CAPÍTULO III
Morte de el-rei.—É despedido brutalmente o marquês de Pombal.—Soltura dos presos da Junqueira.—O marquês de Alorna na portaria de Chelas.—Orgulho do marquês.—Seus esforços para uma pronta reabilitação que alcançou.—Retirada da família de Alorna para Almeirim.—Desilusões de Leonor.—Antagonismo moral do pai e da filha.—Reacção desbragada do reinado de D. Maria I.—O ministério da rainha.—Angeja.—Vila Nova.—Martinho de Melo.—O cardeal da Cunha.—Tancredo e Maria de Almeida.—Desgôsto do marquês de Alorna.—A côrte de D. Maria I.—A rainha e sua loucura.—O rei.—O príncipe do Brasil.—O confessor da rainha arcebispo de Tessalónica e o seu leigo.—Os marqueses de Marialva e a sua principesca hospitalidade.—Festas típicas da sua casa.—Os Penalvas.—Várias figuras do tempo.—O duque de Lafões e o mestre Gluk.—Pitoresco da vida portuguesa, mas falta de influência feminina.—A castidade da rainha e o teatro.—Do estado lastimável a que êle desceu.—Farças, entremesses, tragédias.—Conflito entre Leonor de Almeida e o seu meio.—Casamento que a liberta dêsse meio.—O conde de Oeynhausen.—Cerimónia do seu baptisado.—Testemunha ocular que a narra minuciosamente.—O sermão do frade dominicano.—Oposição do marquês de Alorna ao casamento da filha.—Desobediência de Leonor e seu casamento com o conde alemão.—Referência de Bocage a Alcipe.
A 24 de Fevereiro de 1777 morria el-rei D. José, e na manhã dêsse mesmo dia, quando o marquês de Pombal, segundo o costume, se encaminhava para os quartos em que o seu régio amo agonizava, tolhia-lhe o passo o cardeal da Cunha, dizendo-lhe em tom altaneiro: «V. ex.ᵃ já não tem nada que fazer aqui.»
Nesta frase desdenhosa resume-se uma das mais monstruosas ingratidões da história. O cardeal fôra uma criatura do marquês; para ter chegado ao fastígio do poder que ocupava agora, não tivera outra recomendação alêm da que lhe dava, naquele tempo, o prestígio do seu nome. Como êsse nome, ainda assim, era o de Távora, o cardeal teve a baixeza de o renegar, só por julgar que isso seria um requinte de côrte feita ao seu poderoso protector.[66] De resto, vaidoso e ignorante, a sua Biblioteca, composta de onze mil volumes, inspirava ao conde da Ponte o conhecido chiste das onze mil virgens; e nada mais nulo do que a sua figura de estadista improvisado por um capricho do marquês de Pombal, que tão cruelmente expiou a fraqueza de ter confiado nêle, ou o cálculo de o ter querido como inofensivo companheiro de govêrno.
Formulou-se desde logo um programa completo de reacção, que rápidamente se pôs em prática em seguida à morte de el-rei.
O primeiro sintoma dessa reacção impudente e súbita foi a desatenciosa frieza com que o marquês, ontem omnipotente, começou de ser tratado por todos aqueles que se haviam curvado, em abjecta adulação, ante os excessos do seu poder e os abusos da sua autoridade.
Uma parte, e a mais louvável do programa dos novos conselheiros da rainha, consistia em abrir de par em par as portas dos cárceres em que jaziam desesperadas as vítimas da política pombalina e do ódio de D. José.
Imagine-se a alegria, o férvido entusiasmo de Leonor de Almeida, quando a notícia de que iam ser finalmente soltos, depois de um cativeiro de dezoito anos, todos os sobreviventes da tragédia de Belêm, soou através das grades que a separavam do mundo, sem contudo, a terem alheado de nenhum dos seus interesses.
Era uma hora da noite quando o marquês apareceu no locutório de Chelas, onde o estavam esperando a chorar de convulsa alegria as filhas e a mulher. Figure-se o que seria o encontro dos dois esposos! Tinham-se separado havia dezoito anos sem se tornarem mais a ver, nem sequer de longe. A ela tinham-lhe arrancado dos braços um gentil cavaleiro, na flor da mocidade, esbelto, airoso, desempenado e forte; êle deixava uma mulher lindíssima, que a maternidade fizera mais adorável sem a ter feito menos bela, e cujos olhos, de um azul violeta, cujos louros cabelos abundantes, cuja fisionomia idealmente fina vemos magistralmente reproduzida no retrato esplêndido que dela existe ainda[67]. Que mudança nos dois! O marquês vinha curvo, cansado, envelhecido e triste. As faces trazia-as precocemente avincadas pelas meditações dolorosas; nos olhos havia-se-lhe apagado o fogo da temerária juventude; os cabelos, outrora elegantemente polvilhados à moda da côrte, vinham brancos sim, mas embranquecidos pelo martírio. Por sôbre ela haviam rodado pesadamente, lentamente, os dias da separação e da clausura; mas os vestígios de uma notável beleza ainda se não haviam de todo apagado nesse rosto que a alegria de ver o seu adorado ausente purpureava agora.
Nenhum requinte de garridice cortezã restava ao infeliz prisioneiro, para quem Leonor de Almeida—sabendo que as suas cartas eram interceptadas e lidas antes de serem entregues—pedia a quem as lesse, empregando as frases da mais terna súplica, «uma capa de baeta ao menos que o resguardasse dos rigores do frio no seu húmido càrcere.»[68]
Mas, velho como estava, lá dentro ardia a mesma chama impetuosa de orgulho. Não queria aceitar a clemência régia como uma esmola voluntária, senão como um preito justo, uma restiuìção devida a quem muito a merecia.
Por isso, longe de se dar por satisfeito com a amnistia concedida a quási todos os presos políticos do tempo de D. José, vê-lo hemos em breve começar essa demanda longa e complicada da sua completa reabilitação judicial, requerendo, acompanhado pelo conde de S. Lourenço, D. João Ansberto de Noronha, e por três irmãos do marquês Francisco Assis de Távora, a nomeação de uma junta de magistrados para se pronunciarem acêrca da sua inocência ou culpabilidade. E emquanto êsse tribunal, que, por ordem da rainha, não tardou a constituir-se, demorou o seu parecer, o marquês recusou-se formalmente a ficar na côrte.
Repugnava-lhe o papel de perdoado, a êle que se reputava vítima de um julgamento iníquo. Foi, portanto, com a família estremecida para o vale de Almeirim, onde possuía uma das suas mais formosas quintas.
As cartas de Leonor, que até aqui nos tinham acompanhado e amplamente informado, faltam-nos neste momento. Só por intuìção poderemos reconstruir os sentimentos novos, as emoções deliciosas, as surprêsas melancólicas de que o espírito e o coração dela forma o teatro já agora silencioso.
Mais tarde, falando de Almeirim, ela procura descrevê-lo com as frouxas tintas de que dispunha a poesia falsa do seu tempo:
Nem pórticos marmóreos, nem colunas
Que cinzelasse em Paros mão perita,
Há de achar neste sítio: altos pinheiros
Formam de espêssa rama o nosso teto,
E gramínea alcatifa nos of’rece,
Para pensar logar acomodado.
Uma fonte serêna ali murmura,
E mil vezes afoita a fantasia,
Cuida ouvir revolver-se dentro d’água
A Naiade gentil que lhe preside.
Se agita o vento as canas buliçosas,
Se da serra um rochedo assusta a vista,
Mitológicos sonhos me recordam,
Ora aquela que a dor petrificara,
Ora a Ninfa medrosa e fugitiva
Que o pudor converteu em verde junco.[69]
Mas é provável que nessa hora singular da sua mocidade, hora de ardentes esperanças, de violenta reacção contra a desgraça que por tantos anos perseguiu todos os seus, hora rubra, iluminada de tôdas as vivas côres de uma imaginação de poeta, Leonor não tivesse uma predilecção muito pronunciada pelos pinheiros agudos, nem pelos buliçosos canaviais da sua solitária Almeirim.
Só amam verdadeiramente o repouso no seio da natureza aqueles a quem a vida frustrou tôdas as promessas feitas, e que dela cessaram de esperar seja o que for.
Leonor esperava ainda muito do mundo; êle devia-lhe uma famosa desforra. Emquanto lh’a não desse ou a não persuadisse a poder de desilusões de que era um devedor insolúvel, Leonor não queria nem descanso nem solidão.
O que ela provávelmente ambicionava agora, já cansada de regras conventuais e de rezas e de misticismo, era mover-se, agitar-se, viver em tôda a plenitude, e tôda a exuberante energia da sua mocidade, em tôdas as faculdades do seu curioso e irrequieto espírito. Era participar da alegria dos outros, de que tantos anos estivera exilada; era falar com gente môça, despreocupada e feliz; ouvir os discretos galanteios e as floridas frases namoradas dos rapazes do seu tempo, e manifestar a graciosa agudeza do seu entendimento em práticas literárias e eruditas com os celebrados engenhos da época; era resvalar gentilmente entre finos requebros galantes, nos minuetes dos esplêndidos saraus, acompanhada por um par preferido; era mostrar emfim a olhos que soubessem apreciar e ver, a sua impecável formosura peninsular, os seus grandes olhos luminosos e ardentes onde se reflectia tanta exaltação, tanta espiritualidade e tanta vida.
O duque de Châtelet, que fêz a sua viagem a Lisboa justamente no ano em que as filhas do marquês de Alorna deixaram o convento de Chelas (1777), fala do abatimento em que as havia pôsto a longa reclusão nestes termos precisos: Vi duas raparigas que tinham entrado para a prisão, acompanhando os pais, ainda na primeira infância e que saíam com dezenove e vinte anos parecendo quarenta. (Voyage en Portugal du duc de Châtelet).
Ora a verdade é que não pareciam ter quarenta nem tinham vinte. Leonor tinha vinte e seis anos; tinha vinte e cinco a irmã, e não podiam parecer muito mais velhas, porque, posterior à data a que se refere o duque de Châtelet, é o retrato da nossa biografada que ainda hoje se admira numa das salas da magnífica vivenda dos marqueses de Fronteira, em Bemfica, e nesse retrato a beleza imperial de Leonor ressalta com expressão admirável. Não era sómente uma mulher bonita, era uma mulher encantadora. Tinha a sagacidade crítica, o espírito leve e sarcástico, e a observação nítida e profunda de um moralista. Nas suas poesias contaminadas, é certo, pelas pechas da escola pseudo-clássica, em que fôra educada e à qual subordinava o seu nativo engenho, cheias de alusões mitológicas indispensáveis ao tempo, revela-se no entanto um belo poder descritivo e uma fôrça de reflexão viril. Mais tarde a educação que lhe deram as viagens e o conhecimento da literatura estrangeira completaram e aperfeiçoaram o seu talento, e ela foi entre nós, como a Stael em França, uma espécie de iniciadora, de reveladora do pensamento e da poesia do Norte, que nos eram inteiramente desconhecidos.
Em Almeirim, nessa espécie de entre-acto no meío de dois dramas diversíssimos, Leonor sonhou de-certo com os triunfos que o seu talento lhe ia conquistar, e com as delícias que lhe daria ao sair da clausura a intimidade da família, agora completa. É tão natural êste sentimento, que nem o mais scéptico espírito masculino seria capaz de esquivar-se-lhe.
Mas não tardou que uma nuvem, prenúncio de muita tempestade interna, ameaçasse de avolumar-se sôbre a fronte da juvenil poetisa.
