QUADRO QUARTO
Salão no palacio de Néro. Ao fundo um terraço d'onde se vê Roma. Mezas, cadeiras. Anoitece, gradualmente, durante o acto.
PETRONIO, a Marcos que vai a passar ao fundo
Dou graças aos Deuses, nobre consul, por te saber ainda vivo.
MARCOS
Ah! Petronio.
PETRONIO
Nem me vias. D'onde te desenterraste? Em tua caza, em parte alguma se sabia onde estavas. Alguma Deusa te raptou para a sua morada?
MARCOS
Talvez.
PETRONIO
Mas tu estás mal, meu sobrinho, muito mal. É evidente que Vénus te perturbou o espirito e te faz perder a razão! Por Pollux, se a chama que te consome te não reduz a cinzas, tu metamorfoseias-te n'aquella esphinge do Egypto, que dizem que perdida d'amôr pela Lua, se tornou indifferente ao dia, de modo a só esperar a noite, para poder com os olhos de pedra, namorar a amante!
MARCOS
Oxalá me transformasse em esphinge!
PETRONIO
... Se não sou eu, na ultima vez que nos vimos, na festa do lago, ou tinhas de transformar-te em esfinge... ou eras um homem perdido.
MARCOS
Como assim?
PETRONIO
Quem era a mulher que, no bosque de Diana, te queria levar para entre as sombras?
MARCOS
A mulher mascarada?
PETRONIO
Sim.
MARCOS
Não sube, nem quiz.
PETRONIO
Era Poppêa.
MARCOS
Heim?
PETRONIO
Chamei-te a tempo. Ella fugiu. Se n'esse momento lhe negas o amôr, que era feito de ti?
MARCOS
Tel-o-hia recuzado.
PETRONIO
Evitei essa asneira a tempo; mas a hesitação que mostraste, valeu-te o seu odio. As mulheres não perdôam, nunca, essas coisas... e então Poppêa...! Acautela-te.
MARCOS
Desprezo-a.
PETRONIO
A pequena Augusta morreu...
MARCOS
Que me importa?
PETRONIO
A morte atribue-se aos feitiços de Lygia.
MARCOS
Imbecís!
PETRONIO
E, a proposito... Lygia?
MARCOS
Tu não calculas, Petronio, o que me tem acontecido.
PETRONIO
Mas diz. Tens-me causado sustos. Sabes que te quero...
MARCOS
N'essa noite... a do Lago, quando cheguei a caza esperava-me Chilon.
PETRONIO
O filosofo?
MARCOS
O tal. Sabia de Lygia, vinha propôr-me o raptal-a. Concordei. Fomos, eu, elle e Croton, o gladiadôr, embuçados, ao Ostrianum, o velho cemiterio, á sahida da porta Capuana. Alli se reunem escondidamente os Christãos e lá ouvi Paulo, o apostolo, pela primeira vez. Lygia estava junto d'elle, envolta n'um manto escuro, embebida, a ouvil-o, n'uma allucinação de todo o seu sêr, arrebatada, divina! Se tivesses visto a sua figura d'uma belleza ideal...
PETRONIO
Adiante.
MARCOS
Todo o meu amôr renasceu com a furia d'um toiro das Hespanhas. Jurei tel-a. Alli, era perigoso: os christãos eram alguns centos. Seguimo-la até a caza, á sahida. Uma velha caza, no bairro do Transtiberino. Entrou n'um pateo com o velho apostolo e esse Ursus, o escravo gigante, que a não larga, nunca. Escondemo-nos n'um corredôr á espera de occasião propicia, eu e Croton, porque o filosofo não sendo capaz de entrar... ficou de vigia, na rua. Ursus veio buscar agua á cisterna do pateo. Era occasião: virei-me para Croton e disse-lhe: matta. O gladiadôr atirou-se ao escravo como um tigre; eu corri pelo corredôr, empurrei a porta entreaberta, agarrei Lygia ao collo e corri para fóra. Desmaiára.
PETRONIO
Bello grupo dariam para um rapto.
