QUADRO QUINTO

Sala no palacio de Néro. Néro e Poppêa, Vinicio, Tigelino, Petronio, Vitelio, Senecion e Vatino.

NÉRO, descendo

Ha tres dias que componho o meu poema. Não posso perder tempo. Sejamos breves. Roma está exaltada?

TIGELINO

Gravemente.

NÉRO

A animadversão cresce?

TIGELINO

Cada vez mais.

NÉRO

O Senado?

TIGELINO

Indignadissimo contra ti.

NÉRO

Ó o Senado! Reedificarei a cidade! Dar-lhe-hei uma outra digna do povo romano; que mais quer?

TIGELINO

Mas as miserias, as mortes causadas...

NÉRO

Não abri os meus jardins ao povo? Não tem elle que comer, á farta?

TIGELINO

Os pequenos estão satisfeitos. Os grandes...

NÉRO

É preciza uma decisão rapida. Que havemos de fazer, o que será conveniente...? A tua opinião, Petronio.

PETRONIO

Vamos para a Grecia e depois para o Egypto.

SENECION

É facil partir: voltar é que não será tão facil.

PETRONIO

Por Hercules, voltaremos, se fôr precizo, á frente das legiões da Asia!

NÉRO

Assim, farei.

TIGELINO

Escuta-me, Cezar. O conselho é desastroso. Antes de chegares a Ostia, rebentará a guerra civil. E sabes, tu, se algum vago descendente do divino Augusto, se não se fará proclamar imperador?

NÉRO

Farei que nenhum exista. Tu sabes como.

TIGELINO

Mas será um outro. Hontem, os meus soldados ouviram dizer á multidão que se devia proclamar alguem, como Thrazéias!

NÉRO

Povo insaciavel e ingrato! Que mais quer?

TIGELINO

A vingança.

NÉRO

A vingança?... quer victimas? (Pausa e silencio) Se nós lançassemos a nova de que foi... (olhando-os) Vatino, quem incendiou a cidade?

VATINO, empalidecendo

Eu?... Quem sou eu, ó divindade...?

NÉRO

Tens razão. É preciso alguem mais importante. (circunvagando o olhar): Vitelio!

VITELIO, riso amarello

As minhas banhas farão rebentar um novo incendio.

NÉRO

Tigelino?... Tigelino, fôste tu que incendiaste Roma!

TIGELINO, audaz

Por tua ordem, Cezar!

NÉRO

És meu amigo?

TIGELINO

Tu o sabes, Senhôr.

NÉRO

Bem. Sacrifica-te por mim.

TIGELINO, hypocritamente

Eu bem o quizera, Senhôr; mas não posso fazêl-o. (ironico) O povo murmura e revolta-se. Queres tu que a guarda pretoriana faça o mesmo, pelo seu chefe?

UM ESCRAVO

A divina Augusta deseja fallar-te, Tigelino.

TIGELINO, a Cezar

Permittis? (Cezar, faz signal aprovativo. Tigelino sahe)

NÉRO

Aqueci uma serpente no seio! (a Petronio) Vamos, falla tu. Confio em ti. Tens mais senso do que todos elles juntos e és meu amigo.

PETRONIO

Vamos para a Grecia.

NÉRO

Esperava mais do teu juizo. Se parto quem me garante que o senado não proclame outro imperadôr? O povo era-me fiel... não é. O senado!... Ah! se este povo e este senado tivesse uma cabeça, só!

PETRONIO

Se queres conservar Roma, Cezar, é precizo deixares alguns Romanos.

NÉRO

Roma, os Romanos, que me importam? Escutar-me-hiam na Helada! Ao redor de mim, aqui, não ha, senão traição! (subito) Petronio, a plebe murmura pelas praças... se eu fôsse ao Campo de Marte e cantasse o meu hymno; o que cantei durante o incendio... não poderia, eu, como Orpheu, encantal-os?

VATINO

A difficuldade, Cezar, era elles deixarem-te principiar.

NÉRO

Pois vamos para a Grecia.