O seu pai, o seu querido pai, o confidente da sua sombria mocidade, o amigo com quem ela desabafava todos os seus pensamentos, ainda os mais ocultos, o juiz continuamente invocado para julgar os seus versos, para aconselhar as suas leituras, o espírito a que ela chamava irmão do seu, e com o qual se comprazia em alar-se pelos livres espaços da abstracção e da filosofia—que diverso lhe aparecia do que ela tinha imaginado em longas horas de idealizadora e de inspirativa saudade! Que diferente dessa figura ideal que ela se tinha deliciado em criar na solidão do seu quarto de Chelas, quando escrevia envolta num roupão de sêda côr de fogo, com os belos cabelos soltos, e feliz por sentir-se uma heroína de romance, ou uma gentil figura, digna da história pelo infortúnio e pela grandeza da resignação.
Oh! o marquês não mudara; era o mesmo homem rígido, inteiro, coerente, que sempre fôra; seguia a lógica do seu destino, e mais nada. É certo que êle recebera, pelas suas leituras juvenis, o influxo das ideas que, provindas da Inglaterra liberal de 1688 e divulgadas pela França filosófica e investigadora de Bayle, de Montesquieu, de Voltaire, irrompiam para nós através da espêssa nuvem de preconceitos que nos separavam do mundo, e se iam insinuando subtilmente nos espíritos mais aptos para as acolherem. O marquês de Alorna pertencera áquele número, bastante avultado, de fidalgos inteligentes, mas de uma inteligência restrita, que aceitavam até certo limite,—imposto por êles—as novas ideas em ebulição, contanto que elas não passassem da esfera puramente abstracta para o campo dos factos definitivos e das leis reformadoras. Queria, é certo, distinguir-se pelo pensamento livre e pelo critério desassombrado[70] dessa plebe beata ou hipócrita, dissoluta ou bestificada, que então enxameava, ociosa e resmungando avè-marias, pelas portarias dos conventos de Lisboa, ou pelos pátios da fidalguia opulenta, que a alimentava das migalhas dos seus banquetes, ou das rações do seu refeitório; mas não admitia que essa plebe se emancipasse pela educação, e se fizesse povo pelo trabalho, pela fôrça e pela consciência dos seus direitos e deveres.
Depois vira o espírito das novas ideas encarnado no homem que êle entre todos odiava, e tinha razão para odiar, no algoz da sua família, no perseguidor da sua casta. A burguesia,—que para o marquês de Alorna era representada pelo procurador oficioso, pelo boticário esguio e grotesco, pelo escrevente pedinchão, pelo físico condescendente e mesureiro, por tôda a caterva de aduladores e de parasitas que se atropelavam nas ante-câmaras patrícias, e de cuja falange retardatária, Tolentino, infelizmente um dêles, mas um dêles com génio, fêz depois a sátira brilhante e a descrição pungitivamente exacta,—a burguesia emancipara-se, levantara-se, enriquecera, civilizara-se, creara indústrias e comércio e grandes lavouras[71] e manufacturas florescentes sob a inteligente protecção de Pombal.
A Igreja, auxiliar e amiga da aristocracia em todo o antigo regime, fôra despojada de grande parte dos seus privilégios e imunidades pela mão poderosa do grande inimigo de Alorna. O marquês de Pombal implantava ideas revolucionárias, servindo-se das armas do mais intransigente absolutismo. Esta contradição fundamental da sua obra é que a condenou a ser passageira e efémera. No espírito do pai de Leonor todo êste espectáculo contemporâneo produziu o natural retrocesso, que mais tarde se produziu tambêm em França no espírito da nobreza momentâneamente subjugada e namorada pelas generosas concepções da filosofia do século XVIII, e que essas mesmas concepções executadas e levadas até às suas conseqùências lógicas encheram de justificado pavor.
Leonor, que saía do convento cheia de belas máximas, propagadas pelos filósofos da enciclopédia, e que julgava seu pai inteiramente convertido às mesmas doutrinas de liberdade e de filosofia, teve ao primeiro contacto real com o espírito endurecido do desenganado fidalgo, uma verdadeira e cruel decepção.
Entre o pai e a filha cavou-se então um abismo moral que nunca mais foi transposto. Êles que tão bem se tinham combinado por escrito, em generalidades vagas sôbre a inanidade das grandezas, sôbre os prazeres da filosofia, sôbre o pouco valor das convenções sociais; êles que tinham ambos dissertado tão largamente sôbre o muito que o bem dos povos sobrelevava ao bem dos imperantes[72] e sôbre outros temas igualmente favoritos da filosofia declamatória e vaga do século—ei-los que se achavam agora divergentes em quási tôdas as matérias que versaram. A desgraça e os desenganos de um, levavam-no impetuosamente arrastado por uma corrente contrária áquela que impelia Leonor, vibrante de aspirações e de sonhos, para um futuro mais desassombrado de convenções estreitas, mais livre de superstições e de tiranias.
O marquês de Alorna voltara completamente a ser o fidalgo devoto e ferrenhamente aristocrático, com assômos violentos de revolta feudal, que deixara de ser por momentos, durante o tempo em que «pérfidas leituras de filósofos dignos de queima»[73] o tinham afastado do bom caminho. Aceitava, até às suas conseqùências extremas, os princípios da reacção que tumultuava impudente e feroz desde o paço, em que o rei e a rainha viviam ajoelhados no oratório, até à rua; desde os camarins forrados de tapeçarias de Arras, em que as damas da côrte tocavam no cravo músicas de Haydn, de Gluck e de Jomelli, até à taverna em que as rameiras e os mendigos cantavam ao som do violão nacional as sátiras populares em que figuravam
Marquês, Mendonça e Mansilha[74].
os poderosos de ontem, hoje vituperados e cuspidos sem dó.
Comandava essa reacção desbragada o novo ministério da rainha, em que Angeja e Vila Nova da Cerveira representavam a aristocracia soberba, intransigente e cobiçosa, consumada na arte da cortesania e da lisonja; em que a figura enigmática de Martinho de Melo se destacava pela inteligência cultivada e fina, pela mordacidade irónica, pelo conhecimento profundo das civilizações estranhas de que se penetrara largamente em França, na Inglaterra e na Holanda, pela hábil dissimulação com que ocultava, sob a aparência de um fiel servidor da causa da nobreza, um espírito de radical e de livre-pensador, capaz no fundo de continuar a obra de Pombal, se o scepticismo não fôsse um corrosivo, um dissolvente do carácter e da vontade.
Ao pé dêle Aires de Sá e Melo, ministro da guerra e dos estrangeiros, mas com vocação frustrada para cónego da patriarcal, não se cansava de recomendar à tropa que rezasse quotidianamente o têrço, beijava a manga de cada frade que encontrasse no caminho, e benzia-se tantas vezes ao ouvir missa que era o espanto e a distracção cómica de quem lhe ficava ao pé.
Quanto ao jôgo de xadrês complicado e subtil da diplomacia europeia, era letra morta para o devoto ministro, que de resto, na arte da guerra era tão profano como na de negociador.
O cardeal da Cunha completava êste banal ministério, ao qual devia incumbir o gigantesco encargo de continuar, aperfeiçoando-a, a obra da regeneração portuguesa, iniciada pelo grande ministro de D. José. Já que não podiam nem queriam continuá-la, houve entre elles um preposito o de restituir ao cemitério da história o Lázaro que a poderosa mão do grande ministro galvanizara temporáriamente, e n’elle concordavam com perfeita unanimidade o orgulho de uns, a habilidade de outros, a demência e a ignorância do maior número.
Para o marquês de Alorna, essa reacção, uma das mais repentinas e violentas, tinha ainda um grande defeito. Era branda em demasia.
Ao seu ulcerado espírito só satisfaria cabalmente a condenação de Pombal a penas tão duras como as que êle infligira aos mais conceituados membros da velha nobreza, e a reabilitação da memória dos que tinham sido imolados ao que êle supunha um infernal enrêdo do ministro de D. José. Queria, alêm disso, que os sobreviventes fôssem restaurados em tôdas as suas honras e todos os seus haveres.
Que a sua própria inocência lhe fôsse reconhecida pela junta congregada pela rainha, isso tinha êle por certo, e assim se realizou a breve trecho.
Em Maio de 1777 expediu a soberana um decreto em que se declarava o marquês de Alorna puro de tôda a culpa de inconfidência restituindo-o às honras que por direito e nascimento lhe pertenciam[75].
Não ficava, porêm, ainda satisfeito o orgulho do marquês. Uma pretensão tinha a mais, que muito perto do coração lhe tocava. Vinha a ser a restituìção dos bens, honras e títulos da casa de Aveiro ao malogrado primogénito do duque, D. Martinho de Mascarenhas, conhecido entre os presos da Junqueira pelo marquesito.
Nem Latino, o qual explica larga e minuciosamente as diligências que o marquês de Alorna empregou para êste fim, nem outros escritores que temos lido, como Camilo Castelo Branco, Pinheiro Chagas, etc., conhecem os motivos particulares que determinaram o marquês de Alorna a meter-se ousadamente em tão difícil empreendimento. O leitor, porêm, já pelo capítulo precedente conhece êsses motivos. A filha mais nova do marquês de Alorna fôra prometida em casamento ao ex-marquês de Gouveia.
Neste ponto permita-se que abramos um parêntesis para contar até ao fim a lúgubre história de D. Martinho de Mascarenhas.
A instâncias do marquês de Alorna, que desde a sua saída da prisão não descansava neste assunto, subiu à rainha uma representação de que Latino Coelho[76] extracta os principais articulados, e em que o filho do duque de Aveiro se propunha comprovar que não podia ser infamado pela culpa de seu pai, aduzindo que era immune da pena hereditária por ser nobilíssimo, como descendente de régio tronco. Êste memorial parece haver sido firmado por um letrado de fama áquele tempo na côrte de D. Maria, chamado Francisco da Costa. E diz Latino que, ou porque o causídico fôsse fogoso de índole, ou porque a tardança no bom despacho da rainha azedasse os ânimos do defensor e do mandante, o caso é que o advogado de Gouveia propugnara com veementes razões os direitos do seu cliente.
«Trazendo em seu auxílio a constituìção de Arcadio, provava com jurídicos fundamentos que não cabia aos filhos antenatos ao delito a infâmia pelos crimes paternos. E agitando e resolvendo em sentido liberal o mais grave problema dos publicistas, a origem da régia autoridade, reproduzida em ousadas afirmações a doutrina de S. Thomás e do padre João de Mariana, de que a suprema potestade no povo residia e dêle era transferida condicionalmente para que a podesse reassumir e exercer quando a salvação do Estado o reclamasse.»[77]
Concluía o advogado que os grandes de Portugal não podiam ser sujeitos à pena de infâmia pelos delitos de seus maiores.[78]
O tom da doutrina, a segurança das asserções, a soberana e imperativa altivez de tal súplica, respiravam, segundo assevera o historiador já citado, por um lado a aristocrática altivez dessa nobreza da côrte que Pombal esmagara por algum tempo, e cujo orgulho agora renascia mais ulcerado e mais violento, por outro lado a revolucionária doutrina da soberania nacional, que principiava a insinuar-se nos espíritos mais adiantados.
O caso é que, no testemunho de muitos contemporâneos bem informados, tais como o príncipe de Raffadali, que era ao tempo ministro plenipotenciário de Nápoles em Lisboa, do cavalheiro de Pollon, ministro plenipotenciário da Sardenha na mesma côrte, do autor das Cartas de Lisboa extractadas no Jornal de Murr, e de outros mais, sentiu-se a rainha profundamente ofendida pelo desacato à régia autoridade que nesse memorial era feito, e chegou a manifestar o seu formal desagrado ao marquês de Alorna, o qual, segundo o seu costume, se retirou azedado para as suas propriedades longe da côrte.
