QUADRO SEXTO
Jardim de Petronio.
PETRONIO, inspeccionando as mezas e flôres
Poucas flôres. O calôr do incendio chegaria a Cumes?
O INTRODUCTOR
Procura-te um servo de Numa, com uma carta.
PETRONIO
Vem de Roma?
O SERVO, entrando
De Numa. (da-lhe um rolo de pergaminho)
PETRONIO
Como vai o teu senhôr?
O SERVO
Bem, nobre Petronio.
PETRONIO, lêndo
.......... «Aviso-te de que receberás, em breve, ordem de não abandonar Cumas e dias depois a de te abrires as veias... Eis o que está decidido no palacio de Cezar... Vale. Séneca.» Virá atrazada a ordem. Licio, dirás a teu amo que lhe agradeço a carta e que já estava prevenido. Leva-lhe esta taça (dá-lhe uma d'oiro) como recordação minha e penhôr de nossa longa amizade. (o servo sahe) (ao escravo) Chama Eunice. (rindo) Julgava, talvez, surprehender-me esse bandalho de Cezar! Como se eu lhe não conhecesse as manchas de toda a vida! Como não respondi, logo, á sua carta, decidiu-se. Pois ha-de agradar-lhe a resposta. (Entra Eunice, de branco. Petronio, senta-se) Vem Eunice; abraça-me e beija-me! Amas-me?
EUNICE
Se fôsses um Deus, não te amaria mais. (ajoelha-se-lhe aos pés)
PETRONIO
E tu sabes a quem deves o meu amôr?
EUNICE
A ti, á tua bondade!
PETRONIO
E a Chilon.
EUNICE
A Chilon?
PETRONIO
Não te vendeu elle dois fios da cinta da Vénus de Chypre?
EUNICE
Oh, o charlatão! Ninguem pode modificar a vontade dos Deuses?
PETRONIO
Nem mesmo o nobre Chilon?
EUNICE
Nobre?
PETRONIO
É hoje um dos companheiros de Néro. Uma arma de Poppêa. Delatou os christãos.
EUNICE
Oh, o infame!
PETRONIO
Tal imperadôr, tal côrte! (acaricia-lhe a cabeça) Mas tu és, verdadeiramente, bella, Eunice.
EUNICE
Meu Senhôr!
PETRONIO
Feliz aquelle que, como eu, encontrou o amôr habitando em tal corpo! Parece-me ás vezes que sômos duas divindades! Nem Lyzias, nem Praxiteles, criaram, nunca, linhas tão bellas! Não ha marmore mais quente, mais rozado do que o do teu collo! (Toma um punhado de violetas e deita-lh'o pela cabeça e hombros) Eis o que os christãos querem abolir: o culto da belleza! Um selvagem não criaria uma tão ridicula filosofia. Trata sempre o teu corpo bello, como um dom divino! Sê sempre Deusa, bella, adoravel, Eunice! (Beija a)
EUNICE
Tu és tão bom, meu senhor, tão bom, que eu quizera ser realmente uma Deusa... e tua escrava, como sou!
PETRONIO
Enganas-te. Tu não és minha escrava: pertencem-te esta casa, estes jardins, os meus escravos, os campos e os rebanhos.
EUNICE
A mim?
PETRONIO
A ti. Libertei-te ha muito. Nada te disse. O consul dispensou a tua presença. Fiz-te, sem saberes, os meus presentes de nupcias.
EUNICE, beijando-lhe as mãos
Meu senhor e para quê?
PETRONIO
Porque vamos talvez separar-nos.
EUNICE, levantando-se
Como, senhor?
PETRONIO
Socega... terei de fazer uma longa viagem...
EUNICE
Leva-me comtigo.
PETRONIO
Não posso.
EUNICE
Não podes?
PETRONIO
É uma desconhecida viagem... que se tem de fazer, só!
EUNICE, receiando comprehender
Só?
PETRONIO
Só!
EUNICE, comprehendendo
Petronio! meu senhor. (Joelha de novo).
PETRONIO, respondendo á pergunta, muda, do olhar de Eunice
Sim!
EUNICE
Que desgraçada sou! Os deuses não permittirão...
PETRONIO
Eunice, eu quero morrer... como me compete!
EUNICE
Comprehendo, meu senhor. (Domina-se completamente.)
PETRONIO
Tu és bella, livre, rica! A mocidade e a belleza tem os seus direitos. Lembra-te de mim... com amor!
EUNICE
Não, meu senhor, eu não sou rica nem livre. Não o quero ser. Sou a tua escrava!
