QUARTO SERÃO
D. Diniz.—A universidade de Coimbra.—Os Templarios.—Santa Isabel.—D. Afonso IV.—A batalha do Salado.—Morte de Ignez de Castro.—D. Pedro I.—D. Fernando I.—Leonor Telles.—Estado de Portugal no fim do reinado de D. Fernando.
—Meus amigos, principiou o João da Agualva, corriam os annos, e lá por esse mundo de Christo íam todos abrindo os olhos. Os romanos, como lhes disse, eram um povo que sabia o nome aos bois. Elles faziam estradas, elles faziam edificios que ainda hoje, arruinados, deixam ficar uma pessoa embasbacada, elles tinham escolas, o diabo! Mas, depois, vieram os barbaros dos bosques da Allemanha e da Russia, e zas, tras, catatras, lá se foi tudo pela agua abaixo. Por muito tempo não se pensou senão em pancadaria. Tudo era gente rude, os reis não sabiam ler nem escrever, os povos fallavam uma lingua assaralhopada que nem era latina, nem deixava de o ser. Mas a pouco e pouco foram-se aclarando as[{56}] cousas, foi havendo estudos, e D. Diniz, que subiu ao throno, depois da morte de D. Affonso III, era já um sabichão. Elle fazia os seus versos de pé quebrado, que a gente hoje quasi que não entende, mas que eram já escriptos n'uma lingua com termos, elle emfim vio que havia escolas por esse mundo onde se ensinava tudo o que então se sabia, e quiz tambem ter uma que foi a universidade de Coimbra. Depois tratou de fazer do reino alguma cousa com geito. Já não tinha que pensar em mouros, e então pensou na lavoura, pensou na marinha, pensou em tudo o diabo do homem! Mandou vir capitães de navios, de Italia, para ensinarem os nossos, e ajudou os navegantes do Porto, que sempre foram gente desembaraçada, a crear uma especie de companhia de seguros, e não se descuidou tambem de dar para baixo na nobreza e nos padres para elles se não fazerem finos, e dava-lhes de modo que elles não tinham rasão de queixa, porque era sempre com justiça. Ora, por exemplo, d'antes havia uma especie de frades que se chamavam freires militares, que eram, como quem diz, frades e soldados ao mesmo tempo. Em vez de fazerem voto de rezar e de jejuar, faziam voto mas era de dar bordoada nos mouros. Havia umas poucas de ordens n'esse gosto, a ordem dos Templarios, a de S. Thiago, a de Aviz e outras. Ora, como é de ver, esses templarios, por exemplo, que se fartavam de tomar terras aos mouros,[{57}] com algumas haviam de ficar para si. E depois tinham doações, emfim eram ricos a valer. O que acontecia por cá, tambem acontecia lá por fóra. Succedeu, pois, que um rei de França e um papa acharam excellente apanhar para si essas riquezas todas, e acabaram com a ordem dos Templarios em toda a parte; mas D. Diniz, que era um homem serio, não esteve pelos ajustes, e entendeu que seria um roubo tirar aos homens o que elles tinham ganho á custa do seu sangue, e então, como não havia de desobedecer ao papa, abolio a ordem dos Templarios, mas passou todos os bens para outra que pediu ao papa que creasse e a que chamou ordem de Christo.
—Ó sr. João, perguntou o Francisco Artilheiro, esse D. Diniz não era marido da rainha Santa Isabel?