POPPÊA, entrando com Tigelino

Ouve-me, Cezar. O povo quer uma vingança e uma victima! Que digo eu? uma? centenas, milhares! Existem as que o devem sêr, devem-se-lhe. Ignoras que na cidade se acoita um exercito de christãos? Não os conheces? Não te fallei, eu, tanta vez dos seus crimes e das suas infames cerimonias? das suas profecias segundo as quaes o mundo acabará pelo fôgo? O povo, instintivamente, odeia-os e suspeita d'elles. Ninguem os vê nos templos, no circo, nas corridas! Murmura contra ti e não fôste, tu, Cezar, nem eu, quem incendiou a cidade! Foram elles! É preziso dizêl-o. Viram-nos levando nas mãos as tochas incendiarias! O povo tem sêde de vingança? dá-lha. O povo quer circo, quer sangue? dá-lh'o! Conheces os culpados! manda!

PETRONIO a Marcos, aparte

A caça a Lygia.

PETRONIO

Coragem!

NÉRO, levantando as mãos ao ceu

Oh! Zeus, Appolo, Hera, Actréa, vós, todos, ó Deuses immortaes, porque nos não socorresteis? Que tinha feito essa bella Roma, a esses energumenos?

TIGELINO

Vinga-a!

VATINO

Faz justiça!

NÉRO

Que castigo terrivel, que torturas serão bastantes para punir tal crime? Com a ajuda das potencias do Tartaro, darei ao meu povo um tal espectaculo, que d'elle se falará, em Roma, pelos seculos dos seculos!

PETRONIO, aparte

Que Cezar bandido! (olhando Marcos, que passeia louco) É precizo salvar Lygia. Ou me perco, ou a salvo. (approximando-se galante, natural, brincando com a tunica gracioso) Assim... encontrastes as victimas? bem; mas escutai me. Tendes a auctoridade, tendes a guarda dos pretorianos, tendes a fôrça! Então sêdes leaes. Entregai os christãos ao povo, supliciais-os; mas confessai primeiro que não foram elles que incendiaram Roma! Ha tambem uma elegancia da alma: como mestre de todas as elegancias dir-vos-hei, que não supporto tão miseraveis comedias! (Pasmo) Com relação a ti, Cezar, porque me tens fallado muita vez da posteridade, reflecte o que ella dirá de ti! Pela divina Clio! Néro-Senhôr do mundo, Nero-Deus queimou Roma porque era tão formidavel na Terra, como Zeus no Olympo! Nero-poeta amou a tal ponto a poesia que lhe sacrificou a Patria! Desde o principio do mundo, ninguem ousou pensar em tão extraordinaria coisa! Tu o fizeste, esta gloria é tua, não a renegues. Ao pé de ti o que será Priamo, Agamenon, Achilles? os proprios Deuses? Coragem. Livra-te de abdicações indignas; porque então a posteridade poderá dizer-te: Nero queimou Roma; mas tão pussilamine Cezar, como pussilanime poeta, negou o facto, e atirou, cobardemente, a falta por sobre os innocentes! Tal acção não honrará a tua memoria!

TIGELINO

Senhôr, dá-me licença para que sáia. Aconselham-te a lançares-te no maior perigo: tratam-te de Cezar e poeta pussilanime, de comediante... Os meus ouvidos recuzam se a ouvir mais.

PETRONIO, aparte

Cezar hesita? Estou perdido! (a Tigelino) Tigelino, a ti é que eu chamei comediante, porque o és, ainda n'este momento.

TIGELINO

Porque não posso escutar as tuas injurias?

PETRONIO

Porque figuras um grande amôr por Cezar e ainda ha pouco, ouvimo-lo todos e elle, o ameaçaste com a guarda de pretorianos.

POPPÊA

Cezar, como permittes que taes pensamentos venham a alguem e que esse alguem os diga deante de ti?

NÉRO

É assim que tu sabes reconhecer a amizade que sempre te tive?

MARCOS, aparte

Petronio perdeu-se por mim!

PETRONIO

Se me enganei, Cezar, mostra-me o meu erro; mas sabe que te disse o que me ditou a lealdade que, emfim, te devo!

