QUADRO TERCEIRO

Caza de Vinicio. O tablium ornado com flôres. Perfumadôres no chão.

PETRONIO

Estavas bebedo, hontem. Não gostei de te vêr. Andaste como um carroceiro dos montes Albanos. Não sejas nunca tão sôfrego. Lembra-te que um bom vinho deve ser bebido lentamente. Porque escravo a mandaste buscar?

MARCOS

Por Altacino.

PETRONIO

É de confiança?

MARCOS

Da maior. (passeia agitadíssimo) Que demora!

PETRONIO

E, faze por lhe alcançares as bôas graças. Pôe-na de bom humôr, para lhe destruires o máu effeito das brutalidades de hontem.

MARCOS

Que demora!

PETRONIO

Sê generoso, que ella merece-o. É bella! Sê magnanimo!

MARCOS

Deviam, cá estar, ha meia hora.

PETRONIO

De certo. Queres tu, para matar o tempo, que te falle das prophecias de Appolonio de Tyana, ou das maximas de Aristóteles, meu mestre, o estheta maximo?

MARCOS

Não... Deviam já ter chegado.

PETRONIO

Está dito... Deviam já ter chegado.

MARCOS

Malditos escravos. Teem as pernas ankilosadas por falta de exercicio. Terei de os fazer correr diante das varas.

PETRONIO

Elles não são o amante que espera. Tu não tens paciencia, nem serenidade. É precizo ser distincto, sempre! E, depois, não se traz assim uma princeza, uma filha do rei da Lygia.

MARCOS

Tu zombas?... se fôsse comtigo!

PETRONIO

Agradeceria aos Deuses o fazer-me prelibar, mais amplamente, uma posse divina.

MARCOS

A demora não é natural... Eu vou vêr...

PETRONIO

Não percas a tua bella linha esthetica. Espera; não sejas vulgar. (ouve-se ruido) Tanto mais, que me parece que chegam. (o ruido augmenta. Á porta apparecem quatro escravos. Dois d'elles com os rostos ensanguentados)

MARCOS

Onde está Lygia?

OS ESCRAVOS

Ai, Senhôr!; ai, Senhôr!

MARCOS

Onde está Lygia? (avança furioso)

OS ESCRAVOS

Vê o sangue, Senhor! Vê o sangue!

UM ESCRAVO

Defendêmo-la, até á ultima.

MARCOS

Que é d'ella?

UM ESCRAVO

Raptaram-na!

MARCOS

Ah! miseravel. (atira-lhe uma taça á cabeça) Gulon?

GULON, apparece

Senhôr.

MARCOS

Cem varadas a cada um.

OS ESCRAVOS

Senhôr, piedade!

MARCOS

Até a morte! (os escravos sahem, em grita, adiante de Gulon)

PETRONIO

Está doido! Vamos ter carnificina. Repugnam-me os talhos. Vale. (sahe)

MARCOS, postrado, senta-se

Mas quem poderia roubar-ma? Quem? Plaucio? Ai d'elle, se o foi! Ai d'elle!... Pedirei a Cezar a sua morte!... E, se foi Cezar? Pelas furias! se foi Néro n'uma das suas nocturnas «pescas de Perolas,» como elle lhes chama?! E, quem podia ser senão, elle, Néro? Quem ousaria oppôr-se á sua vontade? Viu-a hontem, apeteceu-lhe... roubou-ma! Cezar diverte-se comigo! Por Écate, por Érebo, por vós ó Deuses do lar, (toma terra n'um vaso e espalha-a pelo o chão) juro que quem quer que foi, escravo ou imperadôr, mendigo ou Cezar, mato o! (ao introductor, que apparece) O meu manto.

O INTRODUCTOR

Actêa deseja fallar-vos.

MARCOS

Actêa? Em bôa hora. Venha. (A Actêa, que entra, agarrando-lhes as mãos) Onde está Lygia?

ACTÊA

Vinha perguntar-t'o.

MARCOS

Não sei; roubaram-ma no caminho. (junto do rosto d'Actêa, com os dentes cerrados) Actêa, se tens amôr á vida, se não queres ser causa de desgraças, cujo alcance nem podes conhecer, diz-me a verdade: foi Cezar quem m'a robou?

ACTÊA

Cezar não sahiu hontem do palacio.

