O Primeiro Desengano
Vestiu pela primeira vez fatos de senhora, no dia em que fez quatorze annos.
Ainda estou a vel-a entrar pela sala dentro muito envergonhada, tropeçando na fimbria do vestido comprido, não sabendo se devia rir ou zangar-se com os gracejos que lhe choviam de todos os lados.
Afinal foi sentar-se ao pé de uma meza, e tirou da floreira uma rosa, que tratou de desfolhar e de triturar, persuadida talvez de que escapava assim á attenção geral. Tivesse mais dois ou tres annos e desejaria prolongar o sentimento de admiração excitado pela sua formosura juvenil, em que transparecia a candura e singeleza da creança, da baby da vespera, alliadas á fascinação da mulher que despontava.
Do meu canto, observava aquella esplendida adolescencia, que assim desabrochava de subito, e quasi não podia acreditar que os poucos mezes, que a Georgina tinha estado longe da Madeira, assim houvessem transformado a minha antiga companheira de brinquedos.
E ao vel-a tão differente, sentia em mim o que quer que fosse novo e estranho, e, desejando aliás approximar-me d’ella e contemplal-a muito tempo, tinha a dubia percepção de que alguma coisa nos separava agora, tornando completo impossivel o falarmo-nos como d’antes, quando, n’aquellas manhãs de julho tépidas e luminosas, iamos com um rancho enorme para o banho do mar, e a Georgina, alegre e buliçosa como um passarinho, pulava na frente do bando, com as suas perninhas brancas e rosadas, que appareciam abaixo do vestido de cambraya.
Em quanto ella e as senhoras entravam para as barracas enfileiradas a curta distancia da babugem da maré, nós, os homens—eu já me incluia no rol—enfiavamos cá fóra os horriveis fatos de banho, quasi sempre á direita das barracas, para nos livrarmos do sol, que surgia por traz do cabo Garajao e começava a faiscar nas vidraças do Funchal.
Que bons aquelles banhos!
Era um alvoroço enorme, uma exuberante alegria, quando entravamos de corrida pelo mar dentro, e, passada a primeira sensação de frio, gosavamos a deliciosa frescura, fluctuando ao impulso da onda, de mãos dadas, divisando atravez da limpidez da agua, as pedrinhas brancas semeadas entre os calhaus do fundo ... e as formas tremulas, fugitivas das banhistas. Sobre o mar, levemente encrespado pela brisa, formava-se para o lado do nascente uma esteira luminosa, coruscante. De quando em quando um de nós fazia repuxar a agua em myriades de gotas, que cahiam como chuva de fogo, até irem perder-se na espuma branca de neve.
Uma vez a Georgina apanhou um grande susto. Presumindo excessivamente das suas aptidões de nadadora principiante, quiz afastar-se da terra, mas lembrou-se de repente de que já não teria pé, de que ia afogar-se, imaginou-se até levada por uma resaca, e poz-se a bracejar desordenadamente, gritando, bebendo agua, como se lhe tivessem dado uma enterra. Soffreria provavelmente a morte da Virginia de Bernardin de Saint-Piérre, sem o acompanhamento grandioso e bulhento do temporal, se eu não a tivesse agarrado a tempo e conduzido á praia, Deus sabe com que difficuldade.
Imagine-se a ufania que me causava a recordação da façanha, no momento em que a Georgina me apparecia sob aquelle aspecto novissimo!
—Ah! Se podesse tornar a salval-a, trazendo-a apertada nos braços!... Formulava mentalmente este desejo, que parecia de certo uma enormidade ao meu pudor dos quinze annos, quando notei que a Georgina olhava fixamente para o meu lado.
Desviou a vista, quando a encarei, mas d’alli a pouco estava a olhar outra vez.
Senti então um dos maiores prazeres da minha vida. Comprehendi o motivo por que a julgava outra, adivinhei o que era o sentimento novo que me dominava.
Valeu-me para a descoberta o andar a ler o Visconde de Bragelonne, no ponto em que se descreve a seducção de La Vallière. Lembrei-me até de que o maroto do Alexandre Dumas torna quasi cumplices na queda da pobre Luiza uns passarinhos, que havia na sala e que no momento em que Luiz XIV cae aos pés da namorada, chilream dentro das douradas gaiolas uma toada de indizivel concupiscencia, o que ainda mais entontece a futura carmelita. Ora emquanto eu olhava para a Georgina, tambem cantava um passaro, um melro, empoleirado n’uma magnolia do jardim. Achei de bom agouro a coincidencia.
É claro que não emparelhava a Georgina com a La Vallière—via-a como aquella a quem havia de ser unido para sempre, visto que o amor assim nos destinara um para o outro.
Com uns restos de duvida, olhei em roda de mim.
No lado da sala onde eu estava, não havia mais nenhum homem, a não ser o escrivão de fazenda, sujeito de grande bigodeira e voz soturna, que recitava pelas salas o Noivado do sepulchro e a Doida de Albano.
Era solteiro, mas tinha mais de tres vezes a edade de Georgina. Fiquei radiante. Era para mim com certeza, que estava olhando. D’alli a pouco fomos jantar.
Não comi nada, porque ella, apesar de ter ficado ao pé de mim, não me deu a minima attenção.
Como já tambem conhecia a existencia das coquettes, perguntei a mim mesmo se a Georgina seria uma d’ellas, e resolvi provocar o mais cedo possivel uma explicação decisiva.
Deparou-se-me o ensejo n’aquella mesma tarde.
Achavamo-nos os dois no extremo do mirante sobre o Caminho do Monte, vendo os romeiros que voltavam de festejar a Senhora de agosto.
Os mais não podiam ouvir-nos, entretidos como estavam por um dos espectaculos mais pittorescos dos costumes populares madeirenses. O som dos machetinhos de Braga, machetes de rajão e violas francezas, e o sussurro dos descantes e falatorio dos romeiros abafariam alguma palavra que me escapasse em voz mais alta.
Depois de lhe disparar uma declaração, fiz-lhe não sei quantas recriminações, pelo que me tinha feito soffrer durante o jantar.
A Georgina escutou-me cheia de pasmo, desviou-se um pouco, e medindo-me dos bicos dos pés até á cabeça, disse-me com um supremo desdem:
—O menino endoideceu! Não sabe que é ainda um fedelho e que eu já sou uma senhora! Isso ha de ser somno, por força. O que o Luizinho deve fazer, é pedir á sua mamã que o metta mais cedo na cama!
Fulo de raiva, ia dizer-lhe uma insolencia, quando se approximaram de nós a mãe d’ella e a minha.
* * * * *
D’alli a dois mezes casava a Georgina com o escrivão de fazenda, e d’alli a dois annos ... estava eu vingado.