—Era sim, rapaz, e já vou fallar n'essa rainha, que foi tambem uma das bençãos de Portugal n'esse tempo. Era filha do rei de Aragão, e bem se póde dizer que aquella é que foi uma verdadeira santa. Pobre senhora! Não lhe faltaram desgostos, não. Primeiro houve grande bulha entre o marido e um cunhado, D. Affonso Sanches, que embirrou em que lhe pertencia a corôa, apesar de ser mais novo; depois, e isso foi o peor, o filho, que veio a ser D. Affonso IV, revoltou-se contra o pae, e porque? Porque el-rei D. Diniz, que era frecheiro, e que se fartou de[{58}] ter filhos bastardos, parecia que olhava mais por elles do que pelos proprios filhos do matrimonio. Imaginem o desgosto da rainha! Primeiro porque emfim não havia de gostar muito de ver o marido sempre ao laré com esta e com aquella a arranjar filhos por fóra de casa, e depois por ver assim a guerra accesa entre seu marido e seu filho. E ainda por cima o rei desconfiou que ella ía de accordo com o filho, e chegou até a tratal-a mal, e a mandal-a saír da côrte. Pobre senhora! aquillo era o que ali estava. Ella tudo supportou com resignação—as infidelidades e as injustiças do marido, só o que queria era ver tudo em paz. E sempre o conseguio. Tanto pediu, tanto chorou, que o filho e o pae vieram ás boas. Mas d'ahi a pouco torna a haver intrigas, e o D. Affonso, que era um vivo demonio, torna á pancadaria com o pae. Pois senhores, a batalha estava para ser aqui ao pé de Lisboa, no Campo Grande; mas quando já começavam á lambada, apparece no meio d'elles a boa rainha, que foi mesmo o anjo da paz, e depois que ella appareceu ninguem mais se atreveu a levantar uma lança. Oh! rapazes! digo-lhes que até me parece que não era necessario que o papa a fizesse santa para que o povo a adorasse! Pois então se aquella não fosse santa quem é que o havia de ser? Dizem que mudava o ouro em rosas, e rosas em ouro. Isso creio eu, que aquellas bentas mãos haviam de mudar[{59}] em flores tudo em que tocassem, porque eram, como o outro que diz, mãos puras e boas, como a aragem de maio! Mas milagres maiores fazia ella ainda, porque as lagrimas que chorava em segredo caíam depois sobre a cabeça do pai e do filho como orvalho de paz e como chuva de amor! Sim! Sim! continuou o bom do João da Agualva, com voz tremula, e meio a chorar, digam lá vocês que ella não mudava tudo em que tocava em rosas, quando agora mesmo, que diabo! só de fallar n'ella, parece que até as palavras na minha bôca se estão mudando em flores!
—Ai! a minha rica Santa Isabel! exclamou a tia Margarida, pondo as mãos, n'um enlevo. Coitadinha da minha rica santa que foi logo casada com um homem tão mau!
—Não era mau, não senhora, tornou o João da Agualva, foi até um dos melhores reis que nós tivemos, mas como elle ás vezes lá escorregava o seu pedaço, e nem sempre tratou a santa como ella merecia ser tratada, bastou isso para que o povo começasse a inventar cousas, que elle que era um sovina, um desconfiado, um unhas de fome, e até os pintores, quando fazem o quadro do milagre das rosas, põem-n'o com uma carantonha de metter medo, que ninguem dirá que está ali o rei poeta, o rei a quem chamavam o pae do povo, o rei que não quiz roubar os templarios, o rei que fundou a universidade[{60}] de Coimbra, o rei que tanto se desvelou pelo bem do paiz! E que as injustiças, por mais pequenas que sejam, sempre vem a pagar-se, e D. Diniz, esses peccados que teve, pagou-os bem caro, primeiro com a revolta de seu filho, depois com a injustiça do futuro, e agora vão vocês ver como o filho tambem pagou o que fizera ao pae, porque em 1325 morreu el-rei D. Diniz e subiu ao throno seu filho D. Affonso IV, a quem chamaram o Bravo.
—Ora vamos lá a ver o que fez esse senhor, disse uma voz.
—D. Affonso IV, meus amigos, tinha muito boas qualidades. Era, por exemplo, um homem de muito bons costumes, e foi isso até que o levou a praticar uma acção... emfim, depois fallaremos. Era homem serio, mas arrebatado e vingativo. A primeira cousa que fez, assim que subiu ao throno, foi vingar-se dos irmãos, por cuja causa tivera as bulhas com o pai. D'ahi guerra. Quem acudiu? A rainha Santa Isabel.
