Os Filhos Do Frade

FREI Antonio entrou na cella do guardião, tremulo, sem forças. O religioso que o chamou, dissera-lhe apenas:

—Cuido que é para ires a casa do morgado da Fajã.

O guardião, gordo, pausado, pachorrento, disse a uma e uma estas palavras, que iam fazendo estalar de angustia o coração do franciscano:

—Frei Antonio, o morgado da Fajã manda-me pedir um irmão, que vá acompanhar esta noite, junto do caixão, a menina Beatriz, que morreu ainda agora, de repente. Escolhi a Vossa Reverendissima. Vá buscar o seu breviario e ponha-se a caminho, que d’aqui até lá acima ao monte, ainda é boa a distancia.

O frade saiu d’alli cambaleando, estonteado. Por milagre chegou á sua cella, sem cahir ao comprido, sobre as lages do corredor.

Mal fechou a porta, atirou-se de bruços para cima do catre, e mordeu a coberta de lã grosseira, n’um paroxismo louco, abafando os gritos que lhe irrompiam do peito em catadupa.

Depois, foi a pouco e pouco serenando, as lagrimas correram-lhe dos olhos em fio, e o franciscano esteve tempo infinito, de joelhos no chão, com os olhos erguidos para o alto, mal fitando atravez do caudal do choro a imagem de um Christo, que estendia lamentoso os braços sobre o madeiro da Cruz, n’uma attitude de immensa angustia resignada.

E assaltou-lhe a memoria a recordação de uma dôr egual, a da perda da sua mãe, que morrera assim, de repente, estando a falar com elle. Dôr egual, não! que maior que todas é a de perder-se a mulher amada.

E elle idolatrava-a com tão immaculado culto, que nem a vista da donzella profanára aquelle amor. Só agora, declarada a medonha catastrophe, só depois que o guardião dissera que Beatriz tinha morrido, frei Antonio percebeu o que eram aquelles extasis, aquelles arroubamentos ineffaveis, de quando via, ao longo dos caminhos ou na egreja, a figura gentil e fascinante da morgadinha. Ás vezes, quando surprehendia no peito o intenso tumultuar da paixão, illudia-se, rebuscava na memoria passagens dos livros santos e acreditava que ascetas teriam tido como elle, e mais do que elle ainda, o indizivel goso de antever em vida apparições como essa, mensageiros de Deus destinados a fazer-nos crêr nos archanjos e seraphins.

Mas este mysticismo acabava perante a nova fatal. Não! O anjo era-o, mas da terra! Morto, desfolhado aquelle lyrio de fragrancia extrema: impossivel, impossivel!...

Saiu da portaria do convento quasi a correr, e como lá fóra, pelo campo matisado de flores, o sol esparzia ondas de luz, e nas carvalheiras os melros trinavam alegremente, soltou-se-lhe do peito um longo suspiro de satisfação e o rosto coloriu-se-lhe de prazer. Se Beatriz houvesse morrido, o sol ter-se-hia apagado e os passaros nunca mais soltariam os seus gorgeios.

* * * * *

Quando chegou a casa do morgado, as trevas encheram-lhe de novo a alma. Ao fundo do pateo, n’um quarto baixo, avistou, apenas acabava de empurrar a porta da rua, que estava entreaberta, um grupo de mulheres erguendo as mãos ao ceo, e soluçando muito.

Subiu a escada de pedra, passou o alpendre, e logo na grande sala da habitação fidalga encontrou o pobre pae e viu no rosto afogueado do velho a verdade inteira.

Tinha morrido Beatriz.

Lá dentro, no seu quarto virginal, transformado em capella mortuaria, estava a donzella estendida sobre a cama, em quanto não chegava o caixão, que devia contel-a para sempre, e onde se passaria o drama horrivel da podridão, quando aquelles labios, ha pouco avermelhados pelo sangue dos quinze annos, e aquella carne, mais branca e macia do que as petalas das açucenas, fossem devorados lentamente, cruelmente, pelos vermes repugnantes.