MARCOS

Pela memoria de tua mãi, por todos os Deuses, Lygia não está no Palatino?

ACTÊA

Pela memoria de minha mãi, Lygia não está no Palatino, nem foi Cezar quem t'a robou.

MARCOS, cahindo na cadeira, com a cabeça nos punhos

Então foram os Plaucios! Ai d'elles!

ACTÊA

Aulo Plaucio procurou-me, hoje, a saber de Lygia.

MARCOS

Hypocrisia! Se não soubesse d'ella ter-me-hia procurado a mim.

ACTÊA

Tambem procurou.

MARCOS

A mim?

ACTÊA

De manhã.

MARCOS

Não o vi, nem me fallou.

ACTÊA

Os teus servos contaram-lhe o acontecido. (Pausa) Não, Marcos, o que aconteceu, aconteceu por vontade de Lygia.

MARCOS

Tu sabias que ella queria fugir?

ACTÊA

Sabia que ella não consentiria em ser tua concubina!

MARCOS

E... tu? que tens sido toda a tua vida?

ACTÊA

Eu?... És pouco generoso! Eu era uma escrava!

MARCOS

Seja como fôr. Cezar deu-ma! Descobril-a-hei nem que seja debaixo da terra. Farei d'ella o que eu quizer! A minha concubina... porque não? A minha concubina! Nem que seja precizo chicoteal-a, de dia e de noite! Dal-a-hei, ao ultimo dos meus escravos! Mandal-a-hei atrelar a um moinho da costa d'Africa. Procural-a-hei, eu. Procural-a-ha Cezar, inda que seja precizo empregar todas as legiões.

ACTÊA

Tu deliras...! Tem cautella em não metter Cezar, na busca, porque te arriscas a perdel-a para sempre, no dia em que elle a achar.

MARCOS

Como?

ACTÊA

Ouve, Marcos. Hontem, antes de jantar levei Lygia, para a distrahir, a passeiar nos jardins. Encontrámos Poppêa e a pequena Augusta, sua filha e filha querida de Néro, nos braços da ama negra. Á tarde a creança cahiu doente e Lilith, a ama, diz que foi a estrangeira que a enfeitiçou! Se a creança melhora, tudo esquecerá: se peóra Poppêa será a primeira a accusar Lygia de feiticeria e, encontrada, não terá salvação!

MARCOS

Talvez que ella enfeitiçasse a creança... e a mim tambem!

ACTÊA

A negra diz que a pequenita se pôz a chorar logo que passou por nós. É certo, ouvi. Mera coincidencia. Procura-a; mas antes das melhoras da creança não falles de Lygia. Seus olhos choraram, bastante, de mais... por ti!

MARCOS

Por mim? Disse-t'o ella?

ACTÊA

Eu o vi. As suas lagrimas eram sinceras e a sua dôr sentida. Como velei por ella no palacio de Cezar, quiz valer-lhe, se pudesse, ainda, junto de ti.

MARCOS

Como?

ACTÊA

Invocando a tua generosidade para ella.

MARCOS

Zombas de mim: se não sei onde pára...

ACTÊA

Ainda o podes saber: deixa-a em paz.

MARCOS

Não posso.

ACTÊA

Desposa-a.

MARCOS

Nunca!

ACTÊA

Não é uma escrava, é um refem de guerra: os refens são sagrados.

MARCOS

Concorreste, já vejo, para o rapto?

ACTÊA

Talvez.

MARCOS

Contra, Cezar.

ACTÊA

Não; contra ti.

MARCOS

E, dás-lhe razão?

ACTÊA

Defendo-a.

MARCOS

Tu ama-la?

ACTÊA

Quanto ella merece.

MARCOS

Porque te não paga, como a mim, o amôr com o desprêzo.

ACTÊA

Homem cégo, ella amava-te.

MARCOS

A mim? Que amôr é esse que prefere a vida errante, a indigencia do dia seguinte e talvez uma morte miseravel, a uma vida de riquezas e de alegria? Que amôr é esse, que tem mêdo do prazer e sêde dos sofrimentos? É que ella me odeia, do coração!