Casou uma filha com o rei de Castella, Affonso XI. Este, que era do feitio de D. Diniz, começou a largar a mulher e a metter-se com uma tal D. Leonor de Gusman. D. Affonso IV, que ficára embirrando deveras com esses arranjos depois das turras com o pai, começou a criar má vontade ao genro, e zas, toma que te dou eu, ao primeiro pretexto que teve, ahi começam as bulhas. Foi uma guerra de cá[{61}] cá ra cá, que não prestou para nada, mas que sempre fazia mal ao povo. No mais seguiu á risca o exemplo do pae. Tratou do povo, teve os fidalgos muito na mão, mais os padres tambem. E então com esses não foi lá só por causa das terras a que deitavam a unha, foi tambem por causa dos maus costumes, porque elles gostavam de passar vida airada e outras cousas que D. Affonso IV lhes não levou a bem. Por isso apanharam uma vez uma rabecada, n'uma carta que D. Affonso escreveu ao papa, que foi de ficarem de cara a uma banda.
—Bem feito! acudiu a tia Margarida. Esse rei sim! esse é que me quadra. Bem se vê que era filho da rainha Santa Isabel!
—Espere lá, tia Margarida, não falle antes de tempo que, como diz o outro, até ao lavar dos cestos é vindima. Houve no reinado de D. Affonso IV duas cousas famosas: primeiro a batalha do Salado, depois a morte de D. Ignez de Castro.
—Foi com os hespanhoes a batalha do Salado?
—Não homem, foi dada até para os ajudar. Já lhes disse, meus amigos, que nós desde o reinado de D. Affonso III tinhamos posto os mouros na rua. Mas os hespanhoes ainda não tinham conseguido o mesmo, os mouros estavam reduzidos apenas ao reino de Granada, mas sempre isso era alguma cousa. Ora agora ali em Marrocos estava, como sabem, a moirama toda. Imaginem que um bello dia o tal miramolim[{62}] de Marrocos, ou como diabo se chamava elle, desaba em Hespanha com o poder do mundo e junta-se ao rei de Granada para darem cabo do rei de Castella. Era este D. Affonso XI, genro do nosso D. Affonso IV. Aterrado com o perigo, pediu soccorro ao sogro, apesar de estar mal com elle; mas o nosso rei, homem ajuizado, vio que a occasião não era para dize tu direi eu, que não era só Castella que estava em perigo, estava em perigo a Hespanha toda; se Affonso XI levasse uma tareia e perdesse algumas provincias ficavam aqui os mouros de raiz, e tinha de se começar outra vez a pôl-os fóra. Por isso não esperou por mais nada, ajuntou quanta gente poude, e foi em soccorro do genro. O nosso rei era homem de pulso, os nossos soldados tambem eram pimpões. O soccorro não foi nada mau. Na batalha do Salado os mouros levaram uma sova de primeira ordem, e nunca mais os de Marrocos vieram cá metter o nariz d'este lado do mar. D. Affonso IV voltou para a sua terra sem ter querido acceitar cousa nenhuma da grande preza que fizeram.
—E isso de D. Ignez de Castro o que foi, ó sr. João da Agualva? perguntou a tia Margarida. Não foi essa Ignez de Castro que esteve aqui em Bellas, que até ali na quinta do marquez ha uma arvore a que chamam de Ignez de Castro?