PETRONIO
Então eu serei o escravo da minha escrava. (Acaricia-a) Eunice, faz servir o jantar. (Dão um longo beijo.) Que a belleza seja sempre adorada!
EUNICE
E a bondade!
Eunice sahe e volta com Nerva, Lucio, Octavia e Julia. Ao entrar uns adolescentes coroam-nos de rozas. Trazem-se perfumes. Ha uma orchestra invisivel.
TODOS
Salve, Petronio.
PETRONIO
Salve, salve.
Reclinam-se. Os escravos servem.
JULIA
Que noticias de Roma?
PETRONIO
Cesar mandou-me chamar.
JULIA
É teu amigo, Cezar.
PETRONIO
Muito.
OCTAVIA
Acaso serás tu, agora, o querido dos homens, como tens sido sempre o das mulheres?
PETRONIO
Que os Deuses se amerciem de mim, formosa Octavia. Na minha edade! (Riem).
NERVA
E, não vais?
PETRONIO
Não vou.
LUCIO
Ficarás então em Cumas?
PETRONIO
Para sempre.
OCTAVIA
E o imperador?
PETRONIO
Que cante e dance.
JULIA
É a sua maneira de descançar.
PETRONIO
É; porque para se fatigar vae matando os christãos.
NERVA
A perseguição continúa?
PETRONIO
Cada vez mais terrivel.
OCTAVIA
Haverá, ainda, muitas tardes de circo?
PETRONIO
É natural. Os christãos são já aos milhares, em Roma, como em outras cidades da Italia, na Grecia e na Asia. Ha-os entre os legionarios, entre os pretorianos, nas melhores familias de Roma.
NERVA
Dizem que nunca houve tres tardes de circo, como as dos christãos!
PETRONIO
Nunca!
JULIA
Estiveste em todas, Petronio?
PETRONIO
Em todas.
OCTAVIA
Amas o espectaculo?
PETRONIO
Não: necessitava de lá estar.
LUCIO
Conta-nos.
PETRONIO
Nenhum de vós esteve em Roma?
NERVA
Nenhum; creio.
PETRONIO
Pois foram celebres as tardes. Nero lançou a ordem de prisão. Agarraram-se homens e mulheres, velhos e novos, creanças e virgens! Na primeira tarde, vestiram-nos com pelles de animaes e largaram-lhes os cães fulvos de Peleponéso e os molossos zebrados dos Pyrenéus, esfaimados, de dias. As prezas, porém, eram extranhas, e os cães hesitaram no attaque. Mas logo que o primeiro enterrou os dentes na espadua d'uma rapariga, os outros, ao verem sangue, cahiram sobre o monte dos christãos, ajoelhados! Então, por entre as convulsões, os estertores de agonia, os uivos dos mastins, ouviam-se vozes, que diziam: pelo Christo! pelo Christo! As feras mutilavam e, sobre a arena, corria em rêgos o sangue entre membros decepados e os corpos sedentos dos cães insaciaveis! O cheiro do sangue e dos intestinos abertos cobriu os perfumes da Arabia e encheu o circo! Os cães não venciam a tarefa. O povo rugindo, em delirio, pediu os leões. Viram-se então cabeças desapparecer em guellas vermelhas, peitos abertos com um roçar de garra, corações e ventres extravazados, e o ruido dos ossos triturados por maxillas de ferro! O povo esmagava-se, descendo as bancadas, para vêr melhor: os leões enchiam de trovões as arcarias do Circo!
OCTAVIA
E acabou?
PETRONIO
Não. Havia ainda muitos vivos. Abriram-se as jaulas e sahiram os tigres do Euphrates, as pantheras de Java, ursos, lobos, hyenas, chacaes! A scena perdeu toda a apparencia de realidade! Entre os gritos, os urros, os rugidos, ouviam-se gritos, aqui e ali, pelas bancadas, gritos, entre dentes, de mulheres em espasmo, cujas forças se iam exgotando! Empallideciam os rostos e vozes gritavam: basta! basta! Um exercito de Numidas, armados de flechas, fez recolher as féras. Limpou-se a arena; as fontes jorraram aguas perfumadas e uma nuvem de adolescentes, vestidos de amôres, encheu o circo de petalas de rosas! Caso extranho e unico no circo: Nero desceu á arena, tomou a cithara e cantou um hymno!
LUCIO
E foi applaudido?
PETRONIO
Como sempre.
OCTAVIA
A mim era-me impossivel assistir a uma tarde de circo.
JULIA
E tu, Petronio, cujo gosto e prazeres teem um tão grande cunho de elegancia e de delicadeza...
PETRONIO
Comecei por dizer, bella Julia, que precisava de lá estar.
