TERCEIRO SERÃO
D. Affonso VI de Leão.—O conde D. Henrique.—D. Thereza.—O conde de Trava.—Batalha de S. Mamede.—Egas Moniz.—Fundação da monarchia.—D. Affonso Henriques.—Os cruzados.—D. Sancho I.—D. Affonso II.—D. Sancho II.—D. Affonso III.
—Viram vocês, meus amigos, tornou o João de Agualva, no domingo immediato, que o Portugal de agora, ahi pelo anno mil, pouco mais ou menos estava, do Mondego para baixo, quasi todo em poder dos mouros, e do Mondego para cima distribuido em dois condados, um que se chamava de Portugal, que era como quem diz do Porto, e o outro que se chamava de Coimbra, e ambos estes condados faziam parte do reino de Leão, onde governava um rei de cabellinho na venta, chamado o sr. D. Affonso VI. Ora, como D. Affonso VI tinha sempre guerra com os mouros, e como n'esse tempo o grande pratinho para um principe ou para um fidalgo, era jogar as cristas com elles, tanto que os íam buscar[{26}] a casa de seiscentos diabos, só para lhes dar tapona, aconteceu que dois francezes, chamados um Henrique e outro Raymundo, ambos primos, e ambos da casa de Borgonha, em vez de ir á Palestina, vieram aqui a Hespanha, que lhes ficava mais ao pé da porta, pedir para dar tambem as suas garfadas nos de Mafoma. Não havia duvida, a mesa estava sempre posta e podiam servir-se á vontade. Deram bordoada de crear bicho, e o D. Affonso VI, que viu que eram uns valentões, e que lhe podiam prestar para muito, casou-os com duas filhas que tinha, uma legitima filha do matrimonio, e outra cousas e tal etc. A primeira chamava-se Urraca e foi para o Raymundo, a segunda chamava-se Tareja ou Thereza, e dizem até que era uma rapariga de truz, para o Henrique. Ora ao primeiro, como era casado com a legitima, deu elle o governo de toda a parte do reino, que ficava á borda do mar, desde os altos da Galliza até ás proximidades do Tejo, e a D. Henrique deu especialmente os condados de Portugal e de Coimbra, ficando sempre sujeito ao primo. Ha quem diga que Portugal veiu como dote de D. Tareja! Tó carocho! N'esse tempo nem os paes davam dotes ás filhas, os que queriam casar com ellas é que ainda davam alguma cousa.
—E acho isso muito bem entendido! exclamou vivamente o Zé Caneira, que tinha uma filha casadoira.[{27}]
—Pois sim! redarguiu sorrindo o João da Agualva. O que é certo é que a moda não pegou. D. Henrique, porém, ficou sendo vassallo de Affonso VI, e empenhou-se em alargar os seus dominios, dando pancadaria nos mouros. Muito cedo deixou de ser sujeito a seu primo, e teve a sua capital em Guimarães, que por isso se chama o berço da monarchia. Mas este D. Henrique parece que tinha bicho carpinteiro, foi á Palestina, como se não tivesse por cá mouros com fartura, e, quando o sogro morreu deixando o throno á cunhada D. Urraca, que já então era viuva, o bom do conde metteu-se em todos os barulhos que lá íam por Hespanha, para ver se apanhava mais alguma cousa para si. Qual carapuça! não apanhou nada, e ía perdendo muito, porque os mouros, que se viram á larga, começaram a fazer-se finos, e já subiam por ahi acima, como quem estava com desejo de se espreguiçar o seu pedaço nos montes verdes de Coimbra.
No meio d'esta azafama toda, morreu em 1114 o honrado conde deixando uma viuva muito frescalhota ainda, e um filho pequeno que teria os seus tres annos, e se chamava Affonso Henriques, que é o mesmo que se dissesse Affonso filho de Henrique, assim como Sanches queria dizer filho de Sancho, Fernandes filho de Fernando, e Martins filho de Martim.[{28}]
—Ora essa! exclamou um que até ahi estivera silencioso, aqui estou eu que me chamo Antonio Martins, e mais meu pae chamava-se José.
—Pois isto que eu digo, tornou João, era n'aquelle tempo, depois os nomes ficaram, mas já sem se lhes saber a significação, como acontece a muitas outras cousas.
