III
Tres semanas depois do casamento houve tourada de corda em S. João de Deus.
O Jorge, logo que a Isabel falou em irem todos ao divertimento, condescendeu, dizendo que não queria a rapariga para freira nem para bicho do buraco, e d’alli a boccado saíam do castello pela porta dos carros, os noivos na frente, a Isabel e o José Maria um pouco mais atraz.
Os caçadores da guarda piscaram os olhos uns para os outros cubiçosamente ao verem a Rosa, e um de S. Miguel, mais descarado, commentou, a meia voz, que nenhum d’elles apezar de moços, se benzeria com um «peixão de estoiro» como aquelle que o velho tinha apanhado.
O José Maria, que ainda ouviu a graçola, cuspiu-lhes a phrase: «Galuchada atrevida!» mirando de soslaio o chocarreiro.
Depois de descerem até Angra e de atravessarem parte da cidade, cujas ruas, de ordinario pouco concorridas aos dias santos, mais se despovoavam n’aquelle domingo por causa da tourada, os quatro subiram até ao arrabalde de S. João de Deus, onde já enxameava uma grande multidão.
Dos mirantes, pouco mais altos que uma pessoa, debruçavam-se muitas damas, a quem os donos das casas sempre reservam os melhores logares, e por traz d’ellas ou dos lados apinhavam-se as mulheres do povo, merecendo geralmente umas e outras os olhares de quem buscasse apenas caras bonitas, sendo porém as segundas mais dignas da attenção do pintor de costumes, em razão da variedade dos trajos, que ostentavam quasi sempre com extremada garridice.
Algumas, as mais estimadas, tinham vindo com o manto caracteristico, muito encaloradas dentro d’aquelle envolucro de alpaca preta, egual á da saia, que, franzido em volta da cintura, lhes cobria o tronco, os braços e a cabeça, formando por cima um tecto á laia de telha, duro graças ao forro de papellão que o reveste pelo interior. Quantos rostos não parecem mais encantadores no fundo d’aquelle nicho, quando entrevistos na semi-obscuridade do manto, que mão pequenina, ás vezes bem calçada, sorrateiramente descerra á altura do pescoço, para logo o fechar unindo-lhe as bordas deanteiras, de modo a ficar apenas um orificio, atravez do qual os olhos dardejam curiosos!... E o effeito não falha, porque o pomo vedado é o mais appetecido.
A par do manto, que em muitas se via descahido para traz por causa do calor, figuravam os capotes de longo cabeção e pesado capello terminado posteriormente em forma de travesseiro. Este abrigo, que constitue abobada por cima da cabeça e resguarda as faces com as abas verticaes, acabadas em bico á altura dos hombros, tinham-o tambem deitado para as costas algumas das donas, não menos encaloradas que as dos mantos, ao passo que outras, mais cautelosas, os haviam guardado dobradinhos a preceito, dentro da casa e em sitio escolhido. Nada! Que o capote para muitas é a bem dizer um dote.
Do matiz formado pelos chales e lenços de seda ou de chita, que adornavam as restantes mulheres do povo, destacava-se um ou outro capote e lenço, para ser ainda maior a diversidade dos trajos.
Quando o Jorge e os companheiros chegaram ao logar da festa, já remoinhavam pelas ruas, aos bandos, os rapazes do povo, trajando bellas roupas de panno fino, chapeus de feltro e alvas camisas, com os collarinhos unidos por dois grandes botões de ouro, lavrados em relevo imitante a filigrana e encadeados pelo pé. Só os velhos e a maioria dos senhores da cidade buscavam refugio nos mirantes e janellas.
Por entre os passeiantes esgueiravam-se, a espaços, as retardatarias. Estas—duas lindas moçoilas do campo—faziam resoar na calçada as solas de pau das galochas pregadas, em volta, de tachinhas amarellas, e enfeitadas no peito do pé com bordados escarlates a sobresahirem do fundo azul da carneira. E como ambas corriam ligeiras com aquelle calçado tão difficil de suster nos pés! Ora! Se até iriam dançar, a menos que o tirassem, para bailar em palmilhas de meias!
