SCENA X
ALFREDO E LAURA
Alfredo
Vou fallar-lhe muito seriamente, menina Laura… Quando eu, haverá nove annos, a encontrei casualmente n'um miseravel sotão quasi asfixiada, querendo tambem matar o pequenino Arthur, seu irmão,—fiz o que faria todo o homem, que ainda não tivesse a alma completamente estragada pelas convenções do mundo tôrpe. Ouvi a sua singela e muito infeliz historia, admirei a austéra virtude da sua boa indole, e protegi-a. Desde então até hoje, se a minha assiduidade junto da menina póde ser mal vista pelos perversos, é certo que as nossas consciencias estão tranquillas. Sua mãe, Laura, não teria mais cuidado pela conservação da sua virtude do que este… devasso militar, como talvez o mundo me chame… Podia dar-lhe todo o necessario, tiral-a ao trabalho pesado que exerce, cercal-a até de algum luxo; mas preferi velar apenas por que não entrasse em sua casa a miseria, deixando-lhe toda a gloria da sua honra pelo trabalho… Comprehenda-me bem, Laura. Um homem que assim procede, póde ter alguma coisa occulta no coração, mas de certo não merece o seu despreso… Fallo assim, para concluir por lhe dizer, que soffri muito ha pouco, que estou soffrendo ainda por ouvir da bocca de um innocente, que a menina occulta de mim as suas precisões, provando por tal fórma, que não confia no homem que ha nove annos a estima como um verdadeiro irmão!…
Laura
(Muito terna, beijando-lhe a mão): Não é isso, sr. Alfredo… Perdoe-me, se entendo mal, mas eu queria ser-lhe pesada o menos possivel… Pareceu-me comprehendêl-o… Devo-lhe, alem de tudo, o saber lêr nos livros que me dá, livros de certo escolhidos, por que só n'elles tenho aprendido rasgos de virtude e de heroismo… Não acredite que em mim exista um sentimento mau a seu respeito… seria crueldade imaginal-o sequer… Eu, não tenho no mundo outra affeição… É a v. s.^a que pertence toda a minha alma…
Alfredo (interrompendo-a):
Pela gratidão… Bem sei que a menina é um compendio de virtudes não vulgares.
Laura (muito enleiada):
Não é só a gratidão… Deixe-me dizer-lhe, o que ha muito mora no meu peito… v. s.^a é para mim mais que um irmão… já me lembrei se seria meu pae… É ainda novo, mas era possivel… Sei que o amo muito… creia-me… Se me faltasse, morria… (com força); Oh… juro-lhe que morria!…
Alfredo (contentamento suffocado):
Obrigado, Laura! Sabe lá o bem que me fez com o que acaba de confessar-me?! Tambem eu estou orfão de parentes e mais orfão ainda de crenças n'essa pervertida sociedade onde as minhas dragonas me dão entrada… Sonhei muitas vezes com a felicidade ao seu lado, Laura, mas temia de encontral-a suspeitósa das minhas intenções… Obrigado por me abrir o céu com as suas palavras… Attenda bem ao que lhe digo: estou a tocar nos quarenta annos. Esta idade, não deixa nutrir illusoes, mas ainda póde conservar bem vivo o coração… o meu—juro-lh'o sob palavra de cavalheiro—tem o mesmo calor dos vinte annos… Não posso, nem sei dizer-lhe mais… Peço-lhe pela memoria de sua mãe, que me diga com toda a força da sua convicção se não repugna á sua mocidade a juncção com a minha quasi velhice…
Laura (abraçando-o):
Repugnar-me, Alfredo?!!… (como que admirada da sua audacia, retirando os braços vagarosamente, etc.); Perdão, sr. tenente… O meu contentamento deu-me audacia, que ha uma hora julgaria loucura…
Alfredo (beijando-a na testa):
O amor nunca é audaz, minha querida Laura, é um sentimento nobilissimo, que faz desapparecer todas as distancias… (jubilôso): Seremos felizes, muito felizes!… Havemos de causar inveja aos mais felizes da terra!… Hei de…