Confirmando as suas asserções acêrca do desrespeitoso memorial, Latino Coelho publica por extenso o edital do intendente geral de polícia, datado de 13 de Março de 1781, mandando recolher todos os exemplares de vários papéis satíricos em prosa e em verso, e de um extenso arrazoado em favor de Martinho de Mascarenhas.[79]
Foram, portanto, absolutamente baldados todos os esforços mais ou menos hábeis empregados pelo impetuoso marquês de Alorna.
O noivo de Maria de Almeida, o Tancredo dos sonhos heróicos e romanescos das reclusas de Chelas, não participou do amplo favor com que, a impulsos e sob a influência dos grandes da côrte, Angeja, Vila Nova da Cerveira, Marialva, etc., e aproveitados destramente os melindres de consciência da fraca e desgraçada rainha, se proclamou judicialmente em alvarás expedidos em diversas épocas a inocência dos implicados no terrível processo, exceptuando o duque de Aveiro, sua descendência e os três subalternos seus cúmplices.
A certeza dolorosa de que seriam baldadas as suas diligências com o fim de reabilitar e de restaurar na perdida jerarquia a D. Martinho de Mascarenhas, parece haver obumbrado e entristecido ainda mais profundamente o espírito já sobejamente melancólico do marquês. Recorreu desde então mais freqùentemente à solidão das suas quintas e herdades. Muito curioso de sciências matemáticas e de astronomia, a sua principal diversão era o estudo dos corpos celestes. Numa das composições mais felizes de Leonor de Almeida, a imitação da Primavera, de Thompsom, refere-se ela por êste modo aos estudos de seu pai:
Quando lá nessa Tempe solitária
No tranqùilo Almeirim as musas honras,
Ou nas rochas de Almada os céus estudas.
Lá, combatendo a turba de incertezas,
Ignorado, a teus pés vês os sistemas
Que a Newton e a Descartes deram fama.
Quando o marquês permanecia algum tempo em Lisboa, não deixavam de concorrer às suas salas as figuras mais notáveis da côrte de D. Maria I, que, por aliança ou parentesco, estavam tôdas estreitamente ligadas com a ilustre casa de Alorna. Visitavam-no tambêm com freqùência os estrangeiros famosos que por aqui passavam, e os diplomatas que aqui representavam suas respectivas côrtes. Só infelizmente não brilhava entre os freqùentadores dêsses saraus elegantes e falados por tanta maneira o infeliz que havia sido noivo de D. Maria de Almeida. É para nós, cronista, um verdadeiro enigma esta espécie de abandôno em que D. Martinho se deixou subverter. Como pode conciliar-se a amizade que o marquês de Alorna lhe votava, o seu porfiado interêsse em salvá-lo, com a resolução que o levou a conceder a mão de Maria, a prometida noiva do ex-marquês de Gouveia, ao conde da Ribeira Grande?
É bem provável que a irmã de Leonor, em quem as mais doces virtudes da alma feminina—a piedade e o desinterêsse—parecem ter florescido suavemente, quisesse ser fiel no desamparo e na miséria áquele que lhe tinham permitido que amasse, quando havia a fundada esperança de que a corôa de noivado por êle oferecida tivesse o esplendor soberbo de uma corôa ducal. Mas fôsse qual fôsse o motivo que actuou no ânimo do marquês de Alorna, o caso é que êle ajustou o casamento de sua filha com o conde da Ribeira Grande, e que Maria se submeteu em silêncio.
O romance daqueles puros amores foi cortado em flor, justamente na hora em que a figura, para nós apagada, quási indistinta de D. Martinho, devia tornar-se trágicamente interessante para uma mulher inteligente, romanesca e namorada.
O marquês de Gouveia desapareceu. Sumiu-se na onda negra da miséria. Diz Camilo Castelo Branco que o sustentou até 1804, data em que morreu numa humilde casinha de Buenos Aires, a bôlsa do conde de Óbidos, do próprio marquês de Alorna, e finalmente de D. João VI. Timbraram em socorrê-lo pecuniáriamente, livrando-lhe o corpo das agonias da fome, já que não podiam ou não queriam livrar-lhe a alma de angústias lancinantes com que a teimosa memória havia de inferná-la.
Educado, como o eram os fidalgos do seu tempo, na ignorância das coisas positivas e do trabalho redentor, o infeliz não soube reagir. Restavam-lhe três caminhos a seguir: o da revolta aberta contra a iniqùidade da instituìção que o esmagava; o do labor que o emancipasse das esmolas com que os da sua casta o manietaram e humilharam; ou o da abjecta submissão à injustiça que lhe faziam. Foi o terceiro que êle escolheu!
Tancredo era no fim de contas um mediano herói!
Maria de Almeida, essa, como dissemos, casou. Nas raras cartas dela que temos à vista, respira-se, a par de uma elegância e de uma graça feminina verdadeiramente encantadoras, a melancolia dolente e vaga da alma que se sente ferida na mais delicada e secreta fibra das suas asas. Morreu môça, mas estremecida pelos que a conheceram. Leonor tem lamentos inconsoláveis na sua musa um pouco ingrata para lhe chorar a morte prematura. Não era feliz, dizia ela com resignação suavíssima talvez lembrada das quimeras da sua poética mocidade; mas consolavam-na a música, os versos e os filhinhos que deixou na primeira infância.
A sua voz era famosa nas salas de Lisboa, os seus versos são celebrados por Filinto, para quem ela é a formosa Daphne. Desta figura inteiramente ignorada pela história, apenas entrevista pela crónica do seu tempo, ressalta para nós, que lográmos através das suas cartas conhecê-la um pouco, um encanto estranho, uma doçura indizível, como que um pertinaz aroma de graça aérea e casta.
Na nossa infatigável busca de documentos que nos fizessem penetrar na intimidade de Leonor de Almeida, topámos, sem querer, com êste pobre idílio ignorado, cujo remate é de uma tão insondável e silenciosa tristeza!...
Que nos seja perdoado o termo-nos demorado respirando o perfume que dêle se exala, como de uma violeta esquecida entre as fôlhas de velino de um livro de orações.
Dissemos que freqùentavam a casa de Alorna as figuras principais da côrte. É azado, portanto, o ensejo para fazer uma rápida resenha dessa côrte ainda fulgurante, ainda opulenta, e que foi a última digna dêsse nome, a um tempo ôco e brilhante, que nós possuímos.
Não era bela a rainha que lhe presidia, mas um viajante inglês, tão admirável observador como Horácio Walpole e tão fino dilettante como êste, que ao tempo estava em Lisboa, declarava que era verdadeiramente impressionadora a gentil majestade do seu porte, a nobre expressão bondosa e ao mesmo tempo imperativa da sua fisionomia.
De entendimento limitado e educação deplorávelmente defeituosa, essa pobre rainha foi uma mártir do seu alto destino. Nascera para ser uma excelente e cuidadosa espôsa e mãe; teve de governar, em crise de transição tempestuosa e difícil, um país na sua generalidade ainda meio bárbaro.
De um lado a piedade filial, que foi nela uma virtude acrisolada, ordenava-lhe que respeitasse absolutamente as decisões, por violentas que fôssem, com que D. José assinalou o seu reinado enérgico; por outro lado uma reacção desenfreada, tomando as aparências de justiça, e usando das armas que a Igreja põe na mão dos seus ministros, impelia-a para o caminho da mais irreverente demolição de todo o reinado precedente. Persuadiam-na a que castigasse aqueles que o pai tinha amado; que reabilitasse os que o pai considerou como seus assassinos; que desfizesse as sentenças que o pai confirmara; e ora lhe pintavam com vivas côres o rei que a antecedeu a arder nas chamas do inferno, pelo mal que tinha feito à fidalguia e aos ministros da Igreja, ora lhe representavam com côres não menos vivas a sua futura condenação a penas iguais, se não desfazia tôda a obra iníqua, ideada por Pombal, e que D. José deixara executar. Esta luta foi dolorosa, foi cruel demais para o cérebro fraco da infeliz rainha. Endoideceu!
Ouviam-na passar pelos vastos corredores do paço rompendo os ares desesperadamente com a sua queixa ululante, com o uivo trágico da sua loucura! Os gritos que ela soltava, agudos, dilacerantes, gritos de alma penada, que implora o fim da negra expiação, ecoavam lúgubremente pelas salas da Ajuda ou de Queluz.
Beckford, que lh’os ouviu, compara-os aos trágicos lamentos estrídulos que as abóbadas do castello de Berkeley repercutiram quando a Eduardo II foi infligida a mais crua e torturante das mortes.[80] Ai Jesus! Ai Jesus! gritava ela na amargura infinita da sua agonia, julgando ver do meio de uma chama enorme, que lhe incendiava o quarto, lambendo com milhares de línguas de púrpura a cama em que ela se debatia, surgir o pai tal como o representa a estátua no Terreiro do Paço, mas negro, calcinado, feito em carvão, emquanto uma multidão de fantasmas horrendamente desfigurados—os fantasmas de Belêm—o empurravam para baixo, para o inferno, para o eterno fogo que nunca se consome, para a chama perpétua que nunca se apaga.[81] Que trágicas visões shakespereanas as dessa pobre mulher fanática, instrumento e vítima dos reaccionários que a enlouqueceram! As suas noites sem sono ou cortadas de pesadelos atrocíssimos, as lutas acerbas da sua consciência sem bússola e solicitada ardentemente para contrários lados, as palavras cruéis dos seus conselheiros tão implacáveis no ódio, tão exigentes na vingança, as incertezas em que se debatia o seu obscuro entendimento, tudo faz dela a vítima expiatória de crimes cuja razão de Estado nunca chegou a penetrar.
O historiador alemão Henrique Schaeffer, a quem se deve uma das melhores histórias de Portugal que possuímos, o benévolo Beckford, que tão íntimamente simpatizou com a alma portuguesa, o maledicente mas penetrante Costigan, o duque de Châtelet, que na sua estada em Lisboa freqùentou o paço e conviveu com a gente mais grada da côrte, todos são unânimes no juízo favorável que acêrca da rainha formulam por bem diversas maneiras.
«A rainha, diz Châtelet, é uma mulher verdadeiramente digna de estima e respeito. Não possue, porêm, um só dos predicados que constituem uma grande rainha. Ninguêm é mais caridoso e mais compassivo do que ela. Mas estas excelentes qualidades são viciadas pela mal entendida e excessiva devoção. O confessor (seria sempre êle?) obriga-a a despender em devotos e penitentes exercícios o tempo que, sem dano da sua salvação, poderia consagrar à felicidade dos seus povos.»
Escrevendo isto o duque de Châtelet não sabia que D. Maria I, a infeliz e trágica rainha, quando passava assim as horas prostrada ante o altar de Deus terrível, tinha como objecto único o alcançar à fôrça de orações ardentes, de humildes súplicas, de rezas intermináveis a salvação, não da sua própria alma, mas da alma dêsse pai que adorava, e que lhe pintavam como a presa dos castigos do Eterno. Em vão lhe diziam que era inexpiável o crime dêsse rei que perseguira os servos da Igreja e os grandes vassalos da monarquia; ela, piedosa e doce mulher, teimava em persuadir-se, embora pouco ortodoxamente, de que as sentenças vingadoras e implacáveis do Deus de Israel se podem temperar pela ternura humilde das nossas súplicas e pela ardente e copiosa torrente das nossas lágrimas; que a chama deslumbradora e terrível do Sinai se volvera, para nós, cristãos no dolente e inefável espectáculo dos suplícios do Calvário!
Por isso chorava e rezava continuamente nos degraus do altar, pedindo a Deus o perdão do pai que tanto amara, do pai em quem não queria nem podia ver um condenado sem esperança.
«A misericórdia e a justiça, dizia Beckford, que são o lema com tanta impropriedade escrito na bandeira do santo ofício, poderiam aplicar-se com verdade irrefragável a esta princesa boa e virtuosa.»
