VIII

No dia de S. Pedro á tarde a Isabel aconselhou á filha e ao genro que fossem dar um passeio, e como suppunha que não lhes agradassem os sitios mais concorridos, lembrou o monte Brazil. Mettidos entre quatro paredes, sem nunca se distrahirem, pensava ella, estariam sempre de mau humor, e difficilmente acabariam de congraçar-se.

Não os acompanhou, porque a sós poderiam entender-se melhor. De mais a mais, já tinha feito bem o seu dever.

Os dois acceitaram o conselho, e foram pelo caminho, que a meia encosta ladeia o monte, passando á ilharga das ruinas da antiga casa de recreio dos governadores da praça, e vae ter a uma plataforma de rocha sobranceira ao mar.

Pelas aguas tranquillas da angra, que deu o nome á cidade, deslisavam alguns barcos, onde familias da burguezia e do povo andavam a recrear-se em honra do santo pescador.

Chegados ao extremo do caminho, o velho sentou-se n’um comorosinho coberto de relva já amarellecida pela soalheira, e a Rosa, para estar bem longe d’elle, foi para a beira da plataforma, e descahiu os olhos para o mar. Avistou-o em baixo, ao deante da rampa, que desce em vertiginoso declive e termina em empinada muralha banhada na base pelas aguas, alli escuras e profundas.

Um barco ia rodeando o monte, de volta para a cidade. A Rosa conheceu logo os passageiros. Eram o dr. Brum, um rapaz moreno e cheio de vida, e a mulher, uma loura de afamada belleza. Tinham casado por grande paixão, uns quatro mezes antes. Ella reclinava a cabeça no hombro do marido. Pareciam ainda na lua de mel.

—Como eram felizes!

N’esta occasião o veterano, ainda no mesmo logar, suspirou, entregue aos seus tristes pensamentos.

—Que suspirasse! Que padecesse! Que tinha ella com isso? O que lhe importava, era o impecilho do velho tel-a ido buscar, para reduzil-a áquella desgraça. Maldito!

Desejosa de ver mais tempo o barco, já quasi a occultar-se por traz da bateria de Santo Antonio dos artilheiros, desceu dois passos pelo ingreme talude.

Em direcção contraria, e como o primeiro a curta distancia da costa, vogava outro bote. Á ré tambem um homem e uma mulher.

Provavelmente mais um casal feliz.

Elle era um militar, um sargento. Já se lhe distinguiam as tres divisas verdes.

Tão alegres aquelles dois, que vinham tocando e cantando. A voz abarytonada, que entoava o fado, conhecia-a ella.

—Não! Não era possivel!

Debruçou-se mais, correndo quasi o risco de precipitar-se.

—Sim! Eram o Luiz e a Genoveva.

Com os olhos a saltarem das orbitas e os punhos fechados para o barco, trovejou phrenéticamente:

—Ah! Grandes maraus! Grandes maraus!

O Jorge pareceu acordar de um sonho, levantou-se, olhou para o bote e apesar da distancia reconheceu o sargento.

—Até que te apanhei! gritou elle, travando rudemente do pulso da rapariga.

—Hein! O que é?... Largue-me! Largue-me!

E voltou os olhos para o barco.

—Não olhes para lá, olha para mim, para mim, que sou teu marido! Anda! Nega ainda historia com o sargento... Nega!

—Não nego, e arrependida estou eu de ter negado a primeira vez. Mas largue-me! Arre!...

Com um esforço violento escapou-se-lhe da mão e como sentisse o pulso a doer, bradou fula de raiva:

Pisar-me assim! Pedaço de bruto!

—Olha que eu desfaço-te, grande diabo! E não te cae a cara de vergonha, por veres que sei tudo! Sempre era muito estupido!... Foi preciso que me mettesses a verdade pelos olhos dentro, ao avistares o sargento com outra mulher! Eu bem o reconheci, accrescentou o velho e apontou para o rival, que mal suspeitava o que alli estava acontecendo por sua causa. Ah! Padeces o mesmo que me tens feito padecer? Ainda bem! Ainda bem!

