ODE.

Das virtudes guiados

Subí ao alto Throno, oh Reis Augustos;

Nem sempre esquivos fados

Se nos hão de mostrar surdos, e injustos:

Abrem vasto thesouro,

E nos mandão por Vós a Idade de Ouro.

Do Rei aos Ceos erguido

O Reino, e o coração tendes herdado,

Benigno, enternecido,

De mil virtudes solidas dotado;

Por genio piedoso,

E digno em fim de tempo mais ditoso.

Da Eterna Providencia

Os beneficos raios fuzilárão;

Já se estima a innocencia,

Já os tempos de Ferro se abrandárão,

Já vem o ar talhando

A Piedade, e a Justiça os braços dando.

Com subita alegria

Tornai a ver os conhecidos lares,

Tornai a ver o dia,

Vós que habitastes horridos lugares,

Lugares deshumanos

Onde passastes dez, e outros dez annos.

Do chão desentranhados

Vinde jurar os novos Reis felizes:

Nos pulsos descarnados

Mostrai ao Povo as roxas cicatrizes,

E os grilhões inda quentes

Na praça triunfal deixai pendentes.

Que lagrimas levaste,

Patrio Téjo, na tua escura veia

Quando turvo passaste!

E as ondas, que quebravas sobre a areia,

Que cinzas que regárão!

Que triste sangue para o mar levárão!

Mas torna, oh manso Téjo,

Torna a volver corrente prateada:

Já taes males não vejo:

E até já foge a nuvem carregada,

Que á triste Lusa terra

Promettia fatal, e pronta guerra.

De pelouro violento

Não vê cahir o exangue companheiro;

E dorme ao som do vento

Em campo aberto o molle pegureiro;

O lavrador cantando

Em paz herdados campos vai cortando.

Da sorte das batalhas

Livrai, Piedosos Reis, os Portuguezes;

Pendurem duras malhas,

E os temperados lucidos arnezes

Os ardidos soldados

Das lagrimosas Mãis em vão chamados.

Que dias florecentes

Ao vosso fiel povo preparastes!

Quando com mãos prudentes

O pezo dos negocios espalhastes

Sobre os hombros robustos

De Ministros inteiros, sabios, justos.

Gemêo maniatado

Longo tempo o infeliz merecimento;

Mas já, o collo alçado,

Sacode o negro pó do esquecimento,

E a virtude innocente

De illustres palmas lhe coroa a frente.

Já vingadas seráõ

Do vil tutor as timidas donzellas;

Já não erguem em vão

As mãos, e os tristes olhos ás estrellas;

Nua de falsidade

Aos ouvidos dos Reis chega a verdade.

Mil louvores lhe cantão,

O limpo coração pondo no rosto:

E n'alma lhe levantão

Novo Throno, sobre ella melhor posto,

Que entre espessas falanges,

Que sobre ouro, ou perolas do Ganges.

Novos Reis Soberanos,

Que hoje as rédeas tomais do Reino vosso,

Os Fastos Lusitanos

Dirão de Vós o que eu dizer não posso:

Vossa Augusta Memoria

Abrirá largo campo á longa Historia.

Sem trabalho podeis

Fazer feliz a gente Portugueza,

Seguindo as santas leis,

Que n'alma vos gravou a Natureza,

A rara humanidade

A incorrupta Justiça, a sã Verdade.

No dia dos Annos do Illustrissimo, e Excellentissimo
Senhor Marquez de Angeja.