SCENA VI

Ruy e Talitha

Ruy vê sahir o Padre e fica pensativo, fitando os olhos no chão, sentado no banco de pedra. Depois de uma pausa, Talitha desce, tacteando, até junto delle.

Talitha

Padrinho, então não vem?

Ruy, sobresaltado

Ah! Talitha...

Talitha

Perdão!
Pensei que estava aqui...

Ruy

Já se foi...

Talitha

Obrigada...

Vae retirar-se

Ruy

Talitha!

Talitha

Senhor Ruy!

Ruy

O seu bom coração
inda não lhe contou, baixo, muito baixinho,
quasi a tremer de medo e susto, um segredinho,
diga, não lhe contou?

Talitha, com muita simplicidade

Que pergunta engraçada!

Ruy

E vive então sereno?

Talitha

Ah! Sim, tenho certeza!

Ruy

É bem feliz, Talitha, a sua singeleza!
Outro tanto, porém, ao meu já não succede
que o sinto palpitar acceleradamente,
como quem vae fallar e o soffrimento impede.

Talitha

Eu bem lh'o disse ha pouco...

Ruy

Entretanto eu lhe juro...

Talitha, interrompendo

Não jure que é peccado a jura de quem sente
que não diz a verdade. É mais bello e mais puro
não negar.

Ruy

Tem razão, mas eu não disse, ainda
qual era o juramento...

Talitha, ingenua

E qualquer que elle seja...

Ruy

Diga, diga o que sente...

Talitha

Ha de ser...

Ruy, curioso

Ha de ser?

Talitha

Não digo...

Ruy

Diga, sim, a sua voz bemvinda
ha de me dar a esmola honesta e bemfazeja
que a minh'alma sem luz precisa de viver.
E do seu labio casto apenas um sorriso
vale mais que uma estrella e rasga um paraiso.

Talitha

Assim o quer, direi; jamais o seu protesto
póde ser verdadeiro...

Ruy

E porque não, Talitha?...

Talitha

Não sei, não sei porque. A jura é como o gesto
que abala fortemente, a nossa vida agita,
mas passa e foge...

Ruy

Ah! sim, quando falla sómente
o labio, sem fallar tambem o coração...
Ah! de certo que assim o labio sempre mente.
Mas quando o sangue estúa e faz tremer a mão
de quem jura, Talitha, ou quando a fronte em braza,
apenas num momento, empallidece e tomba,
bem como se a roçára a ponta fria da aza
feita de gelo e dôr de alguma extranha pomba,
quando um homem que sempre olhou de frente o sol
tem medo de encarar o olhar de um rouxinol,
e treme até de ouvir-lhe a voz encantadora,
quem sempre ouviu sorrindo a furia rugidora
do vento e dos trovões...

Talitha, interrompendo

Então?...

Ruy

Assim revela
que é grande, generoso e casto o sentimento
que apenas se traduz e que tão mal se vela
na gaze pueril d'um simples juramento!

Talitha, ingenua

Quem foi que o ensinou a fallar assim?

Ruy, timido

Digo?...

Talitha, ingenua

E porque não? Quem foi?...

Ruy, timido

Nem mesmo eu sei, Talitha!

Talitha, insistido

Nem sabe onde aprendeu?

Ruy, sorrindo

Quer aprender commigo?

Talitha, ingenua e triste

Não me quer responder, nem confessa, nem nega...
Se eu pudesse aprender, de que valera á céga
saber fallar assim?

Ruy, triste

Á céga?

Talitha, simples

E á Carmelita?...

Ruy, ancioso

Á Carmelita!... e quem lhe disse que os seus olhos
recuperando a luz, como duas estrellas,
irão illuminar as fragas e os escolhos
das montanhas da Syria, entre as monjas Carmellas?
Quer sepultar-se em vida?

Talitha

E não é cemiterio
maior a escuridão deste pavor funereo,
sem vêr o sol que doira as nuvens do poente,
sem vêr a lua assim como um berço dolente
embalando no azul um sonho que não morre,
não vêr duma colmeia o mel que filtra e corre
como um rio de luz nascendo num enxame,
sentir e adivinhar a suprema belleza
da madrugada em flôr, das noites constelladas,
dos mares e do céo, de toda a natureza,
ter olhos e não vêr, inda haverá quem chame
vida a tal vida? Não! Mais negras, mais cerradas
do que esta noite immensa e triste, sem estrellas,
não póde ser, de certo, a solidão das cellas,
e o sol que tudo aquece, aquecerá de leve
a macerada fronte á monja que não teve
nem um seio de mãe que um dia a amamentasse,
nem a luz d'um olhar na pallidez da face,
e nem um coração...

