RODOPIO
Volteiam dentro de mim,
Em rodopio, em novelos,
Milagres, uivos, castelos,
Forcas de luz, pesadelos,
Altas torres de marfim.
Ascendem helices, rastros…
Mais longe coam-me soís;
Ha promontorios, farois,
Upam-se estatuas d'herois,
Ondeiam lanças e mastros.
Zebram-se armadas de côr,
Singram cortejos de luz,
Ruem-se braços de cruz,
E um espelho reproduz,
Em treva, todo o esplendor…
Cristais retinem de medo,
Precipitam-se estilhaços,
Chovem garras, manchas, laços…
Planos, quebras e espaços
Vertiginam em segredo.
Luas d'oiro se embebedam,
Rainhas desfolham lirios;
Contorcionam-se cirios,
Enclavinham-se delirios.
Listas de som enveredam…
Virgulam-se aspas em vozes,
Letras de fogo e punhais;
Ha missas e bacanais,
Execuções capitais,
Regressos, apoteoses.
Silvam madeixas ondeantes,
Pungem labios esmagados,
Ha corpos emmaranhados,
Seios mordidos, golfados,
Sexos mortos d'anseantes…
(Ha incenso de esponsais,
Ha mãos brancas e sagradas,
Ha velhas cartas rasgadas,
Ha pobres coisas guardadas—
Um lenço, fitas, dedais…)
Ha elmos, troféus, mortalhas,
Emanações fugidias,
Referencias, nostalgias,
Ruinas de melodias,
Vertigens, erros e falhas.
Ha vislumbres de não-ser,
Rangem, de vago, neblinas;
Fulcram-se poços e minas,
Meandros, pauis, ravinas
Que não ouso percorrer…
Ha vácuos, ha bolhas d'ar,
Perfumes de longes ilhas,
Amarras, lemes e quilhas—
Tantas, tantas maravilhas
Que se não podem sonhar!…
Paris—maio 1913.
XII—A Queda