A mãe de D. Affonso Henriques, que era uma mulher bonita e desembaraçada, continuou a andar por cercos e batalhas, sempre a ver se isto cá em Portugal ficava independente, e, emquanto ella assim procedeu, correu tudo bem; mas isto de mulheres sempre são mulheres—não se zangue, tia Margarida—e D. Thereza lá teve o seu fatacaz por um conde gallego, Fernão Peres de Trava, que d'ahi a pouco era quem punha e dispunha em Portugal. Não agradava isso muito aos nossos fidalgos, e menos ao rapazelho, que era levadinho da bréca, esperto como um alho, valente como seu pae, e que fôra de mais a mais educado por um fidalgo ás direitas, um tal Egas Moniz, portuguez dos quatro costados. Já se vê que o aio não lhe ensinou a revoltar-se contra sua mãe, e até devo dizer que são verdadeiras patranhas muitas das cousas que a esse respeito se contam. Por exemplo, diz-se que o rapazote andava ás bulhas com a mãe, e que o rei de Leão, D. Affonso VII, viera em soccorro da tia contra o primo. Peta! D. Affonso VII veiu a Portugal,[{29}] é verdade, mas foi para obrigar a infanta-rainha (assim lhe chamavam) e o filho e os fidalgos e todo o povo a reconhecer a sua suzerania. Apanhou o rapaz em Guimarães, cercou-o, e pôl-o deveras em talas. Egas Moniz foi ter com elle, e disse-lhe que se fosse embora e que lhe empenhava a sua palavra que a sua suzerania seria reconhecida. Affonso VII assim o fez, e partiu d'ali contra D. Thereza, que essa reconheceu-o immediatamente por seu senhor e suzerano. Mas D. Affonso Henriques, livre do primo, pediu á mãe que fizesse favor de lhe dar o governo a elle, que sempre era mais portuguez que o conde de Trava. Este disse á rainha que não tivesse cuidado, que elle iria dar uma duzia de palmatoadas no pequeno. Foram boas as palmatoadas! Em S. Mamede, ao pé de Guimarães, e no anno de 1128, o conde gallego levou uma esfrega, e teve de se pôr a andar, levando comsigo D. Thereza. De fórma que nem D. Affonso Henriques prendeu a mãe, nem fez cousa que se parecesse com isso. Quiz apenas governar, porque tinha o direito de o fazer, e porque os barões portuguezes estavam fartos de aturar o gallego. E a vassallagem que promettera a D. Affonso VII? Boa vae ella! Mesmo agora D. Affonso Henriques pozera fóra o gallego para se sujeitar ao de Leão! Nem se pensou em tal. Mas Egas Moniz tinha dado a sua palavra, e não queria que um patife de um estrangeiro dissesse que[{30}] havia portuguezes desleaes. Não contou nada ao seu querido discipulo, e foi até dos primeiros a aconselhar que se mantivesse a independencia, mas agarrou em si, na mulher e nos filhos, e foram todos de corda ao pescoço ter com o rei de Leão, e dizer-lhe: «Para resgatar a minha palavra, só tenho a minha cabeça e a dos meus! Ellas aqui estão!» O rei ficou assombrado d'este acto de lealdade e mandou-os embora com palavras de muito louvor.
—Homem! isso agora parece-me asneira! acudiu o Zé. Que diabo de culpa tinha elle que esse D. Affonso Henriques não fizesse o que promettera?
—Nenhuma, bem sei! mas elle é que ficára por fiador. Outro seria que dissesse: Eu quiz, mas não pude. Elle foi mais franco e disse: Não pude e não quiz. O interesse da nação oppunha-se a isso, mas a minha vida ha de resgatar a minha palavra, e não se fundará n'uma deslealdade a nova monarchia.
—Aquillo é que eram homens! murmurou o Manuel da Idanha.
—Espera que tu vaes ver o que era um homem. Este Affonso Henriques digo-te que foi mesmo fadado para fundador de reino. Não parava um instante. No principio do governo, andou sempre á bulha com o primo, e com os gallegos, e tudo era ver se passava o Minho; mas um bello dia olhou para o sul, e percebeu que para ali é que havia muito que fazer. Os mouros começavam a dar signal de si, e[{31}] a romper de novo por ali acima. Em 1139, Affonso Henriques vae só n'uma galopada até ao Alemtejo, derrota os mouros em Ourique, e volta para casa. A respeito de Ourique tem havido mosquitos por cordas. Diz-se que appareceu Nosso Senhor a D. Affonso, que este foi ali acclamado rei pelos soldados, que aquillo foi uma batalha formidavel, etc. Eu cá não me metto n'essas cousas. Que Nosso Senhor Jesus Christo apparecesse crucificado a D. Affonso Henriques, é muito possivel, Deus póde fazer estes milagres, sempre que lhe aprouver, e milagre de Deus foi a nossa historia toda. Sem a ajuda de Nosso Senhor mal podia este pequeno povo fazer o que fez. Que a batalha fosse muito importante, não me parece, pelo menos não teve consequencias; ficou tudo como d'antes, e o que se não póde dizer é que o quartel general fosse em Abrantes, porque a Abrantes ainda nós não tinhamos chegado; que os soldados se lembrassem de acclamar D. Affonso Henriques rei n'essa occasião tambem me parece historia. Sou capaz de apostar que rei já lhe chamavam ha muito tempo, como chamavam rainha á mãe; de mais a mais, esse titulo de rei, que affirmava mais a nossa independencia, onde se deveria dar era n'uma batalha contra os leonezes, mas n'uma batalha contra os mouros, que tanto se importavam que Portugal fosse independente, como que fosse vassallo de Leão, a quem tanto convinha[{32}] que Affonso Henriques fosse rei como que fosse conde, não se percebe. Diz-se tambem que foi nas côrtes de Lamego que o titulo se confirmou. Ora adeus! Côrtes com clero, nobreza e povo ainda cá se não faziam. E de mais, quem diz isso parece que imagina que n'aquelle tempo se passavam as cousas como agora, e que isto de fazer rei um conde soberano era negocio que se não podia praticar sem grandes ceremonias e ajuntamentos. Boas noites, meus amigos. Oiçam vocês o que succedia! Morria o rei de Leão, por exemplo, e dividia os estados pelos filhos, e aqui ficava sendo um rei da Galliza, o outro rei de Leão e o outro de Castella. E depois juntavam-se os estados, e já não havia reinos nem em Galliza, nem em Castella, depois tornavam-se a separar, e assim andavam, sem maior massada. D. Affonso Henriques fizera-se independente, era o essencial, depois começaram a chamal-o rei, e rei se ficou chamando. O que elle fez, como era espertalhão, para garantir a conservação do reino, foi declarar-se vassallo do papa, e mandar-lhe pagar um pequeno tributo, para que o pontifice lhe valesse. A manha não era má; n'aquelle tempo quem tinha por si a côrte de Roma tinha tudo.
