ALEM-TEDIO
Nada me expira já, nada me vive—
Nem a tristeza nem as horas belas.
De as não ter e de nunca vir a tê-las,
Fartam-me até as coisas que não tive.
Como eu quisera, emfim d'alma esquecida,
Dormir em paz num leito d'hospital…
Cansei dentro de mim, cansei a vida
De tanto a divagar em luz irreal.
Outróra imaginei escalar os ceus
Á força de ambição e nostalgia,
E doente-de-Novo, fui-me Deus
No grande rastro fulvo que me ardia.
Parti. Mas logo regressei á dôr,
Pois tudo me ruíu… Tudo era igual:
A quimera, cingida, era real,
A propria maravilha tinha côr!
Ecoando-me em silencio, a noite escura
Baixou-me assim na queda sem remedio;
Eu proprio me traguei na profundura,
Me sequei todo, endureci de tedio.
E só me resta hoje uma alegria:
É que, de tão iguais e tão vazios,
Os instantes me esvoam dia a dia
Cada vez mais velozes, mais esguios…
Paris 1913—maio 15.
XI—Rodopio