SCENA V

Padre João e Ruy

Desde que recebe a carta, Padre João lê com a maior attenção. Pela sua face corre toda a expressão de espanto que vae recebendo. Quando sahem Joaquina e Talitha, o Padre conclue a leitura e fica a meditar. Ao approximar-se Ruy, suspende-se.

Padre

Esta agora é que foi!

Ruy

E que foi, Senhor Cura?

Padre

Quem sabe? Póde ser um pequeno precalço,
mas póde ser tambem que venha de mistura
alguma dôr maior. E não posso evitar!...

Ruy

O que essa carta diz deixou sua alma afflicta:
um segredo talvez que vive no seu seio?!...

Padre

Foi, sim, mas ja não é. Agora só receio
que m'a levem daqui...

Ruy

Que a levem? quem?

Padre

Talitha...

Ruy

E quem a levará deste remanso augusto?
O convento, a promessa?...

Padre

Oh! não...

Ruy

Não tenha susto!
E quem mais poderá, nesse caso, arrancal-a
do lar em que nasceu?

Padre

A Mãe...

Ruy, surprehendido

Ah! mas... então...

Padre, baixinho

Então... já percebeu?! Ella foi engeitada...
Eis aqui o segredo em que esta vida abraço.

baixa a cabeça, scismando

Ruy, depois de uma pausa

Oh! meiga creatura!

Padre

E não poder salval-a!...

Ruy

Engeitada!...

Padre

Sim, sim. Ao romper da alvorada.
Ha muito tempo já. Inda no céo brilhava
a estrella da manhã; vieram procurar-me;
bateram ao portal com desusado alarme...
Ergui-me e fui abrir; a neve branqueava
os campos e eu pensei que um pobre moribundo,
no momento supremo em que deixava o mundo,
quizesse receber da minha propria mão
o balsamo final da santa extrema-uncção,
e abri desta choupana a porta sempre franca.
Parecia o jardim uma toalha branca.
Era um frio cruel, cortava como fôsse
o gume de uma faca e o fio de uma fouce...
Sahi, olhei em roda e já não vi ninguem.
No céo luzia só a estrella de Bethlem!
Não sei porque a fitei nesse feliz momento.
Um silencio profundo amordaçava o vento;
dormia a natureza um somno indefinido,
vibrou então no espaço um timido vagido...
Estremeci de horror...

Ruy, com anciedade

Era a pobre Talitha?!

Padre

Approximei-me e vi, aqui junto do banco
um cestinho de verga envolto em panno branco.
Banhou-me o coração uma dôr infinita.
Na tragica mudez da alvorada deserta
tomei nas mãos, tremendo, a delicada offertae agasalhei-a ao peito, assim, para aquecel-a
como quem agasalha o corpo de uma estrella
que tombasse do céo...

Ruy, com mais anciedade

E esse penhor amigo?!...

Padre

A meu lado cresceu e formou-se o thesoiro,
alma rica de luz, feita de amor e d'oiro.
Parece que ao romper daquella madrugada
tão fria, tão cruel, mas tão abençoada,
que eu lembro com saudade e que inda hoje bemdigo,
teve o banho castalio, o baptismo de luz
da mesma estrella exul que baptisou Jesus.
Por isso é que minh'alma agora não sopita
a magua de perdel-a...

Ruy

E quem terá coragem
energica e viril de arrebatar Talitha
ao seu amor leal e bom, dôce miragem,
no deserto feliz desta velhice austera?

Padre

A mãe que a vem buscar...

Ruy

A mãe não tem direito...
A mãe que engeita a filha é peior que uma fera!

Padre

Mas é mãe!...

Ruy

Sim, será, sem coração no peito.

Padre

Engana-se, doutor, a mãe que hoje a reclama,
depois de tanto tempo, é que lhe tem amor...

Ruy

Como a engeitou, então?

Padre

A fera tambem ama...
Quem sabe o que terá soffrido essa mulher?
Sabe-o sómente o céo, calcule-o quem puder.
E diz-me o coração que vou perdel-a em breve.

Erguendo as mãos ao céo

Não me tires, meu Deus, esse gentil penhor!
Repara que já tenho os cabellos de neve,
tão tremulas as mãos, e os labios descorados,
como sonhos que vão batidos e levados
num extremo soluço... O que eu tenho no mundo,
pouco mais é que um ai e o golpe agora é fundo!

Enxuga os olhos e sáe