que me recebeu, lhe peço agora as suas ordens para o Porto e para Lisboa.

—Mas porque não se demora pelo menos alguns dias?{117}

—Sou militar, sr. Guimarães, e devo cumprir á risca a ordem que recebi.

—Esta é que eu não esperava!

—Ingrato, e eu amava-o tanto, murmurou Emilia, recostando-se na poltrona.

—Então, minha senhora, cá fica Dyonisio para a consolar. É um bello rapaz, d'um caracter excellente, e com alguma applicação póde-se tornar um heroe de romance. Dê-lhe v. ex.ª vinagre todos os dias, e receite-lhe uma dose forte de Visconde d'Arlincourt, e verá como faz do sr. de Val-de-Camellos um rapaz ideial. Vou para Lisboa formar votos pela sua felicidade.



N'essa mesma tarde, Eduardo Teixeira empoleirado no seu fiel rocinante, dizia adeus a Santo Thyrso, depois de ter aturado uma scena pathetica de despedida, tal como a poderia imaginar o mais lamuriento auctor de melodramas.

O sr. Dyonisio Antunes de Val-de-Camellos, veiu com grato coração, e com um jumento chibante, em que montava, acompanhar o{118} nosso heroe á Travage, onde se despediu de Eduardo, protestando-lhe eterno agradecimento, e amisade constante.

Dyonisio Antunes continua serenamente o namoro com Emilia, sujeitando-se comtudo a uma dieta rigorosa, a ver se abate um pouco a sua nutrição anti-romantica.

O sr. Themudo cada vez embirra mais com o D. Jayme; e quando, em doces colloquios amorosos com D. Belizaria Guimarães, interrompe a conversação intima para fallar da depravação do seculo, cita o enredo do D. Jayme, e véla o rosto pudicamente com uma toalha de mãos. Belizaria sorve com indignação uma pitada de simonte.

Eduardo Teixeira, diz-nos pessoa fidedigna, que passa bem de saude, sendo comtudo muito sujeito a ataques de nervos, que o assaltam sempre que ouve... um piano!...

FIM