NERVA
E, a segunda?
LUCIO
Conta-nos a segunda.
PETRONIO
Foi menos interessante. Limitaram-se a queimar muitos e a sacrificar os restantes. Todo o prazer do espectaculo, para quem o achava, estava em gozar a morte lenta, a agonia das victimas! (Reparando) Por Pollux, eu deixo de contar, se apenas empregaes os vossos sentidos em me ouvir.
NERVA
Escutamos-te e comemos, ao mesmo tempo.
PETRONIO
Mas não bebeis. (faz signal; os escravos enchem as taças)
LUCIO
Conta a terceira.
OCTAVIA
É mais curiosa, a terceira tarde?
PETRONIO
Terrivelmente curiosa, para mim. Foi de noite. Na noite a seguir áquella em que Néro passeiou, entre crucificados christãos, breados, a arder, pelos jardins!
JULIA
Que crueldade!
PETRONIO
E quê cheiro! A peripecia extranha foi esta. Quando soaram as cornetas, correu-se a grade d'um subterraneo e um homem colossal, um Lygio, de côxas herculeas e braços, os musculos do peito que pareciam dois escudos unidos, tal era o relêvo, appareceu, na arêna! Quando se esperava que inimigo lhe dariam, abriu-se a grade fronteira e um toiro da Hespanha, negro como a noite, rompeu pelo circo, trazendo, atado ás hastes, no cachaço, o corpo semi-nú d'uma virgem christã. Lygia! rugiu o escravo ao conhecer a rapariga! Lygia, tem coragem!... E, de espinha curva, rapido, cortando a terra, o olhar em braza, as mãos em garra... aproximou-se do toiro, e d'um salto, cahiu-lhe na frente, agarrando lhe os cornos! Fez-se um silencio profundo! Ouvir-se-hia o vôo d'uma môsca! Homem e toiro quedaram se na imobilidade do marmore, semelhantes a um trabalho d'Hercules, esculpido! Para se libertar do jugo, o toiro, fincando-se nas patas, dobrou-se, em arco: turgiam-se os musculos do homem a estalar a pelle que se fazia purpura! No peito de Néro, como no das vestaes, como nos do povo inteiro, os corações saltavam! Corria o suor pelas testas! A palavra expirava nos labios! Homem e toiro, n'um suprêmo esforço, dir-se-hiam pregados no solo! Estes momentos duraram séculos. Subitamente, ouviu se como um vagido surdo, e, como n'uma allucinação, os olhos viram a cabeça da fera, voltar, voltar, quasi imperceptivelmente... Ouvia-se o respirar offegante do homem; mas a cabeça do toiro continuava a voltar-se, lentamente, lentamente... quando, de subito, da bôcca sahe-lhe, pendida a lingua cheia de baba! Um momento mais... um ranger de vertebras... e n'um tremôr subito, o olhar baço, o pescoço estendido, como uma massa inerte, o toiro cahe!... morto!
NERVA
Por Jupiter, eis ahi um homem!
JULIA
Por Venus!
LUCIO
Por Hercules!
OCTAVIA
E, foram perdoados?
PETRONIO
O povo ergueu-se pedindo-o. Néro recuzava, quando, de subito, um bello rapaz, um guerreiro, salta á arena, rasga a tunica no peito, para mostrar as cicatrizes das batalhas e levanta os braços para o povo, cobrindo com o manto o corpo nú da christã. O povo rugiu improperios e Néro, com mêdo, cedeu.
JULIA
Quem era esse mancebo? Um amante?
PETRONIO
Um apaixonado, que a pretendera arrancar á prizão que tentava salval-a, ainda, nos subterraneos do circo, e que, sem esperança, estava a meu lado, branco como um cadaver!
JULIA
Chamava-se?
OCTAVIA
Quem era?
PETRONIO
Marcos Vinicio, o filho de minha irmã. Eis porque vos disse do começo, bella Octavia, que precizava de lá estar.
JULIA
Que tormentos d'amante!
PETRONIO
A felicidade é como a vida: nasce entre dôres!
NERVA
Que é feito d'elles?
PETRONIO
Cazaram e foram para o campo, para a beira mar, afogar em beijos os terrôres e lagrimas passadas!
OCTAVIA
Que os Deuses os protejam.
PETRONIO
Pois brindemos aos Deuses pela sua felicidade. (bebem)
JULIA
Amava-lo muito, Petronio?
PETRONIO
Tanto, que arrisquei, por elle, o favôr de Cezar!
NERVA
Como?
PETRONIO
Defendendo os christãos.
LUCIO
Os christãos?