A decent fresh looking woman, chamava-lhe Costigan, o menos cortesão de todos. Pois até essa frescura física murchou, desapareceu no combate interno em que a razão da infeliz rainha sossobrou finalmente.
Aquele que podia ser seu guia moral, seu companheiro e seu amparo, não passava de uma das mais grotescas se não da mais grotesca figura da sua côrte.
É ainda a Costigan que vamos pedir a descrição do marido que a política portuguesa impôs à desventurada mulher. «Ao pé de D. Pedro III, diz o espirituoso observador irlandês, o próprio rei Carlos III de Espanha, tão célebre pela fealdade, pode ser considerado um verdadeiro Adonis. O desalinhado aspecto da cabeleira loura sempre à banda, o olhar azul claro, parado e estúpido, as feições ásperas, grosseiras e desarmónicas, tudo lhe dava o estonteado aspecto—a êle, coitado, que nem vinho provava—de um velho inglês vencido pela quási completa ebriedade.»[82]
Vivia, de resto, a rezar, encerrado na sua devoção estreita, formalista, sem generosidade e sem ideal, como uma ostra na sua rude concha.
Não tinha mesmo sequer uma hora para se informar acêrca das coisas públicas, que não perceberia, é certo, pois que todo o seu dia se passava no seu oratório particular, na capela ou nas festas religiosas, que em Portugal ostentavam naquele tempo o maior luzimento e a mais soberba pompa. Eram elas o assombro dos viajantes estrangeiros, ainda os mais cultos e bem informados, que nem no Vaticano tinham visto coisa que se comparasse à beleza, majestade e perfeição com que na capela da rainha se executavam as músicas de Jomelli, de Perez, de Haydn e de outros mestres igualmente célebres.[83]
Quando el-rei acordava dêsse estranho sonambulismo místico, em que a existência se lhe esvaía, tinha a mais puéril credulidade para tudo que lhe diziam os homens da nobreza que o cercavam e que eram os chefes da aristocracia.
O abade Garnier, cura da igreja de S. Luís, que então vivia em Lisboa, e cujas cartas interceptadas no Gabinete da abertura são fonte preciosa de informação acêrca dos acontecimentos contemporâneos, pois que o abade tinha a aguda faculdade observadora peculiar ao seu estudo, diz acêrca de D. Pedro III isto mesmo, acrescentando que a rainha, cujo espírito é muito justo, mais circunspecta nas suas falas, mais moderada, mais prudente e esclarecida nas suas opiniões, não se deixa tão fácilmente arrastar pelo que ouve em tôrno de si aos interesseiros áulicos, que, não podendo convencè-la, por isso mesmo a enlouqueceram. O duque de Châtelet, êsse julga D. Pedro devoto até ao fanatismo; sombrio e silencioso, constantemente ocupado em preces e procissões.
Como é, pois, que tal rei podia ser um conselheiro eficaz e razoável para a consciência tímida, nutrida de escrúpulos devotos e alanceantes da infeliz filha de D. José I?!
Ao pé da rainha e do rei, de quem esboçámos os liniamentos vagos, aparece uma formosa figura que a morte espreita já, com a caprichosa preferência que a tem quási sempre atraído para os primogénitos de Bragança.
É a figura do príncipe do Brasil, D. José. O marquês de Pombal estremecia e educara políticamente êste môço, em quem antevia porventura o continuador enérgico e eficaz da obra que êle sonhara, e da qual chegara a realizar as edificações fundamentais.
Dizia-se, e há cartas de Leonor de Almeida a seu pai, escritas de Chelas, que se referem com segurança a êste projecto, que a idea fixa do marquês de Pombal consistia em fazer promulgar em vida de D. José a lei sálica em Portugal, tornando nulos os direitos de D. Maria I, e determinando assim que ao rei, seu instrumento passivo, sucedesse o rei, seu discípulo inteligente.
É muito possível que, se tal houvesse sucedido, o primeiro acto do príncipe fôsse expedir de si o velho conselheiro de seu avô, o velho sustentáculo de uma política reformadora e enérgica. O marquês quereria continuar a dominar absolutamente, fazendo render o serviço feito; o juvenil monarca teria a natural sêde do mando, que é uma das mais nobres ambições viris, e o conflito não podia evitar-se entre ministro e rei.
Assim o vimos recentemente num exemplo famoso, e as leis da história variam pouco nas suas conseqùências e na sua marcha. Tambêm Guilherme II era discípulo e querido discípulo de Bismarck, e sabemos como êle tratou o grande chanceler da Alemanha unificada e poderosa.
Não se pode, porêm, saber ao certo se esta idea germinou no espírito do marquês de Pombal, ou se gratuitamente lhe foi atribuída pelos seus inimigos, para mais o indisporem com a rainha D. Maria I. O que se pode afirmar é que Pombal tinha comunicado ao príncipe do Brasil os seus dois ódios dominantes, as duas paixões supremas, que moveram tôda a sua política: o ódio ao inglês e o ódio ao jesuíta. Êle sabia que a manha subtil e insinuante de um, e a fôrça brutal e triunfante de outro tinham de minar e destruir esta fraca nação.
Inspirara-lhe igualmente o seu amor ao progresso material, e a sua repugnância pela educação fradesca, que punha Portugal a cem léguas de atrazo em relação às outras nações europeias.
Afastado dos negócios o grande ministro de D. José, o príncipe do Brasil via com desespêro curvada de novo em atitude de abjecta subserviência, diante do gabinete inglês a côrte de sua mãe.
O objecto da sua grande admiração era José II, imperador da Áustria, com quem se correspondia através do duque de Lafões. Êste, durante a sua longa permanência em Viana, privara íntimamente com o imperador e com os primeiros personagens da sua luzida côrte, uma das mais namoradas de arte que ainda brilharam no mundo.
O que o príncipe do Brasil mais admirava em José II era a sua concepção moderna, civilista e centralizadora do Estado, eram as suas reformas eclesiásticas e pedagógicas, empreendidas e realizadas contra o que êle, imperador, classificava nas suas cartas como a dominação dos fakirs e dos ullemas, e tendo por fim roubar à tríbu de Levi o monopólio da inteligência humana[84]; era o seu combate eficaz contra o ultramontanismo, contra os abusos de autoridade das congregações religiosas, emfim, o seu amor da liberdade religiosa e do progresso industrial, tão raros num soberano.
Vendo a natureza ociosa e a fradaria estulta, que ambos tinham concluído a sua missão histórica, e que, portanto, só podiam ser um tropêço e um obstáculo, manterem êste pobre país na ignorância e na inércia, vendo a nossa inferioridade militar, que êle se não cansava de atribuir à dominação do clero, fatalmente debilitadora da energia de uma raça, outrora heróica, o príncipe do Brasil sonhava com uma transformação tão radical no sentido religioso, social e económico, como essa a que o imperador austríaco estava sujeitando o amálgama de povos que constituiam o seu vasto e desordenado império, que antes dêle se tornara um verdadeiro Estado teocrático à moda antiga.[85]
Não é que José II fôsse um liberal no sentido moderno da palavra. O século XVIII não teve príncipes liberais. Nem José II, nem Frederico da Prússia, nem Catarina o foram. Foi, porêm, o século em que os imperantes tentaram introduzir reformas radicais na administração dos respectivos Estados, usando, para estabelecer essas reformas revolucionárias, das armas que o absolutismo levado aos seus extremos limites lhes fornecia a todos. A rápida reacção que no espírito de uns se operou, a inutilidade dos esforços dos outros, a tempestade medonha que a boa vontade da maior parte desencadeou na Europa, mais uma vez vieram confirmar a lei moral de que no mundo é indispensável a harmonia entre os meios e os fins, e a lei histórica de que não pode vingar nem frutificar pacíficamente uma revolução vinda de cima.
A crise por que então passou o mundo para que nêle florescesse a liberdade política é a mesma, pouco mais ou menos, que hoje atravessamos para que se melhorem e modifiquem as condições económicas do maior número. E assim como então havia reis e imperadores filósofos, que queriam dar à burguesia como um favor outorgado, o que ela exigia como um direito irrefragável, assim hoje há, no ápice do edifício social o papa, e mais abaixo os estados e soberanos, que querem atender ao mal-estar das classes desvalidas, e conceder-lhes como regalias aquilo que êles proclamam como imprescritível obrigação. Nem a burguesia do século XVIII nem o quarto estado do século XIX aceitam o favor partindo de cima. Uma conquistou o seu lugar; o outro conquistá-lo há mais tarde, e muito sangue e muitas catástrofes individuais e colectivas foram e serão o preço doloroso da conquista. Será amanhã inútil a intervenção dos poderes estabelecidos, como foi então efémera a obra revolucionária dos reis, como José e Frederico, e de ministros como Pombal.
Do programa de José II, que tanto cativara o nosso príncipe do Brasil, se disse que era a antecipação de tudo que mais tarde e durante a Revolução fêz a assemblea constituinte. É que tanto a França de 1789 como o imperador da Áustria obedeciam ao mesmo ideal de razão pura, proclamado pela filosofia do século.
Não admira que essa abstracção encantadora seduzisse tão completamente o nosso pobre príncipe.[86]
Os que falavam com êle íntimamente percebiam sem custo o doloroso desdem que as coisas da sua terra, voltadas, desde a morte de Pombal, ao antigo estado, lhe produziam no cultivado espírito.
Pensava em libertar o seu país e a sua raça do jugo de um fanatismo esterilizante, reflectido nas ideas e nos factos, desde a religião até à economia, mas a morte, que teimou em prostrá-lo na flor dos anos, não lhe deixou pôr em execução os seus projectos grandiosos, poupando-o à triste decepção que aguarda todos os que julgam opôr eficazmente a vontade individual ao fatalismo irredutível das correntes históricas promanadas de remota origem. Assim tambêm o doce visionário que se chamou Pedro V. morreu antes de ter cumprido as esperanças que sôbre êle edificara esta nação messiânica, que há tanto tempo espera debalde por um salvador providencial...
A morte do príncipe do Brasil, causada por um ataque de bexigas, as quais, segundo então se murmurou, não foram logo cuidadosamente tratadas, mais contribuiu ainda para lançar o espírito da já alucinada rainha num inferno de agonias. O príncipe tinha o seu partido na côrte, mas tinha tambêm contra si tôda a côrte magna dos conservadores, dos reaccionários, dos fanáticos que tremiam do seu espírito de iniciativa, da sua alta concepção da política de um povo, da sua preocupação do ensino civilista e da administração, de tudo que fazia dêle a antítese da rotina pachorrenta, que era o lema da sua côrte.
Não pode dizer-se que houvesse crime na sua morte, mas há quem assegure que não houve tanta solicitude no tratamento da doença quanta seria necessária para salvar esta vida preciosa.
Entre os que faziam oposição às tendências anti-jesuíticas, e às aspirações generosas e liberais do príncipe D. José, avulta uma das figuras mais pitorescas da côrte de D. Maria I, o seu confessor, fr. Inácio de S. Caetano, mais conhecido pela dignidade de arcebispo de Tessalónica.
Começara por jornaleiro, assentou praça de soldado, e foi cabo de infantaria em Chaves; dalí vestiu a estamenha fradesca, e, feitos os votos, cursou o que então se chamavam as artes no colégio de Nossa Senhora dos Remédios, em Évora, onde florescia, em todo o seu falso esplendor, a filosofia desnaturadamente apelidada de aristotélica.
Não era, pois, inteiramente analfabeto, como teem querido dizer, êsse frade obeso, jovial, de óptimo humor, que o marquês de Pombal julgou suficientemente inofensivo para fazer dêle o confessor da então princesa D. Maria. Logo que esta subiu ao trono, fr. Inácio foi elevado à dignidade arqui-episcopal, à de grande inquisidor e principalmente à de primeira influência no govêrno.