MARCOS
Ao chegar ao pateo eis o que eu vi. Ursus dominava Croton vergado sobre um joelho, apertando-lhe, com uma das mãos, o pescoço. O gladiadôr tinha um estertôr na garganta, os olhos sahiam-lhe das orbitas! Ao vêr-me, Ursus, applicou sobre o peito de Croton um murro tal que este rolou pelo chão, de bôcca aberta, jorrando sangue. Estava morto!
PETRONIO
Por Hercules, que esse homem merece uma estatua.
MARCOS
De chofre, voltou-se para mim, agarrou-me este braço e partiu-m'o.
PETRONIO
Depois?
MARCOS
Não me lembra senão d'uma voz, feita de todos os sons das citharas, dizer: Ursus, não mates! Quando acordei estava n'uma cama e vigiava-me uma pobre viuva, um filho e... ella!
PETRONIO
E foi ella quem te tractou?
MARCOS
Tratou-me um medico; mas salvou-me, ella! Que cuidados, que dedicação, dias e noites! Contando mesmo as horas dolorosas da doença, passei, alli, os melhores dias da minha vida. O apostolo, contava toda a vida e morte de Cristo, seus milagres e douctrina. Vi os mais bellos exemplos de caridade, de amôr e de perdão! Se tu o ouvisses!
PETRONIO
Não me faltava mais nada! O que faz o amôr! Começavas a achar essa religião adoravel, porque era a de Lygia.
MARCOS
Talvez.
PETRONIO
É assim. O amôr transforma as pessôas completamente, opiniões e gostos. Como a mim me está acontecendo. D'antes só gostava do perfume da verbena; lembras-te? Hoje, como a bella Eunice prefere o das violetas, é d'este que eu gosto mais.
MARCOS
Eunice?
PETRONIO
Sim, Eunice. Ah! tu não sabias ainda... Tenho que te agradecer aquella recuza... É uma maravilha de esthetica, a loira Eunice! Uma obra de Praxiteles...!
MARCOS
E a tua Chrisotémis?
PETRONIO
Mandei-lhe umas sandalias bordadas a perolas... É como quem diz: vai passeiar. É o meu processo; ellas já sabem. Chrisotémis, francamente, era contemporanea da guerra de Troia. E, afinal, melhoraste, sahiste... e o que é feito da tua Lygia?
MARCOS
Fugiu-me.
PETRONIO
Outra vez?
MARCOS
No dia em que me levantei, ella sahiu.
PETRONIO
Tinha mêdo de ti?
MARCOS
Tinha mêdo de si, propria.
PETRONIO
É extraordinario!
MARCOS
Dizes bem. Ella não é como as outras mulheres!
PETRONIO
Ah! não? Então não perdes nada com a abstinencia.
MARCOS
Não podemos entender-nos.
PETRONIO
Decerto, não. Que o Hades confunda esses christãos que te fazem perder o senso commum.
MARCOS
Tu não conheces a sua doutrina.
PETRONIO
Enganas-te, conheço. Já li as taes cartas de Paulo de Tarso. Babozeiras. É uma doutrina anti-humana: porque a felicidade só vem da belleza, do amôr, e da força! A isto, chama elle, vaidades! E que theorias! Retribuir o mal com o bem... Que justiça! O que devemos ao bem? Se a sanção é a mesma para o bem e para o mal, porque seriam os homens bons?
MARCOS
Segundo elles a sanção começa na vida futura, eterna.
PETRONIO
Isso são coisas a verificar... depois da morte.
MARCOS
A vida para elles começa com a morte.
PETRONIO
É natural. É como se se dissesse: o dia começa com a noite! Vais raptar Lygia outra vez?
MARCOS
Não. Prometti-o.
PETRONIO
Tens tenção de adoptar a doutrina christã?
MARCOS
Querel-o-hia; mas toda a minha natureza se oppõe.
PETRONIO
Emfim, és capaz de esquecer Lygia?
MARCOS
Nunca!
PETRONIO
Então vai... viajar. (entram escravos com amphoras e taças que collocam nas mezas do 1.º salão e nas da varanda) Vem Cezar. O que vieste fazer?
MARCOS
Cezar mandou-me convidar para a leitura da Tróiada.
PETRONIO
Tambem? E... se elle te perguntar por Lygia?
MARCOS
Não sei...
PETRONIO
Dize-lhe... que a tens guardada... que esta ausencia... foi a lua de mel.