Mas o caso não era chamar-se uma pessoa rei, era ter um reino que merecesse o nome, e esse Portugalsito, que vinha apenas do Minho até ao Mondego, para fallar a verdade, não parecia lá um grande[{33}] reino. E vae D. Affonso Henriques disse então com os seus botões: Toca a alargal-o! Ora o que faz um de vocês quando se vê com uma terrola para seu grangeio? Cospe nas mãos, agarra na enchada, começa a fossar o chão, e ali está desde pela manhã até á noite. D. Affonso Henriques fez o mesmo, cuspio nas manoplas, arrancou do montante, e elle ahi vae para a faina em que andou desde pela manhã até á noite, quer dizer, desde que lhe apontou o buço até que a morte pregou com elle na sepultura. O montante era a sua enchada, rapazes, e, a cada enchadada, saía do chão sarraceno agora Santarem, depois Lisboa. Ah! meus amigos, que vida! Aquillo era um lidar continuado! Elle casou com uma princeza de Saboya, a sr.ª D. Mafalda, mas estou em dizer que não foram muitas as noites em que dormio muito bem aconchegado com ella nos seus paços de Coimbra. Alta noite lá ía elle tomar Santarem, de surpreza, e outra vez constava-lhe que ía uma gente do norte fazer guerra aos mouros na Palestina, para defender contra elles o sepulchro de Christo, e vae D. Affonso Henriques ía logo á beira-mar ter com os homens, e pedir-lhes que descançassem aqui um pedaço, e que o ajudassem ao mesmo tempo na sua tarefa de todos os dias. Elles não se fizeram rogar, desembarcaram, e d'ahi a pouco estava Lisboa no poder dos nossos. Muitos d'elles por cá ficaram, porque D. Affonso Henriques deu-lhes[{34}] terras, e até ha por ahi povoações que ainda se chamam com os nomes d'elles, por exemplo Villa Franca, que é como quem diz villa dos Francos, etc.
—Então os de Villa Franca são estrangeiros? perguntou o Manuel da Idanha.
—Qual carapuça, homem! Tu não te lembras da minha comparação do caldo? Não é sal, nem agua, nem carne; mas tem carne, agua e sal. A carne eram os godos, a agua os luzitanos e os romanos o sal; pois tambem no caldo se deita ás vezes o seu raminho de hortelã ou de segurelha, que sempre lhe dá assim um sabor mais cousas, tal, etc., pois esses raminhos de segurelha e de hortelã foram os estrangeiros, que aqui vieram a Portugal e por cá se deixaram ficar. Vieram tambem contribuir para fazer o nosso bom caldo portuguez.
—É bem achado, sim senhor, observou a tia Margarida.
—Pois assim mesmo é que é. Ora já vocês vêem que o pobre do D. Affonso não podia estar muito tempo socegado. Hoje tomava Cintra, amanhã Mafra, no outro dia Palmella, no outro Abrantes! Era um vivodemonio. Os mouros com elle andavam n'um sarilho. Por isso tambem tinham-lhe tomado um medo! Fallarem-lhes no Ibn-Errik, assim lhe chamavam elles na sua lingua, como quem diz filho de Henrique, fallarem-lhes em Ibn-Errik, era o mesmo[{35}] que fallarem-lhes no diabo. E que gente que elle tinha! homens como um Gonçalo Mendes da Maia, o Lidador, que morreu combatendo, e mais andava já pelos noventa annos, e um que tomou Evora, Giraldo sem Pavor, e outro que tomou Beja, cada qual por sua conta e risco. Gente levadinha da bréca, isso é que é fallar a verdade.
