SCENA VI
Marqueza e Padre
Padre
Senhora, estamos sós! Vossa Excellencia ordene!
Marqueza
Ouça-me, Senhor Cura! ouça e não me condemne!
Padre
E condemnar por que? Se tem algum peccado,
o coração de Deus não estará fechado!
Marqueza
Pensei chegar mais cedo: hontem, pelo sol posto,
estaria acabado este immenso desgosto
que me tortura a vida; a asperrima inverneira
embaraçou-me o passo e augmentou-me a canceira.
Padre
E vem de muito longe?
Marqueza
Ah! sim, de bem distante,
anciosa, esperando este feliz instante.
Ha muito tempo, um dia, ao romper da alvorada,
alguem que veiu aqui lhe trouxe uma engeitada...
Padre
É verdade, Senhora!
Marqueza
Uma carta pedia
ao Cura desta aldêa a esmola caridosa
de guardar a creança, até que a mãe chorosa,
depois, a procurasse. Afinal esse dia
felizmente chegou e a mãe que a dôr humilha,
Senhor Cura, a seus pés, vem procurar a filha...
Padre
E como poderei saber se esta senhora
que se confessa mãe, embora peccadora,
é realmente a mãe da creança engeitada
ha tantos annos já, naquella madrugada
tristissima d'inverno?
Marqueza
A carta igual áquella
que o Senhor Cura achou no berço, junto della...
Padre, tomando a carta
Mas falta alguma cousa...
Marqueza
A pérola? está aqui...
Dá-lhe a pérola
Pois desde aquella noite eu jámais a perdi
de vista e a conservei com cuidadoso afan,
como alguem que resguarda um rico talisman.
Padre
Seija feita de Deus a sagrada vontade,
embora se me parta o coração de dôr...
Marqueza
Essa dôr, Senhor Cura, ha de fugir vencida!
Eu não quero quebrar tão dôce piedade
que fez de minha filha o seu risonho amor,
nem desejo apagar a luz da sua vida
num soluço de magua.
Padre
Então não vem buscal-a?
Marqueza
Não, não, meu bom amigo, eu venho acompanhal-a.
A minha desventura, emfim, se condoeu
dest'alma cruciada e triste que viveu
reclusa na saudade, apenas na esperança
de vêr um dia ainda essa gentil creança...
Se nunca procurei saber dessa existencia
não é que se apagasse em minha consciencia,
como um sonho infeliz, a lembrança dorida
dessa flôr do peccado em anjo convertida.
Como eu pensava nella, ah! sabe-o Deus sómente!
Que lagrimas chorei por conserval-a ausente,
e quanto passei eu por causa desta filha
dil-o, com eloquencia, a dôr que me polvilha
a cabeça de cans. Amal-a com ardor
e ter de estrangular todo esse immenso amor!...
Vêl-a crescer ao longe, e calcular-lhe o encanto,
mas sem poder beijal-a, adivinhar que o pranto
as faces lhe banhava e não poder sorvel-o,
que tormento cruel, que duro pesadello...Soffri, meu bom amigo, e soffri a sorrir,
que até para soffrer é preciso mentir!
Não me pergunte, Padre, a origem desse amor
ninguem perguntaria ao seio de uma flôr
como foi que nasceu o aroma que elle exhala.
Bastará que lhe diga: a dôr que me avassalla
é a amiga fiel que me segue ha vinte annos,
que nunca me deixou; que os tristes desenganos
dessas horas sem luz foram os companheiros
da minha mocidade e os filhos feiticeiros
que encheram o meu lar de pranto e de amargores,
como um dia sem sol, como um jardim sem flôres.
Um dia, Sr. Cura, em confissão, no templo,
diante do seu olhar que eu agora contemplo
humilde e agradecida, hei de contar-lhe a historia
da minha desventura e desta dôr ingloria,
mas não exija, Padre, agora, que eu recorde
o passado infeliz, que o coração acorde
do somno em que repousa, e desvende o segredo
que a vida me cobriu de sombras e de medo.
Padre
Nem quero desvendar, Senhora, essas torturas;
mas a minha velhice acostumou-se a vêr
em tão meiga creança uma filha extremosa
junto de mim crescer, florir como uma rosa
ao pé dum castanheiro, e fazer-se mulher.