Ruy

Talitha!

Talitha, ingenua

Meu doutor!

Ruy, com intenção

Um coração?

Talitha, ingenua

Qual foi?

Ruy, tomando-lhe a mão

O meu...

Talitha, comprehendendo, envergonhada

O seu?

Retira a mão

Ruy, enleiado

Perdoe.

Pausa prolongada

Talitha, implorando

Que mal lhe fiz?

Ruy

Rasgou-me o coração, Talitha;
e pensará, talvez, que não me fere a dôr
de vêl-o assim rasgar?

Talitha, humilde, implorando

Mas creia, Ruy, que foi
sem que eu desse por isso. E se o mal está feito
seja agora gentil e não me rasgue o peito.
Esqueça a minha falta, esqueça esta maldita,
não se lembre da céga e deixe-a definhar
na torva escuridão desta noite polar...

Ruy

E se eu não conseguir tirar do pensamento
o seu casto perfil, celeste e macilento,
se a minh'alma quizer viver escravisadaunindo o meu destino á corrente doirada
que me prende, sorrindo, ao seu cruel martyrio,
se o meu olhar prefere esse apagado cirio
dos seus olhos de céga á lucida manhan
do amor sentimental de alguma castellan,
como esquecel-a então?

Joaquina apparece ao fundo

Talitha, triste

Não creio...

Ruy

Mas porque?
Já tão cedo a sua alma angelica descrê
da minha que, arrastada á fimbria azul da sua,
por toda a parte a segue e a seu lado fluctua?
Não recorda, Talitha, o dia amargurado
em que eu entrei aqui perdido e quasi morto?
Não se lembra da noite em que eu fui condemnado?
Não se lembra talvez das horas de conforto
que os seus olhos sem luz e a sua bocca em flôr
me trouxeram a rir, como um remedio santo
da minha vida enferma á cruciante dôr?
Não recorda talvez que esse supremo encanto,
essa graça divina, aligera e bemdita
a vida me salvou?

Talitha

Não creio...

Ruy, curioso

É tão cruel!
Porque razão não crê, a minha alma fiel
simplesmente traduz o que a sua entendeu?

Talitha, com intenção

Só porque a sua mão na minha não tremeu.

Ruy

Entretanto, Talitha, eu amo-a...

Talitha, tremula

Ruy!...

Ruy, apertando-lhe a cintura

Talitha!

Beija-lhe docemente a mão

Talitha

Ah! E eu sem poder vêr o labio que me beija!...
Que destino fatal, que desgraçada eu sou!

Ruy

Não foi a minha bocca ardente que a beijou.
Foi o dôce rumor da abelha que voeja
sugando á sua mão de branca flôr de liz
o magico licôr, o aroma delicado,
que vem do rosicler florido e perfumado,
no sangue que palpita em vibrações subtis!!

Talitha

Mas, Ruy, o seu amor não ve como eu sou pobre!!

Ruy, interrompendo

Pobre sou eu que peço a esmola angelical
desse affecto gentil que a vida transfigura.

Talitha

Tão pobre que não tenho um Pae que me conforte,
nem caricias de mãe que veja esta tortura...

Ruy

A sua alma divina essa tortura encobre...

Talitha

Tão pobre que este olhar perdido é glacial
como um floco de neve, e a desfazer fluctúa...

Ruy

Os seus olhos sem luz tem mais fulgor que a lua.

Talitha

Engeitada ao nascer vivo esperando a morte...

Ruy

Alma branca de luz que illuminaste
a ventura das minhas esperanças,
bemdito seja o véo de negras tranças
que sobre a minha vida desnastraste!
Bemdito seja nesse dôce engaste
das palpebras subtis brancas e mansas
o mesto olhar que cobre de bonanças
a vida deste amor que tu salvaste!
És para mim a linha do horisonte,
curva do céo, á noite, constellada,
agua lustral de uma sagrada fonte,
toda a ambição dest'alma allucinada,
e a nuvem que circumda a minha fronte
como um disco de treva avelludada...

Talitha, de mãos postas

Meu Deus, e nunca mais, nunca mais hei de vêl-o!...

Ruy

Sim, Talitha, verá; o meu maior desvelo
ha de ser o fulgor do seu formoso olhar.