QUADRO SEGUNDO

Triclinio. (Caza de jantar no palacio de Néro.) No 1.º plano tres mezas, em ferradura, com os competentes leitos e cadeiras. Á esquerda uma balaustrada que se suppôe dar para uma escada, inferior, de entrada. As mezas estão promptas: os tocheiros accesos. Grande movimento de escravos, até á chegada dos convivas. Entram Lygia e Actêa.

LYGIA

Dize-me, minha bôa Actêa, é bem certo que, Néro, Cezar, matou a mulher, a mãi, o irmão?

ACTÊA

É certo... e quantos outros!

LYGIA

E, dizias-me que o amavas?

ACTÊA

Conhecí-o, moço, bello e generoso! É sempre essa imagem, esse Néro que eu vejo. O outro, o que fizeram os mestres, os aulicos, os amigos, os senadôres, o proprio povo, esse não o conheço. Esse pertenceu sempre a outra mulher, cujo dominio se firmou no sangue: esse é de Poppêa, a divina!

LYGIA

Como eu tremo de estar, aqui! Daria tudo por me vêr de novo em caza de Pomponia: ou na campina de Rôma, só, abandonada que fosse. Se eu pudesse... se tu pudesses, generosa Actêa, proporcionar-me a fuga!

ACTÊA

Eu t'o repito, Lygia: era a tua morte e a dos teus. A vontade de Cezar é absoluta! Approuve a Cezar chamar-te, és uma coisa sua, na vida e na morte!

LYGIA

Uma coisa...!?

ACTÊA

Tenho lido, tambem, as cartas de Paulo de Tarso, e ellas dizem que, lá em cima, ha um Deus cujo filho morreu por nós! Mas sobre a Terra não ha senão um Deus: é Cezar! A tua doutrina prohibe-te de seres o que eu sou... uma concubina!... e manda-te preferir a morte á deshonra—como os estoicos de que me fallou tanta vez, Epicteto...

LYGIA

Sempre!

ACTÊA

Quando uma possa evitar a outra. Ignoras os recursos d'um Cezar. A filha de Sejano, uma creança de doze annos, foi condenada á morte. A lei prohibe que as virgens possam soffrer tal pena. O que imaginas que resolveu, Tiberio?

LYGIA

Eu sei!

ACTÊA

Mandou-a violar, primeiro, por um escravo e matou-a depois!

LYGIA

Que horrôr!

ACTÊA

Reflecte. Não irrites nunca os tyranos. Os deuses da Terra são sempre sanguinarios. És bella, nova, e tão bôa...! Sê cautelosa e espera no futuro. Eu te protegerei, aqui, quanto pudér.

LYGIA, abraçando-a

Como tu és bôa, Actêa!

ACTÊA

Sem alegria e sem felicidade, é certo;... mas não sou má. «Elle» tambem o não era.

LYGIA

Lamenta-l'o?

ACTÊA

Se te digo que o amo, ainda! O teu Deus não morreu por amôr dos que o mataram?

LYGIA

E, perdoou-lhes.

ACTÊA

O amôr é o perdão. (Como subindo a escadaria e voltando a entrar no salão, no 2.º plano, começam a entrar os senadôres de togas bordadas nas bandas, sandalias ricas, tunicas de côres. Mulheres vestidas e penteadas á Grega ou á Romana, as cabeças coroadas de flôres, etc.)

LYGIA

Que de gente sobe.

ACTÊA

Os convivas que chegam.

MUSONIO, entrando e passando com Séneca

Salve, Actêa!

SÉNECA

Salve, divina Actêa!

ACTÊA

Salve, Séneca!

LYGIA

Quem é este velho, de grave aspecto?

ACTÊA

É Séneca, o filosofo, mestre de Néro. Um filosofo que manda desprezar as riquezas e fez, em quatro annos, uma fortuna de quatrocentos milhões de cestercios!

LYGIA

E, o companheiro?

ACTÊA

É tambem filosofo; mas bom: um estoico.

LYGIA

Como se chama?

ACTÊA

Musonio.

TIGELINO, entrando com Calvia

Salve, Actêa!

ACTÊA

Salve! (a Lygia) Tigelino o infâme, o corruptôr, o valido de Néro. O que fornece as orgias e os venenos!

LYGIA

E, a mulher?

