SCENA III
Padre João, Ruy e Talitha
Ruy
E tão convencido
estou de que o Senhor a mão me guiaria
nesse instante feliz, que não hesitaria
um momento sequer... A simples catarata
é facil de operar e em dez dias exactos
Talitha voltaria á luz que o céo desata
e que dá vida á terra, aos fructos e aos regatos!...
Pense, Talitha, pense e permitta que eu faça
esse dôce milagre.
Talitha
E eu tornarei a vêr
o presbyterio, a fonte, a madrugada, as aves,
as abelhas sugando o mel dos jasmineiros?
Ruy
Os seus olhos verão a luz da eterna graça
no sorriso gracil da alvorada, ao nascer
nas bandas do oriente em nuvens tão suaves,
como um rebanho astral de timidos cordeiros!
Talitha
E que mais hei de vêr?
Ruy
Que mais? Verá tambem
um velhinho a sorrir com lagrimas na face,e uma velhinha branca e trémula a chorar,
e ao pé delles, alegre, o olhar de mais alguem,
numa dôce oração tão leve e tão feliz,
como se a propria brisa aqui se demorasse
um momentinho só tambem para rezar!
Talitha, alegre
E eu voltarei de novo aos encantos da luz?
E hei de vêr tambem o jardim do mosteiro
onde floresce a fé que a nossa vida arrima,
as rosas enfeitando a Virgem que as anima,
o corpo de Jesus exanime e trigueiro,
entre cirios a arder, deitado sobre a cruz?...
E então assim feliz...
Ruy, interrompendo
E então, Talitha, e então?
Talitha
Rezarei pelo Ruy, tão bom, tão generoso,
que trouxe ao meu olhar escuro e tormentoso
a esmola angelical d'um lucido clarão!