SCENA I
LAURA E ARTHUR
(Laura, canta e engomma, e Arthur trata do fogão)
Laura (cantando):
Ai! mundo!! mundo!… como és tyranno!
És deshumano p'ra mulher cahida…
Ai! misera orphã sem um tecto amigo,
Sem um abrigo que te dê guarida!…
Morrêr tão nova?!… acho cêdo ainda…
Mulher, e linda… que horror! perdida!…
Quando a purêsa no gosar fenece…
Ai! desfalece todo o amor á vida!…
(Vendo que Arthur desmancha qualquer coisa no fogão):
Es um desastrado, Arthur; pois já tens idade para algum juiso… Estás a fazer onze annos… (Vae compor o fogão, e Arthur espreitar á porta).
Arthur (voltando, com receio e meiguice):
Desculpa, Laurinha, minha querida irmã, desculpa, que me pareceu ouvir a voz do snr. tenente, e tu bem sabes quanto eu gósto d'elle…
Laura (enleiada):
A voz do snr. Alfredo!… Ainda não são as horas do costume… (dirige-se á mesa, em quanto Arthur faz qualquer traquinice pela casa, e fica um pouco pensativa): Arthur tem razão… A pobre criança parece que adivinha os favores que devemos ao snr. tenente… se não fôra aquella boa alma, teriamos, eu e meu irmão, succumbido… (trabalhando, e fallando, etc.) Não sei bem, se é só gratidão o que eu sinto… Os poucos dias que deixo de vêl-o, é como se me faltasse o ar que respiro!… se Elle é tão bom, tão caritativo!… E nunca lhe ouvi uma palavra atrevida, nunca lhe vi um gesto menos respeitôso!… Elle… que podia abusar… que… (pousando o ferro): Meu Deus! E se elle fosse meu pae?!… Quem sabe?… Achei-me tão nova desamparada no mundo, e com este meu irmãosinho nos braços…
Arthur (vindo ao pé da irmã):
Ó Laura, tu que estás ahi a resmungar?… Não estejas triste, não?…
Se estás assim por minha causa, eu prometto de nunca mais fazer tolices…
Deixas-me tu ir para a porta da rua esperar o snr. tenente, deixas?…
Laura (ameigando-o):
Pois vae, vae, mas não te ajuntes com os garotos, ouviste?
Arthur (indo aos saltos):
Não junto… só hei de vêr como elles jogam o peão…