ACTÊA

Calvia; a mais impudica das, cortezãs, de Roma. Cinco vezes divorciada.

LUCANO, entrando com Nigidia

Que os deuses te conservem sempre a belleza e o coração.

ACTÊA

Salve. (a Lygia) Lucano o poeta e Nigidia a amante.

LYGIA

É tão novo.

ACTÊA

E é bello; mas Cezar odeia-o. Os seus versos são melhores do que os d'elle e Cezar não perdôa. A sua vida não vale uma moeda d'oiro.

LYGIA

E elle sabe-o? e, arrisca-se, aqui?...

ACTÊA

É uma creança. (Entra Crispinilla, com Pitagoras.) Crispinilla a devassa, cheia de incestos...

LYGIA

E o mancebo? aquelle adolescente?

ACTÊA

É Pitagoras, o éphebo favorito de Néro.

LYGIA

Como favorito? Ama-o muito?

ACTÊA, lembrando-se da inocencia de Lygia

Sim... Ama-o, muito! (Um grupo de homens e mulheres passa e comprimenta de longe, sem grande respeito). Senécion, Vitelio, Domicio... Vês como me comprimentam, de longe? Houve tempo em que teriam vindo comparar-me ás Deusas e beijar me os pés! São os cortezãos de todos os tempos. (O grupo sobe)

LYGIA

Onde vão?

ACTÊA

Dizer a Poppêa, a divina, o que em tempo me disseram a mim!

LYGIA

Como tudo isto faz mêdo!

ACTÊA

E asco! (Entram, conversando, Petronio e Marcos Vinicio. Petronio vai para os grupos; Vinicio vê Lygia e desce). Petronio e Marcos Vinicio. Estes conheces de certo.

LYGIA

Marcos!

MARCOS

Á mais pura das virgens da Terra, á mais bella das estrellas do Céu, á divina Lygia, salve!

LYGIA

Salve, Marcos Vinicio.

MARCOS, tomando o pulso d'Actêa e beijando-lh'o

Salve, Actêa. Por Vénus, sois ainda a mais bella mulher do palacio de Néro.

ACTÊA

Cuidado, Marcos Vinicio, que se arremedais vosso tio, no galanteio, não tendes como elle a faculdade de que Néro oiça pelos vossos ouvidos e falle pela vossa bôca.

MARCOS

O louvor é tão perigoso em Caza de Cezar?

ACTÊA

É que dirigido a mim pode parecer epigrama.

MARCOS, a Lygia

Felizes os meus olhos que te comtemplam: os meus ouvidos que escutam a tua voz mais dôce do que as citharas e as flautas!

LYGIA

Como fiquei bem, ao vêr te! Que mêdo tenho de estar aqui! Sabias que me encontravas?

MARCOS

Sabia e todavia ao vêr-te senti na minh'alma um extranho e novo prazer!

LYGIA

Como sabias?

MARCOS

Disse-m'o Aulo Plaucio.

LYGIA

Como estará! e os seus! E porque estou eu aqui?

MARCOS

Por mandado de Cezar.

LYGIA

E para quê?

MARCOS

Cezar não dá conta, a ninguem, dos seus actos.

LYGIA

Nada d'isto é natural, Marcos. Conhecia-me, acaso Cezar? Tenho o presentimento de desgraças! Tu és bom: leva-me para caza dos Plaucios, a caza onde eu vivi tranquilla e tão feliz! Faz-me mal este ruido, esta gente toda. Porque me arrancaram do pequeno jardim onde brincava com Aulo? O que me convem a mim é o socêgo e a obscuridade. Não nasci para festas e para jantares! e, aqui, no palacio de Néro... tenho mêdo, leva-me!

MARCOS

Acalma-te! Estou ao pé de ti. Nada pode acontecer-te. Amo-te, não o crês?

LYGIA

Sim, Marcos.

MARCOS

E, tu m'o disséste, tambem, n'esse jardim, onde brincavas com o pequeno Aulo. E, eu não ouvi nunca mais outra voz; não vi outro olhar senão o teu; não pensei, não tive outro querer, outra vontade senão a ti.

LYGIA

O socêgo entra na minh'alma com as tuas palavras, generoso Marcos!