POPPÊA

Renova os insultos.

TIGELINO

Punide-o, Senhôr.

VATINO

Castigai o insultadôr.

VOZES

Castigai-o! (affastam-se de Petronio)

NÉRO

Quereis que o puna? Foi sempre o meu companheiro e meu amigo! Feriu-me o coração; mas quero que elle saiba que este coração só tem para os amigos, o perdão.

PETRONIO, aparte

Conheço o teu perdão! (alto) Cezar! (inclinando-se, faz signal a Marcos, e sahem.)

POPPÊA

Quereis ouvir as testemunhas?

NERO

Que venham.

Um escravo sahe e traz dois rabinos de longas togas e mitras, um escriba e Chilon.

1.º RABINO

Salve, monarcha dos monarchas, rei dos reis!

2.º RABINO

Salve, Senhôr do mundo!

CHILON

Salve, Cezar, Leão entre os homens! tu cujo reino é semelhante á claridade do sol, ao cedro do Libano, ao balsamo de Jerichó!

NÉRO

Accusais os christãos de terem incendiado Roma?

1.º RABINO

Nós, Senhôr, só os accusamos de serem inimigos dos homens, e inimigos de Roma. De terem muita vez ameaçado a cidade e o mundo, com o fogo do céu! O resto dil-o-ha este homem, de cujos labios nunca sahiu a mentira, porque nas veias de sua mãi corria o sangue do povo escolhido!

NÉRO

Quem és, tu?

CHILON

O teu cão fiel, divino Osiris! Um pobre estoico!

NÉRO

Detesto os estoicos: o seu desprezo pela arte e a sua linguagem repugnam-me; como a sua miseria e falta d'aceio. Por isso mandei matar Musonio...

CHILON

Senhôr, eu sou um estoico por necessidade. Cobre o meu estoicismo, ó Resplandecente, com uma corôa de rozas e poê-lhe, deante, uma taça de vinho e elle cantará Anacréonte!

NÉRO

Gosto de ti.

TIGELINO

Vale quanto peza.

NÉRO

Que sabes dos christãos?

CHILON

Permittir-me-has que chore, divino Cezar?

NÉRO

Não. Aborrecem-me as lagrimas.

CHILON

E terás, cem vezes, razão; porque os olhos que te viram uma vez, não devem chorar nunca.

NÉRO

Falla dos christãos.

CHILON

Ouve, divino Isis! De creança me dediquei á filosofia e procurei a verdade. Procurei-a na academia de Athenas e na de Alexandria. Tendo ouvido fallar da doutrina dos christãos, julguei que fosse uma escola onde achasse algumas parcellas da verdade. Relacionei-me com elles e, por minha desgraça, o primeiro que conheci foi um tal Glaucos, medico de Napoles. Sube por elle, que adoravam um certo Christo que promettera exterminar os homens e aniquilar todas as cidades da Terra. Por isso odeiam os homens, envenenam as fontes e em suas assembléas cobrem de improperios os templos onde adoramos os nossos Deuses. Christo foi crucificado, mas prometeu-lhes que no dia em que Roma fosse destruida, voltaria á terra, a dar-lhes o reino promettido.

NÉRO

Então é a occasião.

POPPÊA

O povo comprehenderá porque Roma foi queimada.

CHILON

Muitos o sabem já, divina Augusta! N'isso se falla nos Jardins, no Campo de Marte, a toda a hora. O povo levanta-se, sedento de vingança! Essa vingança será a minha.

NERO

Porquê?

CHILON

Ouvide, divino Cezar! Glaucos, o medico, não me ensinava que a doutrina christã ordenasse que se odiassem os homens; pelo contrario dizia que esse Christo era uma bôa divindade e que a base da sua doutrina era o amôr. Amei Glaucos e tanto d'elle confiei que com elle partilhava o meu pão e o meu dinheiro. Um dia, entre Napoles e Roma, deu-me uma punhalada e vendeu-me a mulher, a minha Berenice, tão formosa e tão bella! a um mercadôr de escravos!

POPPÊA

Pobre homem.