Quem primeiro veiu fallar ao Jorge foi o João Matheus, um leiteiro que tinha a freguezia de muitos moradores do Castello. O veterano quasi não o conheceu, tão differente o achou, de quando elle ia por lá ao seu negocio, de manhãsinha, mettido n’uma grande camisa de linho e coberto com o classico barretinho de malha, parente muito proximo do solideo ecclesiastico. O leite, levava-o em duas grandes cabaças escuras, amarradas aos extremos de um bordão ligeiramente curvo, que lhe assentava pelo meio no hombro esquerdo. Agora estava outro inteiramente, salvo no varapau, e no pé fresco, moda tão predilecta do povo açoriano: o fato cifrava-se no dos outros populares, e a cobertura da cabeça, ou, mais rigorosamente, do cocoruto era a famosa carapuça de panno azul, orlada na peripheria com um vivo encarnado e rematada dos lados por duas orelhinhas da mesma côr, reviradas para cima. Para seguir ainda mais á risca a moda popular terceirense, tinha pendente ao meio da testa, saindo por baixo da carapuça, um caracol de cabello feito a primor.
O veterano levou os companheiros para casa do José de Mello, que já o tinha convidado muitas vezes, e que mal accommodou em bom logar do mirante a Isabel e a Rosa, carregou com os dois velhos para dentro de casa, ancioso por dar-lhes a provar uma pinga de vinho novo da Graciosa, que as duas mulheres não acceitaram, mas que os tres homens foram escorropichando por tigelas de barro não vidrado, acompanhando-o de milho cosido com funcho, tremoços, favas e milho torrado, e outros hors d’œuvres, patentes na meza e destinados ás visitas.
A mulher do José de Mello, sentada a par da Isabel, disse-lhe que tomasse cuidado á passagem do bicho, porque eram já seis os touros que lhe tinham saltado para o mirante.
Mas o conselho não foi ouvido, porque o estalar de um foguete provocou immediatamente um enorme borborinho. Do touril, estabelecido n’um quintal proximo, acabava de sair o boi. Correram-lhe ao encontro os aficionados, pulando e gritando com desespero.
Appareceu finalmente um touro de pequeno corpo e de côr escura, preso, pelas hastes emboladas, a um comprido cabo, que quatro homens seguravam pela extremidade opposta, e largavam ou colhiam para dar fuga ao animal ou obrigal-o a parar.
Traziam os quatro, á laia de uniforme, calças brancas, alvas camisas avivadas de encarnado, e bonnets de copa baixa, apenas differentes dos que usam vulgarmente os cosinheiros por terem tambem vivos d’aquella côr.
A viseira que lhes occultava a metade superior do rosto, é que originou a denominação de mascarados de corda, com que o povo da ilha então os designava.
Todos quatro coxeavam mais ou menos, visto que em obediencia ao seu tradicional plano de uniformes, traziam os pés, tão deshabituados de constrangimento, n’aquelle dia apertados em sapatos de bezerro, legitimos representantes, para o caso, dos celebrados borzeguins da tortura inquisitorial.
O touro passou de corrida pela frente do mirante do José de Mello. Um enxame de homens e rapazes seguiu-o de tropel. Tanta diligencia faziam por uma ou duas marradas, que ás vezes viam coroadas as suas aspirações.
N’isto, um d’elles, mais atrevido, tropeçou e cahiu, e d’aqui resultou que outros dois tambem se estatelassem na calçada.
O touro estava perto, e, ou porque os mascarados não podessem a tempo segural-o ou porque desejassem «animar o divertimento», conseguiu chegar aos tres, e depois de uma focinhada prévia dispunha-se já para mimoseal-os com festa mais valente, quando o cabo, esticado com força, lhe deu a pancada, obrigando-o a retroceder e arrancando-lhe um mugido doloroso.
