V

Foi na courella cultivada pelo Jorge no monte Brazil, que o José Maria encontrou d’alli a pouco o seu antigo companheiro de armas.

Primeiro que entrasse no assumpto, falou de mil ninharias: das lagostas que na vespera tinha pescado na bahia do Fundão; na queda que o corneteiro-mór reformado ia dando na Quebrada, quando andava a apanhar cracas.—Ainda que se não esmigalhasse na rocha empinada e de temerosa altura, e fosse cahir no mar, não escaparia de certo ao mergulho, pois elle a nadar era mesmo um prego!

Foi tagarelando, tagarelando, mas sem alludir á Rosa. Todas as vezes que a rapariga lhe acudia á lembrança, parecia que se lhe punha um nó na garganta.

Afinal o Jorge deu por isto, e foi o proprio que perguntou:

—O’ José Maria, tu estás, a modos, exquisito? Parece que tens uma coisa para me dizer e que não te astreves...

O outro ainda lhe retorquiu com um «Olha lá!...» e quiz fingir ar de riso. Mas não poude levar por deante a dissimulação e disse por fim, deixando-se cahir sentado n’uma pedra:

—Pois tenho, tenho muito que te dizer.

—Se é da Rosa, não me digas nada! respondeu-lhe o amigo com arrebatamento. Sei que ella não vae á tua bola, e pódes ter ouvido por ahi qualquer coisa contra a rapariga, e vir então buzinar-me os ouvidos... Se adivinhei, não tenhas esse trabalho!

—Ó Jorge, pois tu fazes de mim similhante ideia?! perguntou o José Maria todo sentido e levantando-se de esfuziote. Metteu-se-te na cabeça que eu fosse capaz de dizer coisas, de que não tivesse a certeza? Bem! Bem! Como te deram volta ao juizo, já aqui não está quem falou ... isto é, quem ia falar!

—Sim, cala-te, que é o melhor! Só faltava que tambem tu me viesses ralar o interior, que já anda bem consumido. Só Deos é que sabe!...

E tendo lançado para longe o sacho com que andava cavando, levou ambos os punhos aos olhos, e desatou a soluçar. Coisa que não fazia desde creança, chorou—chorou lagrimas abundantes, que lhe escorriam pelo rosto e pelas mãos.

Certificou-se o José Maria de que mais ninguem podia ver o amigo, chegou-se a elle e passou-lhe um braço em volta do pescoço.

—Então! Que diabo! Isso não vale a pena! disse-lhe com meiguice. Pois ha mulher que mereça a vida de um homem? Não te lembras da minha serva de Deus? Bem amigo d’ella que eu era: vi-a morrer e ainda por cá estou. Com essas coisas dás cabo de ti.

—Tu, tu é que dás. Para que vieste bulir commigo? Deixasses-me quieto! E dizendo-lhe isto de mau modo, o Jorge arredou-se do camarada e ficou de costas para elle, sem comprehender que fosse dictada pela amizade aquella confidencia.

Pois não lhe trazia a certeza de que elle já receiava? Receiava, sim, mas não queria acreditar, desejoso de que o tempo viesse a embotar aquella duvida, e esperançado em que por fim se conhecesse que a rapariga estava innocente, como lh’o dizia o seu espirito cheio de rectidão. E ainda no peior dos casos, se em verdade a Rosa fosse má mulher, para que haviam de lh’o dizer, se mais dia menos dia elle mesmo descobriria tudo, com certeza?

Por isso nem queria encarar com o seu antigo camarada. Qualquer outro já teria pago bem caro o atrevimento!

O José Maria entendeu que se devia ir embora, o que era aliás seu desejo desde que alli estava.

—Haja saude, Jorge, e não me fiques querendo mal.

O outro encolheu os hombros desabridamente, sem mudar de posição.

—Não te ponhas com maus modos, homem! Aprender até morrer, bem diz o dictado.

E chegando-se mais, concluiu:

—Por me dares esse pago, não cuides que ouvindo algum marau dizer poucas vergonhas de ti, deixe de saltar-lhe para cima com vento fresco, apesar de velho e estropiado. Haja saude!

Ia a afastar-se, quando foi agarrado violentamente por um braço.

—Poucas vergonhas! Que poucas vergonhas dizem de mim? perguntava o Jorge, meio suffocado. Anda, põe já tudo em pratos limpos, se não queres fazer-me acreditar que te saiste com essa, para te vingares da minha resposta. Não! Não!...