CHILON

Chegado a Roma procurei os seus chefes para obter justiça contra Glaucos. Nada obtive; mas fiquei conhecendo o apostolo Pedro, o apostolo Paulo, o filho do Zebedeu, Crispo e muitos outros. Sei onde habitavam, antes do incendio e onde se reunem. Posso indicar o subterraneo do Vaticano e o Cemiterio d'Ostrianum. N'este, ouvi pregar o apostolo Paulo. Vi Glaucos degolar creanças para que o apostolo derramasse o sangue sobre a cabeça dos neophitos e ouvi Lygia, a filha adoptiva dos Plaucios, gabar-se de ter enfiteiçado a tua filha, divina Osiris! e a tua, ó Isis, a pequenina Augusta!

POPPÊA

Cezar, vinga a nossa filha! Ouves, Cezar?

NÉRO

Por Hercules!

CHILON

Ouvindo isto quiz apunhala-la. Impediu-m'o o nobre consul Marcos Vinicio que estava ao seu lado e que a ama!

NÉRO

Quem?

CHILON

O consul Marcos Vinicio.

NÉRO

É christão? Oh! a tragedia degenera em farça!

CHILON

Senhôr, pela luz que vêm de ti, te juro que o é. Como o é Pomponia, o pequeno Aulo, Lygia, Ursus, Lino e milhares d'outros, cujos templos secretos posso indicar! As vossas prisões não chegarão para os conter!

POPPÊA

Cezar, vinga a nossa filha. Ordemna.

CHILON

E, appressai vos, aliás, o consul Marcos Vinicio terá tempo de a esconder. Sahiu correndo... dir-vos-hei a caza...

TIGELINO

Dou-te dez homens. Vai lá immediatamente.

CHILON

Dez homens... com Ursus lá dentro... nem de longe!

NÉRO

Tigelino, entrego-t'os.

POPPÊA

E, nossa filha, Cezar?

NÉRO

Por todos os Deuses que será vingada! Oh, os christãos! não deixarei um sobre a face de Terra! Os leões de Numidia e os tigres de Hircania terão o mais lauto banquete de que ha memoria, na historia do mundo!

UM ESCRAVO, entra appressado

Cezar, um velho que se diz ex-centurião da Judêa pede para te fallar.

NÉRO

Que quer?

ESCRAVO

Não o disse. Quer fallar a Cezar...

NÉRO

Entre quem seja.

PAULO, entra, com ar rude

És tu o Cezar?

NÉRO

Creio que sou. E, tú, quem és?

PAULO

Paulo de Tarso!

NÉRO

Não conheço; mas falla... Estou hoje de bom humôr... Vens da Judêa?

PAULO

Lá estive, pela segunda vez, depois de percorrer a Lygia, a Cilicia e a Galacia. Depois de ter fundado a egreja de Thessaloníca e de ter prégado em Athenas e em Corintho.

NÉRO

Prégado, o quê?

PAULO

A religião de Christo, nosso Senhôr, meu e teu!

NÉRO

És christão? É o primeiro que vejo...

PAULO

Pela graça de Deus.

NÉRO

Qual Deus?

PAULO

O unico que ha. Que está no céu! e que um dia desceu á Terra e morreu pelos nossos pecados e pela nossa remissão!

NÉRO

Tambem por mim?

PAULO

Por todos.

NÉRO

Ignorava que devia esse favor a teu Deus! Séneca nunca me fallou d'essa divindade! Encarrego-te de lhe agradeceres por mim!

PAULO

O meu Deus é superior ás tuas zombarias...

NÉRO

Mas o que queres, tu, afinal, com o teu Deus? É para me fallares d'elle que aqui vieste?

PAULO

Em seu nome.

NÉRO

És christão. Vens pedir o perdão para ti e para os teus?

PAULO

De quê?

NÉRO

Do seu crime.

PAULO

Qual crime?

NÉRO

O de terem incendiado Roma.

PAULO

Gritam isso nas praças, vós o espalhastes! A plebe miseravel, sedenta de sangue, pede para elles o circo e a fogueira!

NÉRO

E tel-a hão.