MARCOS

Tu és a minha felicidade, ó mais bella do que Vénus! A minha felicidade completa, inegualavel; porque nem Cezar, nem nenhum Deus, póde sentir maior alegria do que um mortal (abraça-a, delicadamente) que sente bater contra o peito um peito querido! Assim, ó Lygia, o amôr nos eguala aos Deuses!

LYGIA

A tua palavra é como a luz, que afugenta as trévas e dissipa os terrôres. Entrego-me a ti. Restitue-me aos meus. Pomponia, a casta, amar-te-ha como se fôsse tua mãi: abençoar-nos-ha e seremos felizes! Por ella e pelos seus te agradeço o prazer que lhe darás; e, por mim, Marcos, amar-te-hei até ao fim da minha vida.

(Na sala do fundo, onde estão, tambem, mezas visiveis, rompe a orchestra de citharas, flautas, harpas e timbales. Os escravos serventes entram dos lados)

MARCOS

Vem Cezar. (Vai a querer subir)

LYGIA

Não me deixes, só!

MARCOS

Não. (Actêa, desce) Aqui tens Actêa... Eu volto já. (Sobe.)

LYGIA

Oh! Actêa! (agarrando-lhe a mão)

ACTÊA

Que tens?

LYGIA

Foje-me a vista.

ACTÊA

Serena-te (beijando-a) Isso passa!

(Néro apparece ao fundo. Á maneira que passa, a multidão aclama-o. Começam a cahir flôres do tecto até ao fim do acto. Os escravos trazem brazeiros e deitam-lhe myrra. Gritam)

VOZES

Avé, Cezar!

Avé, Jupiter!

Avé, divino Cezar!

Salve, divino!

Olympico!

Hercules!

Immortal!

NÉRO, junto a meza

Á meza! (Os homens deitam se nos leitos. As mulheres occupam leitos e cadeiras. Os escravos enchem as taças de vinho que veem em baldes com gêlo: outros servem a comida. A orchestra toca mansamente. Néro, reclinando-se no leito, coroado de rosas): Petronio, dir-se-hia que entoei um dos meus hymnos!

PETRONIO

É a condicção dos Deuses. A sua presença basta para arrancar as saudações dos homens.

NÉRO

Estas? Que significam? Os romanos são verdadeiros selvagens. Não me entendem. Lembras-te do meu apparecimento em Napoles?

PETRONIO

Que noite!

NÉRO

Que noite de gloria! Nunca sentirei mais, na minha vida, uma impressão egual! Chorei! Lembras-te, Petronio?

PETRONIO

Como um mortal! E, desmaiaste, até, nos meus braços, exclamando: «Onde ha triumpho comparavel ao meu?! Eis o que são os Gregos! eis a Grecia!»

NÉRO

Comprende-me a Grecia. Em Roma, sei-o bem, chegam a censurar-me por cantar em publico; como se a arte divina pudésse manchar a purpura dos Cézares!

PETRONIO

Voltaremos?

NÉRO

Certamente. Tu sabes que as profecias me dão a soberania do Oriente e do Egypto. Fundarei alli um imperio luminoso de arte, de sol, de poesia, de realidade transformada em sonho, de vida transformada n'um perpetuo gozo! Quero esquecer Roma e collocar o centro do mundo entre a Grecia, a Asia e o Egypto. Viver a vida, não dos homens, mas dos Deuses. Vogar atravez do Archipélago, em galéras d'oiro, á sombra de vélas de purpura, embriagar-me de sol, de poesia! Ser, ao mesmo tempo, Apollo e Osiris! Reinar ... viver... sonhar...!

PETRONIO

Eis o sonho d'um Cezar!

NÉRO

Uma realidade! No Egypto levantarei monumentos, ao lado dos quaes as pyramides hão-de parecer brinquedos de creanças! Farei construir uma esphinge, sete vezes maior do que a de Memphis, que olha para o deserto, semelhando-a a mim! E, os seculos futuros não fallarão d'outra coisa: do monumento e de Néro!

LUCANO

Pelos teus versos tu te erigiste, já, um monumento, não sete, mas setenta vezes maior do que a de Chéops.

NÉRO

E, pelo meu canto?

PETRONIO

Se tu pudésses levantar uma estatua,—como a de Memnom—, que ao nascer do sol o fizesse ouvir, durante seculos, os mares do Egypto coalharam-se-hiam de navios, onde as multidões, das tres partes do mundo, viriam embriagar se, esquecer a vida, ouvindo a tua voz!

