SEGUNDO SERÃO
Cesar e os montanhezes do Herminio.—O imperio romano.—O christianismo.—Os barbaros.—Suevos, alanos e visigodos.—Os mouros.—O reino das Asturias.—O reino de Leão.—Portucale.—Os condados de Portugal e de Coimbra.
—Meus amigos, começou o João da Agualva, apenas todos fizeram roda no domingo immediato, e que a boa da tia Margarida, depois de carregar a sua roca, principiou a fazer girar o fuso nos seus dedos ageis, deixámos no outro dia os bons dos nossos lusitanos, depois da morte de Sertorio, costumados já á civilisação romana, e fallando o latim como se tivesse sido sempre a sua lingua, gostando de dar as suas passeatas até Roma, e provavelmente chamando barbaros aos que se lembravam com saudades dos tempos de Viriato. Nas serras continuavam a refilar o dente aos senhores do mundo, e o proprio Cesar, que veio a ser depois um grande homem,[{16}] estreiou-se nas guerras, tendo cá na Lusitania os seus dares e tomares com os montanhezes do Herminio, que vieram diante d'elle em rota batida até aqui ás proximidades de Peniche, pouco mais ou menos, e que, quando deram de cara com o mar, não estiveram lá com meias medidas, metteram-se n'umas jangadas, e foram merendar ás Berlengas, deitando a lingua de fóra ao sr. Cesar, que se foi embora de queixo caído. Mas isso eram barulhos lá de quando em quando. A verdade é que a Lusitania estava sendo devéras romana, e então, quando lá em Roma á republica succederam os imperadores, nem mais se pensou em independencias, nem meias independencias. As cidades com os nomes romanos ferviam por ahi, as estradas militares cortavam o paiz, e uma pessoa podia ir de Lisboa até Roma sem perguntar a ninguem. Hoje diz-se: quem tem bôca vae a Roma. Pois n'aquelle tempo, e com as estradas militares, bastava ter pés e olhos, ía-se lá direito como um fuso.
—Havia caminho de ferro? perguntou o Zé Caneira embasbacado.
—Qual caminho de ferro, bruto! Teu avô ainda nem sabia que vinha isso a ser, e já tu querias que o teu trigesimo ou quadragesimo avô andasse de wagon! Não senhor, eram estradas ordinarias, mas feitas com todo o cuidado e limpeza, e que, partindo de Roma, íam ter aos pontos mais distantes[{17}] do imperio! Lá que os taes romanos eram um grande povo, isso eram!
—Pois sim! mas regalaram-se de levar tapona cá na nossa terra, interrompeu o Bartholomeu.
—Quem vae á guerra dá e leva, respondeu o João da Agualva, e a final quem vence é quem mais sabe. Se os romanos venceram, não foi nem porque tinham mais força, nem porque eram mais valentes, foi porque sabiam mais. Tu verás ao depois. Olha que isto cá no mundo não se leva a poder de bordoada. Queres um exemplo? Ora ahi tens tu o mundo todo romano. O imperador está em Roma, e tudo governa. N'isto sáem da Judéa uns homens de bordão na mão, e de pés descalços, que começam a prégar por esse mundo, a dizer que Deus veiu á terra, que foi crucificado, que disse que todos os homens eram iguaes, senhores e escravos e grandes e pequenos, que a gente deve amar não só os seus amigos, mas tambem os seus inimigos, que ha mais alegria no céu pela volta de um peccador, que se arrepende, do que pela entrada de noventa e nove justos, e outras cousas assim que embasbacavam todos, e vae os imperadores romanos começaram a scismar que esta gente, que lhes fazia mal, que desorganisava tudo, e botam a chacinar n'esses sujeitos que se diziam christãos, e a queimal-os, e a deital-os ás feras, e a martyrisal-os, e quanto mais os desbastavam mais elles cresciam, e[{18}] tanto e tanto que lhes não digo nada. Ás duas por tres o mundo romano tinha sido conquistado, sem pau nem pedra, por esses soldados de Christo. Ora aqui tens tu como quem vence nem sempre é a força bruta.
—Essa agora é mais fina! accudiu o Manuel da Idanha. Esses, se venceram, é porque eram os santos apostolos, e porque prégavam a palavra de Deus.
—Pois assim é, Manuel, dizes tu muito bem, mas é que isto que se chama civilisação não é tambem senão a palavra de Deus. A civilisação é o que concorre para nos fazer melhores, mais dignos de ser homens. Umas vezes prégam-n'a os santos, outras vezes são os sabios, e ás vezes tambem são os soldados, porque Deus de todos os meios se serve para chegar aos seus fins. E é assim que o instrumento d'isto a que eu chamo civilisação umas vezes é o livro, outras vezes a cruz, e outras vezes a espada.
Os bons dos saloios ouviam boqui-abertos estas cousas todas, que só o Manuel da Idanha parecia perceber um bocadinho, por isso o João da Agualva, que não queria perder a attenção do auditorio, apressou-se a continuar:
—Isto quer dizer, meus amigos, que foi por este tempo que principiou a prégar-se no mundo a nossa santa religião, e foi cá a nossa terra uma das[{19}] primeiras que se converteram. Dizem até que veiu aqui o proprio apostolo S. Thiago, mas isso estou que são lérias; o que é certo, porém, é que ainda quasi não havia bispos por esse mundo de Christo, e já Braga era bispado, tanto assim que se chama ao arcebispo de Braga arcebispo primaz das Hespanhas, porque foi o primeiro que na Hespanha houve.
