SCENA XI

OS MESMOS, E JOÃO

João (terrivel de raiva concentrada):

Casar á franceza… não é verdade, meu tenente?!… (os dous separam-se, e João occupa o centro da scena, etc.):

Alfredo

O meu camarada!…

Laura

O homem doente!…

João (sempre ironico e terrivel):

O seu camarada, sim, meu tenente… aquelle soldado raso que aproveitou algumas cutiladas, para o salvar de uma infallivel morte… Era o dever do inferior… Agora, ao superior, cumpre-lhe pagar com a deshonra…

Alfredo (rispido):

Endoideceste, homem?!…

Laura

Que direitos são os seus, para estar com esses modos em minha casa?!…

João

Em sua casa, menina?… Por que não diz antes em nossa casa?… Era mais verdadeira, não occultando a parte do sr. tenente…

Alfredo (com imperio):

Nem mais uma palavra, soldado!… Vá immediatamente para casa, e lá ajustaremos contas…

João (cada vez mais furiôso):

Hei de ir para casa, meu tenente… para uma casa que se fez logo que eu nasci, e que tem uns oito palmos de comprido… mas antes de me levarem para lá, quero contar-lhe em poucas palavras toda a minha vida… Fui casado á face da egreja, meu tenente… Minha mulher morreu de fome, em quanto eu batalhava pela liberdade da Peninsula… Ficaram-me dous filhos, que julguei mortos… não morrêram, por desgraça minha… Esta mulher, que hade partilhar, se nâo partilhou já, da infamia dos seus amores… é minha filha!… (Laura, toda trémula, etc. prostra-se de joelhos): Agora, sr. tenente, (no auge da colera): vou com estas mãos arrancar uma vida, que já conservei á custa da minha!… (Faz acção de arremetter contra o tenente e Laura arrasta-se de joelhos para os pés do pae, que não faz caso d'ella. Alfredo, toma repentinamente attitude militar, e brada em voz de commando):

Alfredo

Perfilado, 38!… Perfilado!… (Lucta de gestos de João, entre a raiva e o dever militar, vencendo este por fim, e perfilando-se. Isto deve demorar-se, até o Arthur dizer o—áparte—da scena seguinte. Logo que João se perfila, toca a orchestra em surdina até ao fim)