PAULO

Porquê?

NÉRO

Porque fôram elles...

PAULO

Que...

NÉRO

... Incendiaram a cidade.

PAULO

Néro, Imperadôr dos Romanos, Rei do mundo, Cezar augusto... mentes! (Vai a lançar-se a elle)

NÉRO

Deixai. Velho, tu és um doido por fôrça.

PAULO

Chamo-me Paulo e sou apostolo de Christo!

NÉRO

É poderoso o teu Deus. Só assim...

PAULO

Tu o vês. Tu és Cezar, cercado dos teus, defendido pela tua guarda pretoriana, tendo ao teu dispôr, dezenas de legiões: eu sou Paulo, um velho cujas pernas tremem no andar, cujos braços oscilam quando ora, e eu faço, pelo meu Deus,—o que tu não serias capaz de fazer pelos teus falsos Deuses—rio-me de ti, de teu poder, porque elle não alcança mais do que até á morte!

TIGELINO

É o maior alcance.

PAULO

Não é nenhum. A vida da terra é transitoria e mesquinha: só é grande a que vem depois da morte: infinita, eterna!

NÉRO

Quem t'a garantiu?

PAULO

O meu Deus; que eu vi morrer na Cruz, no Calvario, ao pé de Jerusalem, para nol-a dar em troca! O que prégou a egualdade na Terra, o que amaldiçoou o despota e levantou o escravo; o que prégou o desprezo da carne e santificou a alma! O que condemnou, ó Romanos, a vossa luxuria tôrpe, a vossa prostituição feita de todas as abominações e infamias! O Deus dos Christãos! Aquelle que fez com que eu, o mais humilde dos seus pastores, vos fale como se fôra o vosso imperador e elle... o verdadeiro, pense...

NÉRO

No supplicio a inventar de que sejas digno, divino apostolo!

PAULO

Todos me agradam, Nero. Desde o harpão dos teus gladiadores, até aos dentes das tuas feras! Está assente para mim... agradeço-te! Mas ha uma legião de pobres que nunca te fizeram mal; que vivem felizes na humildade das suas crenças com o seu Deus e que, como elle ensinou, dão a Cezar o que é de Cezar e a Christo o que é de Christo! Nunca perturbaram os teus prazeres, nunca disputaram o teu poder, nunca insultaram publicamente os teus affectos, nem tentaram contra a tua vida ou a dos teus. Innocentes d'um crime de que os accusam, só podem defender-se, morrendo! São fracos, humildes, ignorados! Não carregues a tua memoria com crimes inuteis; porque, em verdade te digo, que se o fizeres terás de responder por elles...

NÉRO

Ante quem?

PAULO

Ante o nosso pae, que está no céu!

NÉRO

Cala-te.

PAULO

Cezar, disse!

NÉRO

De mais. Tigelino mette-me na cadeia esse apostolo, esse pastor, a vêr se o tal poderoso Deus o tira de lá. (A Paulo) E, quanto ás tuas ovelhas, prepara-te para vêres, no Circo, como os leões lhes tosquiam a lã.

PAULO

Não ha piedade na tua alma, Cezar?

NÉRO, ironico

Não sou um Deus...

PAULO

Não. Ha um, só! E, em nome d'elle, eu te amaldiçôo! Assassino de tua mãe e de tua irmã! Anti-Christo! O abysmo abre-se a teus pés! a morte vae empolgar-te! o tumulo abre a guella para te engulir! Amaldiçôo-te, cadaver vivo! porque morrerás no espanto e no terrôr! e serás condemnado por todos os seculos dos seculos sem fim! (Agarram-no) Maldito sejas, assassino! incendiario! matricida!

TIGELINO, vae a matal-o com o estylete

Cala-te, velho!

NÉRO

Tem audacia, por Jupiter! Guarda-m'o para o circo, quero vêr como é feito, por dentro, um apostolo christão!

(Os escravos levam-no, arrastado)

Emfim, consegui distrahir-me, hoje. Vamos jantar.

Dá o braço a Poppêa. Vão sahindo.

O PANNO DESCE