Mas, emfim, meus amigos, ainda que se diz «pedra movediça não cria bolor», sempre dá o caruncho n'uma pessoa, por mais que ella se mexa e trabalhe. D. Affonso envelheceu, mas antes d'isso já deitára um filho que era o seu retrato, valente como elle, e homem de grande talento, D. Sancho, que foi depois rei. Podia morrer descançado D. Affonso Henriques, deixava a sua espada em boas mãos e a sua corôa em boa cabeça. E com essa consolação morreu em 1185 el-rei D. Affonso Henriques, depois de ter não só tornado o reino independente, mas de o ter alargado até ao meio do Alemtejo, e principalmente de ter tomado Lisboa que era, como diz o outro, a menina dos olhos dos arabes, a cidade sem a qual não se podia fazer cá para estas bandas cousa que geito tivesse. Ah! meus amigos, se algum de vocês fôr alguma vez a Coimbra, e entrar na igreja de Santa Cruz, suba até á capella mór, e olhe para os dois tumulos que ali se vêem, pergunte qual é o de D. Affonso Henriques, e depois ajoelhe diante d'elles, porque, com seiscentos diabos,[{36}] se nós hoje não somos para ahi uns gallegos e uns andaluzes, se démos que fallar no mundo, e praticámos cousas que fazem com que uma pessoa tenha orgulho de se chamar portuguez, oh! com a bréca, é a elle que o devemos, porque, como lá diz o outro, de pequenino se torce o pepino», e este reino de Portugal era bem pequerrucho ainda, quando esse homem de ferro levou a sua vida inteira a costumal-o a fazer cousas grandes.
E o bom do João da Agualva limpou o suor, que lhe escorria pela testa com o enthusiasmo que o inflammava. Os seus companheiros escutavam-n'o silenciosos, e já não faziam interrupções nem observações. Estavam deveras interessados com a narrativa.
—Meus amigos, continuou o João da Agualva, no governo como na lavoura ha tempo para tudo, agora cava-se e depois semea-se. Primeiro compra-se a terra e depois é que se amanha. Pois assim foi em Portugal; D. Affonso Henriques ou D. Affonso I conquistára, D. Sancho tratou de povoar. Por isso a historia chamou conquistador ao primeiro e povoador ao segundo; e olhem que isso não quer dizer que D. Sancho não fosse tambem um guerreiro de truz. Tó carocho! Já na vida do pae elle dera que fallar. Apenas o pae morreu, começou elle a namorar uma terra do Algarve, que hoje está bem decaída, mas que n'esse tempo era, por assim dizer,[{37}] a Lisboa lá do sul—Silves. Não se lhe mettia dente, porém, com facilidade. Para ir lá por terra, era custoso como o demonio, para ir por mar, é de saber, meus rapazes, que o sr. D. Sancho I ainda não se lembrára de comprar nem a fragata D. Fernando, nem esse navio com que andam por ahi sempre os jornaes aos tombos, e a que uns chamam o Pimpão e os outros o Vasco da Gama.
Uma gargalhada geral mostrou que os bons dos ouvintes tinham apanhado facilmente o chiste do jovial anachronismo do narrador.
—Mas, meus amigos, isto de Portugal ficar no caminho da Palestina para os christãos que vinham lá das terras do norte, foi uma verdadeira pechincha. Descançavam aqui e sempre havia por cá algum biquinho de obra. Foi o que succedeu tambem d'esta vez. D. Sancho apanhou uma frota de cruzados...
—Novos? perguntou o Zé.
—Novos eram elles, que não costumavam vir para a guerra os carecas como tu; mas é de saber que se chamavam cruzados aos christãos que tinham ido tirar o sepulchro de Christo das mãos dos infieis, e que depois o defendiam. D. Sancho apanhou pois uma frota de cruzados, e disse-lhes d'esta maneira:
«—Vocemecês é que me podiam fazer um favor.
«—Se estiver na nossa mão!...
«—Lá isso está. É simplesmente acompanhar-me[{38}] ali a baixo a Silves, e ajudar-me a intimar mandado de despejo aos mouros que lá estão dentro. Eu fico com a cidade, e os senhores levam as riquezas que se apanharem.
«—Vá de feição.
E foi. Tomou-se Silves, tanto mais que lhes ficava na estrada, e não tinham de torcer caminho. Mas D. Sancho não poude continuar com essas funçanatas, porque os mouros cá da peninsula, que começavam a estar assim esmorecidos, receberam de repente uns reforços da Moirama, e... não lhes digo nada, vieram outra vez por ahi acima que parecia que tornava a haver invasão. Foi uma torrente que levou tudo adiante de si. O Tejo tornou a ser a fronteira de Portugal, e apenas no Alemtejo uma terra ou outra surgia ainda, como uma ilha, com a bandeira portugueza, d'entre as ondas da mourisma. Então D. Sancho pensou que primeiro que tudo era necessario tratar do que era seu, e começou n'uma lida abençoada: elle mandou vir gente do norte da Europa para povoar os nossos campos desertos, elle edificou, elle fez castellos, elle cuidou emfim de tudo, e não se esqueceu tambem de mostrar aos bispos que tinha muita contemplação por elles, emquanto se limitavam ás suas rezas, mas que lhes não permittia metter o nariz assim de muito perto nos negocios do estado. A final, este bom rei morreu, menos velho que o pae, em 1212. Tinha sido[{39}] casado com uma princeza chamada D. Dulce, filha do conde de Barcelona. De fórma que aqui temos pois já duas rainhas de Portugal, D. Mafalda e D. Dulce.