Decididamente a tourada promettia ser boa.
Os tres levantaram-se no meio de risadas estrepitosas, e um d’elles, com a cabeça partida, foi curar-se á botica proxima, sem que mais ninguem désse importancia a similhante bagatella.
Apezar de ser fanatica pelo divertimento, a Rosa tornou-se pallida mal viu o sangue, e descórou mais ainda, porque ao afastar os olhos deparou no mirante contiguo o sargento Luiz, a fital-a persistentemente, com um ar muito triste, como de quem sentisse grande pena de estar a vel-a, mas que não podesse desviar d’alli a vista, nem o pensamento. Afinal cobrou animo e, com simulada indiferença, mostrou concentrar a attenção no touro, que já ia a distancia, rodeado por uma caterva menos densa. Alguns dos perseguidores, vendo as barbas do visinho a arder, tinham-se refugiado nos vãos das portas, ou dependurado das grades de algumas janellas mais baixas.
—Não havia de olhar para elle!... Se até lhe tinha raiva!... Quando o Luiz a namorava, jurava-lhe um amor por ahi além, e afinal deixou-a casar com outro... Bem fraco amor!... Nem já se lembrava de que ella existia. Tinha-a encarado, por um simples acaso. Iria apostar que olhava já para outro sitio... Nem já alli estaria talvez...
E, para certificar-se, olhou novamente e viu outra vez o Luiz, sempre a miral-a com a mesma persistencia.
Revoltou-se e sentiu uma grande vergonha, por adivinhar que n’aquella teimosia estava a prova de que elle não a julgava mulher de bem, e a suppunha capaz, depois de casada, de olhar para outro homem, que não fosse o marido.
Ia dizer-lhe pela expressão do semblante a indignação que o atrevimento lhe causava, mas não poude, porque ao encarar com o Luiz conheceu que o seu olhar não era petulante, mas de supplica, e ainda mais terno do que no dia em que elle lhe tinha dicto que a Rosinha era a flôr do Castello, e que morria de amores por ella.
O que estava certamente era ralado de pena, porque, em obediencia ao pae, a tinha perdido!... Podia lá querer tornal-a má mulher, embora fosse unicamente nas boccas do mundo!... Até merecia dó o infeliz... Pois não o havia desprezado, para casar com o Jorge?... Coitado!...
No emtanto proseguia o divertimento na sua monotonia habitual. Percorridas as ruas do transito, o boi já vinha quasi a passar pela segunda vez em frente da casa do Mello, continuamente excitado pelos bordões, guardasoes, lenços, e até pelos casacos despidos pelos capinhas improvisados, que assim toureavam em mangas de camisa.
Perplexo, estonteado, o boi estacou ao meio da rua, olhando em derredor e escarvando o chão com as patas deanteiras. Afinal, escolhido o ponto de ataque, partiu como seta em direcção a uns cinco homens, mais impertinentes em atiçal-o, mas que desappareceram por encanto, mal suspeitaram a arremettida. Sumido o alvo, o touro não parou na corrida e foi galgar de um salto o mirante do João de Mello, antes que os mascarados lhe dessem a pancada.
Um reboliço, uma gritaria infernal.
Estes refugiavam-se esbaforidos no interior da casa, aquelles saltavam para a rua, e dois ou tres, paralysados pelo medo, deixavam-se ficar no mesmo sitio, de olhos fechados, mãos nos ouvidos, entregues ao seu destino.
Mas subiu da rua uma gargalhada estrondosa, seguida de palmas e apupos. Era a Isabel, que ao pular do mirante não tinha podido evitar que as saias se levantassem, e dava com isto um espectaculo, se não agradavel, pelo menos original.
A Rosa, colhida improvisamente no meio da sua abstracção, viu o touro cahir-lhe ao pé e desmaiou de susto: mas o sargento Luiz, n’um abrir e fechar de olhos, saltou do mirante onde estava, tomou-a nos braços e afastou-a do animal, a que os mascarados de corda esticavam no entretanto o cabo e obrigavam a descer para a rua.