Mas, entretanto, meus amigos, grandes cousas se passavam pelo mundo. Fóra dos limites do imperio, do lado de lá do Rheno, do lado de lá do Danubio, havia povos que Roma não conseguira conquistar: gente selvagem como os luzitanos do tempo do Viriato; valentes como elles, e ao mesmo tempo gente inquieta que não parava n'um sitio e que não podia viver quasi senão de caça e de rapina. Tinham os romanos um trabalhão em os conter, mas, quando o imperio começou a fraquear, porque aquillo estava já sendo uma choldra, quando as legiões, que é como quem hoje diria as divisões e as brigadas, começaram cada uma a apregoar um imperador pela sua banda, desabam todos aquelles meus amigos sobre o imperio, e foi como quem diz uma verdadeira inundação. Ahi pelos annos quatrocentos e tantos caíram em cima de Hespanha, vindos das bandas dos Pyrenéus, nada menos de tres povos, os Alanos, os Suevos e os Vandalos. Nós, só á nossa parte, tivemos dois que tomaram conta de[{20}] tudo isto, que foram os suevos e os alanos. Mas aquillo! as florestas de alem do Danubio e do Rheno parece que se não fartavam de despejar povos que se empurravam uns aos outros. Atraz d'estes tres povos vieram os visigodos que expulsaram os outros e ficaram senhores da Hespanha toda. Mas agora ahi têem vocês como nem sempre quem vence é quem conquista. Julgam por acaso que se fallou na Hespanha o visigodo, e que as leis visigothicas é que governaram, e que a religião dos visigodos é que triumphou? Qual carapuça! os vencidos é que conquistaram os vencedores e deram-lhes a sua lingua, as suas leis e a sua religião. Porque? porque os mais civilisados eram os vencidos, e quem mais sabe é quem triumpha.
—Mas então, a final de contas, perguntou o Manuel da Idanha, sempre isto ficou sendo romano?
—Não, rapaz, não é assim. Ora dize-me uma cousa, quando tu deitas sal e carne para dentro de uma pouca de agua, o que é que fica? é agua, é carne ou é sal?
—Essa agora é mais fina, não fica nem uma coisa nem outra, o que fica é caldo.
—Ora pois ahi tens tu: a agua eram os lusitanos, os romanos foram o sal, e os visigodos a carne, e de tudo isso saíu uma cousa nova, um povo novo, este caldo que depois veio a chamar-se portuguez, que é no fundo lusitano, como o caldo é[{21}] agua, e a que Roma deu o sal que foi a idéa, e os visigodos a carne que foi a força.
Acharam graça á comparação os bons dos saloios e o João da Agualva proseguiu d'esta maneira:
—Mas as cousas não ficaram por aqui, porque no anno de 756 appareceu de repente em Hespanha gente nova. Eram os mouros. Esses, em vez de vir do norte, vinham do sul. Seguiam uma religião nova, a de Mafoma. Não eram uns selvagens, como tinham sido os visigodos. Traziam uma civilisação, e das mais apuradas. Por isso a lucta que se travou foi medonha: civilisação contra civilisação, Jesus contra Mafoma. Primeiro venceram os mouros. Na batalha do Guadalete foram os visigodos vencidos, e morto o seu rei Rodrigo. Em pouco tempo tinham os mouros tomado toda a Hespanha. A nossa terra lá foi tambem para elles. Só nos montes das Asturias, que são levados de quantos diabos ha, um punhado de visigodos continuou a resistir, commandados por um tal Pelayo, que foi o primeiro rei das Asturias. Metteram-se os mouros com elle, levaram para o seu tabaco. Deixaram-n'o lá estar no seu reino, que era como quem diz um ninho de aguia, encarapitado no cucuruto das montanhas, e c'o a breca, parece-me que uma aguia c'o as azas estendidas fazia-lhe sombra a elle todo. A pouco e pouco foi augmentando. Agora tomava-se[{22}] uma cidade, logo outra; a grão e grão, diz o proverbio, enche a gallinha o papo. D'ahi a duzentos annos já os visigodos tinham tirado aos mouros terras bastantes para formar não só um reino, mas uns poucos. A moda que havia de se dividir o reino pelos filhos de um rei que ía para o outro mundo, dava este resultado. Deixemos, porém, isso, e vamos a saber o que era feito de nós.
—Isso é que é, acudiu o Bartholomeu, os hespanhoes que tratem de si.
—Pois nós faziamos parte do reino que se chamou reino de Leão; quando digo nós, quero dizer de Coimbra para cima, porque, entre Coimbra e Lisboa, umas vezes era-se mouro e outras vezes christão, mas de Lisboa para baixo não havia duvida nenhuma, era tudo moirama.
—Mas então, vamos a saber, isto era já Portugal ou não era Portugal? perguntou o Zé Caneira.
—Ora com que tu vens! Sabes o que era Portugal? Era, para assim dizer, o Minho. Havia Portugal e havia o condado de Coimbra. Portugal chamava-se assim porque na foz do Douro havia uma terra que se chamava Cale, que depois se mudou em Gaya, e vae defronte mesmo á beira do rio, começou a levantar-se outra terra que se chamou Portus Cale ou Porto de Cale. Esta terra é o que se chama hoje simplesmente Porto, e o nome de Porto de Cale,[{23}] que se foi mudando em Portugal, dava-se a tudo o que ficava para o norte do Douro. E aqui está, meus amigos, como Portugal deve o seu nome ao Porto, exactamente como depois lhe veio a dever a liberdade.
—E então Coimbra já não era Portugal?
—Não, rapaz. Coimbra era outro condado, tambem christão, mas que tinha existencia sobre si. Ora o que lhes digo, meus amigos, é que a corneta do destacamento que chegou hoje está já a tocar a recolher, que são horas de se ir chegando cada um para suas casas, e que no proximo domingo continuaremos a nossa historia.[{24}]
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