ACTÊA

Como imaginaste captival-a? Em vez de te inclinares diante dos seus pais adoptivos, os Plaucios, e de lh'a pedires para esposa, por surpreza, roubaste lh'a. Era a filha d'um rei, quizeste fazer d'ella a tua concubina! Feriste-lhe os olhos inocentes com o espectaculo da orgia, sem comprehenderes que aquella creança candida preferiria a morte á deshonra! Sabes tu quaes são as suas crenças? sabes que Deus adora? e se esse Deus não é melhor do que essa Vénus impudíca e essa Isis que os Romanos veneram, no seu impudôr? Que te importou tudo isto? A pobre creança, quando fallava de ti, córava: amava-te! Como lhe pagaste a aspiração pura do primeiro amôr? Enchendo-a de espanto, tratando-a como a uma escrava, insultando-a!

MARCOS

Eu não a insultei!

ACTÊA ironica

Generoso senhôr... vilmente! Venceste os Parthas, tu? Que é agora um coração de mulher para um famoso guerreiro? Enganaste-te: é mais facil vencer os barbaros. Amava-te; é possivel que te despreze, agora!

MARCOS

Que me importa? Amo-a eu; quero-a, hei-de tel-a.

ACTÊA

Se ella te não amar, essa satisfação deve ser bem mesquinha. O amôr de dois é um misterio divino: o de um só: uma torpeza! Nobre consul, adeus!

PETRONIO, entrando: a Actêa que vae a sahir

Salve, divina Actêa.

ACTÊA

Salve, galante Petronio.

PETRONIO

Dou-vos graças pela bondade com que tratastes Lygia.

ACTÊA

Fiz o meu dever. Ella tem a candura d'uma virgem e a graça das pombas...

PETRONIO

Que vôam.

ACTÊA

Officio de quem tem azas. Adeus. (sahe)

PETRONIO

Sabes alguma coisa de Lygia? Actêa a que veio?

MARCOS

Saber d'ella... Não sahiu da cidade. Os meus escravos vigiam as portas. Ella ou o tal gigante, hão-de apparecer.

PETRONIO

Tens sorte em que não seja Cezar o raptadôr. Trago-te uma boa nova.

MARCOS

Qual?

PETRONIO

Eunice, a minha escrava,—desde hontem que reparo que é verdadeiramente bella!—conhece um homem capaz de a descobrir.

MARCOS

Quem é?

PETRONIO

Um tal Chilon, médico, sabio, feiticeiro, ou o que é, que lê o destino e prediz o futuro. Mandei-o chamar e trago-t'o. Queres fallar-lhe?

MARCOS

Que venha.

Petronio faz signal para dentro. Chilon entra. É um corcovado, tunica no fio, esburacada, barba e cabelleira intonsas. Sandalias velhas, etc.

CHILON

Salve, senhores nobilissimos!

MARCOS

Aproxima-te. Sabes bem do que queres encarregar-te?

CHILON

Pelo o que em toda a Roma se falla, não é difficil de adivinhar. Roubaram aos teus escravos, nobre senhôr, Lygia, ou Calina, filha adoptiva dos Plaucios. Encarrego me de t'a descobrir, na cidade ou fóra, onde estiver.

MARCOS

Que meios tens para isso?

CHILON

Os meios tens, tu, senhôr. Eu só possúo o genio.

PETRONIO

É homem para a descobrir.

MARCOS

Previno-te de que se me enganas para me apanhares dinheiro, mando-te desfazer com varadas.

CHILON

Eu sou um pobre filosofo, senhôr, e um filosofo não pode deixar de pensar na recompensa, sobretudo quando ella pode sêr da especie que acabais de me fazer entrevêr, tão magnanimamente!

PETRONIO

Então és filosofo?; mas Eunice disse-me que eras médico ou adivinho. D'onde a conheces?

CHILON

Veio consultar-me. A minha fama chegou até ella.

PETRONIO

Sobre quê?

CHILON

Materia d'amôr. Queria curar-se d'um amôr, não partilhado.

PETRONIO

E, curaste-a?

CHILON

Fiz mais. Dei-lhe um amuleto que faz nascer o amôr reciproco: um fio do cinto da Vénus de Chypre.

PETRONIO

De que escola és tu, divino sabio?

CHILON

Senhôr, pelo meu manto em escumadeira, sou um cynico: um estoico, pela paciencia com que soffro a minha miseria: e, porque, como não tenho liteira, tenho de andar a pé, de taberna em taberna, a dar lições aos que me pagam o vinho, sou um peripathetico.

PETRONIO

Gostas de vinho?