Quando acordou do seu passageiro desmaio, a mulher do Jorge sentiu que a beijavam e ao abrir os olhos viu-se nos braços do Luiz.
Os dois veteranos conseguiram afinal romper atravez dos que tinham fugido para dentro da casa, e assomavam á porta, sem que nenhum d’elles soubesse ainda ao certo o que era passado. O José Maria como que viu o beijo, mas não teve bem a certeza, pois que todas as vezes que bebia uma gota a mais, ficava tonto e via coisas perfeitamente imaginarias. Convenceu-se de que fôra uma historia armada pelo vinho, quando lhe explicaram o succedido.
Para fugir aos agradecimentos, que o Jorge lhe dava sem a minima desconfiança, retirou-se logo o sargento, envolvido pela Rosa n’um olhar de reconhecimento e admiração.
A Isabel veiu furiosa da rua e quiz por força que se retirassem logo. Temia que o rapazio continuasse a dirigir-lhe chufas.
Não disse palavra a Rosa na volta para o Castello. Se por acaso dava com os olhos no marido, voltava a cara para outro lado, com um movimento brusco. Ao meio da rampa que vae dar á ponte levadiça, parou para descançar, e olhou para traz, sem saber porque.
O Luiz tinha-a seguido, de longe.
Não deram por isto os dois velhos, nem a Isabel. Notou-o comtudo a Luiza Braga, que vinha logo após o sargento, em companhia da Josepha Julia.
—Com cedo principiam! cochichou ella ao ouvido da amiga.
—Principiam? acudiu a outra ennojada. Continuam!
IV
Nos dias seguintes a Rosa pensou, pensou muito, medindo o alcance da loucura que tinha feito em casar com o Jorge.
Só depois do beijo, que lhe escaldava ainda a bocca, percebeu que havia alguma coisa na ligação do homem com a mulher, que o marido com toda a sua amizade não lhe tinha feito conhecer.
Por aquelle beijo o sargento apossara se d’ella com um predominio, que o Jorge nunca lhe tinha imposto, em tantos dias de intimidade. Sentia-se fraca, indefesa perante um ascendente ineluctavel, e pela primeira vez sabia como o homem chega a avassallar a mulher, a fazel-a coisa sua.
Tudo isto passava tumultuariamente no espirito da rapariga, como vaga percepção, sem que ella, intelligente mas ignorante, tivesse bem a consciencia do mundo novo de sensações e ideias que acabava de revelar-se-lhe.
O que de mais comprehendia, era que apenas o Luiz quizesse, não poderia resistir-lhe, e que sabendo aliás que se tornaria uma creatura desprezivel, seria d’elle, d’elle inteiramente.
—Ai! E podiamos estar casados um com o outro! scismou.
Uma semana depois o sargento, certo de que o veterano estava longe, passou-lhe pela porta. A Isabel, tinha-a elle avistado da muralha do castello, a descer a ladeira contigua ao Relvão.
Quando o viu prestes a entrar, a Rosa ficou toda a tremer, e quiz refugiar-se no interior da casa, porém o Luiz disse-lhe que só desejava dar-lhe duas palavras, e que depois a deixaria em paz para todo o sempre; mas que se ella o não escutasse, tinha deixado no quarto a espingarda já carregada, para acabar de vez com o seu tormento.
A Rosa ainda balbuciou que elle queria desgraçal-a; que se sumisse d’alli, ou que se veria obrigada a chamar por alguem. Podiam tel-o visto. Supplicou-lhe de mãos postas que a deixasse, que se fosse embora.
Certo de que não o tinham visto, o Luiz fechou a porta rapidamente, tomou nos braços a linda rapariga e tapou-lhe com beijos a bocca, para que ella não gritasse.
* * * * *
Só quando o sargento lhe disse adeus, e lhe pediu muito que para o futuro fosse vel-o ao quarto d’elle, pois alli seria perigoso continuarem a encontrar-se, é que a Rosa viu bem o que tinha feito.