Acusam-no os que então o viram de perto—e é um dêles o observador irlandês a que mais de uma vez nos temos socorrido pela sua ampla informação, e pela sua mordacidade inteligente—de parecer engordar, e farto e satisfeito, no meio dos desastres da nação que os bons patriotas julgavam ameaçada de tornar breve a ser uma província de Espanha.
Beckford, todavia, que viveu na mais estreita intimidade com o arcebispo, fêz dêle um retrato encantador pela chanternidade, pela despreocupação das grandezas, pela tolerância boníssima, pelo encanto pitoresco da sua conversação risonha e maliciosa.
¿Não era um austero; quem o podia ser naquele meio? Não desdenhava, apesar da suprema dignidade do seu cargo, o prazer, aliás platónico, de perseguir com chocarrices de antigo furriel, pelas alamedas de bucho de Queluz—sátiro pesado e folgasão—as ninfas ligeiras e nem sempre cruéis que constituiam o alegre rebanho das açafatas. O seu tiro certeiro contra as fraquezas do próximo que cruamente observava não se distinguia pelos requintes da caridade evangélica.
Mas a verdade tambêm é que era honrado, é que, sendo inquisidor, nunca se aprouve em perseguir nem odiar, e, tendo um poder absoluto no ânimo da rainha, contrabalançou, emquanto viveu, as tendências ferozmente reaccionárias e cruelmente odientas dos ministros do tempo, empenhados em destruir a obra de Pombal, em não deixar penetrar no baluarte assediado da sociedade portuguesa as ideas que lá fora eram propagadas com insistência e acolhidas com avidez, e em restabelecer, na sua antiga dominação soberba, a teocracia e a nobreza associadas na mesma obra de retrocesso político e social.
Deve-se ao arcebispo de Tessalónica o não terem logo os jesuitas reassumido a primitiva influência. E se depois, considerações pessoais—porque não era um austero—o fizeram afrouxar na oposição ao ultramontanismo e à grande fidalguia ambiciosa que já começava a detestá-lo e a minar-lhe o poder, o certo é que foi sempre mal visto da cúria romana, a cujas pretensões e exigências abusivas não cessou de tenazmente opôr-se.[87]
Quando êle aparece acompanhado do leigo besuntão, que é seu cozinheiro, seu criado de quarto, seu secretário e confidente, curvam-se diante dos dois em atitude de abjecta adulação, chegando mesmo a ajoelhar-se reverentes ante o arcebispo os mais altos personagens da côrte. Todos apresentaram memoriais e súplicas; uns pedem lugares, outros promoções, alguns, mais astuciosos, a simples bênção de que o arcebispo com a sua grossa malícia fradesca finge não ser pródigo.
E êle, com aspecto desprezador, sem se enternecer, nem se lisonjear, atravessa todo êste mundo de aduladores brazonados com a compostura de um homem que houvesse nascido em berço de oiro. O leigo, na ausência do arcebispo, é o objecto de quási iguais respeitos e cumprimentos.
São proverbiais as respostas sarcásticas de uma ironia acerada, de uma agudeza epigramática verdadeiramente flageladora com que o confessor da rainha retribuía as lisonjas dos nobres pretendentes que o cercavam. É que, sob o aspecto grosseiro e chão, havia nêle um observador finório, que sabia ler por detraz dos cumprimentos requintados, das frases cortesãs, das elegantes reverências, a cobiça vil dos aspirantes de rendosas prebendas, e o desdem íntimo com que se vingava da cruel necessidade de o adular essa nobreza orgulhosa do seu sangue, que o absolutismo dos dois últimos reinados havia envilecido tão sórdidamente.
Por isso o arcebispo, fugindo às pompas da côrte, às solenidades do conselho, a êsse mulherio de escada acima que lhe punha a cabeça em água, e que nem mais nem menos era do que a rainha e as infantas, só se sentia à vontade nos seus aposentos particulares, com um capote sujo e cheio de remendos, um leitão assado na mesa, e a franqueza mais risonha e mais sôlta na palavra e no olhar...
O leigo contava-lhe então quantos condes lhe haviam beijado a manga e quantos tocado o escapulário, e quantos nobres lhe tinham preguntado pela sua saúde preciosa, e quantos lhe tinham feito respeitosas mesuras; e o prelado ria, ria em plena alegria de frade obeso e glutão, que saboreia em liberdade, de envolta com as vitualhas de um bom jantar, a cómica baixeza de cortesãos vistos por dentro...
Uma virtude cristã, a da piedade, doura e idealiza esta grosseira figura de frade. Emquanto êle viveu, a rainha não conheceu os tormentos que mais tarde infligiram à sua consciência de devota e ao seu coração de filha... O inquisidor mor era pela tolerância absoluta contra o fanatismo odiento e militante; o confessor da rainha era pelo esquecimento do passado contra os que pretendiam fazer de vingança o seu lema de govêrno. Não tem, pois, razão a história em maltratar quem se recomenda num meio corrupto e cruel por esta divina virtude da caridade e do perdão.
Em tôrno da família real e dos seus apêndices mais próximos, tais como o ministério, o confessor, etc., reùne-se uma côrte ainda brilhante, apesar dos golpes com que a mutilara a mão implacável do ministro de D.José.
Os duques de Lafões e de Cadaval, os marqueses de Angeja e de Marialva figuram entre os primeiros, e ao pé dêles enfileiravam-se opulentos titulares, marqueses, condes, viscondes na posse de gloriosos nomes tradicionais e representando todos antigas casas, ainda não decaídas da sua primitiva opulência e grandeza, e que contribuíam para dar à vida palaciana um tom de tradicional majestade hoje perdida.
Era celebrada a hospitalidade portuguesa mesmo entre os que mais acremente censuravam os nossos defeitos de raça.
A mesa do marquês de Marialva, um dos mais lindos tipos de fidalgo, um dos mais perfeitos exemplares da velha nobreza, espécie de patriarca universalmente querido e respeitado desde o paço real até à rua, e que durante o proconsulado pombalino fôra o desvelado protector de todos os fracos, logrando muitas vezes alcançar a clemência régia para os mais ameaçados pela cólera do ministro—à mesa do marquês de Marialva assentavam-se quotidianamente dezenas de convivas; das cozinhas do seu palácio saíam por dia trezentas rações distribuídas entre a plebe parasita da capital; o pátio cheio de seges, de estrume e de lacaios, lembrando, no dizer malicioso de Beckford, um pátio de mala-posta, conduzia ao célebre picadeiro, onde o velho marquês se divertia em assombrar os amigos com os prodígios da sua destra e famosa equitação.
Subia-se dalí para os vastos aposentos, onde uma quantidade enorme de relógios—engraçada mania do marquês—marcavam em gentis minuetes, ou em figurações engenhosas, as horas que iam passando alegremente, ora a ver as curiosidades da Índia e da Itália, que cobriam as mesas ricamente envolvidas em damasco e veludo vermelho, ora a escutar as agudas notas da voz de Policarpo, um dos primeiros tenores da capela da rainha, que se acompanhava a si próprio tocando harpa, e que deliciava os ouvintes com essa arte admirável, que foi o culto artístico, quási exclusivo, do nosso século XVIII.
De vez em quando uma porta que se abria, logo fechada, deixava entrar nas salas interiores uma adorável figura de mulher, de olhos lânguidos e feiticeiros, olhos de portuguesa a quem um grupo de crianças cercavam como grinaldas de flores vivas, e que trazia à memória do erudito estrangeiro, que porventura a lobrigava rápidamente, uma esplêndida alegoria de Rubens ou de Veronese.[88]
Para a grande sala dos banquetes em dia de mais pomposo ceremonial as pesadas travessas de prata cinzelada, em que lourejam os leitões e as grandes peças de caça, são trazidas por um longo séquito de escudeiros e de capelães, no peito de muitos dos quais brilha a cruz de Cristo ou de Aviz.[89] Êste modo de ser servido à mesa tem um ar inteiramente feudal, e transporta a imaginação dos estrangeiros para os dias do passado, em que os chefes guerreiros são servidos como reis pelos nobres seus vassalos.
Um dia, no fim de um dêsses banquetes a que se assenta um grupo da mais fina flor da nobreza de Portugal, correm todos a ouvir um missionário que reconta terríveis milagres em que a cólera de Deus e a sua vingança se manifestam medonhamente. A marquesa, os filhos e as filhas escutam com ansiosa avidez a história milagrosa e terrível. A noite vem caindo lentamente. Ninguêm se atreve a pedir luz, e a voz do missionário continua trágica, cavernosa, falando das cóleras divinas e dos tremendos castigos do Eterno... Assim o banquete da vida portuguesa, de uma tão naturalista alegria, foi interrompido pela aparição do lívido fanatismo, e o seu riso de caveira paralizou tôdas as nossas energias, e o seu sôpro esterilizador queimou a vasta seara das nossas esperanças, que verdejava ao sol de Deus.
Com essa tremenda superstição das coisas sacras, que tão funesta impressão exerceu no espírito da nossa raça, conciliava muita vez a fidalguia não só os mais soltos costumes, mas tambêm o mais risonho paganismo cristão, e o mais desenfreado carnaval de alegria. E senão vejamos esta scena característica.
Pelos terraços do palácio Marialva, onde metade da família está ocupada em rezar ladaínhas e terços, e outra metade em tocar à guitarra as voluptuosas modinhas que Beckford adorava, brilha de repente a luz trémula e fugaz dos archotes e das lanternas.
Ouve-se a bulha dos remos caindo na água perto das varandas que dão sôbre o Tejo e de um escaler de cincoenta remadores que aproa ao cais, sái o velho fidalgo acompanhado do filho D. José e seguido por uma multidão estranha e pitoresca de músicos, de poetas, de toureiros, de lacaios, de frades, de anões, de negros, de crianças de ambos os sexos fantásticamente vestidas.
Vem de uma romaria ao altar de um santo que fica da outra banda do Tejo. Rompe a marcha um corcundinha anão soprando uma minúscula trombeta; ao corcunda segue-se um figurão alto, velho, desasado, gingão, que se pavoneia muito contente no seu uniforme vistoso, e que já, em não sei qual ilha remota, fêz o papel de governador. Um frade de catadura feroz, mais alto do que Sansão, dois capuchinhos carregados com cestos enormes de misteriosas provisões vem logo atrás. Aparecem em seguida dois tipos não menos característicos: um boticário esguio, esgrouviado, esquálido, cadavérico e trajando luto pesado; e uma espécie de improvisador meio pateta, o bobo indispensável ao fidalgo português, que atira versos destemperados e quadras sem nexo aos curiosos que acodem de dentro do palácio às varandas para assistirem ao desfilar da estranha, da pitoresca procissão, cuja rectaguarda é ainda composta da turbamulta gritadora dos barqueiros e dos criados, acarretando gaiolas de pássaros, lanternas, cestos de fruta, ramos de flores, não sabemos que mais!
Vê-se bem que vida intensa, ainda então peculiar à raça portuguesa, apesar de tôda a sua triste decadência, se traduzia neste voltar da festa tão pitoresco, tão alegre e tão doidamente ruidoso!
Ao lado desta casa de fidalgo português, em quem as tradições antigas teem uma preponderância acentuada, os Penalvas, mais cultos, mais letrados, dão às suas festas um cunho de arte cosmopolita.