—Ora adeus, tia Margarida! esteve agora em[{63}] Bellas! quer dizer, eu, como não andei com ella por toda a parte, não sei se por cá passaria alguma vez, mas onde viveu principalmente foi em Coimbra. Era uma hespanhola esta Ignez de Castro, linda como os amores, loura como o sol, e com um pescoço tão bonito, que lhe chamavam o collo de garça. Veio para Portugal como dama da infanta D. Constança que foi mulher do principe D. Pedro, filho de D. Affonso IV, mas o principe parece que gostou mais da dama que da mulher. Tristes amores foram aquelles, rapazes! Ella tinha pelo seu Pedro um fatacaz lá de dentro, que estou em dizer que mais gostaria ella de que elle fosse um pastor de cabras do que filho de um rei. A princeza D. Constança morreu, e para isso não deixaria de concorrer a paixão do marido, que, por mais que elle a quizesse esconder, rebentava por todos os lados. Coitada da princeza! tudo fez para arredar o marido d'aquelles mal-aventurados amores. Mas então! vão lá fugir ao seu destino! Pediu a Ignez de Castro que fosse madrinha de um filho que ella teve, porque n'esse tempo haver amores entre compadre e comadre quasi que era maior peccado que havel-os entre irmãos. Nada! aquillo era como um fogo valente que tanto mais se accende quanto mais agua lhe deitam. Em fim, morreu a princeza, e D. Pedro e D. Ignez ficaram á vontade, porque até ahi tinham guardado respeito á pobre senhora. Casariam?[{64}] D. Pedro assim o jurou depois, mas eu estou em dizer que não, porque para casarem era necessaria dispensa graúda, que o papa não daria assim sem mais nem menos e com tanto segredo como o principe quereria. Mas, ou casassem ou não, é certo que tiveram tres filhos, e que o principe D. Pedro não queria saber de mais nada senão da sua loura Ignez.
D. Affonso IV não viu isso com bons olhos. Sabem como elle era. Vivia só para a sua mulher, queria tudo em boa ordem, e não gostava d'essas fraquezas. Os fidalgos tambem não gostavam, mas esses por outras rasões. Tinha D. Ignez muita parentella, e diziam comsigo que, apenas D. Affonso IV fechasse os olhos, eram os Castros que davam as cartas em Portugal. Começaram a ferver as intrigas, e chegaram a aconselhar o rei que, visto que não havia forças humanas que arrancassem D. Pedro á sua Ignez, o melhor era darem cabo d'ella. D. Affonso IV torceu o nariz, mas lá por dentro estava em braza. Ora, imaginem vocês! D. Affonso, no principio da sua vida, tivera os maiores desgostos por causa dos bastardos de seu pae. Tambem o tinham feito de fel e vinagre os amores de seu genro com D. Leonor de Gusman. Morria pelo neto, um rapazinho bonito como a aurora, que tinha de ser depois D. Fernando o Formoso. Lembrou-se das amarguras que viriam a causar ao rapazito os filhos da amante[{65}] querida, que talvez até lhe roubassem a corôa. Subiu-lhe a mostarda ao nariz com a teima do filho, e deu ordem aos seus tres conselheiros, Alvaro Gonçalves, Diogo Lopes Pacheco e Pedro Coelho para que o livrassem de D. Ignez. Ahi vão todos até Coimbra, onde estava muito socegada a triste da rapariga. Ella, apenas suspeitou do caso, veiu com os filhos lançar-se aos pés do rei. O pobre D. Affonso enterneceu-se, mas os conselheiros é que viram o caso mal parado. «Se elle perdôa, disseram comsigo, nós é que pagamos as favas.» Não esperaram que D. Affonso resolvesse as cousas de outro modo. Foram-se á pequena, e, emquanto o diabo esfrega um olho, ferraram com ella no outro mundo!
—Ai que malvados! bradaram todos.
—Isso eram, tornou o João da Agualva. Sim! que eu não desculpo D. Pedro, nem a desculpo a ella. Se uma mulher, só porque gosta de um homem, não está lá com mais ceremonias e passa a viver com elle, sem a benção do padre, aonde irá isto parar? mas tambem matal-a sem mais nem menos, matal-a no meio dos seus filhos, matar uma pobre menina, que não fazia senão chorar, ah! só uns malvados eram capazes de fazer similhante cousa. Por isso tambem, vêem vocês? D. Affonso foi um bom rei, um homem de bons costumes, um valente, tudo quanto quizerem, mas a final de contas perguntem ahi a um pequeno:—Quem era D, Affonso IV?[{66}] Cuidam que elle que lhes responde: Era um bom rei, isto, aquillo e aquell'outro. Não, senhores, diz logo: Foi o rei que matou Ignez de Castro. E como assassino é que a gente o conhece, e no seu manto real não se vê o sangue das batalhas, vê-se mas é o sangue de Ignez! E esta? Se a não matassem, o que dizia a historia? Foi a amante de um rei. Olhem que gloria! E assim? Todos choram por ella, como a tia Margarida, que está ali a limpar os olhos com a ponta do seu avental.