(Néro, radiante, bebe e todos o acompanham)

NÉRO

E... emfim, desposarei a Lua, que é viuva, e serei verdadeiramente um Deus!

PETRONIO

E, cazar-nos-has com as estrellas, para formarmos a constelação de Néro! (A Vitelio, gordissimo, que está de pé, na meza do centro, de taça em punho, ébrio) Cazarás Vitelio com o Nilo para gerarem hipopótamos.

TIGELINO

E a mim, que destino me dás?

PETRONIO

Cezar pode dar-te o deserto e serás rei... dos chacaes.

TIGELINO, aparte

Insolente!

(Cezar falla em segredo com Petronio. De repente pôe no olho uma esmeralda e olha Marcos e Lygia. Marcos diz segrêdos amorosos, todo curvado.)

MARCOS, alto

Como eu te amo, Lygia! (apertando-lhe o pulso)

LYGIA

Deixa-me, Marcos, fazes-me mal.

MARCOS

Oh! divina, ama-me muito! (beija-lhe o pulso) muito!

ACTÊA

Cezar está a olhar-vos.

MARCOS

Que me importa?

ACTÊA

Tu brincas com a vida, Marcos; não bebas mais.

MARCOS

O Phalerno é tão dôce e Lygia tão bella! (Offerece-lhe a taça; Lygia recuza; Marcos bebe)

NÉRO, deixando de olhar, depõe a esmeralda na meza

Petronio, quem é a dama que se senta ao lado de Marcos Vinicio?

PETRONIO, asustado

A rapariga... o refem que mandaste buscar a caza dos Plaucios.

NÉRO

Ah! De que povo é?

PETRONIO

Dos Lygios.

NÉRO

Deve ser bella... Vinicio enche-a de galanteios.

PETRONIO

Cobre um tronco velho d'oliveira com um vestido feminino e Vinicio achal-o-ha admiravel. A mocidade! Muito magra. Uma cabeça de dormideira n'um pé esguio. A ti, estheta divino, que prezas na mulher sobretudo a haste, aposto—por muito difficil que seja julgar das proporções d'uma mulher sentada—aposto que já lhe viste o defeito?...

NERO, piscando os olhos para vêr

Não tem ancas.

PETRONIO

Nenhumas. (malicioso)

SENÉCION

Não sei o que questionavas, mas sou da opinião de Cezar.

PETRONIO

Fazes bem. Eu estava dizendo a Cezar que tu tinhas uma certa inteligencia: Cezar affirmava que eras estupido como um burro! (gargalhadas)

NÉRO, rindo exageradamente, inclina o pollegar para o chão

E está dito!

VATINO

Seja como fôr, eu creio nos sonhos. Séneca um dia disse-me que tambem acreditava... como Plinio.

CALVIA

Sim? Pois a noite passada sonhei que era Vestal.

NERO, rindo, batendo as palmas, o que todos imitam

Bravo!

CALVIA

E, então? São todas velhas e feias, as vossas vestaes. Só Rubria tem fórma humana. Assim, ao menos, seriamos duas. Ainda que Rubria, na primavera, tem a pelle cheia de manchas rôxas.

SENÉCION

De que são?

CALVIA

Ella é que sabe... e os médicos.

LUCANO

É o abrir dos botões. Flôres do amôr!

PETRONIO

Calvia, onde deixaste a cabelleira loira, das... vestaes?

CALVIA

Tu és um impertinente.

PETRONIO

Não era o que me chamavas, uma noite, no lago d'Agripa.

CALVIA

És capaz de dizer que te não resistí, satyro? Que não estiveste a meus pés?

PETRONIO

Para os encher d'anneis. (Calvia olha instintivamente os pés: todos riem)

VITELIO, cambaleando

O meu annel. (rí estupidamente)

NÉRO

De que diabo rí esta barrica de cêbo?

PETRONIO

O riso é proprio do homem. Vitelio quer provar-nos que não é um porco.

VITELIO

O annel... perdí o meu annel de cavalleiro... O annel que me veio de meu pai...

PETRONIO

Que era sapateiro.

Vitelio, rindo parvamente, procura o annel no colo de Calvia.

CALVIA

Que queres? O atrevido.