O frade olhou-a e descreu outra vez da morte. Bem a viu immovel, côr de cera, esmaecidas as rosas das faces; não acreditou. E quanto mais a via, mais a duvida o animava, mais o espirito se lhe erguia para Deus, interrogando, mas não pedindo. Seria excusado implorar-lhe um milagre para resuscitar Beatriz, porque Beatriz não podia estar morta!

Ainda assim os labios de frei Antonio murmuravam rezas, e quando a noite já ia adeantada, e todos em casa se tinham recolhido, ainda no quarto funebre se ouviam as orações do religioso, quebrando aquelle silencio de coisas mortas, e echoando flebilmente até aos pannos negros, que forravam as paredes, e de que se destacavam, a um lado, as chammas compridas, pallidas e immoveis dos quatro cyrios do altar.

Sempre com a mesma crença, quando ficou só e sentiu o ultimo alento de vida extinguir-se no resto da casa, levantou-se do logar aonde ajoelhara e chegou-se para o caixão.

Abertas para os lados as duas meias tampas forradas de setim branco, mostravam atravez de um véu de tule a donzella. O frade viu-a e recuou inconsciente, como se houvera profanado uma alcova virginal. Coisa alguma d’aquelle espectaculo lhe trazia ao pensamento a ideia da morte.

Todos, sem duvida, se enganavam. Era horrivel deixar que a levassem para debaixo das lages da egreja, para o frio jazigo da familia, quando ella não estava morta, quando a mocidade nunca se expandira tão exuberante no rosto de Beatriz!

Chegou-se mais. Ergueu o veu, quiz encostar o ouvido ao peito da donzella, e perscrutar-lhe as palpitações do coração. Não poude. As tampas do caixão não lh’o permittiam. Pousou a mão tremula regelada na testa da morgadinha, e pareceu-lhe receber uma impressão de calor.

—Então estava viva!

Quiz chamar alguem, correu para a porta, mas lembrou-se dos tristes sorrisos de desconsolo, que tinham respondido ás suas duvidas, algumas horas mais cedo.

Tornou para junto d’ella.

—Ah! Se podesse sentir-lhe pulsar o coração!... Porque havia de hesitar?

Levantou o corpo um quasi nada, e em seguida um pouco mais, introduzindo as mãos tremulas por baixo dos hombros da donzella. Sem saber como tirou-a para fóra do caixão, e amparando-a nos braços, e achegando-a a si, qual mãe que aperta ao seio um filho estremecido, dirigiu-se cambaleando, quasi louco, para a cadeira de espalda onde estivera velando o morgado.

Fitou-a, e julgou vel-a sorrir. Chegou-lhe ao coração o ouvido e sentiu palpitações.

Então na sua alma operou-se uma transformação sobrehumana. Aquella quadra já não foi para elle camara mortuaria, mas alcova nupcial, e o frade, perdida a razão, esqueceu tudo, e julgou realidade o que mais de uma vez se atrevera a phantasiar, e viu-se esposo de Beatriz, sentindo nos seus braços o corpo da donzella, rendido, indefeso, e gosou toda a suprema volupia de um primeiro beijo de amor.

* * * * *

De repente ouviu-se um gemido doloroso, quasi um grito!

O frade ergueu-se do chão, de golpe.

Beatriz, prostrada por terra, tinha effectivamente voltado á vida, e acabava de sair do estado cataleptico, que todos tinham julgado morte.

Aterrado, espavorido, fugiu do palacio, soltando brados.

A familia do morgado acudiu e poude adivinhar, horrorisada, o que se tinha passado.

* * * * *

Sessenta annos mais tarde, ha pouco tempo ainda, contava-se esta historia em Santa Cruz, na Madeira, para explicar o motivo por que dois velhinhos, muito parecidos e da mesma altura, e que andavam sempre juntos, eram chamados os filhos do frade.

Havia quem dissesse que eram gemeos, mas a opinião encontrava alguns incredulos.

Consta-me até que um investigador consciencioso estabeleceu, com documentos irrefragaveis, que um dos irmãos era onze mezes mais velho do que o outro, porque Beatriz e Frei Antonio...

Silencio! Não é bom revolver o pó das sepulturas.