IV

O José Maria andou uns poucos de dias a parafusar, antes que se resolvesse a dizer ao Jorge umas coisas, que lhe tinham contado muito em segredo a respeito da Rosa, e que elle acreditou, porque eram o complemento e a confirmação da scena entrevista em S. João de Deus.

Esteve quasi decidido a calar-se, porque dava razão ao dictado «Entre marido e mulher não mettas a colher», e tambem porque lhe custava muito ir destruir para sempre a alegria ao seu antigo camarada.

Quando andava n’estas indecisões, e já principiava a desculpar a Rosa, pensando que talvez a coisa não tivesse ido a mais, e que ella sempre havia de ter algum respeito pelos cabellos brancos do marido, adregou-lhe passar á porta da Luiza Braga.

—Pst! Pst! fez-lhe esta, lá de dentro.

—Isso é commigo?

—Entra, ó José Maria, que te quero perguntar uma coisa.

—Tu! Ha de ser fresca!...

Entrou e foi sentar-se n’um moxo.

—O que eu te quero perguntar, disse a velha, que estava a engommar um collarinho, é se o teu amigo já sabe o que rosna por ahi a canalha brava.

—Qual meu amigo?

—O Jorge! Mas tambem elle só deve queixar-se de si mesmo. Não se mettesse com a Isabel, nem com gente da sua geração.

—Cala-te, mulher, que já não te vejo bem! replicou o veterano, levantando-se n’um impeto.

—Eh senhor! Tu endoideceste! Por eu não querer que o Jorge ande enxovalhado por essas boccas ruins, é que tu!... Ainda em cima?... Sempre sou bem tola!

O velho conheceu que se tinha excedido, e ancioso por saber o que mais propalavam os maldizentes, moderou-se e murmurou:

—Dize lá o que querias dizer.

—Queria mas já não quero... Julgas talvez que não sou tambem amiga do Jorge? Pois ainda ha migalha estive quasi garreando com a ... cala-te bocca!... com uma certa pessoa, por não lhe poder ouvir que se elle não vae ás do cabo com a Rosa, é porque uma casa sempre se governa melhor, quando são dois, em logar de um só, a carregarem com as despezas.

—Dois?

Bei, Senhor! Pelos modos o sargento Luiz recebeu, pelo ultimo paquete, uma mancheia de patacas, que lhe deixou um tio lá de Lisboa...

—Fecha-me essa bocca suja, grande excommungada!

Juntando á palavra o gesto, o José Maria bateu-lhe com a palma da mão em cheio nos beiços, e, antes que a Luiza se recobrasse do susto, sahiu pela porta fóra, de escantilhão.

—Hei de contar tudo ao Jorge! resmungava elle, pela rua adeante. Não quero que ande vendido. Hei de contar-lhe tudo, e vae ser hoje mesmo! Que grande pouca vergonha!...

Com mais temor que resentimento, a Luiza foi á porta, para seguil-o com a vista. Não poude furtar-se a dizer com os seus botões que, tirante o Braga, todos os soldados do cerco do Porto eram homens de uma canna só.