Aos dez annos cegou...
Marqueza, interrompendo, afflicta
É céga a minha filha?
Padre
Foi: ha dias, porém, a luz de novo brilha
no seu formoso olhar. Emquanto a escuridãodurou, eu sempre a trouxe unida ao coração,
apoiada ao meu braço.
Marqueza
E quem foi que a curou?
Padre
Alguem que a soube amar. Um dia despontou
na sua alma de flôr um novo sentimento
e a pobre céga amou e foi tambem amada.
Queria dedicar-se á vida enclausurada
na casta região da cela de um convento,
mas, sonhadora e boa, o amor venceu em breve
o vago mysticismo e a Virgem que a fadou,
condoendo-se della, o seu amor salvou...
De modo que, feliz, dentro de pouco, deve
desposar um rapaz, formoso coração...
Marqueza, interrompendo
Ruy de Ornellas, talvez?
Padre, admirado
Mas como adivinhou?
Marqueza, depois de uma pausa
Não importa saber; prosiga, Senhor Cura,
eu contarei mais tarde essa alegre aventura,
tão simples e feliz.
Padre, proseguindo
A mim, pobre ancião,
uma alegria basta: a de morrer contente
por haver feito bem á candida innocente.Do mundo nada espero, esta gentil creança
era a minha formosa e unica esperança:
arrancam-m'a daqui e eu sinto que a corola
dessa flôr, que me dava a encantadora esmola
do seu perfume agreste, arrasta a minha vida
á derradeira estancia, á ultima guarida...
Marqueza
E quem lhe disse, Padre, as minhas intenções?
Padre
Ninguem. Mas adivinho. Eu sei que os corações
carinhosos das mães não querem a partilha
das caricias, do amor, dos beijos de uma filha.
Talitha vae partir; que o Senhor a conduza
e que uma boa estrella ao seu porvir reluza.
Marqueza
Attenda, Sr. Cura! A mãe que ora lhe falla
tambem sabe que a dôr o coração estala
e não lhe vem roubar a luz dessa velhice
tão cheia de bondade e simples de meiguice.
A dôr me fatigou e eu quero repousar
de tantas afflicções, e venho procurar,
nesta aldeia tranquilla e sem perversidade,
a paz que não frui na minha mocidade.
Sou rica, felizmente, e quero ter um nicho
onde acaba a existencia: é, talvez, um capricho...
Mas quero aqui viver ao lado desta filha
que a sua alma de santo, alvissima, perfilha
e nunca mais sahir deste sereno azylo
tão suave e tão bom, tão feliz e tranquillo,
onde mora a virtude. A filha que eu procuro
tambem é muito rica e tem porvir seguro.Se a desventura um dia a separou de mim
a minha vida agora ha de chegar ao fim,
aqui onde ella teve um lar sagrado e nobre.
E o dôce olhar de Deus que o mundo inteiro cobre,
abrindo sobre nós o pallio da ventura,
ha de envolver na sombra o coração do Cura
que fez de minha filha a filha da sua alma,
extremosa e leal. E Deus que tudo acalma
ha de extinguir a dôr de todo esse passado
que eu vejo, felizmente, agora terminado...
Padre, alegremente
Obrigado, Senhora. O coração que sente
a alheia desventura e lança boamente
o seu conforto amigo a quem já nada espera,
tem, nas bençãos do céo, eterna primavera...
E agora que sabeis que a vossa filha é viva,
attendei-me, Senhora, á santa rogativa:
Talitha esteve céga. O homem que salvou
o seu formoso olhar o amor lhe conquistou.
Ella, uma encantadora e formosa creança,
concentra nesse amor toda a sua esperança:
tiral-a será dar-lhe o mais cruel supplicio.
Marqueza
Não preciso pedir tão duro sacrificio
ao seu bom coração. Eu quero-a vêr feliz,
se quem serviu de Pae o consentiu e quiz.
Procurava uma filha, encontrei um casal:
para mim, que sou mãe, jámais este Natal
feliz esquecerei. E agora que conhece
a Mãe da sua filha, attenda á minha prece
e mostre-me Talitha, anceio por beijal-a.
Padre
Louvado seja Deus, Senhora, eu vou chamal-a.
Entra e volta com Talitha pela mão