Na capela tocam-se as músicas mais escolhidas; na livraria aberta ostentam-se as mais raras e mais antigas edições de clássicos portugueses e antigos; quadros das escolas italiana e flamenga enchem as paredes dos vastos salões; flores exóticas e flores dos nossos jardins enfeitam os vasos antigos da Índia e do Japão; as senhoras não aparecem, é certo, mas os académicos, os artistas de mais nota, as ilustrações de todo o género, trocam ali, em conversação animada, ideas que veem lá de fora e começam a cativar os espíritos mais cultos da nação.
No meio da festa, em que fraternizam os homens da inteligência e os homens da nobreza, sob o teto hospitaleiro dos marqueses de Penalva, travam-se aqui e ali conversações parciais, confidências a meia voz...
O conde de S. Lourenço conta animadamente a sua viagem à Itália, as impressões de arte que ali colheu, os cardiais com quem conversou...
O estrangeiro, que atentamente o escuta, mal sabe que a longa clausura da Junqueira determinou no cérebro do nobre prisioneiro a alucinação que consiste em julgar ter vivido uma vida inteira cheia de viagens, de sensações, de prazeres completamente imaginários... Passa d’ali para narrar a sua estada no congresso de Aix la Chapelle, a missão que ali representou... As palavras do alucinado fidalgo excitam um movimento de simpatia piedosa em quem o escuta. Foram os tratos da prisão que lhe causaram aquela estranha perturbação mental.
O cérebro sofre, o orgulho, o belo orgulho da raça, êsse ninguêm lh’o pôde amortecer! Há poucos dias atirou para o lugar mais recôndito e mais secreto do paço com a sua chave de camarista, julgando-se mal recebido pela rainha. Não é vulgar tamanho desprendimento nesse tempo de vil subserviência ao capricho do monarca.
O conde de Vila Nova, futuro marquês de Abrantes, tem como S. Lourenço uma mania, mas muito menos interessante.
O seu gôsto mais violento consiste em vestir opa vermelha e andar atrás do Santíssimo, de campaínha na mão. Não há namorado tão cioso da sua bela como Vila Nova da sua campaínha.[90] Não admite que outro lhe toque, que mão profana a faça vibrar. As paróquias que cercam o seu palácio nunca deixam que o sagrado viático seja conduzido a qualquer enfêrmo sem prévio aviso feito a Vila Nova, que abala pressuroso a empunhar a vibrante campaínha. E agita-a cheio de convicção, ou seja noite alta, ou faça frio de gelar os ossos ao mais intrépido, ou caia pino sôbre a cabeça dos transeuntes o sol do nosso ardente meio dia de Julho, ou êle tenha de subir aos últimos andares de um miserável casebre, ou de descer ao covil subterrâneo da mais imunda miséria.
Ali, no meio da festa, Vila Nova volta ansiosamente a cabeça a cada movimento desusado com receio de que hesitem em transmitir-lhe o aviso que porventura lhe seja enviado das duas ou três paróquias de que êle é humilde servo e sacristão oficioso.
Quem é aquele velho elegante, afectado, garrido, com ademanes e donaires de pisa-flôres, carmim nas faces e môscas sublinhando o sorriso inteligente e o agudo olhar brilhante?...
É o duque de Lafões, o fundador da nossa academia, um tipo de grand seigneur cosmopolita—à maneira do príncipe de Ligne, seu contemporâneo e de certo seu amigo,—que durante o reinado de D. José se conservara longe de Portugal, viajando na Europa, brilhando nas côrtes de Versailles e de Vienna, conhecido de tôda a alta sociedade europeia como duque ou príncipe de Bragança, convivendo com reis e com poetas, com artistas e príncipes, com homens de gôsto e homens de Estado, com dandys e com pensadores...
Para se saber como êle patrocina as artes basta apontar o que êle foi entre nós para o abade Correia da Serra e mais colegas seus da academia; o que foi em Vienna para o nosso abade Costa, de que mais tarde falaremos, e para Gluck, o famoso compositor, o carácter intratável que lhe consagra a partitura da sua ópera Helena e Páris com uma dedicatória, que faz tanta honra à fina inteligência aberta e penetrante do duque, apta a compreender e estudar estas questões de arte de uma subtileza tão delicada, como ao grande artista que nela formula todo um programa de estética hoje realizado e então entrevisto apenas.
Citarei algumas palavras dessa dedicatória:
Queixando-se da incompetência e da audácia da crítica do tempo que condena o método do compositor sem sequer se penetrar dos princípios que a êle presidem, Gluck conclúe dêste modo:
«Julgaram-se autorizados a pronunciar-se acêrca de Alceste depois de ensaios mal dirigidos e pior executados; calcularam numa sala o efeito que a ópera produziria num teatro; é com a mesma sagacidade que em uma cidade da Grécia quiseram noutro tempo julgar a alguns passos de distância o efeito de estátuas esculpidas para serem colocadas sôbre colunas altíssimas.
«Um dêsses delicados amadores que concentram a alma inteira nos ouvidos achou uma ária demasiado áspera, um trecho em extremo acentuado ou mal preparado sem conhecer que, dentro da situação em que estava essa ária, êsse trecho era o sublime de expressão e formava o mais feliz contraste. Um harmonista pedante nota uma negligência engenhosa ou um êrro de impressão, e apressa-se em denunciar um e outro como pecados irremissíveis contra os mistérios da harmonia...
«É certo que não são mais felizes as outras artes, o que não é para elas a crítica nem mais justa, nem mais esclarecida. Vossa Alteza adivinha fácilmente a a razão disto. Quanto mais se procura conscienciosamente a perfeição e a verdade mais necessárias se tornam na arte a precisão e a exactidão...»
Vê-se por êste rápido trecho, que não amplificámos mais por não ser o ensejo oportuno, como, entre o duque e o grande mestre revolucionário, deviam ser freqùentes e familiares as relações artísticas; vê-se como o maestro confia na inteligência crítica do fidalgo, e que estreita comunhão de ideais havia entre um e outro.[91]
O duque voltara a Portugal depois de ter saboreado lá fora o que tinha de mais requintado a civilização e a alta cultura das primeiras capitais do mundo. Tentara transplantar para aqui alguma coisa do muito que admirara e vira, e de feito é a êle que se deve a fundação da academia e a protecção generosa e inteligente aos trabalhos de naturalistas e de sábios seus contemporâneos.
Ao lado desta figura de uma tão alta e tão refinada elegância, que pode bem equiparar-se à de um Richelieu, à de um príncipe de Ligne, à de um dos muitos que lá fora reùniam aos privilégios herdados do nascimento as graças adquiridas numa cultura variadíssima e numa educação dada pelos centros mais esplêndidos da vida intelectual—a sociedade portuguesa do tempo oferece-nos uma infinidade de outras figuras secundárias que se destacam ou pelo ridículo ou pelas afectações características do seu papel social.
Monsenhor de Aguilar, cónego da patriarcal, um personagem do tempo, aparece saltitante, chilreador, e murmurando a ouvidos indulgentes segredos voltaireanos contra a Igreja católica, de que vive e que explora.[92]
A influência fradesca imprimia em Portugal o sêlo da ignorância beata... A plebe, dissoluta e soez, adorava as procissões que contentavam as suas moderadas exigências estéticas e religiosas, e acudia fremente e doida de entusiasmo às touradas, onde o seu amor, o seu culto da fôrça, era brutalmente acariciado. Não precisava de mais nada para ser feliz.
A nobreza, essa, livre do jugo de Pombal, reassumiu a arrogância antiga, governava no paço e nas secretarias do Estado, cuidava em manter o povo na ignorância que o tinha curvo, submisso diante dos seus abusos e caprichos, e discutia sériamente os milagres de vários santos, e as tricas engenhosas de Belzebuth...
Beckford a propósito conta a história da conversão de uma velha inglesa tísica, cujo corpo é levado à sepultura pelas mãos patrícias de Assecas, S. Lourenço, Marialvas, etc., todos extasiados pelo milagre dessa conversão inesperada, emquanto Acciaoli, o núncio, esfrega as mãos de contente, dá estalinhos com os dedos, e faz figas ao Diabo, lançando-lhe em rosto o roubo da alma da velha inglesa que o cão tinhoso já julgava ter nas garras... «Feliz inglesa! exclama um dos do nobre séquito. No outro mundo teve entrada no paraíso, e neste teve a subida honra de ser levada à cova por homens da alta nobreza! Onde houve já ventura assim?»
É verdade que debaixo desta fraseologia ôca e piegas, a história secreta tem mil anedotas típicas dos costumes do tempo que não condizem com tamanho zêlo pelo culto sagrado... Mas a Igreja é cheia de mansidão e indulgência; os mosteiros, como o de Alcobaça e outros, regorgitam de quanto a abundância tem de mais pantagruélico, e a sciência da vida de mais requintado e cómodo...
Não há onde melhor se coma e onde mais voluptuosamente se saboreie o lado material da existência que nesses retiros em que a carne devia ter-se espiritualizado até ao renunciamento absoluto e ao sacrifício supremo de tudo. Tanto o contraste entre o que se pratica e o que se prega é frisante naquela época...
O padre Teodoro de Almeida revira os olhos, faz esgares hipócritas e visagens devotas, e pronuncia discursos seráficos que o inglês, um pouco scéptico, de onde colhemos estes quadros, classifica de first rate of hypocritical cant.
Não é possível nomear cada uma das figuras que desfilam diante do nosso olhar, fotografadas em flagrante realidade pelos observadores do tempo. São os aduladores flexíveis, subtis, maleáveis, com meneios de reptil e graças serpentinas; é a anãsinha Rosa, garrida e sentimental, acompanhando a rainha, que morre por ela, para todos os lados e fazendo parte integrante da côrte que não ousa rir-se daquela anomalia; é o bobo João da Falperra, esgueirando-se hábilmente por tôdas as portas que encontra abertas, e inspirando ao conhecido leigo do arcebispo de Tessalónica, tão famoso pelos epigramas e agudezas, êste dito tambêm famoso:
«Na côrte penetram fácilmente homens de mérito superior, santos e bobos. Os primeiros desaprendem logo que tudo sabem; os santos fazem-se mártires; e os bobos são os que únicamente prosperam!»
Os fidalgos moços adoram a convivência do baixo povo, diante do qual se sentem à vontade, sem que a própria ignorância os humilhe. Há nas ruas de Lisboa serenatas e guitarradas, em que os filhos das primeiras casas acompanham os seus criados e os amigos dêstes; o conde de Vila Nova abre na noite de S. Pedro, à multidão da capital, os seus jardins iluminados com lanternas venezianas, e no baile que desenrola sob as árvores a sua desenfreada alegria, quermesse flamenga, os herdeiros de casas principescas misturam-se jovialmente com a escuma das Vielas e becos da cidade.[93]
É pitoresca, animada, caracteristicamente nacional esta vida, mas falta-lhe, a espiritualizá-la suavemente, a influência da mulher então menos que nula, e a cultura geral, que é deficiente e incompletíssima. Há homens de primeira classe, talvez, mas segue-se-lhes logo, sem intermédio algum, a massa ignorante e brutal onde não penetrara ainda um raio de luz civilizadora.