Jurou que nunca mais tornaria, mas sentiu logo que havia de tornar, indefesa contra a seducção, que ainda lhe fazia vibrar todo o corpo em frémitos de goso.
A segunda entrevista foi no quarto do amante.
Ninguem a reconheceria, vendo-a passar na rua. Ia de manto, e para maior segurança, pedira á mãe emprestadas as botas, sob o pretexto de que as suas lhe pisavam e que precisava ir á cidade. Estando quasi a chegar ao quarto do Luiz, apanhou um susto enorme: encontrou-se com o marido, que devia passar a manhã no monte Brazil.
O Jorge não andava a espial-a. Cumpria simplesmente uma ordem do inspector do material de guerra, que o tinha mandado chamar ao Castello, para lhe dar certas explicações relativas ao embarque de umas peças velhas de bronze, que deviam recolher á Fundição de Canhões.
Os dois amantes, muito conchegados um ao outro, estiveram tempos sem fim de ouvido á escuta por traz da porta, que ella tinha fechado subtilmente. Não sentiram nada. Apenas as pulsações desordenadas do coração de Rosa.
—És uma tola, disse-lhe por fim o sargento, dando-lhe um beijo. Podia lá conhecer-te, com esse disfarce! De mais a mais como é velho, deve ter a vista cançada.
—Elle, a vista cançada? Estás a ler. Vê perfeitamente. E para longe, ainda melhor do que eu.
Quando tornou para casa, ainda ia receiosa.
O marido appareceu d’alli a uma hora. Não fazia differença.
As entrevistas continuaram.
N’uma d’ellas a Rosa, ao sair do quarto do Luiz, topou a Josepha Julia, que a mirou dos pés á cabeça e fez um gesto de escarneo.
—Se me conheceu!... pensou a mulher do veterano, abalada pelo medo. Era o mesmo que sabel-o toda a gente!
Mas logo encolheu os hombros, e disse comsigo resolutamente:
—Ora adeus! O que está feito, está feito!
* * * * *
D’alli a poucas horas já effectivamente andavam de bocca em bocca as infelicidades conjugaes do cabo de veteranos. Para não levantar falsos testemunhos, a Josepha, muito encolhida debaixo do lenço, cosida com as paredes e a passinhos ligeiros, tinha seguido a mulher do manto. Mal teve a certeza de quem ella era, correu a casa da Luiza Braga. A velha prometteu guardar segredo, mas, tendo ficado só e vendo entrar-lhe pela porta dentro o 33 da artilheria, a pedir-lhe linha preta para coser um botão do casaco do uniforme, não teve mão em si e poz tudo em pratos limpos, sem dizer, já se vê, quem lh’o tinha contado.
A Josepha já estava em casa, costurando ao pé da janella do rez do chão. Tinha feito solemne protesto de não trocar falas com o maldizente do artilheiro, mas ouviu-lhe a «grande novidade», condimentada com varios pormenores inventados pelo narrador.
Benzeu-se, exclamou que podia ser tudo uma refinada mentira, que a Rosa era levantadinha de cabeça, mas que chegasse a tanto, lá isso não lhe parecia.
—Pois diga-le que não. Quem viu, é pessoa incapaz de mentir.
—E quem é que viu? perguntou a torta em sobresalto.
—Nun xe xabe! como dizia o gallego.
—Então pode não ser verdade. Bem sei que o marido é velho...
—Vê?... Já acreditou!
—Não acreditei nada. Vá-se d’aqui, seu grande má lingua!
Fechou a janella, com um accrescimo de indignação. No fundo estava radiante. Para o libello famoso, já tinha editor responsavel.
* * * * *
A Isabel foi aos ares no dia seguinte, quando soube pelo tio Braga o que a voz publica attribuia á Rosa, e até pregou uma valente bofetada no alviçareiro. Se lhe fez doer, não lhe causou o minimo espanto, de habituado que elle andava a tomar o peso ás mãos da cara metade.