E emendou, supplicante:

—Se não queres ver-me estalar de paixão, conta-me o que sabes, José Maria, conta-me o que sabes! Pelo amor de Deus!

Foi então que o outro lhe referiu por miudo não só o que tinha visto, mas o que andava nas boccas do mundo. Quando o ouviu falar na suspeita de que fosse connivente na sua infamia, o Jorge teve um ataque de raiva e quiz saber por força quem tinha contado aquillo, para lhe apertar as goelas, até lhe fazer deitar cá para fora toda a lingua malvada.

Apesar do que a revelação lhe fazia soffrer, reaccendendo lhe desconfianças, que a pouco e pouco se tinham ido aplacando, o seu primeiro impulso foi justificar a mulher, mostrar ao amigo que o tinham enganado, que a Rosa continuava pura como a neve. Se em S. João de Deus ella estava ao pé do sargento Luiz, era porque o medo do touro lhe fizera perder a cabeça. Pois o José Maria não a tinha tambem visto amarella como cera, quando os dois a foram encontrar? Demais, a Isabel, que tambem não podia ver o tal bonecro, explicou depois que não havia nada que se lhe dizer, e que até devia agradecer-se ao pobre rapaz o ter acudido á Rosa, quando todos fugiam assustados.

—Cantigas da viuva! objectou o José Maria. O que ella quiz foi desculpar a filha. Olha! Pergunta-lhe se tambem deves agradecer ao bandalho, o beijo que elle pregou em tua mulher!

—Um beijo? Quando?

—N’essa mesma occasião. Como se julgava a sós com a rapariga, visto os mais terem debandado, tomou esse atrevimento ... mas eu que vinha adiante de ti pude ainda vel-o.

—Viste-o? Tens a certeza?...

—Pareceu-me que sim. Bem sabes que eu, bebendo uma pinga a mais...

—Pareceu-te! Eu pergunto se tens a certeza!...

—Antes de passar a porta que dá para o quintal onde elles estavam, ouvi a modos a bulha de um beijo, e como fui dar com o sargento ainda a amparal-a, acredito que elle a beijasse, como dizem por ahi.

—Se não viste, para que repetes o que pode ser mentira? E olha que nos dias que se seguiram, lembro-me muito bem, ella não fez differença nenhuma. Nunca se tirava de ao pé de mim. E sempre alegre!... Se tivesse feito o que dizem, não sabia sustentar aquelle disfarce.

—Isso é o que tu julgas. As mulheres, quando pendem para a banda do arrocho...

—Ainda que quizesse pôr pé em ramo verde, não podia, respondeu o Jorge com impaciencia. Em quanto eu estou fóra de casa, a Isabel não perde a filha de vista. Já te disse! Não ha uma hora do dia em que a Rosa esteja desacompanhada.

—E de noite?... perguntou o José Maria, que inconscientemente tomava calor perante as objecções do camarada, e, excitado pela controversia, dizia coisas, que não lhe sairiam da bocca n’outra occasião.

—De noite está ella deitada commigo!

Mas calou-se de repente, não se atrevendo a continuar na defeza, por se lembrar de que tinha o somno pesado, e que, vinte vezes que a mulher se levantasse, elle de certo não acordaria.

—Pois a Rosa seria capaz?...

A afflicção de novo o estrangulou. Descria de todos, de tudo. Arrepanhou-se-lhe o interior do peito, ao de cima do estomago, e todo esfriou lá por dentro, como se lhe tivessem amputado subitamente essa parte do corpo, substituindo-a por uma grande pedra de gelo.

É que lhe tornava o ciume ainda com maior furia, perdida a esperança que pouco antes o animava, quando elle, na ancia de desculpar a mulher, em vez de persuadir o amigo, a si proprio se convencia.

Mas o outro comprehendia, afinal, a grande asneira que tinha feito.

Fosse a Rosa effectivamente má mulher, e nem mesmo assim elle devia dar aquelle passo.

Obedecendo a um momento de zanga, acabava de perder um amigo, para quem se tornara mensageiro do maior de quantos desgostos se lhe podiam annunciar, e fazia-o para sempre desgraçado.

Quiz ainda emendar a mão, desmanchar ou pelo menos attenuar o mal que acabava de causar, mas o Jorge percebeu-lhe as intenções, e atalhou, despedindo-o com um gesto a que o José Maria obedeceu:

—Pois sim, será o que tu dizes... Mas certas coisas, mais vale um homem cosel-as comsigo mesmo. Adeus!