—E o que fez D. Pedro? perguntou o Manuel da Idanha.
—O que fez D. Pedro? Ah! com os diabos! Imaginem! Elle ainda tinha peior genio que o pae. Apenas soube do que succedera, aquillo parecia um leão ferido. Saltou logo para o campo em som de guerra, e D. Affonso pagou o que fizera ao pae, porque teve tambem o filho revoltado contra si. Correu muito sangue por esse reino, até que emfim se fez a paz, mas D. Affonso IV pouco tempo sobreviveu, morrendo em 1359, dois annos depois da morte de Ignez.
—Subio ao throno D. Pedro, não é verdade? perguntou com muito interesse o Manuel da Idanha.
—É verdade que sim, e, meus amigos, então é que se viu o amor lá de dentro que elle tinha á sua Ignez. Apenas subio ao throno, os assassinos da[{67}] Castro safaram-se para Hespanha, mas D. Pedro lá fez o seu negocio com o rei de Castella, de fórma que apanhou os criminosos, menos um, Diogo Lopes, que conseguiu fugir. Assim que os teve em seu poder, fez-lhes torturas. A um mandou arrancar o coração pelo peito e a outro pelas costas.
—Credo! exclamou a tia Margarida.
—Por isso lhe chamavam D. Pedro o Cruel, assim como tambem lhe deram o nome de D. Pedro o Justiceiro. Justiça fez elle, porque bradava aos céus a morte de D. Jgnez, mas uma crueldade assim é de se porem a uma pessoa os cabellos em pé! Que mais querem? D. Pedro parece que não pensava n'outra cousa senão na sua Ignez, elle trasladou-a, com um estadão nunca visto, de Coimbra para Alcobaça, onde lhe mandara fazer um tumulo que era mesmo uma lindeza. Elle declarou que tinha casado com ella, e até se diz que a sentou, depois de morta, no throno, e mandou que todos lhe beijassem a mão. Mas isso parece-me patranha, ainda que D. Pedro era capaz d'essas extravagancias e de muitas mais. Porque effectivamente, meus amigos, parece que elle tinha endoidecido com a morte de D. Ignez. Tinha assim de repente umas furias que era livrar quem estivesse diante. Era justiceiro, é verdade, mas fazia justiça á doida e á bruta. Outras vezes entrava por essa Lisboa dentro a dançar, muito contente da sua vida. Governava bem, não ha[{68}] duvida, punia pelo povo, abaixava a prôa aos bispos, conservava o reino em paz, e juntava bom dinheiro nos cofres para uma occasião de apuros, mas era ao mesmo tempo umas mãos rotas com os fidalgos, que tornaram a fazer-se finos, como se viu depois.
Foi em 1367 que D. Pedro morreu, e logo subiu ao throno D. Fernando, a quem chamavam o Formoso, de bonito que era. Lá que elle tinha telha, isso é que não padece duvida, porque nunca se viu uma ventoinha assim. Aquillo era mesmo um gallo de torre de igreja. Primeiro deu-lhe na tonta o querer ser rei de Castella, de mais a mais não tendo geito nenhum para a guerra, e não gostando de batalhas. D'ahi, o que resultou? Gastou o que tinha, levou pasada de crear bicho, e teve de fazer as pazes. Mas vejam vocês que cabecinha! Quando fez guerra a Castella, alliou-se com o Aragão, mandou-lhe para lá bom dinheiro, e prometteu casar com a filha do rei, que se chamava D. Leonor. Faz as pazes com o de Castella, e, sem se lembrar já do primeiro casamento, promette casar com a filha do rei castelhano, que tambem se chamava Leonor. O de Aragão não fez caso, metteu o dinheiro portuguez, que lá tinha, nas algibeiras, e nunca mais deu contas. Mas o peor não é isso, o peor é que D. Fernando tambem não casou com D. Leonor de Castella, porque n'este meio tempo namorou-se de uma dama do[{69}] paço, chamada D. Leonor Telles, e desposou-a! Ao menos n'uma cousa era elle constante, é que não saía das Leonores.