Podia lá entrar-lhe na cabeça que a filha, casada tanto de fresco, já enganasse o marido!... Ainda se estivessem recebidos ha mais tempo!... Ella tinha-se prendido por sua livre vontade, e nem sequer podia dar como desculpa o Jorge ser velho e pouco proprio para encantar uma rapariga. Tudo isto a mãe lhe fizera ver um cento de vezes, antes do casamento.
Não levou um credo para chegar a casa da filha e como a apanhou sósinha, disparou-lhe tudo á queima roupa. Uma de duas: ou conseguia atrapalhal-a e apanhar-lhe a confissão da culpa, ou, se fosse tudo mentira, a indignação havia de patentear bem clara a innocencia.
A mulher do veterano encarou com a mãe, e disse pausadamente estas palavras, cujo effeito foi observando:
—Sim, senhora, é verdade o que lhe disseram. Fiz isso, porque não posso aturar meu marido, e porque só do Luiz é que eu gosto e hei de gostar sempre.
A Isabel cahiu sentada para cima de uma arca, e rompeu n’um grande choro, arrepellando-se, dizendo mal á sua vida.
—Cuidado, minha mãe! Olhe que se meu marido entrasse agora por ahi dentro, a desgraça ainda havia de ser maior.
—Lá isso era, porque descobria toda a verdade, e ... Deus te livrasse!...
—É o que pode fazer com esses alaridos.
—Ubei! Permitta Deus que elle nunca desconfie!... Ora a minha desgraça!... Mas o que eu não quero,—fica sabendo!—é que me tornes a olhar para aquelle bonecro de engonços! Ha de ser isto assim, ou sou eu mesma que prego a ambos uma boa lição, com estas mãos que Deus Nosso Senhor me deu!
—Mau! Já vejo que não temos nada feito, disse a Rosa, afastando-se da mãe. Se as suas tenções são essas, o melhor é ir já, já ter com o Jorge e declarar-lhe tudo. Ande! Vá! Assim ao menos deixo de penar por uma vez!
—O’ rapariga, o que estás tu a dizer?
—Que hei de gostar sempre do Luiz, ou eu não me chame Rosa. Sim, senhora! Resolvi-me a tudo. Dizem mal de mim? E eu que me ralo! Ellas falam, porque se mordem de inveja!
—Ai que está variada! exclamou a Isabel, levantando-se e erguendo os braços para o ceo. Deram-lhe volta ao miolo, olá se deram. Oh! Mas isto não pode ser, e tendo-se voltado para a filha, continuou, voz em grita: Se me não tomas juizo, eu racho-te ... racho-te de meio a meio! Cuidas que por estares assim espigada, me não provas os cinco mandamentos?
—A minha mãe não me entendeu. Olhe! Se fizer isso, se quizer apartar-me do Luiz, queimada seja eu pelo fogo do inferno, se na primeira occasião em que me pilhar a sós com meu marido, não lhe conto a coisa toda como ella é, tim-tim por tim-tim. E reforçou o juramento levantando tambem para o ceo o braço direito, com a mão bem espalmada.
A Isabel, que se tinha benzido ao ouvir fallar no inferno, descahiu outra vez para cima da arca, aos soluços.
—Está doida! Doida varrida!
A rapariga aproveitou este ensejo e approximou-se da mãe, pé ante pé: fallou-lhe ao ouvido, carinhosamente; demonstrou-lhe que só havia uma coisa que fazer—evitar que o Jorge descobrisse, O mal já estava feito, e nem Deus teria poder para destruil-o. Mas se a Isabel quizesse, as coisas continuariam assim, e nunca o velho saberia o que diziam, pois ninguem se atreveria a ir contar-lh’o. Mais dia menos dia, como já era bastante edoso, podia apanhar uma macacôa que o levasse para a terra da verdade, e já ella ficaria livre para casar com o escolhido do seu coração.
