II

O Jorge tinha perto de cincoenta e oito annos.

Alto, espadaudo, bem conservado, era, sob o ponto de vista militar, um exemplo vivo do que tinha sido o exercito portuguez, em quanto o governou a disciplina implantada pelo marquez de Campo Maior, e conservada pelos officiaes que tinham servido com o famoso organisador inglez. Era um gosto vel-o perfilar-se deante de um superior e fazer-lhe a continencia com todos os tempos e prescripções da ordenança!

Aos domingos, para ir á missa regimental, punha ao peito o habito da Torre Espada, que tinha ganho no cerco do Porto, por estar umas poucas de horas a disparar sósinho um obuz, contra umas alturas, cujo accesso convinha a todo o custo impedir ás tropas de D. Miguel. As demais praças que primeiro guarneciam a bocca de fogo e outras que vieram substituil-as, tinham ido cahindo, a pouco e pouco, ás balas de um regimento transmontano, espalhado em atiradores na frente da bateria.

—Maior Africa tu fizeste, dizia-lhe n’essa tarde o primeiro tenente José Victorino Damasio, em ficares com ambos os braços, do que em escapar ás ameixas d’aquella sucia! Tu és doido! Servir sósinho um obuz!...

—Ó meu tenente, redarguiu o artilheiro ilheu com cara muito seria, pois elle havera de estar calado, tendo uma bocca tanto grande e sempre escancarada?! Até parecia mal!

—Em todo o caso foi doidice, continuou o tenente a rir.

—Saiba V. S.a que muitos senhores officiaes tambem dão cá á gente d’esses maus exemplos. V. S.a desculpe, mas parecia mesmo doidinho, quando n’aquelle dia em que lhe atravessaram o corpo com uma bala, queria á fina força, mal lhe fizeram o primeiro curativo, continuar a commandar a sua peça. Eu bem me lembro! Só á má cara é que o arrancámos de lá. Por isso, accrescentou o Jorge, indicando a insignia da Torre Espada que ornava o peito de José Victorino, fez muito bem o nosso Imperador dando a V. S.a essa fitinha azul ferrete.

—Pois tambem tu a mereces e has de tel-a, affirmou o official.

E teve effectivamente uma das quatro destinadas a artilheiros, na ordem do dia relativa ao combate.

Todas as testemunhas lhe foram favoraveis no inquerito, em que se baseou a concessão.

Ainda assim o Jorge, embora no seu intimo estivesse a babar-se de gosto, não se fartou de desculpar-se para com os camaradas, dizendo que tudo aquillo era obra do tenente José Victorino, e que, verdade, verdade! o que elle tinha feito, fazia-o qualquer galucho.

Depois da convenção de Evora Monte, mandaram-o para a sua terra, para a ilha Terceira, e d’alli a annos arranjaram-lhe passagem a veteranos e o emprego de fiel do material de guerra.

Tinha á sua conta o armazem fronteiro á porta dos carros do castello de S. João Baptista.

Alli, ou n’uma courella do Monte Brazil, que os governadores lhe davam para cultivar, gastou elle durante muitos annos as longas horas do dia, que sempre lhe pareciam curtas.

Era um gosto visitar o armazem, n’aquelle tempo.

Pelo pateo, rodeado de um muro baixo, espalhavam-se com symetria as pilhas de balas cuidadosamente pintadas de preto, e descançavam, em dormentes de madeira, os antigos canhões de ferro e de bronze, tão bem conservados, como se na vespera tivessem vindo da fabrica. Alegrando o quadro, floresciam em volta do recinto hortensias e gyrasoes.

Lá dentro, no casarão apenas allumiado pela claridade coada atravez das frestas envergadas e pela que vinha da porta, alongavam-se em cabides, dos dois lados, soquetes de massa negra e cabo vermelho, emparelhados com as lanadas e os sacatrapos. Os espeques, encostados ás paredes, nos cantos, continuavam a uniformidade do tom vermelho, quebrado tão sómente pela côr de chumbo das pernas da cabrilha, postas ao centro, em cabide mais forte, que sustentava tambem, inferiormente, o molinete, o cadernal e o moitão d’aquelle apparelho destinado ás manobras de força da artilheria.

Toda esta ordem e aceio eram devidos ao Jorge. Raro pedia fachinas para o coadjuvarem. Só quando havia que remover algum peso de muitas arrobas, e assim mesmo!...

Descançava emquanto engulia o boccado.

