I

No dia em que o Jorge casou com a filha da Isabel houve grande reboliço no Castello de S. João Baptista. Depois da missa regimental, o padre capellão de caçadores 10 recebeu os noivos, com prévia dispensa do prelado da diocese, na grande capella da fortaleza. Era numerosa a assembléa, formada especialmente pelos curiosos.

Officiaes e soldados, logo que o batalhão destroçou, correram para o templo, onde já encontraram muitas mulheres, algumas de manto, aguardando anciosas a chegada do cortejo nupcial, e fazendo em voz baixa e com enorme dispendio de gestos, abundantes commentarios, qual d’elles mais frisante, á resolução tomada pelo cabo de veteranos.—Escolher para mulher uma raparigota, que podia á vontade ser sua neta!—

—Eu cá por mim, exclamava a Luiza Braga, escancarando a boccaça meio desdentada, ía jurar que lhe deram coisa para querer bem. Aqui onde me vêm, destrinço o Jorge desde rapaz pequeno, e nunca lhe descobri tenções de casar. Não era então aos cincoenta e oito annos, que estando com o juizo todo, havia de... Nada! Nada! Elle bem sabe que «albarda nova em burro velho é matadura certa».

—E a quem o Jorge foi buscar?... Á Rosa!... acudiu a Josepha Julia, cunhada do sargento Migueis, piscando muito o olho esquerdo, unico de que era possuidora.

—Eu não digo que a rapariga seja somenas, mas sempre é filha da Isabel, e ninguem desmente o seu sangue. D’arredio, d’arredio, é que eu gosto de vel-as a ambas!

—Deixe a tia Luiza estar que a Rosa tambem não é nenhuma santinha, replicou a Josepha. Não lhe quero pôr pitafe, mas se foi verdade aquella historia com o sargento Luiz...

—Não seria, menina. Olhe que a Isabel é rata sabia e não a deixava ir á noite, sósinha, para o baluarte de S. Pedro. O 33 da artilheria é que disse, que tinha lá visto os dois, mas como todos lhe conhecem a má lingua... Pois não foi elle que andou por ahi a espalhar que a menina Josepha olhava para o alferes da segunda, um homem casado e pae de filhos?!

A Josepha, ao ouvir estas palavras, que lhe foram quasi segredadas, poz-se vermelha que nem malagueta, e redarguiu promptamente:

—Tão damnada é a lingua d’elle, como as que repetem o que o marau vomita. Ubei!

—Ó menina, olhe que eu não tenho falas com o 33!

—Nem deve ter, que a tia Luiza, por ter essa edade, não escapa a similhante navalha. Sempre que o tio Braga passa ao pé d’elle, apanha a sua risadinha e é apontado com o dedo...

A velha despediu-lhe um olhar terrivel, enguliu em secco, e atalhou:

—Bem, bem, não se fala agora nas patifarias do 33. Em todo o caso o Jorge devia saber que a Rosa não era para a sua bocca.

—E que pode empanzinar com o petisco, accrescentou a outra, já de perfeito accordo.

N’esta occasião sentiu-se o ruido dos passos de muita gente que vinha atravessando a parada, e os noivos d’ahi a instantes entravam na capella, acompanhados pelos padrinhos, pelos convidados e pelas pessoas que, impellidas pela curiosidade, tinham ido esperal-os á porta da casa terrea, onde a viuva do sargento José de Medeiros vivia desde ha muito, por mercê dos governadores do castello. O Jorge, aprumado dentro da sua farda de gola alta, botões muito lusidios e divisas alvas de neve, mal deitava os olhos para a gente que o rodeava, e, com a cara a escaldar, seguiu machinalmente pela capella adeante, ao lado da noiva, que vestida de cassa branca semeada de raminhos vermelhos, e toucada de grinalda e veo, dava mostras de vergonha, mal deixando ver os grandes olhos pretos por baixo das longas pestanas assetinadas e bastas. No rosto oval, branco e pequenino, esbatia-se um rubor intenso.

Nunca tinha imaginado poder tornar-se o alvo da attenção de tanta gente, e, se não fosse uma vergonha, fugiria d’alli, a bom correr.

Agora é que deveras se arrependia de ter acceitado a grinalda e o veo á menina Elvira, filha do capitão da segunda companhia de caçadores 10, que estava casada, desde o mez anterior, com o tenente Aurelio Joaquim, ajudante da praça. Se tivesse trazido como tencionava, o seu lenço de seda de barras azues, não daria tanto nas vistas. Era tambem esta a vontade do Jorge, porém a Isabel insistira pelo veo, proclamando-o «coisa muito mais fina».

O cortejo rompeu atravez da multidão, direito ao altar, onde havia de effectuar-se a ceremonia.

Notaram alguns dos presentes, e antes de todos a Luiza Braga, que a Rosa tinha córado mais ainda, e estremecido levemente, ao dar com os olhos no sargento Luiz, que, muito apertado na fardeta côr de pinhão, se bamboleava, com ar de escarneo, na primeira fila dos curiosos.

—Nem aqui mesmo a deixa! Já é pouca vergonha! murmurou a Luiza ao ouvido da Josepha Julia.

—Elles lá se entendem, regougou esta ultima, e concluiu, suspirando: «Tal desgraça!»

Entretanto o padre capellão ia tartamudeando as palavras sacramentaes, e o sargento Luiz muito satisfeito de si cofiava o farto bigode louro.

—Olhem! Lá está o sr. governador! murmurou a Luiza Braga para as mulheres que a rodeavam.

O coronel Jeronymo Cardoso acabava effectivamente de surgir a uma porta lateral da capella e deitava olhares perscrutadores para os noivos, sem comtudo esquecer as dores cruciantes, que lhe impunham os terriveis joanetes.

A Isabel tinha querido que o Jorge o convidasse para padrinho, e chegara até a sondar sua incellencia com exito razoavel, mas o veterano puzéra os pés á parede, e a despeito de uma formal reprimenda da futura sogra, insistiu em escolher o José Maria, seu camarada desde o cerco do Porto, que lá estava na egreja á ilharga do amigo, tentando aprumar quanto possivel o corpo já muito derreado pelos janeiros.

O jantar do casamento foi em casa do Jorge.

Tudo correu bem e só houve de notavel o pregar a Isabel, já um tanto avinhada, uma furiosa descompostura na Luiza Braga, porque a viu á porta da rua, espreitando.

Os convivas apaziguaram a questão e d’alli a pouco despediram-se, indo o José Maria, um quasi nada alegrote, acompanhar a Isabel, até casa.

—Parecemos tambem dois noivos, disse o velho, batendo-lhe, com a mão aberta, no meio das costas, e foi-se embora a trocar as pernas, em quanto a viuva lhe gritava do limiar da porta que «para um marido tanto fino só a rainha que estava em Lisboa!»

N’aquella noite, mercê das copiosas libações, dormiram mais profundamente alguns dos habitantes do burgo militar, que pousado no isthmo que liga a peninsula do Monte Brazil ao resto da ilha Terceira, olha sobranceiramente para Angra atravez das suas numerosas canhoneiras.