Esta Leonor Telles foi o que se chama uma mulher de truz, bonita como as que o são, manhosa como a serpente, e dando, como a nossa mãe Eva, o cavaquinho pelo fructo prohibido. Quando casou com D. Fernando já era casada com um D. João Lourenço da Cunha, mas lembrou-se á ultima hora de que ainda eram parentes, e o rei arranjou do papa que desfizesse o casamento. João Lourenço da Cunha deu graças ao céu por se ver livre da mulher que estava para lh'a pregar mesmo na menina do olho, e D. Fernando levou D. Leonor Telles para casa. Mas o povo é que não esteve pelos autos e gritou e berrou e fez tumulto, tanto que el-rei safou-se de Lisboa. Houve mosquitos por cordas por esse reino todo, e a final acabou tudo em paz. D. Leonor ficou sendo rainha, os de Lisboa apanharam para o seu tabaco e D. Fernando não tardou a levar a paga.
O rei de Castella achou que D. Fernando o tratara com tal ou qual sem-ceremonia, e quiz-lhe dar uma lição de bem viver. Veio a Portugal, chegou a Lisboa, entrou por ahi dentro, fez um estrago de seiscentos demonios, e dava cabo da capital se D. Fernando lhe não vem pedir pazes, que, já se vê, custaram caras. Aqui ficámos finalmente em socego,[{70}] e então D. Fernando parecia outro homem. Sabia governar aquelle rapazote, quando as mulheres lhe não faziam andar a cabeça á roda, ou quando se não lembrava de ter outros reinos. Era economico e arranjado. Sabia pôr as cousas no seu logar. Foi elle que cercou Lisboa de fortificações, que depois não serviram de pouco ao seu successor.
Mas, coitado, acertára mal, em todos os sentidos, com a tal D. Leonor Telles, que era mesmo o demonio em pessoa; quando se enfastiou d'elle, tomou amores com um gallego que vivia em Portugal, chamado conde Andeiro. El-rei, entretanto, metteu-se outra vez em guerras com Castella, e pediu auxilio aos inglezes. Oh! rapazes, que tristes tempos foram aquelles! A vida do paço era um desaforo. Estava ali aquella mulher, aquella... não sei que diga, a pôr na cabeça a corôa da rainha Santa Isabel, a corôa que não podéra pôr nos seus cabellos louros a pobre Ignez de Castro, que, apesar de todos os pezares, era mil vezes mais capaz do que essa rainha de contrabando, que andou de um para outro, sem vergonha de qualidade nenhuma! E ainda por cima era malvada! vingativa! e para ella a vida de um homem valia tanto... como... a honra do marido, que é o mais que se póde dizer!
O povo desgraçado, porque tudo se juntava. As guerras com Castella sempre infelizes! os inglezes,[{71}] como sempre, apesar de amigos, muito peores do que se fossem inimigos. Os fidalgos de Castella, que tinham tomado o partido de D. Fernando, tratados aqui á grande! e ainda por cima D. Fernando sem ter filhos, e com a filha unica já casada com D. João I de Castella. D. Fernando, apesar da sua cegueira, já ía percebendo as cousas, e tinha lá por dentro um desgosto que o ralava. Tambem em 1383, tendo apenas trinta e oito annos de idade, esticou a canella, depois de um reinado que podia ter sido muito proveitoso, e que assim foi uma desgraça para todos. E eu tambem me vou chegando para a cama, não sem lhes dizer que houvera mudança completa no modo de viver da nossa gente n'estes ultimos reinados. Os fidalgos tinham levado para baixo, e estavam já em grande parte, por assim dizer, ás sopas dos reis. Os concelhos do povo tinham-se feito fortes, e batiam o pé á fidalguia, e ao clero, principalmente, nas côrtes, em que entravam. O resultado de tudo isso é o que vocês hão de ver de hoje a oito dias.[{72}]
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