PETRONIO
Os christãos que me importavam? Defendia Lygia e Marcos.
NERVA
Espantava-me que defendesses os Deuses estranhos.
PETRONIO
Nem os estranhos, nem os nossos.
LUCIO
Não amas os nossos Deuses?
PETRONIO
Muito... para figuras de rethorica!
OCTAVIA
O que amais então no mundo, elegante sceptico?
PETRONIO
As arvores e as flôres; as joias e os perfumes; as estatuas de Praxiteles e os bronzes de Corintho; os vinhos velhos da Grecia e as mulheres novas... de toda a parte.
JULIA
Tendes amado muito.
PETRONIO
E, ainda os livros, a poesia, os versos—excepto os de Néro—.
OCTAVIA
Dizem que os scepticos são, sempre, alegres.
PETRONIO
Será por isso que me esforcei por viver, sempre, alegremente, e o farei até ao fim... o que será facil... agora! (tomando a taça) Á Rainha de Chypre! por Eunice!
NERVA
Aos Deuses, pela felicidade de Petronio!
EUNICE, aparte a Petronio
Ao meu senhôr! (bebem os dois, sós)
PETRONIO, levantando-se um pouco sobre o leito
Amigos, perdoai-me o fazer-vos um pedido: eu quizera que cada um de vós se dignasse de acceitar a taça com que brindou aos Deuses e á minha felicidade. (toma a taça) Eis a taça do meu brinde á rainha de Chypre, por Eunice. Nenhuns outros labios beberão por ella; nenhuma outra mão ousará levantal-a, em honra de outra divindade! (atira-a ao chão e parte-se: espanto) Amigos, alegrai-vos. A velhice é a triste companheira dos nossos ultimos annos. Dou-vos um exemplo e um conselho.
NERVA
Que queres fazer?
PETRONIO
Gozar, beber, contemplar as fórmas divinas que repoisam a meu lado e adormecer, emfim, n'um sonho, cercado de rozas. Fiz já as minhas despedidas a Cezar. Ouvide o que lhe mandei dizer, no meus adeus. (tira um rolo e lê) «Sei, divino Cezar, que me esperas impacientemente e que para premiares a minha ida para junto de ti, não duvidarias dar-me o comando das tuas guardas e fazer de Tigelino um almocreve, officio para que parece ter sido creado pelos Deuses! Pelo Hades e em particular pelos manes de tua mãi, de teu irmão, de tua mulher, juro-te que me é impossivel ir. A vida é um thesoiro de que eu sube extrahir as mais preciosas joias; mas tem coisas, tambem, que confesso sou incapaz de suportar até ao fim! Não vás pensar que me indignou o assassinato de tua mãi, de teu irmão, de tua mulher; que me revoltei contra o incendio de Roma; que me offendeu o teu processo de matar todos os homens honrados de teu imperio! Não; mas por largos annos ainda, deixar-me esfolar os ouvidos pelo teu canto, vêr as tuas pobres tibias escoicear nas danças pirricas, ouvir-te tocar, declamar, recitar a teu modo—pobre poeta d'agua dôce—semelhante perspectiva é superior a minhas fôrças. Resolvi morrer! Roma tapa os ouvidos; o universo cobre-te de gargalhadas! E, eu? eu não quero mais envergonhar-me de ti! O ladrar de Cerebero ser-me-ha menos penoso: não sou amigo d'elle, não tenho de córar pela sua voz! Goza e passa bem, mas deixa-te de musica! assassina, mas não faças versos! envenêna, mas para-te de dançar! incendeia as cidades, mas deixa em paz a cithara! Tal é o conselho do teu amigo, Petronio.» (dá o rolo ao escravo) Queima esta carta e manda entrar o médico.
NERVA
... Mas é a morte!
LUCIO
E, nós...?
PETRONIO, rindo sereno
Nada receieis. Nenhum tem necessidade de dizer que ouviu ler esta carta. (Faz signal ao medico que entra. Este passa-lhe no pulso uma anilha de oiro e com um estylete abre-lhe a veia radial).
EUNICE
Senhor, se os Deuses me dessem a immortalidade, se Cezar me desse um imperio, para te deixar, eu não faria nunca! Tenho pois o direito de ir comtigo... concede-m'o!
PETRONIO
Tu amas me, verdadeiramente, divina! Vem commigo, pois, se assim o queres.
EUNICE, alegre, estendendo o braço ao medico
Abre. (O medico faz o mesmo. O sangue corre. Eunice inclina se sobre o peito de Petronio).