O jantar fazia-lh’o a Isabel, por um ajuste, que havia entre ambos. Farto de rancho andava elle até aos olhos, e por isso queria «comida feita por mão de mulher». Demais, a viuva bem precisava que a ajudassem, coitada! e não lhe exigia nenhum disparate.

Ás vezes, em logar d’ella, ia a filha levar-lhe o comer. Quando o contracto principiou, a Rosa já era crescidota, mas ainda assim, uns dias por outros entornava-lhe o jantar, porque ia de corrida, para se despachar mais depressa. Apesar d’isto o veterano nunca chegou a zangar-se, porque ao encaral-a, perdia o animo, vendo-lhe aquelles olhos tão pretos e tão bonitos!... E nunca disse nada á Isabel...

Quando o caso succedeu a primeira vez, a Rosa ficou muito contente, e, voltando no dia seguinte, poz a cestinha no chão mal viu o Jorge, e deu-lhe, em agradecimento, um abraço e um beijo.

Ao sentir a carne fresca e macia da rapariguinha tocar-lhe no rosto, o velho ficou exquisito, e d’alli em deante não estava bem ao pé da Rosa. O beijo voltava-lhe á memoria, e com elle a noção vaga de alguma coisa que tinha perdido, e que todos os mais gosavam...

—Nada! Nada! pensava por fim. Eu com isto dou em maluco. O melhor é dizer á Isabel que fica roto o nosso ajuste, que não me arranje mais a comida.

Mas que motivo lhe havia de dar? E custava-lhe tanto vel-a menos vezes, a Rosinha!

Passou-se tempo, a pequena tornou-se mulher, e um dia o Jorge tomou a Isabel de parte e falou-lhe em casar com a filha, de quem era «muito, muito amigo!»

A viuva do sargento Medeiros ficou banzada.

Podia lá entrar-lhe na cabeça que o veterano quizesse aquella gaiata, que não tinha onde cahir morta e que, de mais a mais, no respeitante a juizo... Quantos amargos de bocca já tinha tido em razão d’este particular!... Se havia de ter outros peiores ou de vel-a perdida, mais valia aproveitar aquelle amparo, que lhe cahia do ceu aos trambulhões... É verdade que o noivo podia ser avô da Rosa, mas era homem decidido, e saberia conserval-a no bom caminho.

Ainda assim, por descargo de consciencia, mostrou á filha as coisas como eram: que o Jorge tinha muita edade e que não seria portanto o marido que mais lhe conviesse. Lembrou-lhe, porém, que elle avezava bem bons vintens, que só querendo-lhe deveras é que se teria resolvido a pedil-a em casamento, e que não se parecia em nada com os bandalhos, que andam por esse mundo a desinquietar as raparigas.

—E a final que proveito é o d’ellas, as mais das vezes? perguntava com acrimonia a viuva, fincando as mãos nos quadris, bem especada ao meio da casa. Arranjarem filhos, sem ter apanhado marido!

A Rosa não se decidiu logo. Custava-lhe a tomar o pedido a serio.—Seu marido, o tio Jorge!...

Bem sabia que o Luiz tinha olhado para ella por brincadeira, sem tenção de casar; mas quiz fallar-lhe, para ver que effeito lhe produziria a noticia. O sargento ouviu a participação, achou que o pedido do veterano se justificava com a belleza da Rosa. Elle proprio desejaria fazer o mesmo ... mas não podia, porque o pae o tinha obrigado a prometter casamento a uma prima, em Lisboa, e seria matal-o de desgosto o escolher outra. O que faria com certeza, era ficar solteiro.

A Rosa não o acreditou, mas ficou-lhe agradecida por aquella explicação. Esperava até que o sargento a tratasse mal, quando soubesse dos projectos de casamento. Ainda assim jurou comsigo mesma, que havia de se vingar acceitando o primeiro que a quizesse para mulher, uma vez que podesse gostar d’elle. Mas o Jorge, não! Era tão velho!

Um dia a Isabel entrou fula, pela porta dentro.

A Luiza Braga, a quem ella contara o pedido do Jorge, tinha-lhe dado uma gargalhada nas bochechas, dizendo-lhe que o veterano estava de certo a caçoar com ellas, e que tirassem d’alli a sua ideia.

—Elle é isso? bradou a Rosa, tambem furiosa. Pois negra seja eu, se não estiver casada antes de um mez!

Tinha cumprido a promessa.