O filho mais velho de D. Sancho, que veiu a ser rei depois d'elle, não se parecia muito, valha a verdade, nem com o pae, nem com o avô, mas olhem que nem por isso foi menos util cá ao nosso paiz. É o que eu digo. Cada qual tem a sua tarefa. Uns cavam, outros semeam, outros põem fóra os pardaes e arrancam o joio, que podem dar cabo da ceara. Foi esta a tarefa de D. Affonso II. Ora vêem perfeitamente que, se este Portugal tão pequeno se começasse a dividir, pedaço para aqui, pedaço para acolá, ía-se tudo quanto Martha fiou. D. Sancho, que tivera uma sucia de filhos, pensára mais em os deixar bem arranjados do que em assegurar a conservação do reino. Por isso no testamento era umas mãos rotas. Esta e aquella villa para o senhor infante fulano, esta e aquella cidade para sicrano, e terras para este, e terras para aquelle. D. Affonso II arrebitou a venta, e disse d'este modo: Então vamos a saber, e eu com que fico? E ahi começa á bulha com as irmãs e com os fidalgos. Andava tudo em polvorosa com elle. Os fidalgos, por exemplo, tinham recebido de D. Affonso e de D. Sancho esta ou aquella terra, mas íam-se fazendo finos, e por sua conta e risco íam apanhando mais alguma,[{40}] os frades então nunca chegaram á cabeceira de um moribundo que não apanhassem algumas terras de bom rendimento. Isto assim não póde ser, berrava D. Affonso II, ás duas por tres fico a olhar ao signal. E elle ahi vae por essas provincias fóra, a obrigar os fidalgos a pôr para ali os titulos das suas propriedades, declarando que não valiam senão os que elle confirmasse, e foi a isso que se chamou confirmação. Ao mesmo tempo prohibia ás corporações religiosas que tivessem mais terras do que as que tinham. Emquanto ao testamento de D. Sancho I, cumpriu só o que lhe parecia bom, e, como as irmãs refilassem, houve pancadaria a menos de real.
—Então, por esse andar, os mouros deviam ter vida folgada com elle? observou o Francisco Artilheiro.
—Lá isso é verdade, e tanto assim que, quando se tomou Alcacer do Sal, os cruzados, que nos ajudaram, e que nunca pozeram a vista em cima do soberano, imaginaram que era uma rainha que governava em Portugal; mas, meus amigos, olhem que o nosso paiz não lhe deve menos por isso. Se as infantas começam a puxar para um lado, os fidalgos a puxar para o outro, e ainda os frades a arrancar tambem as terras, n'um abrir e fechar d'olhos tinhamos para ahi vinte reinos, e adeus Portugal. Mas o gordanchudo do Affonso II, apesar de se[{41}] não importar para nada com os mouros, tinha cabellinho na venta; e por isso os frades foram prohibidos de ter mais terras, as infantas tiveram de pôr para ali as cidades que o pae lhes tinha deixado, porque D. Affonso II disse-lhes que a respeito de corôa em Portugal não havia senão uma, e finalmente os fidalgos tiveram de receber d'elle as terras mas por favor e mercê real. De fórma que, a 25 de março de 1223, quando morreu apenas com trinta e seis annos de idade, Portugal era pequeno, mas estava todo na mão do rei, o que já era grande façanha.
—E o filho foi pelo mesmo caminho, sr. João? perguntou o Manuel da Idanha.
—Ora, meu amigo, eu te vou dizer o que succedeu ao filho, e por aqui tu verás se o que eu acabo de dizer não é verdade, e se não ha na historia exemplos para tudo. O filho era creança, quando subiu ao throno, por conseguinte foi necessario haver regencia. Chamava-se Sancho o pequenote, Sancho II, por alcunha o Capello, porque em creança andara com um capuz de frade, lá por promessa da mãe, ou cousa assim. Quem ficou com o governo foram os ministros do pae, e, ainda que eram homens de truz, sempre lhes faltava a auctoridade que tinha um rei. De fórma que toda aquella nobreza e fradaria, quando se viu assim á solta, livre da mão de ferro de D. Affonso II, começou[{42}] a alvorotar-se, e os ministros, para os terem quietos, íam dando o que elles pediam. As infantas apanharam as cidades, os frades foram juntando terras ás que já tinham, e parece que o rei andava umas vezes nas mãos de uns, outras vezes nas mãos de outros. Pouco se sabe d'aquelle tempo. Ia pelo reino todo uma confusão de seiscentos demonios. O que é certo é que, quando D. Sancho II chegou á maioridade, estava já tão costumado a não ser rei que não soube puxar pelos seus