Entra Cezar, Poppêa, Tigelino, Vitelio, Senecion, Vatino etc. escravos. Poppêa sobe para o terraço, com outras damas, onde bebem. Os éphebos galanteiam, etc.
NÉRO, aborrecidissimo
Salve, Petronio. Inda bem que chegaste. Creio que vou morrer de tédio, de aborrecimento! A minha viagem á Grecia, adiada!
PETRONIO
Porquê?
NÉRO
Vesta, a propria Deusa, me avisou, no templo. Venho agora de lá. Tão ao ouvido me disse: addia a viagem, que me assustou.
TIGELINO
Ficámos todos aterrados. A vestal Rubria desmaiou.
NERO
Que linda garganta que tem Rubria! Que branca! (bebe) Eu precizo distrahir-me. Vinheis ouvir o poema! Não posso lêr! Nem cantar! Nem tenho paciencia. Não posso ficar em Roma, irei para Ancio. Abafo, n'estes bairros apertados, no meio de cazas que se desmuronam, de ruellas immundas. Um ar empestado chega até aos jardins, chega até aqui! Porque não houve, nunca, um tremôr de terra que destruisse Roma? Se um Deus, na sua colera, a nivelasse com a terra, eu ensinaria como se edificava uma cidade para capital do mundo!
TIGELINO
Não dizes, tu, Cezar: se um Deus destruisse a cidade?
NÉRO
Sim e então?
TIGELINO
Não és, tu, um Deus?
SENECION
Podes fazel-o.
VATINO
Fal-o.
NÉRO
...Não lerei o meu poema! O meu incendio de Troia flameja timidamente! Julgava que egualaria Homero e tinha ficado contente.
PETRONIO
Não o egualaste?
NÉRO
Não...! Um esculptor quando por esculpir a estatua de um Deus, escolhe um modêlo. Nunca vi arder uma cidade, não o posso pintar.
PETRONIO
Mas tens genio para tanto se o quizeres fazer, Cezar. Aposto que os teus versos...
NÉRO
Não, não. Responde-me a uma questão, Petronio. Tens pena que tenha ardido Troia?
PETRONIO
Pena de quê? Por Marte, pelo contrario. Tróia não teria ardido sem o fôgo dado por Prometheu aos homens e sem os gregos terem declarado a guerra a Priamo. D'ahi veio que Eschylo escreveu o seu Prometheo e Homero a Illiada. Quero mais a estes dois poemas do que á tal Troia, provavelmente uma villoria de cazas de madeira, velhas e sujas!
NÉRO
Eis o que é fallar com tino. Á poesia e á arte tem-se obrigação de sacrificar, tudo. Felizes os Gregos que deram a Homero o assumpto do seu poêma! Feliz Priamo que viu as ruinas da sua patria!... Eu nunca vi uma cidade em chamas!
Silencio geral de receio.
VITELIO, avinhado
Nem eu!; mas se fosse Cezar e a quizesse vêr, via-a!
TIGELINO
Era facil.
PITAGORAS
Poppêa e as damas, Cezar, pedem-te para vires cantar.
PETRONIO
Aproxima-se a noite, o sol agoniza, a tarde é bella, o ar cheio de perfumes dos jardins. Á natureza só falta um cantico...
MARCOS
O teu, Cezar!
NÉRO
É cêdo ainda. (olha para Tigelino, misteriosamente) É cêdo, ainda.
VITELIO
Eu adoro a musica.
PETRONIO
Das taças.
NÉRO
Dize-me, Petronio, que pensas tu da musica?
PETRONIO
A tua, sobretudo, quando a oiço, faz-me sentir um mundo de prazeres novos. A musica é um mar, onde á onda succede a onda, á agua, agua sem fim, até... ao infinito...! e é sempre impossivel vêr a outra margem.
NÉRO
É assim que eu penso da musica. Quando canto e tóco, eu, Cezar, senhôr do Mundo, descubro reinos desconhecidos, mares virgens, mundos nunca sonhados! Vejo os Deuses! subo ao Olimpo! Um sôpro estranho passa, a esphera vibra em roda de mim e dir-te-hei (leva Petronio, pelo braço, para o lado) que eu, Cezar e Deus (muito baixo) me sinto tão pequeno como um grão d'areia!
