SCENA II
Os mesmos, Padre João e Talitha
Talitha vem apoiada ao braço de padre João
Padre
Pois Deus Nosso Senhor nos dê muitos bons dias.
assenta Talitha: a Ruy, apertando-lhe a mão
Como passou a noute?
Ruy
Assim; mais descançado...
Sonhando... E o Senhor Cura?...
Padre
Eu? Ah! na minha idade
já se não dorme; eu passo a noute toda em claro,
de rosario na mão, pedindo a Deus por nós!
E quando surge o dia e mal o Sol desponta,
dando o braço a Talitha, encaminho-me á Egreja.
Talitha
Diz a missa que ou ouço...
Padre
E é raro, muito raro,
voltarmos ella e eu, da Egreja a casa, sós.
Ás vezes vem comnosco esse infeliz sargento
que arrasta por ahi o longo soffrimento,
velho e cego tambem, e eu, mortiça candeia,
a conduzir os dois pelas ruas da aldeia!
Talitha
Mas o senhor doutor, por mim nunca dei conta,
nem uma vez, sequer, nos acompanhou! Veja!
No emtanto está comnosco ha sete mezes, não?
Joaquina
Isso mesmo eu já disse...
Ruy
Eu dei a explicação...
Talitha
E poder-se-á saber? Não é curiosidade?
Padre
Talvez seja, talvez...
Ruy
Não é!
Talitha
Então ouçamos!...
Ruy
Eu rezo no silencio o santo sacrificio,
no fundo de minh'alma elevo o meu altar,
sob o docel azul das minhas esperanças!...
Padre
E eu sem conhecer mais essa novidade!...
Talitha
Qual?
Padre
Esta que o Doutor nos deu, mas aprendamos...
Ruy
Padre não é sómente aquelle que a rezar
esgota uma existencia ao peso do cilicio
e vae pelas manhans, feliz como as creanças,
curvar humildemente a fronte e a consciencia,
na sombra da capella, aos pés do Redemptor...
Talitha
Mas ha d'outros, então?
Padre
Eu não conheço, filha!
Ruy
Sacerdote é tambem aquelle que tem culto
ao qual offereceu toda a sua existencia.
Padre, quem se dedica um dia com fervor
a amar alguem na terra a cujos pés se humilha,
tambem é sacerdote...
Padre
E eu, sacerdote, exulto
ouvindo do seu labio esta expressão severa.
Joaquina, que tem guardado silencio, enlevada pelas palavras de Ruy
Bemdito seja Deus! menino, quem me dera
conhecer a mulher que tem um filho assim...
Talitha
Só eu não posso vêl-o!...
Ruy, entre alegre e enleado
Obrigado, Talitha!
Talitha
Não tem que agradecer, disse-o sinceramente!
Que póde desejar mais uma céga, diga?...
Padre
Mas conforma-te, filha, espera que o Senhor,ouvindo-me a oração, tenha pena de mim
e acuda com remedio ao mal dessa desdita!
Ruy
Como eu fôra feliz...
Joaquina
E eu seria contente!...
Ruy
Se pudesse voltar, ó minha boa amiga,
aos seus olhos de céga o perdido fulgor!...
Talitha
Nunca mais, nunca mais...
Padre
Porque é que te condemnas
se toda a nossa vida é uma esperança apenas?...
Talitha
Se é toda de esperanças esta vida,
já me fugiu aquella que voava
bem junto do meu seio e que roçava
sobre a minh'alma a aza foragida.
Nem sei onde ella vae, talvez perdida
nao volte a mim por não morrer escrava
na escuridão da noite immensa e cava
dos meus olhos sem luz e sem guarida...
Nunca mais fulgirás, dôce promessa,
na minha treva densa e prematura,
como o branco luar em noite espessa.
Se vive, o olhar dos cégos não fulgura,
dorme na sombra e de sonhar não cessa
na tristeza sem fim da noite escura!
Ruy
Não descreia, Talitha, as suas illusões
não fugiram, por ora, esparsas na lufada!
Quem foi que lhe roubou a ultima esperança,
que braços sem caricia, ou duras privações
lhe puderam vibrar tão rude punhalada?
Pois bem, toda a minh'alma alegre se abalança
a dizer-lhe, Talitha:—o seu formoso olhar
tão cheio de fulgor, um dia ha de voltar...
Joaquina
Só milagre de Deus!
Padre
E Deus póde fazel-o:
é Pae de todos nós!
Talitha, com desanimo
Tenho rezado tanto!
Ruy
Implore mais ainda, espere, tenha crença!
Talitha
Tenho pedido muito e tanto me flagello
que banho as orações nas bagas do meu pranto
e aqueço-as ao calor da minha dôr immensa.
A mesma escuridão tremenda me apavora,nem um raio do luz, nem um vago lampejo;
nunca mais hei de vêr o campo que se inflora
nem do luar terei um luminoso beijo...
Padre
A tua redempção ainda não surgiu...
Joaquina, pondo as mãos
Eu tenho tanta fé!
Ruy
O meu presentimento
não sei o que me diz...
Talitha
Que o coração sentiu,
que a sua alma pensou nessa dôce ventura,
eu creio porque sei quanto é nobre e bondoso.
Mas eu creio tambem que o meu cruel tormento
sómente acabará no chão da sepultura,
onde tudo tem fim, embora tenebroso!...
Padre, olhando o céo
Perdôa-lhe, Senhor, ella ignora o que diz...
Se tem soffrido tanto esta pobre infeliz!...
Talitha
Eu sei bem o que disse; a minha crença é essa.
Ha muito que eu imploro ao céo a protecção
e rezo com fervor á dôce Conceição,
pedindo-lhe, a chorar de dôr, que não esqueça
a minha noite escura e tristemente agrestecomo a sombra que faz a copa de um cypreste.
Aos pés do seu altar curvei-me como escrava
e emquanto pela igreja o incenso espiralava,
e as simples orações subiam na espiral,
fechei-me na mudez do meu fervor mental
e fiz uma promessa...
Ruy, com interesse
E então qual foi, Talitha?
Talitha
Votar a minha vida ao divino serviço,
se um dia terminasse o meu padecimento;
nem peço mais a Deus, é tudo o que cubiço.
Ruy
E se tornar a ver?
Talitha
Entrarei num convento
a vestir o burel de freira Carmelita.
Padre, crente, pondo as mãos
Se Deus te ouvisse, filha!
Joaquina, com uncção religiosa
E o Bom Jesus quizesse!...
Ruy, com amargura
Se tivera valor a minha humilde prece!...
Talitha, curiosa
Se tivera valor, que lhe faria, Ruy?
Ruy
Não pediria a Deus esse milagre extremo...
Talitha
Porque?
Ruy
Porque seria arrancal-a da treva
e lançal-a de novo em mais cruel negrura.
Juntando toda a fé que de minh'alma flúe
eu iria pedir, como um favor supremo,
que as almas alevanta e os corações eleva,
que me guiasse a mão na lucida aventura
de devolver-lhe um dia ao seu olhar perdido
aquelle brilho antigo e aquelle ardor de outr'ora
que faziam inveja ao proprio olhar de Flóra!
Padre
E seria capaz?
Joaquina
Credo!
Sae