direitos. E não era que elle fosse fraco. Pois não! pelo contrario! Era da raça do avô, não estava bem senão a cavallo e com os mouros de volta. Tomou uma boa parte do Alemtejo e do Algarve, mas fidalgos e frades esses faziam o que queriam e sobrava-lhes tempo. Vêem vocês? Para uma pessoa governar não basta ser um valentão. Ás vezes um porta-machado, com umas barbaças por ahi alem, anda em bolandas nas mãos de um creançola, outras vezes uma fraca figura faz andar um regimento ali direitinho que nem um fuso. D. Affonso não queria nada com os mouros, o que o não impedia de governar como um homem; para D. Sancho as batalhas eram o pão nosso de cada dia, e em Portugal todos governavam menos elle. Cousas da vida! Como os fidalgos faziam o que lhes dava na cabeça, e os frades tambem, e os bispos a mesma cousa, parecia que deviam estar todos muito satisfeitos. Mas não succedia assim. Os[{43}] bispos queixavam-se dos fidalgos, estes queixavam-se dos frades, e todos do rei, os frades porque não reprimia os bispos, os bispos porque não tinha mão nos fidalgos, os fidalgos porque não puxava as orelhas ao clero. Quando elle saltava nos mouros, ainda as cousas não corriam mal. A fidalguia gostava d'aquillo, íam todos atrás do rei, e não se pensava em mais nada. Mas, quando uma hespanholita, chamada D. Mecia Lopes de Haro, caiu em graça ao rei, que casou com ella, e que passou os dias a namorar os olhos pretos da rainha, lá se foi tudo quanto Martha fiou. A desordem excedeu todos os limites, e os bispos foram ter com o papa a fim de lhe pedirem que tirasse a corôa a D. Sancho II. O papa, que era Innocencio IV, pulou de contente com o pedido. Era o mesmo que virem-lhe dizer que era elle quem dava e tirava as corôas n'este mundo, e que vinha a ser portanto o rei dos reis. Estava em França n'esse tempo um irmão de D. Sancho II, chamado D. Affonso, que saíra de Portugal para ir correr terras, encontrára em França uma condessa de Bolonha, viuva, e já durazia, ao que parece, que gostou d'elle e com elle casou, levando-lhe o condado em dote. Ora o tal condado era uma especie de reino, sujeito ao rei de França, que n'esse tempo era o rei santo que elles tiveram, a saber S. Luiz.
—S. Luiz rei de França, interrompeu a Margarida,[{44}] é uma igreja que fica ali para as bandas do Rocio.
—Pois é uma igreja e foi um rei, tia Margarida, respondeu o João de Agualva, como Santa Izabel é uma igreja que fica ali para as bandas da Estrella, o que a não impediu de ser tambem uma rainha e rainha de Portugal.
—Isso é verdade! confirmou a tia Margarida.
—Pois então, como lhes ía dizendo, reinava S. Luiz em França, e D. Affonso, seu vassallo, por ser conde de Bolonha, fôra com elle á guerra, e déra provas de ser homem desembaraçado. Lembraram-se d'elle para rei, e D. Affonso, que era ambicioso, acceitou. Os bispos e os fidalgos disseram comsigo que um rei feito por elles havia de ser um creado que tivessem ali no throno, e o papa entendeu tambem que aquillo era «senhor mandar, preto obedecer». Combinou-se tudo. D. Affonso prometteu quanto quizeram e ahi vae elle caminho de Portugal, fingindo que ía para a Terra Santa. Desembarca e principia a guerra civil. Tambem se não sabe muito do modo como as cousas se passaram. Parece que foi uma guerra levada do diabo como são sempre as guerras civis, queimaram-se villas e cidades, arrasaram-se muitas cearas, ficou muita gente na miseria, e o pobre D. Sancho viu-se abandonado por todos, dizem até que pela mulher, que fôra, a final de contas, o motivo de todas aquellas cousas.[{45}] Houve só um ou outro que se lhe mostrou fiel. D. Sancho teve de saír do nosso paiz, e foi para Hespanha, onde morreu em Toledo apenas com trinta e sete annos.
—Pobre do homem! acudiu compassiva a tia Margarida. Então que mal tinha elle feito áquella gente toda?
—Era um rei fraco, e, como se costuma dizer, não era nem para si nem para os outros. Até a mulher não fez caso d'elle, porque as mulheres são assim: em estando uma pessoa embasbacada a olhar para ellas, não fazem caso nenhum, e ás vezes de quem gostam é de quem lhes chega um calor ao corpo, como o outro que diz.
—Vae-te excommungado, bradou indignada a tia Margarida. Se um homem me batesse, eu até parece que era capaz de lhe arrancar os olhos.