Ella ia responder com uma insolencia, mas calou-se, porque a vóz do sargento, subindo pela encosta, trouxe-lhe ao ouvido fragmentos de uma quadra do fado, de envolta com os arpejos da guitarra.

Sabia-a de cór, de a ter ouvido ao amante.

—Perdes o tempo a escutar, que não é para ti que elle está cantando! disse-lhe o Jorge, com sarcasmo.

Voltou-se enraivecida para o marido, mas, querendo feril-o mais cruelmente, descambou para a troça.

—Então não querem ver o fedôr do velho! ejaculou, com o dedo apontado para elle e atravez de uma gargalhada. Julga talvez que se o Luiz me não quizesse mais, ganhava com isso alguma coisa? Nicles, meu menino! Não é o mel para a bocca do asno.

E cuspiu-lhe outra risada.

O Jorge ouvia-a estupefacto, sem acreditar.

Para se vingar em alguem, a Rosa continuava nos improperios, como se a desesperação, que dias e dias tinha represado dentro em si, achando finalmente sahida, golfasse n’um vomito asqueroso.

—Julgou o mostrengo que era só appetecer uma raparigota, que ainda mal chegava a mulher, e chamar-lhe sua! Tal desgraça! Juntar a morte á vida!... Que peccado! O avô casado com a neta! Ah! Ah! Ah!

Meio suffocado pelo desespero e pelo asco, mas curioso de saber até onde chegaria aquella abjecção, o velho quiz ouvil-a. Não poude esquivar-se todavia a dizer-lhe com desprezo:

—Grande porca!

—Porco é você! Um porco, que me sujou casando commigo! Porcos os seus beijos! Desde o dia em que me levou á egreja, tenho nojo de mim! Veja-se n’um espelho, seu velho tinhoso, e diga-me depois se eu era para a sua bocca!

O veterano cresceu para ella, chamando-lhe:

Valhaca! Surrão!

Quiz agarral-a, porém a rapariga furtou-lhe as voltas, e continuou a provocal-o:

—Muito lhe tenho eu aturado! Nenhuma outra soffria tanto. O que eu lhe fiz, não é nem a metade do que você merece!

—Eu mato-te, diabo, eu mato-te! Nem já sequer te vejo!

—Nunca me tivesse visto! Oxalá! Fique sabendo que não gosto de você, nem gostei nunca, nunca! D’elle! D’elle, unicamente!...

E apontou na direcção do bote, que os dois, afastados um pouco da rampa, não podiam agora ver.

Ouvia-a e cuidava já não ser d’este mundo, ou que tudo se anniquilara em volta de si. Ainda os espreitava o sol por traz do monte, e elle julgava-se envolto nas trevas da noite.

—Pois aquella creança, que havia pouco se lhe afigurava tão innocente e pura, como nas tardes em que ella ia levar-lhe o jantar, muito rosada, de vestidinhos curtos, saltitante e alegre que nem um passarinho—aquella creança podia ser a malvada que para alli estava a falar?! Mais nojenta e descarada do que essas mulheres, que á noite, quando lhe succedia voltar para o castello mais tarde, o perseguiam pelas ruas da cidade, com as galochas de pau soando estridulamente nas pedras da calçada, e que se lhe offereciam desbragadas, em tróca de pouco dinheiro! Pois aquillo era a sua mulher, a sua querida mulher?!

No emtanto a Rosa tinha-se abeirado outra vez da escarpa, e com os olhos a brilharem seguia o barco, que se ia afastando de terra.

—Era aquillo, era! Peior ainda que as mulheres de má vida, podia dar lições a todas ellas!

E para que não existisse um monstro assim, o Jorge correu para a mulher, agarrou-a pela cintura e atirou-a com força pela rocha abaixo, dizendo:

—Anda! Vae ter com elle!

O corpo cahiu aos resaltos pela vertente e foi pondo salpicos de sangue nas arestas que o esfarrapavam, em quanto a voz do sargento Luiz garganteava ao longe, toda cheia de requebros:

Mal os meus olhos te viram

O meu coração te adorou,

Na cadeia dos teus braços

Minha alma presa ficou.