PETRONIO
Só os grandes artistas se sentem pequenos deante da belleza!
NÉRO
Morro de aborrecimento, aqui! Ouve: imaginas que sou cégo ou idiota? Pensas que não sei que por essa Roma pregam, todos os dias, inscripções injuriosas, pelas esquinas? que me chamam matricida, assassino de meu irmão, e de minha mulher? Que me chamam algoz, porque tenho morto a meus inimigos?... Um homem bom póde ser cruel?
PETRONIO
Póde.
NÉRO
Eis o meu caso. Quando a musica acalenta a minh'a alma, eu sinto-me tão bom como uma creança no bêrço.
PETRONIO
Os Romanos nunca vos souberam apreciar.
NÉRO
Os Romanos! Como eu odeio os Romanos! (Vai á meza beber. Anoitece mais) Tigelino?
VITELIO
Sahiu. Disse que ia mandar accender as lampadas.
NERO
Ah! sim... Escurece.
PITAGORAS
Cezar, o cantico? (ao fundo)
CEZAR
Ainda é cêdo... (Desce a Petronio) Sou em tudo um artista. A musica abre-me as portas d'uma prespectiva indizivel; devo aos Deuses o explorar esse infinito! Para ascender ás regiões olimpicas não será precizo, primeiro, praticar algum prodigioso acto propiciatorio?
PETRONIO
Não te entendo, Cezar.
NÉRO, baixo
Para abrir as portas do mundo desconhecido, eu quiz fazer o maior sacrificio que pode fazer um homem: minha mulher... minha mãi... foi para isso que ellas morreram! Mas é precizo um sacrificio ainda maior para abrir as portas do Olimpo! Cumpra-se a vontade dos Oraculos!
PETRONIO
...Qual é o teu projecto?
NÉRO
Vais vêr... de aqui a pouco. (sobe)
PETRONIO, aparte
Extranho-o.
NÉRO, bebe e desce
Mas, antes, vê bem que ha dois Néros: um o que os homens conhecem; o outro o que só tu conheces: o que mata como a Morte e o que delira como Bacho! E, mata, porque odeia a baixeza, tudo o que é vil e lhe repugna tudo o que não merece a vida! E mata e elimina!... Como a vida será pequena quando eu desapparecer!
PETRONIO
Comprehendo o teu coração e as tuas máguas!
NÉRO
Como o meu coração é, por vezes, negro! Como este mundo e esta terra são pequenos, mesquinhos, para mim! Mas, quanto eu puder, aniquilarei esta vida, e esmagarei este mundo!
(Subito Roma apparece incendiada por diversos lados. Ouve-se ruido ao longe. Pitagoras, desce)
PITAGORAS
Cezar, Roma está a arder!
PETRONIO
Quê?
TODOS, levantando-se e olhando
A ardêr?
NÉRO
Ó Deuses immortaes!... eu vos dos dou graças!.. Posso em fim vêr uma grande cidade em chammas! Posso acabar o meu canto!
VOZES, do fundo
Cezar? Cezar?
NÉRO
Ah! É agora o momento. A minha cithara? (Sobe)
UM CENTURIÃO, entrando rapido
Divino imperador?
NÉRO
Quê?
CENTURIÃO
A cidade é um oceano de chamas! Os homens cahem asfixiados! O terrôr enloquece!
NÉRO
É a vontade dos Deuses! A minha cithara? (Trazem-lh'a. Terpnos, Diodoro e os musicos correm) Ó Deuses, que espectaculo sublime! Graças, por poder vêr, como Priamo, o incendio de minha patria! Agora, vou cantar! (sobe)
MARCOS
Centurião, sabes tu se o bairro do Transtevero, foi invadido, já?
CENTURIÃO
Todo, Senhôr. Foi o primeiro.
MARCOS
Maldicção! Se ella morreu... (sahe, doido)
(O incendio generalisa-se. De todos os lados do palacio corre gente para o terraço. Néro sobe os degráus e de cithara em punho, acompanhado, canta)
NÉRO
Berço de meus pais,
Roma divina!
Quanto eras cara
Á minh'alma!...
O ruido, ao longe, cresce. Ouvem-se os rugidos das féras. O panno desce.
FIM DO SEGUNDO ACTO