—Pois sim, tia Margarida! não digo menos d'isso. Mas a rainha D. Mecia não era do mesmo parecer, e pagou bem as pieguices de D. Sancho!... Só de dois fidalgos se conta que se mostraram fieis ao desgraçado rei. Um foi o alcaide de Celorico, que até dizem que fez uma partida com graça. Estava-o cercando D. Affonso, e elle já não tinha nem uma migalha de pão, n'isto passa uma aguia por cima da praça com uma truta no bico, e deixa-a cair dentro da villa. O alcaide, em vez de a comer, manda-a cosinhar muito bem, e envia-a de presente aos cercadores.[{46}] D. Affonso, vendo que na praça havia petiscos d'aquelles, entendeu de si, para si que estava perdendo o tempo e o feitio, e foi-se embora. Póde ser que isto seja patranha, mas o que é verdadeiro, sem tirar nem pôr, é o caso de Martim de Freitas. Esse era alcaide de Coimbra, foi cercado tambem, não se rendeu. Disseram-lhe que já D. Sancho morrera, e que por conseguinte era D. Affonso o seu natural successor. Não acreditou. Affirmaram-lhe que morrera em Toledo. Pediu para ir ver. Deram-lhe um salvo conducto, e Martim de Freitas, mettendo na algibeira as chaves de Coimbra, foi de passeio até Toledo. Mostraram-lhe o tumulo do rei, mandou-o abrir; mostraram-lhe o caixão, quiz ver o corpo; e ao ver emfim o pobre cadaver do seu rei, que assim morrera aos trinta e sete annos, longe da sua terra e longe dos seus, ajoelhou e poz as chaves da cidade nas mãos do rei que lh'as entregára; depois, tirou-as d'essas mãos já frias que as não podiam segurar, e partiu para Coimbra, entregando-as ao novo rei, que louvou muito a acção.
—E tinha rasão para isso, tornou a tia Margarida, que estava sendo agora a interruptora, mas com o tal rei novo é que eu não engraço nada. Olhem que irmão! Sempre tinha uns figados!
—Não era muito boa rez, não, tia Margarida, mas então n'este mundo não são só as boas pessoas que servem. Que D. Affonso se importava tanto[{47}] com a familia como eu me importo com a familia do imperador da China, é o que não tem questão, mas que foi um grande rei, isso tambem é verdade.
—Era fresco o tal rei, que assim fazia guerra ao irmão sem mais nem menos!
—Ha mais exemplos d'isso, tia Margarida, e não vão elles tão longe que uma pessoa se não possa lembrar. Mas olhe que não param ahi as maldades de D. Affonso. Tambem não fez caso da mulher, a tal condessa de Bolonha, que nunca foi capaz de pôr pé em Portugal, e casou, em vida d'ella, com uma filha do rei de Hespanha.
—E ainda você o gaba, sr. João? perguntou a tia Margarida. Sabe o que eu lhe digo? Parece-me que você é tão bom como elle!
—Olhe, tia Margarida, não me rogue você nunca outra praga, que lá com essa não me hei de eu dar mal. O que lhe disse é que o sr. D. Affonso III foi um dos reis que fizeram mais bem ao pobre povo, e sabe vocemecê porque? Porque era homem de cabeça, e o que succedera com elle não tinha caído em cesto roto. Elle disse comsigo; Estes patifes d'estes fidalgos e d'estes bispos são capazes de me fazer a mim o mesmo que fizeram a meu irmão. Ora, eu sósinho não posso com elles. A quem me hei de encostar? Olhou em torno de si e vio o povo, o povo em quem ninguem fallava, e que era a final de contas quem pagava[{48}] as custas dos barulhos entre os grandes, o povo que pagava tributos a toda a gente, e que mesmo quando vivia em seus concelhos governando-se pelos seus foraes, que eram para assim dizer as suas leis, mesmo então era ralado pela fidalguia. E Affonso III disse comsigo: Ora ahi está quem me serve. E desata a fazer concelhos, e, quando reuniu côrtes que até ahi eram só de fidalgos e padres, chamou tambem procuradores do povo, e favoreceu o mais que poude o seu negocio, e deu-lhes socego e cousas e tal, de fórma que depois poude dar para baixo nos prelados, que berravam pelos contractos que tinha diabo, mas D. Affonso III, que era finorio, abanou-lhes as orelhas. E que os papas tinham deposto não só o rei D. Sancho II, mas tambem um imperador da Allemanha, de modo que aos chefes dos estados já ía cheirando a chamusco, e principiaram a fazer parede contra o papa. Assim os bispos, que levavam tapona de D. Affonso III, íam a Roma fazer queixas ao papa, e o papa naturalmente respondia-lhes contando-lhes uma fabula que lhes vou contar a vocês tambem.
—Conte lá sr. João da Agualva, exclamou o Manel da Idanha, ainda que eu, a dizer a verdade, não sei lá muito bem o que venha a ser isso de fava ou fabula ou o que é.
—Fabula é assim uma historia em que os animaes fallam como se fossem gente, e pelo que elles dizem tira a gente... sim... é como diz o outro [{49}] pelos domingos se tiram os dias santos... Eu lá, a estas explicações, não se póde dizer que seja um barra, mas em fim, em eu contando o caso, logo vos apercebem.
—É isso mesmo, tio João, conte lá, disse o Bartholomeu.
—Uma vez as rãs foram ter com Deus Nosso Senhor e pediram-lhe um rei, e Deus Nosso Senhor, que estava de maré, não quiz abusar das pobresinhas, e atirou-lhes para o charco um cepo; mas o cepo não fazia nada, andava á tona da agua, para aqui e para acolá, as rãs não lhe tinham respeito nenhum, e saltavam n'elle, qual debaixo qual de cima, e o cepo sempre um paz d'alma, que tanto valia terem rei como não o terem. Vae então as rãs voltaram a Deus Nosso Senhor, e disseram-lhe d'esta maneira: Dê-nos Vossa Divindade um rei que se veja, um rei que nos governe.—Pois então ahi vae um rei como vocês querem, respondeu Nosso Senhor, e atirou-lhes para o charco uma serpente, e a serpente, a primeira cousa que fez, foi engulir as primeiras vassallas que lhe pareceram mais gordas, e depois outras e outras, de fórma que as pobres rãs já se não atreviam nem sequer a coaxar para que sua magestade não desse com ellas. Percebem vocês agora porque é que o papa podia contar esta historia aos bispos que íam ter com elle?