NIGIDIA

Elle não perdeu o que procura.

LUCANO

E... ainda que o ache não será capaz de o usar.

(Os escravos reenchem as taças. Ouvem-se vozes. Vinho. Phalerno.)

LYGIA

O jantar durará muito, ainda, Marcos?

MARCOS

Inda agora começou. Não estás bem?

LYGIA

Sim... mas... morre-se com calor... com os perfumes...

ACTÊA

Toma o meu leque. Queres um vinho geládo?

LYGIA

Ó não. Queria sahir.

ACTÊA

É impossivel.

Néro, que tem estado a comer e beber bem e a conversar com Petronio, levanta-se. A musica emudece. Terpros e Diodoro, correm com as citharas. Néro faz gesto negativo.

SENÉCION

Pela arte e pela humanidade!

NÉRO

Não estou em voz. Onde está Poppêa?

UM ESCRAVO

Doente; não pode vir.

NÉRO

Chamai-a (o escravo sahe)

PETRONIO

Faze desta festa um festim, divino Cezar: canta!

LUCANO

Cezar, não sejas implacavel.

VATINO

Não sejas implacavel!

VOZES

Sê magnanimo, Cezar!

NÉRO

O meu medico prohibiu me de cantar, hoje.

SENÉCION

Poupa a tua divina garganta, Cezar. Que seria de Roma e da Grecia se a tua voz se enublasse!

NÉRO

Recitarei o meu hymno novo. Se, mais tarde, puder, cantarei.

TODOS

Graças, Cezar.

Entra Poppêa, sumptuosa e bella.

VOZES

Salve, divina Augusta! Salve, ó Deusa! Salve, divina!

NÉRO

Um momento, bella Poppêa. Vou recitar o meu novo hymno a Vénus. Precizo de têl-a diante.

LYGIA

Ó Marcos, é possivel! Poppêa, a sanguinaria, é esta mulher de uma belleza divina?!

MARCOS

Sim, é bella; mas tu és cem vezes mais! Bebe um golo, para que eu ponha os meus labios no sitio dos teus! (Offerece-lhe a taça, que Lygia recusa)

Faz-se silencio profundo. Musonio, o poeta, encosta-se a uma cadeira e adormece, emquanto Nero recita. Este vê-o.

NÉRO, recitando

Embalde pretendi deixar a escravidão,
Que nos impôe o amôr!
A Deusa luminosa
Que accende, em Chypre, o facho da paixão
Por sobre a humanidade; altiva, desdenhosa
Arrancou-me do peito o coração,
E foi depôl-o aos pés, da mais formosa
Das Romanas, Poppêa, a minha amada!
Da Vénus Aphrodite a incandescente lava
Passou pela minh'alma!
As intimas ternuras,
Só pode soluçar a minha lyra escrava
Do seu divino olhar, das calidas alvuras
Do seu colo de neve, da bôcca onde os Prazeres
Moram em ninho rubro entre desejos...
Uma lyra que chora a pedir beijos!
Vem, amada Poppêa, e escuta a Deusa:
Sê como ella, de quem tens a fórma,
Caritativa e dôce!
Abre o teu leito
Aos segrêdos do amôr, ao eterno gozo!
Eu sou um Deus! que troca a divindade,
Do mundo o senhorio, a magestade,
Pelo logar do esposo!

TODOS

Ó poeta divino! Salve!

TODOS, com palmas e gritos

Ó voz divina!

Ó immortal!

Ó Jupiter!

Ó artista divino!

Ó resplandecente!

Salve! Salve! Salve!

POPPÊA, vem beijar magestosamente a mão de Néro

Obrigada, Cezar! (sahe)

Mulheres choram, homens fazem gestos exagerados de espanto: o éphebo Pitagoras vem joelhar-se ao pé do leito de Néro e fica. Sentam-se de novo alguns convivas, outros ficam de pé.

PETRONIO, empunhando a taça

A Cezar olimpico! (Todos bebem)

NÉRO, consultando

Petronio?

PETRONIO

Os versos são admiraveis. Lucano deve estar amarello de inveja! Querel-os-hia peores, para poder fazer-lhes um elogio que os valesse.

LUCANO

Maldito o destino que me fez contemporaneo de Cezar! Elle me eclipsa como a luz do sol a luz d'um candieiro!