PETRONIO
Phalerno! (Um escravo deita-lh'o) Servide antes, ás damas, o xaroposo Careno, ou o opalino Chio, que convida a amar! (Inclina se para Eunice) Não queres tu, Divina, que bebamos, na tua taça, pela ultima vez, aos Deuses, por toda a felicidade que nos deram?
EUNICE
Sim, meu senhor. (Bebem os dois).
O INTRODUCTOR
Marcos Venicio e Lygia.
PETRONIO
Bem vindos! (Ao medico) Não posso morrer ainda; estanca-me o sangue. (O medico liga-lhe o pulso, rapido).
MARCOS, entra
Salve senhores! salve Petronio.
TODOS
Salve Marcos!
TODOS
Salve Lygia!
NERVA
Salve, formosa Lygia!
PETRONIO aos dois que chegam junto d'elle
Salve! Salve! (Os escravos trazem duas cadeiras. Marcos e Lygia sentam-se). Que vieste fazer a Cumes, Marcos?
MARCOS
Escrevemos-te. Queriamos que fosses passar comnosco uns tempos na nossa casa da Sicilia. A tua carta entristeceu-nos. Resolvemos vir-mos buscar-te. És preciso á nossa ventura!
PETRONIO
Admiro o teu coração: como me admira que dois noivos se possam lembrar d'um amigo ausente.
LYGIA
Tu és para nós muito caro. Devemos-te a maior parte da nossa felicidade!
PETRONIO
Foi o vosso Christo quem vos salvou! (Levemente ironico).
LYGIA
Não rias...
PETRONIO
Oh, não; mas é preciso confessar que Ursus e o povo romano tambem fizeram alguma coisa para o caso.
MARCOS
Vem comnosco, Petronio.
PETRONIO
Não, feliz esposo da princeza Aurora: se eu tivesse desejo de ir para onde me queres levar, eu não o poderia fazer. Se alguma coisa depois da morte—ao contrario da opinião de Pyrrhon—subsiste e vive, a que animava o corpo da minha bella, de cabellos d'oiro, a minha Eunice, espera-me! (Indicando-a) Está morta! (Arranca a facha do pulso e aperta Eunice contra o peito).
MARCOS
Petronio!
LYGIA
Meu amigo!
PETRONIO
Não vos afflijaes! Para vós nasce a aurora da vida, para mim, pôz-se já o sol, cerca-me o crepusculo! Tinha de ser: conheces Néro, comprehendes o resto. Vivi como quiz, morro como me apraz! Não vos afflijaes! A morte é um episodio da vida! Já vês, Marcos, que te enganas, se pensas que só o teu Deus dá a tranquillidade na morte! Vê como morro tranquillo. Platão diz que a virtude é uma musica e a vida do sabio uma harmonia! Se assim é, vivi e morro virtuoso. (Toma a taça) Permitte, virtuosa Lygia, que me despeça de ti, com as palavras com que te saudei, na primeira vez que nos vimos. «Vi durante a minha vida povos sem conto, mas uma mulher que te egualasse, eu não vi nunca!» (Aos dois) Se eu tenho uma alma, ella irá poisar junto á vossa casa, na forma d'uma borboleta, ou, como querem os egypcios, na de um falcão. Só, assim, irei. (Levantando a taça e todos) O ultimo brinde aos noivos. (A voz enfraquece levemente) Que a terra de Sicilia se metamorfoseie para vós n'um jardim dos Hesperides, que os Deuses dos campos, dos lagos, das fontes, façam nascer as flores sob os vossos pés, e que em todos os acanthos dos vossos pyristilos vivam e noivem, eternamente, as pombas brancas! (Bebe e todos. Inclina-se a beijar a cabeça d'Eunice).
O INTRODUCTOR
Um servo de Numa.
PETRONIO
Outro?
O SERVO
Nobre Petronio. Chego de Roma a toda a brida, mandado por Numa, meu senhor, dizer-te...
PETRONIO
O quê?
O SERVO
Revoltou-se Vindex, com as legiões da Galia. A guarda pretoriana, amigos, escravos, todos abandonaram Cezar. Todos fugiram do palacio e o deixaram só! Só, de mêdo, suicidou-se!
PETRONIO
É tarde! (Desmaia e morre sobre a cabeça de Eunice).
MARCOS
Que dôr!
VOZES
Mortos! O bom Petronio! A bella Eunice!
MARCOS
Sabeis, vós, amigos, o que morreu? O mundo romano: a Graça e a Belleza!
LYGIA, joelhando
Ó Christo! tende piedade das suas almas!
(O PANNO DESCE, LENTO)
FIM DO TERCEIRO E ULTIMO ACTO