—Percebo eu, acudiu logo o Manel da Idanha.[{50}] É que elles não descançaram emquanto não pozeram fóra um rei que era um paz d'alma, um cepo, o D. Sancho II, e foram buscar outro rei que era uma serpente e que deu cabo d'elles que foi um regalo.
—Ora, tal qual, sô Manel. Com gente assim é que eu me entendo. D. Affonso III bem se póde dizer que era uma serpente, porque as serpentes são manhosas, e elle tinha manha a valer. Mostrou-o em tudo, até no modo como se assenhoreou do Algarve, que era só o que faltava para Portugal chegar ao mar pelo lado do sul. Tomou-o aos mouros, e isso foi obra de pouco tempo; mas o rei de Castella começou a berrar que o Algarve lhe devia pertencer a elle. D. Affonso III nunca lhe disse o contrario, mas foi arrastando a entrega, e depois aproveitando tudo, de fórma que ás duas por tres estava senhor do Algarve, e, quando D. Affonso III morreu, que foi a 16 de fevereiro de 1279, estava Portugal completo e seguro, e, visto que chegámos ao fim d'esta primeira parte, parece-me que o melhor é irmos dormir, que para o outro domingo continuaremos.
—Mas ó sô João, disse o Manel da Idanha, já agora, faça favor, não deixe ir a gente embora, sem nos explicar uma cousa. Vocemecê diz que o rei, para esmurrar as ventas aos bispos mais aos fidalgos, começou a fazer concelhos por dá cá aquella palha, e lá[{51}] isso é que eu não percebo muito bem. Então que diabo tinham os fidalgos com o haver ou o não haver concelhos?
—Pois tem rasão, sô Manel da Idanha, e bom é que essas cousas fiquem explicadas, porque a mim parece-me cá no meu modo de ver que o que nos importa a nós, que somos do povo, não é tanto saber as batalhas que se deram, e mais os reis que houve; o que nos importa é saber como é que viviam os nossos paes, e como se governavam e cousas e tal. Ora pois, saibam vocês que muitos dos nossos paes eram a bem dizer escravos, não como os do tempo dos romanos que podiam ser vendidos como uns negros, mas faziam parte das terras que cultivavam, e com ellas passavam de dono para dono. Isto foi melhorando, e os servos passaram a ser gente livre, mas sem ter terras suas; pagavam foros e foros pesados, os senhores das terras eram os reis, os nobres, os bispos e os mosteiros. As terras dos reis chamavam-se terras da corôa, as dos fidalgos e as da igreja coutos, honras e behetrias. Ora os fidalgos, que só tinham obrigação de servir o rei na guerra e não pagavam mais nada, ou por herança de seus paes, ou por doações dos reis em recompensa dos seus serviços, íam mettendo em si o paiz todo, já se vê de embrulhada com os padres; e os reis pouco tinham de seu, porque, demais a mais, fidalgos, bispos e conventos apanhavam tudo quanto[{52}] podiam, o que se lhes dava e o que se lhes não dava. Por isso D. Affonso fez as taes inquirições, quer dizer, obrigou todos a porem para ali os seus titulos, para se saber se tinham as terras com direito ou sem elle, estabeleceu mais as famosas confirmações que punham a fidalguia sempre na dependencia da corôa, porque cada novo rei confirmava ou não confirmava as doações dos outros, e finalmente prohibiu aos conventos que arranjassem mais terras. E vae o povo o que fazia? Sempre que se podia livrar dos fidalgos e dos padres por qualquer modo e feitio, formava-se um concelho. Então continuavam a pagar tributo, e serviam nas guerras, mas não estavam sujeitos a ninguem, governavam-se elles por si, e tinham as terras muito suas. Ora, como os reis é que os podiam ajudar a ver-se livres da fidalguia, chegavam-se para elles, e os reis, que tinham nos concelhos gente que tambem ía á guerra e que lhes pagava tributos, encostavam-se para esse lado, para terem quem lhes valesse quando os barões ou os bispos se faziam finos. Aqui tens tu explicado pela rama como cada concelho, que se formava, era ao mesmo tempo um asylo de liberdade para o povo e um auxiliar para o rei contra as ameaças dos fidalgos.
—Muito obrigado, sô João da Agualva, tornou o Manel; mas sempre lhe digo que quem não sabe é como quem não vê. Ora quem me havera de dizer que[{53}] esta historia de ter uma terra, um pelourinho no meio da praça, era de tanta vantagem cá para o povo! Pois até domingo, e tomára eu que passasse depressa a semana porque divertimentos como este é que ha muito tempo a gente não apanha.[{54}]
[{55}]