VII
Passou-se um mez.
O Luiz, sabedor do que tinha havido em casa do Jorge, andava retrahido, pois «não queria levar as coisas para o tragico» dizia elle, e «embora a rapariga fosse tentadora a valer, não merecia que por sua causa se fizessem asneiras de marca maior». Esta restricção, diga-se de passagem, estabelecia-a tambem a respeito de todas as outras mulheres.
Demais a Genoveva acabava de voltar da Graciosa. Era uma matronaça ainda bem disposta, com quem o sargento, segundo rezava a chronica escandalosa da cidade, já tinha tido os seus dares e tomares. Encontraram-se por acaso no caminho de S. Pedro e reataram relações. Aquella, sim, que não podia accarretar-lhe semsaborias. Se já era livre durante a vida do seu antigo patrão, mais o estava agora, que tinha ficado remediada com a herança deixada pelo conego Ricardo á sua ama e enfermeira de tantos annos. E sabia fazer-se estimar. Como tinha ainda fresco o dinheiro produzido pela venda de um predio na Graciosa, dava amiudados presentes ao amante, que recusou a principio, cheio de nobre desinteresse, mas que depois, não querendo fazer desfeita, os acceitou cheio tambem de gratidão.
A Isabel soube d’isto e para acabar de todo com os «malditos amores», origem para ella de tantos phrenesis, foi dizer tudo á filha.
Pareceu-lhe bom o resultado.
Se até alli a Rosa andava exquisita, tomou-se desde então ainda mais taciturna. Nunca saía de casa, e levava sentada o dia inteiro, sem dizer palavra, com a vista parada, como se estivesse a olhar para dentro de si mesma, interrogando-se.
—Já está arrependida, julgava a Isabel.
A Rosa não acreditou que tudo aquillo fosse verdade, se bem que o retrahimento do amante lhe tivesse causado uma desillusão profunda. O Luiz não a atraiçoava com a Genoveva, lá isso não!—Achava até ridicula semelhante rivalidade; não a tomava a serio.—Mas em todo o caso, não era homem para arrojos, nem sacrificios. Cego pelo amor, atrevera-se a muito; agora, estava com medo das consequencias, incapaz de imital-a, a ella, que se tinha arriscado a tudo, e que não hesitaria, se elle a quizesse levar comsigo, em deixar o marido, receiosa tão somente por acabar de perder-se na opinião de todos, e d’este modo não ser digna de gosar, algum dia, a felicidade para que se julgava destinada. Pois o Luiz não conheceria que só o amor a tinha arrastado áquellas loucuras, e que se estivesse casada com elle, mulher nenhuma seria mais honrada? Sim, o amante ainda havia de recompensal-a de tudo o que lhe fazia padecer.
Era a sua esperança, a sua crença.
Mas o procedimento do Luiz desorientava-a, quasi lhe fazia perder a coragem. Chegava a querer-lhe mal, mas iria padecendo até esse dia feliz.
Ao marido já tinha raiva.
—Pois não era elle a causa de todas aquellas desgraças? O unico obstaculo, que não a deixava ser feliz?
O Jorge, pela sua parte, andava como atordoado. Parecia viver n’um sonho. Ainda o assaltavam desesperos subitaneos, quando julgava a denuncia verdadeira, e então sentia impetos de matal-a e matar-se; mas em breve acalmava, porque lhe acudiam á memoria as explicações dadas pelas duas mulheres.—A mãe não podia estar combinada com a filha!
Via a Rosa melancholica e taciturna, mas via-a! Tinha-a sempre alli, como coisa legitimamente sua. Possuia-a sem medo de ninguem. Não trocava a sua sorte pela de outro, ainda que fosse verdade o que... Não! Era uma falsidade, uma perfeita mentira!
—Não me perdoou ainda eu julgal-a tão mal e tem razão, pensava o Jorge, por vel-a n’aquella attitude. E até se arrependia de não ter forçado o amigo a declarar-lhe o nome do mentiroso, para se vingar, e vingar a sua pobre mulher, que estava innocente.
Lembrava-se de pedir-lhe perdão, de propor-lhe sairem da Terceira para S. Miguel ou para outro logar ainda mais distante, onde ninguem os conhecesse, onde não chegasse a calumnia. Mas ao encontral-a tão reservada, calava se, perdia o animo, e a duvida logo recomeçava no seu trabalho surdo e implacavel.
—Pois senhores, dizia comsigo a Isabel fiada n’este apparente socego, pelos modos não chega a haver trabuzana. Tenho de levar um cyrio á Senhora do Livramento.
—Muito cuidadinho, recommendava ella, quando alguma vez ficava a sós com a filha. O Jorge está aqui, está certo de que tudo foi mentira. Mas ai de ti, se lhe fizesses voltar as desconfianças. Era capaz de matar-te!
—Entre mortos e feridos sempre ha de escapar alguem, objectava a rapariga. E espero em Deus mandal-o adeante.