NÉRO, a Tigelino, mostrando-lhe Musonio adormecido

Faze-me dormir Musonio, o estoico, por uma vez.

TIGELINO, deitando veneno n'uma taça

Lentamente?

NERO

Não.

ACTÊA

Musonio adormeceu emquanto Néro recitava!

LYGIA

É um crime?

MARCOS

De lesa-magestade.

LYGIA

E vão acordal-o?

MARCOS

Para dormir outra vez... para sempre!

TIGELINO

Eh! Musonio? eh! filosofo?

MUSONIO, aparvalhado

Que é? Que queres? Maldito cão!

TIGELINO

Cezar, chama-te. (Musonio, levanta-se)

NÉRO

O quê sonhavas?

MUSONIO

Que Cerebero me ladrava, raivosamente.

NÉRO

Tu vês, Vatino, é preciso acreditar nos sonhos.

TIGELINO

Petronio brindou a Cezar olimpico. Todos beberam; faltas, tu!

Musonio, percebe, e hesita em pegar na taça.

TIGELINO

Vamos: a Cezar olimpico.

Musonio, olha Cezar, que o fita com a esmeralda; bebe, vacila e cahe morto.

LYGIA, levantando-se

Que horrôr!

Dois escravos levam-no

ACTÊA

Tem coragem. Senta-te.

NÉRO

Os gladiadôres? (Entram Croton e Timon) Croton, não te esqueças de que és o mestre da minha escola. E tu, Timon, mostra-nos, se podes, como se substitue um mestre.

Os gladiadôres luctam. O interesse cresce.

NÉRO

Bravo, Croton.

PETRONIO

Bello grupo para marmore.

MARCOS

Bravo! Timon.

CALVIA

Que bellas fórmas!

PETRONIO

Vestal, silencio!

NÉRO

Não é uma bella arte?

PETRONIO

A mais bella, depois do canto e da musica.

NÉRO

Hei-de de experimental-a, tambem.

PETRONIO

Sereis invencivel!

Croton dominou Timon. Agarra-lhe a garganta e vai estrangulal-o.—Á voz de Néro: abraça-o e ergue-o.

NÉRO

Alto! Bravo, Croton! (applausos) Exercita-te, Timon. Por momentos tiveste a victoria. Tens qualidades. Vai e não te esqueças de que me deves a vida.

TIMON

Ella é vossa, divino Cezar!

NÉRO

Dai-lhe de beber. E, a mim; por Bacho, que não hei-de engulir a sêco esta aza de pavão de Samos. (deitam-lhe vinho) Que comes, tu, Calvia?

CALVIA

Una bocado de cabrito de Ambracia.

NÉRO

Estás em familia! Petronio, estás triste? A tua vista tem fome de graça e de belleza. Tigelino, mostra-nos a graça assyria.

Tigelino sobe. Ouve-se o côro bachico. Dançarinas assyrias, semi-núas, de cabeças ornadas de flôres, envoltas n'um véu ligeiro, braços e tornezellos com braceletes d'oiro, entram dançando com o côro. Os convivas comem e bebem, conversando em segrêdo. Côro e danças esmorecem lentamente. Os escravos dão vinho ás bailadeiras. Algumas sentam-se. Todos estão bebedos, excepto Lygia e Actêa. Durante as danças as luzes das salas esmorecem.

SENÉCION, de pé

Eu creio nos Deuzes. Dizem que Roma ha-de morrer! Ha quem diga que ella morre já! A falta é dos rapazes que não tem fé e sem fé não ha virtude.

VATINO

Quem é que diz de Roma vai morrer?

SENÉCION

Os filosofos.

VITELIO

Má raça, essa, dos filosofos.

LUCANO, com Nigidia no colo

Não ames nunca um filosofo, Nigidia! Ama os poetas. A filosofia é uma adega cheia de ôdres... os filosofos. Quanto mais ôccos, maiores são. Disse-o não sei se Epicteto.

NIGIDIA

Nunca disse isso, Epicteto.

LUCANO

Não? Pois podia dizel-o; porque disse tolices muito maiores. Então, digo-o eu.

SENÉCION

Não, Roma não morre! Teriamos de morrer todos! Nunca mais beber vinho! (chora sobre o colo de uma bachante.)

