ODE
A rouca Lyra, Musa, temperemos,
Cordas de ouro lhe ponho:
O triste Boticario em paz deixemos,
E o Gamaõ enfadonho;
Inspira-me huma vez sonoros hinos,
Que Apollo julgue deste dia dinos.
Ensina-me a louvar do Illustre Angeja
Talentos sup'riores;
Que soffreo os assaltos d'alta inveja,
Como soffre os louvores;
Cuja alma não conhece vís mudanças,
Ou corrão tempestades, ou bonanças.
Sem temor estalar o raio ouvia,
Que ao perto fuzilava;
O recto coração tendo por guia,
Seguro caminhava;
Em vão medonha tempestade freme,
Seu grande coração só crimes teme.
Ao pé do Throno Augusto em fim chamado
Venceo a crua inveja;
Quem no Conselho o poz dos Reis ao lado
Não foi sangue de Angeja,
Não foi de Hespanha antigo Filhamento,
Foi sã justiça, foi merecimento.
Não revolvo a Real Genealogia
De Henrique, e de Fernando;
Os sãos louvores deste grande dia
De ti mesmo tirando,
Só louvarei com paternaes façanhas
Quem seu nome dever a mãos estranhas.
Vias correr teus dias socegados
Nutrindo esse alto esp'rito
No que ficou dos seculos dourados
Em prosa, ou verso escrito;
Recolhendo na próvida memoria
De estranhos Reis, e de teus Reis a historia.
Outras vezes rasgando á vasta terra
Seu peito cavernoso,
Ou descobrindo quanto o mar encerra
De raro, e precioso,
Profundavas com seria madureza
Os segredos da occulta natureza.
De tão doces estudos arrancado
Por mais altos destinos,
Da Lusa gente, e de seus Reis chamado
A empregos de ti dinos,
Sacrificas aos novos Soberanos
De maduro saber teus cheios annos.
Permitta o Ceo que em taes trabalhos vivas
Claro nome estendendo;
E que as douradas horas fugitivas,
As azas encolhendo,
Fação que o tempo demorando o passo
Sinta a fouce cahir do frouxo braço.
Que cem vezes raiando este bom dia
O Oriente esclareça;
Que imperturbavel solida alegria
Com elle te amanheça;
Que em naturaes ternissimos affetos
A mão te beijem Netos de teus Netos.
Mas deixa, ó Musa, a frouxa poesia
Para assumptos menores;
Não profanem de Angeja a gloria, e o dia
Importunos louvores;
Pois inda que soubesses dirigi-los,
Quer merece-los; mas não quer ouvi-los.
Engana-te o dezejo, que te inspira,
Reconhece o teu erro;
Se vês, que só ajustão nesta lyra
Negras cordas de ferro,
Não torças, não, teu misero fadario:
Torna ao Gamão, e ao triste Boticario.