A castidade da rainha não permite que uma única mulher pise as tábuas do proscénio. Depois da quadra luxuosa e pomposíssima em que a história do teatro português, no dizer curiosamente documentado do eminente escritor Teófilo Braga, excede em grandeza a dos melhores teatros do mundo e tem ligados à sua fama os nomes dos mais célebres arquitectos, como Simão Caetano Nunes e Inácio de Oliveira; dos melhores pintores e scenógrafos, como Servandoni, disputado à côrte de Portugal pelas côrtes de França, Inglaterra e Polónia, Bibiena, Azzolini; de compositores como Cimarosa Paisiello, Piccini, Jomelli; de cantores como Caffarelli e Gizziello[94],—depois do curto mas extraordinário esplendor das representações da Ópera do Tejo ou Teatro dos Paços da Ribeira, reduzido a ruínas pelo terremoto no próprio ano em que D. José o tinha mandado executar pelos artistas mais brilhantes do tempo, e onde sob a direcção do maestro napolitano David Perez cantaram os Castrati mais célebres (um dos quais foi presenteado por el-rei, depois de executar uma cantata de Jomelli com uma galinha de oiro cercada de vinte e quatro pintainhos tambêm de oiro),—depois dêsse período de luxo, de extravagante luxo artístico, que tão pungente contraste faz com a miséria dos tempos e dos povos—o teatro nacional, sob o reinado de D. Maria, tem apenas para encarnar as suas criações mais ideais alentados mocetões de faces azues, de barba, que declamam em grossa voz avinhada as suas queixas de amores ou cantam em antipático falsete as suas árias e motetes. Noiva gentilmente envolta em véus virginais, princeza viúva coberta de crepes do seu luto, joven namorada fugindo à cobiça de um velho tutor libidinoso, donzela de régio tronco perseguida pelo ódio de um tirano feroz, Andromaca ou Ifigénia, Zaira ou Inês de Castro, Medéa ou a Espôsa Perseana, tôdas as heroínas da tragédia ou do melodrama, da comédia ou da ópera teem fatalmente de ser representadas pelos mesmos latagões membrudos, de atlética musculatura e voz que em vão se esforça para ter notas aflautadas. A arte chegara a êste apuro lamentável, e depois de ter sido no tempo de D. João V e D. José decorativa, espectaculosa e cesarista, mais feita, é verdade, para o regalo dos sentidos do que para a educação da alma, ei-la que se tornava agora burlesca no aspecto e nas intenções...
Nos teatros da Rua dos Condes e do Salitre freqùentados pela alta aristocracia, e num dos quais a condessa de Pombeiro, loira, branca, diáfana, aparece uma noite, seguindo o exemplo que então davam a rainha e tôdas as damas du bel air, acompanhada por anãsinhas pretas, que no fundo do camarote sublinham com tregeitos e esgares cómicos, mais divertidos do que a peça, a mímica dos desgraçados actores, e dão uma espécie de scenário africano à beleza do norte, aérea e fina da juvenil patrícia portuguesa[95]; nos teatros da Rua dos Condes e do Salitre representam-se longas trági-comedias arregladas do italiano e do francês, entremezes tambêm copiados ou traduzidos—perdida a tradição do teatro admirável de Gil Vicente e das farças e comédias do Judeu e de outros, em que a vida portuguesa se retrata como num espêlho ainda mal polido, mas já fiel em dar o contôrno e a expressão.
Acabaram as noites febris da Cecília Rosa, da Zamperini, das irmãs Pagnietti, da Todi, da Cecília Aguiar; a embezerrada melancolia beata dos régios personagens distinge em tudo, até no divertimento que mais devia popularizar-se, e do qual se podia fazer um elemento de educação e de civilização.
De vez em quando uma farça de Nicolau Luís os Maridos peraltas; o Viajante; uma comédia arranjada ou feita por Manuel de Figueiredo o Fidalgo da sua própria casa, o Dramático afinado, a Mulher que o não parece, Pássaro bisnau; um entremez anónimo, Fastásticas basófias, lograções e calotes de D. Harpia, as Desordens dos Paraltas, os Casadinhos, o Entremez da assembleia do Isque, de Leonardo Pimenta e Antas, e outras produções cómicas genuinamente nossas, conseguem arrancar da entristecida e degenerada alma popular uma forte explosão de riso alegre e sadio. Mas são raras e abandonadas pela fidalguia da côrte essas noites de gaudio plebeu e português de lei, em que aparece a punição risonha dos ridículos da moda, executada pelos cómicos que saíram do povo e que a êle pertencem como o excêntrico Nicolau Luís.
Nos teatros régios continua a tradição palaciana das óperas e oratórias, umas portuguesas, como Gli Orte Esperide, de Jerónimo Francisco de Lima, como Il Natali de Geove, de João Cordeiro da Silva, como Angélica, de João Cordeiro da Silva Carvalho, o mestre de Marcos Portugal, outras italianas, de Piccini e de Perez.
Nos outros teatros, a gravidade sonsa e mazorra da Arcádia impunha à paciência dos espectadores a longa e fastidiosa melopeia das tragédias, que a dúbia erudição de Francisco José Freire arranca à pobre e desfigurada antiguidade de que o seu século ignora completamente o espírito. É a Medea e o Edipo de Séneca, a Hecuba de Euripides, a Efigénia em Aulide, o Mitridates de Racine que Filinto traduz no seu português pedregoso e duríssimo, os Scitas e o Mafoma de Voltaire, e Alexandre na India, o Tamerlão na Pérsia, o Faramundo na Boémia, e as Rigorosas leis da amizade cumpridas em Olimpiade, de Metastásio, a Mais heróica virtude ou Zenobia em Arménia do mesmo, e Constantino o grande, ou a Ambição castigada por si mesma, e o Radamisto, de Crébillon, são dezenas de tragi-comédias, de tragédias, de melodramas, em que a nota do fastidioso predomina atrozmente, em que os costumes portugueses, a alma portuguesa, o passado português nunca ou raríssimas vezes transparecem.
O teatro italiano de Goldoni e Metastásio, o teatro francês do século XVII, Voltaire e Crébillon, a Grécia inteiramente desfigurada por traduções inábeis, eis o que alimenta o nosso teatro nacional, freqùentado pela fidalguia ou patrocinado pela realeza.
Eis aqui os traços gerais (em que a cronologia nem sempre é rigorosamente respeitada, mas cujo espírito nos parece verdadeiro, pois foi colhido com escrúpulo nos documentos do tempo) da sociedade que Leonor de Almeida conheceu e teve de aceitar ao sair do tranqùilo remanso de Chelas e da paragem deliciosa de Almeirim. E esta sociedade com os seus efeitos de luz e sombra, os seus tons brutais, a sua separação completa entre os gostos íntimos e as representações oficiais que a arte traduz, os seus preconceitos esmagadores, a sua ignorância profunda, que a surpreendeu, e que decerto lhe desagradou irresistívelmente. ¿Que lugar tinha ela, a erudita, a elegante poetisa nesse meio em que alguns homens apenas destacavam, e em que Bocage ia aparecer como um fenómeno imprevisto, de que Filinto fugira indignado, em que a inteligência tinha apenas um papel secundário, ou quando muito ociosamente decorativo? Não lhe era permitido sequer dizer o que pensava, porque o seu tempo estava justamente naquela transição crítica e perigosa em que a hipocrisia se alia ao fanatismo, e em que a palavra serve apenas para ocultar o que o espírito cogita... As amigas afastavam-se porventura assustadas, humilhadas, daquela mulher viril que bebera nas dores nobremente suportadas a sciência amarga da vida, e que amando com entusiasmo os prazeres do espírito não pode, por mais que nisso empregue patéticos esforços, subordinar-se a um meio de estupidez ou de futilidade.
Cada frase de Leonor era um conceito, e o chilrear inocente e pueril de crianças que não sabiam o que era sofrer, lutar, dominar-se e vencer-se, não podia de certo agradar ao seu entendimento viril e profundamente cultivado.
Os homens—tão inferiores a ela pela inteligência, pela instrução, pela energia antiga—olhavam-na sorrindo com êsse sorriso insuportávelmente complacente, que êles se dignam opor ao mistério irritante de um grande espírito de mulher.
Achavam-na provávelmente deslocada no seu país e no seu tempo, e riam-se dela, raivosos de a não poderem desprezar...
O pai olhava-a inquieto, divergente de cada uma das suas opiniões avançadas e ardentemente expostas com aquele calor que as suas cartas manifestam, menos terno do que fôra na ausência, menos admirador do que o deixava entrever nas frases escritas que ela relembrava com saudade.
¿Onde é que estavam as queridas ilusões que Leonor com tanto amor nutrira? Que pena para o observador e para o moralista, que ela não tenha deixado num jornal, como então tantas mulheres escreviam em França, numa correspondência como as que tornam imortais tantos nomes femininos que de outro modo a obscuridade subvertera—que pena que ela não nos tenha deixado a confidência das amarguras que nessa crise da vida a sua alma suportou! Há um jornal publicado muito recentemente por uma jovem artista russa, morta na flor da vida, que exprime com extraordinária intensidade essa dor singular da mulher em completa desarmonia com o seu destino, com o seu meio, com o tempo em que vive!
Essas agonias requintadas que tão poucas teem sofrido, e que só uma aristocracia diminuta de almas femininas pode experimentar, Leonor de Almeida sofreu-as em viril silêncio estóico! Apenas percorrendo os versos que ela fêz depois de sair de Chelas, de certo antes de casar (é deficientíssima em datas e esclarecimentos cronológicos a edição das obras da marquesa), encontramos nêles um eco da profunda melancolia que a devora. Mas são tão pouco simples os versos daquele tempo, é tão exagerada e tão artificial qualquer das suas formas, que essa expressão de tristeza não conseguira comover-nos se a não a relacionássemos com verdadeiras dores suportadas nesse período pela alma de Leonor de Almeida.
É tão cortado de desilusões o presente que ela sonhara feliz até ao êxtase, até ao arrebatamento, que a poetisa tem saudades das tristezas de Chelas; ao menos a essas doirava-as a divina esperança, fada da mentira, cuja missão é enganar-nos sempre, amolecendo-nos a alma, roubando-nos a viril coragem do desespêro absoluto:
Ideias minhas, multidão de ideias,
Que algum dia da cítara eu fiava.
Vinde trazer-me as horas que eu passava
Ao som de menos ríspidas cadeias.
Bem que tristes, de paz as horas cheias
Saturno no seu corpo as sepultava
No feliz tempo em que eu inda ignorava
Que havia para mim outras mais feias.
Ide colher aos ermos tenebrosos
Os ais que lá deixei menos sentidos
Para modêlo dêstes tão queixosos.
Talvez que êsses antigos meus gemidos,
Com que eu domava os monstros furiosos,
Hoje abrandem meus fados desabridos.
E ainda noutro soneto da mesma época correspondendo à mesma sorte de impressões:
Sei que o prazer qual frágil planta dura,
Que o progresso do tempo traz mudanças,
E que alegria é sempre mal segura.
Troco assuntos ditosos, por lembranças,
Basta a meus hinos glória sem ventura,
Honra, virtude e murchas esperanças.
Mas se esta velada confissão não bastasse para nos guiar nas nossas investigações íntimas, teríamos em todo o caso o seu casamento.
Entre tantos fidalgos portugueses que freqùentavam a sua casa (alguns dos quais, infelizmente para ela, corresponderiam por demais ao retrato típico que ela traça de Bernardo da Silveira) um estranjeiro, o conde de Oeynhausen Grovemburgo, que ela quer, que ela escolhe, quem contra vontade do pai, que nem sequer lhe assiste ao casamento, ela aceita para marido. ¿Há mais claro indício do desgôsto que, entre os da sua raça e da sua terra, lhe inundou a alma ambiciosa, exigente, perigosamente exaltada pelo belo?
No prefácio das obras de Leonor de Almeida, a que mais de uma vez nos temos referido, vem a genealogia do conde de Oeynhausen traçada com escrupuloso esmero pelas suas descendentes. De feito o conde descendia de uma casa nobilíssima da Alemanha; era primo co-irmão do conde Schaumbourg-Lippe, o que o não privava de pertencer a essa procissão innumerável de fidalgos pobres, que então enxameava por tôdas as côrtes do mundo, e que ofereciam o seu braço de soldado a todos os que dêle precisassem para combater qualquer causa, fôsse ela qual fôsse, contanto que rendesse para viver, e viver bem.