—O sargento casar comtigo?... Espera por essa! Tanto como da primeira vez, murmurou a Isabel em tom lamentoso. O que elle quiz foi ... o que se está vendo; mas se julgar novamente o caso mal parado, fica certa de que nunca mais lhe pões a vista em cima. Os homens são assim! E concluiu, ainda mais lamuriante: Ai! A minha triste vida! Para o que eu estava guardada!
—Isso era bom, se o Luiz não gostasse tambem de mim; mas gosta muito, acredite, gosta muito, affirmou a Rosa, fallando ao mesmo tempo que a mãe. E está tão arrependido de me ter deixado casar, tão arrependido!...
—Historias da vida! Mas, ó mulher, foram esses os exemplos que eu te dei? Pois não tens vergonha!... Emquanto fui casada, respeitei sempre as barbas de teu pae, e depois de viuva...
Ia proseguir mas calou-se a um olhar meio serio, meio de escarneo, que a Rosa lhe dardejou sem levantar a cabeça ligeiramente inclinada para o chão, mas arregaçando de subito as palpebras, a fim de trazer bem a lume os olhos negros e expressivos.
Por fim recuperou ousadia e perguntou com voz ainda titubeante:
—Porque olhas para mim d’essa maneira? Porque dás ouvidos ao que dizem certas linguas?... Ainda que tivesse sido verdade, não me podiam dizer nada, porque uma viuva não deve a cabeça a ninguem.
—Nem me dava com isso maus exemplos? interrogou a filha, com apparente serenidade.
—Está visto que não... Quero dizer ... não dava, se não houvesse escandalo, se não soubesses ... de nada.
—E se eu soubesse de tudo? perguntou Rosa, certa já de conquistar o auxilio da mãe. Olhe! Sempre lhe quero contar... Eu teria talvez uns seis annos ... ou nem tanto... Uma tarde, a mãe tinha ido para dentro de casa, e estava a conversar com aquelle cabo de artilheria muito alto e louro—um rapaz bem bonito, por signal—a quem gommava a roupa... Lembra-se? Eu andava a brincar na rua. Passou a Luiza Braga e perguntou-me quem estava lá dentro com a minha mãe. Respondi-lhe que era a sua irmã de Agualva ... a tia Marianna. A velha acreditou-me, e foi-se embora. Se não fizesse o que fiz, ella tinha ido por esse Castello infamar a minha mãe, e ficavam todos certos do que alguns diziam e muito poucos acreditavam. Mas sabe o que valeu?... Foi não passar pela cabeça á Luiza que, n’aquella edade, eu já soubesse mentir. Sabia, porque a mãe, de outra vez, me tinha ensinado a mesma resposta, para quando alguem me perguntasse o que ella me perguntou.
—Eu não me lembro de nada d’isso, murmurou a Isabel, com a voz a tremer.
—Lembro-me eu, e ainda bem que menti! Deus não me castigará, por eu ter livrado a minha mãe de tantas afflicções.
Em voz baixa, n’uma supplica repassada de ternura, accrescentou:
—E tambem não a castiga, se a minha rica mãe quizer ajudar-me a sair d’esta consumição.
—Foi praga que me rogaram! Foi praga!...
A Isabel não poude levar por deante o epiphonema, porque a filha, cingindo-lhe as costas com o braço direito e achegando-a a si brandamente, segredou:
—Bom! Bom! Deixe estar que não se arrepende... e ha de me dar razão algum dia, vendo-me feliz.
—Deus te ouvisse, filha, Deus te ouvisse! Mas o que tu me obrigas a fazer!... Olha! O melhor era deixares aquelle ... não sei que diga!
—Outra vez!... Escolha: ou a mãe consente em ajudar-me, ou eu digo hoje mesmo tudo a meu marido!
—Não, mulher, não lhe digas nada!
E com os olhos em alvo, as mãos erguidas, os dedos enclavinhados, a viuva exclamou:
—Seja tudo pelo amor de Deus!