CHILON

Heraclito disse que o vinho era fôgo e que o fôgo era uma divindade!

PETRONIO

Deante da qual o teu nariz se illumina.

MARCOS

Já te tens empregado em cargos semelhantes?

CHILON

Hoje, senhôr, a virtude e a sabedoria teem tão pouco valôr, que um pobre filosofo se vê forçado a lançar mão de todos os meios de existencia!

MARCOS

Quaes são os teus?

CHILON

Saber tudo o que se passa e offerecer os meus serviços a quem preciza d'elles.

PETRONIO

E pagas-te?

CHILON

Conforme os meus meritos. Que remedio!

MARCOS

Não devem ser grandes porque te não deram ainda para um manto.

CHILON

Sou modesto, senhôr. O que é pequeno não é o meu merito é a gratidão dos homens. Quando se esconde um escravo de preço quem o descobre? Quem indica os culpados dos pasquins em louvôr de Poppêa, a divina? Quem descobre nas livrarias os versos contra Cezar? Quem leva as cartas que se não podem confiar aos escravos? Quem faz fallar os barbeiros, os alfaiates, os taberneiros e capta a confiança dos escravos a saber tudo o que se passa n'uma casa, do atrio ao jardim? Quem conhece todas as ruas, praças, bêcos, alfurjas, da cidade? Quem sabe o que se diz, nas thermas, no circo...

PETRONIO

Basta, por todos os Deuses, illustre sabio, ja sabemos quem és.

CHILON

E quanto valho.

MARCOS

Bem. Tens necessidade de indicações?

CHILON

Eu? Tenho necessidade de armas.

MARCOS

Quaes?

CHILON, fazendo o gesto de dinheiro

Os tempos vão tão máus, para os filosofos...

MARCOS, atirando-lhe a bolsa

Ahi tens.

CHILON, apanhando-a

Começamos a entender-nos. Nobre senhor, ouvide: Lygia não foi roubada por Aulo, nem está no Palatino. O rapto foi feito por Ursus, o gigante seu escravo, e pelos christãos.

PETRONIO

Ouve, Marcos.

CHILON

Lygia adora a mesma divindade que Pomponia, a mais virtuosa das Romanas; é Christã...

MARCOS

Como o sabes?

CHILON, com emphase

Sou christão!

PETRONIO

Tu?

CHILON

Desde hontem, senhôr, desde hontem.

MARCOS

Reflecte Chilon. Tu não és um imbecil. Quererás presuadir-nos de que Pomponia e Lygia pertencem á seita dos inimigos do genero humano, dos envenenadôres, das gentes perdidas nos ultimos vicios?

CHILON

É christã, senhôr, tende a certeza absoluta.

PETRONIO

O que quer dizer que Pomponia e Lygia envenenam as fontes, immolam as creanças encontradas nas ruas e se entregam ao deboche? Tu que viveste em caza de Aulo vês como isto é uma calumnia ou uma tolice! Ou então os christãos não são o que se diz.

MARCOS

Seja como fôr. Foi então esse Ursus quem a roubou?

CHILON

Com os christãos.

MARCOS

E, encontral-a-has? Saberás onde está?

CHILON

Esta noite, ainda, trarei noticias.

MARCOS

Duplicarei a offerta se a achares. Gulon? (para dentro)

GULON

Meu senhôr.

MARCOS

Dá um manto capaz a esse... filosofo.

CHILON

Nobre consul, sois duplamente generoso: cobrís d'uma vez, com a mesma capa: a Sciencia e a Virtude! Nobre Petronio, vale. (Sahe)

PETRONIO

Adeus... collega. Não me desagrada o tal filosofo. Descobre Lygia, verás. Mas parece-me bom mandares desinfectar o atrio... A respeito de perfumes a filosofia está muito atrazada... só conhece... os naturaes. Fica-te com os Deuses... Sabes que amanhã é a festa do Lago?

MARCOS

Sei.

PETRONIO

Dizem que Vatino inventou maravilhas. Não podes faltar. Cezar poderia notar a tua falta. E... bôas novas, até lá.

MARCOS

Gulon?

GULON

Meu Senhôr. O jantar?

MARCOS

O meu manto e o estilete. (paseia agitado)

GULON

Eil-os. (Veste-lhe o manto) Ides só?

MARCOS, mettendo o estilete no cinto

Só. (Sahe)

O PANNO DESCE