Leonor de Almeida, escrevendo ao pai do convento de Chelas, ainda, é certo, em tempo do marquês de Pombal, referia-se desdenhosamente a êsse bando de nobres aventureiros, que atrás do conde de Lippe tinham penetrado tambêm em Portugal e ocupado muitos dos importantes postos do exército, agora um tanto estrangeirado como de todo estrangeiro era o seu comandante em chefe.
Citemos, como é nosso costume, a frase textual de Leonor:—«Creio que tem lugar aqui a reflexão assás comum de que o maior despotismo cava o princípio em que se despenha. Estamos a pique de nos engulirem os ingleses ou os castelhanos. Os melhores soldados são os descontentes, e restam para a frente dos nossos exércitos um estranho (o conde de Lippe) e vários bonecos que representam por arames como os da comédia! Bons sucessores dos nossos guerreiros honrados!»
O caso é que um dos tais bonecos a que Leonor se refere aqui, é o conde de Oeynhausen. Êste, na côrte de Portugal, que a esta hora se recomendava pela cegueira da superstição e pelo requinte do beatério baboso, entendeu que o melhor meio de fazer caminho era tornar-se católico.
Por uma felicidade, que nem sempre um narrador consciencioso dos factos do passado topa no seu caminho, fomos deparar no livro do malicioso irlandês Costigan, contemporâneo do conde de Oeynhausen em Portugal, com a cerimónia imponente e luxuosa do seu baptismo.
O conde de Oeynhausen era respeitado na côrte pelos seus talentos militares e pelo bom senso e conhecimento do mundo, e estas qualidades pessoais, juntas à circunstância de pertencer, pelo nascimento, a uma família de príncipes, levavam a rainha a ser madrinha do novo neófito do catolicismo.
Na capela da Ajuda compareceu, pois, para êsse fim, a rainha D. Maria I, acompanhada pelo príncipe seu marido, aquela figura caricatural de que já demos esbôço imperfeito. Ao pé dos dois via-se Angeja, o primeiro ministro, obeso, escuro, com baixo aspecto de onzeneiro judeu e cercado ali mesmo de adulações e cumprimentos que há pouco convergiam todos para a figura majestosa e imponente do exilado ministro de D. José! A figurinha esperta, movediça, maliciosa de Martinho de Melo, lança em tôrno de si os golpes rápidos do seu vivíssimo olhar, emquanto Aires de Sá, magro, emmaciado, com um grande livro de Horas na mão, nem repara no que se passa em tôrno dêle, tão do coração se entrega às rezas e orações ferventes que aquela cerimónia sugere ao seu espírito de católico, tão ardentemente fixa o olhar extático nas imagens que resplendem sôbre o altar, e nas cerimónias rituais celebradas junto dêle. O conde da Ponte, camarista de el-rei e coronel de infantaria, perfila-se perto do príncipe, com a sua face de eunuco, onde não transparece o menor vestígio de barba. Endoideceu-lhe há pouco a mulher que conveniências de família tinham forçado a um casamento odioso, e vinga-se dela, do destino que o flagelou com secretas amarguras, do mundo que o não poupa a epigramas e alusões empeçonhadas e a conjecturas cruelmente indiscretas, fazendo da vida um assunto de rabelaiseana gargalhada, sendo em cada festa aquele conviva que põe todos os outros em convulsões de riso, tendo um dito, uma resposta, um repente, um chiste para cada acontecimento, para cada indivíduo, para cada circunstância, para cada tragédia que passa... O alvo favorito dos seus epigramas e ironias é o cardeal da Cunha, empavezado agora, na sua balofa nulidade, com a importância adquirida na sombra do grande marquês. Foi o conde da Ponte quem, como já dissemos, visitando a livraria do cardeal, composta de onze mil volumes, fêz notar ao bibliotecário que tinha ali sua eminência para servi-lo nem menos de onze mil virgens!
Aos olhos de Costigan,—o soldado aventureiro doido pela fôrça, como os da sua raça,—destaca-se a figura marcial do marquês das Minas, «nascido para homem de guerra e homem de brio», mas tendo naquele meio, degenerado e tão hostil aos fortes, adquirido defeitos que lhe deslustram a instintiva nobreza da alma. Superior a muitos dos seus compatriotas pela inteligência, pela energia e pela instrução, contava-se que êle não duvidara entrar numa conspiração urdida no paço, em que os primeiros fidalgos da côrte se tinham munido de facas de ponta, para assassinarem o marquês de Pombal, caso êle tentasse reter nas mãos o poder que a morte do rei fatalmente lhe arrancava...
A voz do frade dominicano, que se levanta estrondosa, acordando os ecos da capela, arrancava Costigan à contemplação das diversas figuras da côrte, salientes por esta ou aquela qualidade mais característica, e levava-o a concentrar todo o seu poder de atenção nessa espécie de eloqùência.
O frade extasiava-se ante o mérito daqueles que consagram a existência à conversão de herejes e de infiéis. Lembrava quanto era extensa, enorme, incontável a lista dos convertidos às verdades da nossa santa religião. O seu santo patriarca, S. Domingos, outra coisa não fizera, em tôda a sua santíssima vida, senão converter ímpios e infiéis em quási todos os países da Europa, entre os ruins albigenses, os protestantes da Alemanha e da França, os judeus e mouros de Portugal, isto sem usar modo algum de fôrça ou compulsão, como êle prègador afirmava ao seu pio auditório, mas sómente com os estupendos milagres que operava, e com o flamejante raio da sua palavra poderosa. Desde êsses remotos tempos até agora não houvera príncipe, nem monarca, tão zeloso em animar as conversões à Santa Igreja como Sua Fidelíssima Majestade ali presente, por cujos méritos Nosso Senhor e Nossa Senhora a haviam de recompensar amplamente com a paz e prosperidade neste mundo e uma coroa de glória no outro.
—«Deixai, continuava êle, deixai que as innumeráveis conversões, presenceadas por esta augusta côrte, desde o feliz acesso ao trono de Sua Majestade a Rainha, confirmem a verdade do que eu digo—deixai que os sombrios huguenotes da França, os réprobos herejes da Inglaterra, os seguidores alemães do cruel Calvino e do ímpio Lutero, os quais teem sido em número incalculável baptisados dentro destas paredes, declarem quão ferveroso e ardente tem sido o zêlo de Sua Majestade em os fazer renunciar aos seus erros abomináveis, em se professarem filhos dóceis e humildes da única Igreja infalível que existe sôbre a terra.
«Oh! que eu não tenha a voz de um milheiro de anjos (exclama em tom mais férvido o inflamado prègador) para reconhecer dignamente a bondade da Providência em nos enviar tão excelsa rainha, e para agradecer ao meu glorioso patriarca S. Domingos por me haver inspirado a mim o mais humilde, o mais indigno dos seus filhos, com eloqùência, com argumentos, com retórica bastante, para reduzir e vencer o poderoso raciocínio e as bem elaboradas objecções do nobre neófito que estamos a ponto de admitir no seio da santa Igreja visível.»
Neste momento apareceu o neófito, estando já tudo preparado para a cerimónia de o baptisarem. Ao pé da pia baptismal estava el-rei e a rainha, e os olhos de ambos os régios personagens se arrazaram de lágrimas no momento da piedosa celebração.
Tão depressa ela concluíu, a rainha, dirigindo-se graciosamente ao católico recem-nato, enxugou com o seu próprio lenço de cambráia e rendas algumas gotas de água benta que tinham caído sôbre os bofes da sua camisa, dizendo-lhe «que esperava que isso o não constipasse, pois que era uma espécie de água que nunca fazia mal a ninguêm». A côrte inteira seguiu-se a cumprimentá-lo amávelmente, emquanto as lindas vozes da capela real se erguiam para o alto num Te Deum magistralmente executado, que completava a augusta, a pomposa, a fidalga cerimónia.
Em 1779, dois anos depois da sua saída de Chelas, e poucos dias depois do baptismo do conde de Oeynhausen, Leonor dava-lhe a mão de espôsa, surda à voz do pai, que se levantava arrebatada e violenta, contra esta escolha imprevista, esquecida dos mil protestos que havia feito ao marquês de lhe obedecer sempre em tudo, e principalmente no magno assunto do seu casamento, sem atender à pobreza do fidalgo alemão, que estava em completa desproporção com a nobreza do seu nome, e às dificuldades que por êste motivo o futuro fatalmente lhe guardava.
Sem documentos autênticos e positivos que nos elucidem acêrca das impressões de Leonor ao deixar o convento e ao entrar no mundo e na família, não podemos contudo deixar de atribuir a um desgôsto profundo de tudo que em tôrno de si vira, esta resolução tão estranha e rápida. O conhecimento íntimo do seu carácter é suficiente elemento para esta conclusão, que afoitamente perfilhamos.
Os conflitos entre o pai e a filha, seria necessário uma profunda ignorância da psicologia de ambos para os não agourar desde logo; o antagonismo entre ela e o meio social em que ia viver, ressalta naturalmente da leitura das suas belas e generosas cartas, e da análise documentada da sociedade estranha do seu tempo. Que melhor meio de fugir a tão grandes dificuldades do que êsse casamento, que ia roubá-la por muito tempo, talvez para sempre, à influência esterilizante e deprimente da sociedade portuguesa, à ríspida autoridade, outrora tão querida, do seu ulcerado pai?
Numa epístola sua a um amigo, Bocage, mais tarde, referindo-se a êsse gôsto dos países estrangeiros, de que Leonor dá agora a manifestação primeira, lamenta-se de não poder seguir-lhe o exemplo, planeia tambêm fugir ao meio asfixiante que o envolve. Êle tambêm:
... Como a grande, a majestosa Alcipe
Com pejo de existir cá onde há morte,
Ousara demandar no afoito adejo
Plagas imensas onde tudo é vida.
Mas Bocage, mais infeliz que a poetisa portuguesa, morreu amarrado ao ignóbil poste da sua miséria, tendo as mais das vezes de contentar-se com a plebe dos botequins, para lhe dar aquele nectar inebriante do aplauso ruidoso e sincero, sem o qual a sua alma não podia viver. Foram êsses botequins o teatro mais freqùente dos raptos do seu sublime e independente espírito. Leonor fugiu para longe, gozou, conheceu, teve tôdas as sensações exquisitamente delicadas, que um entendimento como era o dela precisava para se desenvolver. A flor, porêm, daquela viçosa fé nas ideas novas, que as suas cartas tão encantadoramente revelam, murchou de todo no ar artificial das côrtes europeias que freqùentou. A Leonor que volta é bem diversa daquela que partiu. E bem pode dizer-se que a fase mais interessante da sua vida acaba aqui! Mas literáriamente o progresso do seu talento é incontestável.
Como a Stael, ela trouxe a Portugal, de volta da Alemanha, a revelação da profunda literatura do norte, então totalmente desconhecida por nós, e o seu gôsto faz-se tão seguro e tão firme que é ela quem muito mais tarde revela Herculano a si próprio, e o induz a seguir a carreira das letras, segundo a confissão, feita pelo eminente historiador, que trasladamos para aqui:
«Aquela mulher extraordinária, a quem só faltou outra pátria que não fôsse esta pobre e esquecida terra de Portugal para ser uma das mais brilhantes provas contra as vãs pretensões da superioridade excessiva do nosso sexo, é que eu devo incitamento e protecção literária, quando ainda no verdor dos anos dava os primeiros passos na estrada das letras.»[96]
Não podemos seguir Leonor, no desenvolvimento do seu génio poético e da sua carreira social tão brilhante. Outros o farão. O seu carácter original que se foi transformando com a idade e com a evolução do tempo, mais tarde outros o hão de descrever com o brilho e a precisão que lhe são devidos. Nós com bastante pezar ficamos por aqui.