BACHANTE

Não chores, imbecil... que te fazes feio. Dorme antes. (empurra-o levemente. Elle cahe debaixo d'uma meza e fica.)

LUCANO, enrolando-se na hera d'uma amphora

Eh! lá, Bachantes, aqui está um Fauno!

NÉRO

Pitágoras, vem cá! (a Petronio) conheces alguma coisa mais bella? (beija as mãos do éphebo) Hei-de cazar comtigo! Mãos tão bellas, nunca vi. Vi... já... quando? (lugubre) Eram de... minha mãe! (pausa e espanto) Eram de minha mãe... Sim, d'Agrippina! (baixo) Dizem que pelas noites de luar pelas aguas da Baïa... vagueia como que á procura... não se sabe de quê! Se encontra uma barca desapparece; mas o pescadôr que a viu, morre!

VATINO

Nos Deuses não acredito... mas nos espectros... sim. Nos espectros!

NÉRO

E, todavia celebrei, grandiosamente, aos Deuses tumulares! Não a quero vêr... Cinco annos! cinco annos! Matei a, mas fui forçado a isso! Matava-me ella, se não o faço! Se eu tivesse morrido não me tinheis ouvido, hoje!

TIGELINO

Graças, Cezar, por nós, pela cidade, pelo mundo!

NÉRO

Não a quero vêr! (gritando) Vinho! e que esses timbales rujam!

LUCANO

Eu sou um Fauno! É é é... cho... ó ó ó. Os faunos amam as florestas! Nos jardins de Néro ha bosques profundos! Nigidia, levanta-te... acorda... vamos para o bosque!

NÉRO

Tem razão Lucano; abraza-se, aqui! Vamos para os jardins! Agora, sim, agora, vou cantar. Trazei vinhos! Terpnos, Diodoro, as citharas. (obedecem) Quero dançar tambem. E archotes... quero luz... muita luz... tudo bem claro, que a não quero vêr!

CALVIA

Quem?

NÉRO

A mulher das mãos brancas... como as de Pitágoras! (reparando em Actêa que acabou de fallar com Ursus o gigante que fica atraz de Marcos e Lygia) Ó bella e generosa Actêa! dá-me o teu braço. Vou cantar, para ti, uma canção á Lua! Á casta Lua, serena como tu, velada e meiga!

ACTÊA, acceitando-lhe o braço

Senhôr, sou a vossa escrava.

NÉRO

Não; és uma estrella do meu céu! Um comêta que só apparece, de longe em longe! (sobem todos)

MARCOS, agarrando brutalmente Lygia

Dá-me os teus labios! Hoje ou amanhã... que importa? Para que esperar? És minha! Cezar roubou-te para mim!

LYGIA

Marcos...

MARCOS

Para mim! Ha quanto te quero! Um dia em caza dos Plaucios, vi-te no banho... núa! Não o sabias? Como és bella! Sahias da agua como a Vénus das espumas... Um sonho! Pedi-te a Cezar que te mandou buscar... Amanhã vaes para minha caza... Dá-me os teus labios! (força para beijal-a) Dá-mos, já, agora.

LYGIA, recuando aflicta

Marcos, não te conheço... tem piedade!... não, nunca...!

MARCOS

Piedade? não; amôr! És minha, quero beijar-te... quero a tua bôcca! Dá-m'a! (agarrando-lhe brutalmente a cabeça) Ó dá-m'a, por Jupiter! ou...

O escravo Ursus agarra-o pela cinta e atira-o sobre o leito.

LYGIA

Es tu? (atira-se-lhe ao colo e fica suspensa)

URSUS

Não tenha mêdo... sou eu! (leva-a a colo)

MARCOS, levantando-se tonto

Lygia! Lygia! (vai a querer seguil-a, e cambaleia) Por Hercules! (ampara-se a uma assyria que bebe) Que é? que foi?

ASSYRIA, dando-lhe a taça

Um sonho! Bebe!

Marcos bebe e cahe sobre o leito.

URSUS

Eis os senhores do mundo! (sahe, levando Lygia).

No jardim ouve-se a musica. As luzes esmorecem. Um ou outro bebedo levanta a cabeça aos sons da orchestra e torna a deixal-a cahir. As rosas sahem sempre. O panno desce, lento.

FINAL DO 1.º ACTO


ACTO SEGUNDO