III. PARTE.

CAPITVLO I.

Como se deuem aparelhar os casulos, para delles tirar a seda, & conserualos muito tempo, & impedir que as borboletas nam os furẽ.

Se os que criaram os bichos, por falta de fiandeiras, ou pella grande abũdancia da nouidade, nam tiuerem tempo, nem commodo, para tirar a seda dos casulos, quatro, ou cinco dias, depois que os casulos forẽ tirados dos ramos, poràm os casulos ao Sol, desde o meio dia até as quatro horas da tarde, tornando-os a pór, & tirar tres dias, sẽpre nas mesmas horas, & por este modo os ardores do Sol, affogaràm os bichos nos seus casulos.

Tambem poderàm pôr em parte separada dos casulos, algumas mantas, ao maior calor do Sol, quatro ou cinco horas ao menos, & nestas mesmas mantas, & cobertores muito quentes, recolherâm os casulos, & os cobriràm, porque com este calor abafadiço, os bichos morrerâm mais depressa.

Depois disto, os casulos se poderàõ guardar muito tempo, & ouue quem os guardou mais de cinco annos, ficando a seda tam boa, como a que fora tirada quinze dias, depois de acabada a criaçaõ; verdade he que nam parece tam lustrosa nas meadas, mas depois de tinta, & aparelhada, tem a mesma bõdade, & perfeiçaõ que a outra, porque no casulo, o bicho transformado em faua, se seca, & se mirra de maneira, que naõ tem, nem toma mais humidade algũa, com que possa fazer dano â seda.

Em tempo pois chuuoso, ou cheo de neuoas, se farâ com o calor do forno o que se hauia de fazer com o calor do Sol.

Porâm os casulos em cestos, alcofas, ou sacos velhos, dentro de hum forno mediocremente quẽte, como quando se tira o pão depois de cozido, & se quatro, ou cinco horas de Sol, eram precisas para fazer morrer os bichos, para este mesmo effeito, bastarà hum quarto de hora do calor do forno muito bem tapado, & chegando os ouuidos â boca do forno, ouuirâm estalar os bichos, & ranger nos seus casulos, como formigas lançadas em cinzas quentes, & logo immediatamente tirarâm os casulos do forno, & os enuoluerâm em cobertores muito quentes, & este calor os acabarâ de matar a todos, porque se ficarem os casulos ao ar descoberto, muitos dos bichos tornaram a viuer, & furaram os casulos.

Depois disto, estenderam os casulos sobre taboas ao ar, ou ao Sol, para os secar, & endurecer, porque alguns delles ficão fofos, em razam da humidade que lhe cõmunicaram os bichos, que estalãdo dentro delles por força do calor, deixaõ ir de si huma agoa, ou humor, com que fica embebida a seda, & assim postos ao Sol, ou ao Ar, os reuolueraõ muitas vezes cada dia, para que tornem a recuperar a sua primeira tesura.

Primeiro que metaõ os casulos no forno, tiraraõ o barbilho, que està a roda delles, como os dedos, sem lhe chegar com as vnhas, & para preseruar os casulos mais altos, do calor do forno, que os poderia torrar, poraõ hum panno de linho, ou folhas de papel sobre os cestos ou alcofas, & naõ amontoaraõ os cazulos em cantidade nem os apertaraõ nos cestos, paraque todos igualmente sintaõ os effeitos do calor, que he preciso, para a extinçaõ dos bichos.

CAPITVLO II.

Como se deuem escolher os casulos, & vnir as borboletas paraque ponham a semente.

Escolheraõ os casulos mais tesos, & mais corados, porque as borboletas, que delles sahem poem a melhor semente; naõ importa, de que cor sejaõ os casulos, com tanto que a cor seja viua & sobida, porem os de cor de verdemar saõ os melhores.

Para fazer huma onça de semẽte, ha mister cem pares de casulos, cem casulos de borboletas machos, & outros cem de borboletas femeas.

Quando apartarem os casulos para a semente aduirtiraõ, que em cada casulo o bicho se moua, solto, & desapegado, o que conheceraõ sacudindo brandamente o casulo, junto dos ouuidos, porque se o bicho naõ bolir, serà sinal, que està podre, & pegado à seda, & neste estado naõ serue para o nosso intento.

Os casulos dos machos, naõ tẽ a seda taõ liza, como a das femeas, saõ cumpridinhos, & agudos por ambas as extremidades do ouado.

Os casulos das femeas tem a seda mais lisa, & saõ mais redondos por huma parte, que por outra, como hum ouo de galinha, & a maior parte são rombos por ambas as partes.

Por estes sinaes, differenciarão os casulos huns dos outros, & porão de parte os dos machos, & das femeas em igual cantidade; & se acontecer, que sahião mais femeas que machos, naõ serà taõ grande a perda, como se succedérà o contrario, porque huma borboleta macho, pode seruir para duas borboletas femeas, suposto que não serà tão boa a semente, como a do que sò se vnir com huma.

Enfiaraõ todos os casulos com huma agulha, & não furarão de todo a seda, mas sò a superficie della, & farão como contas ou coroas de cem casulos cada huma, & as pendurarão, sem bolir mais nellas, esperãdo que os bichos sahião trãsformados em borboletas.

As femeas seram muito mais aluas, que os machos, & terão o ventre tres vezes maior.

Os machos se darão a conhecer logo em rompendo do casulo, porque baterào as azas, cõ muita pressa, & esperteza, o que as femeas não fazem.

Tomarão as borboletas pellas azas, ou pello corpo com os dedos cõ delicadeza, sem os apertar, & os porão sobre folhas de papel, ou sobre estamenhas velhas & outros panos, que não tem pelo, & talvez serâ necessario chegar as borboletas humas âs outras, & como as virem vnidas, as deixarão assim desde a manhaã, a té a noite, depois apartaram os machos, & os deitarão, & as femeas porão a semente.

Esta vnião das borboletas ha de durar noue ou dez horas, quer de dia, quer de noite, & não mais, porque a demaziada dilação desta vnião, prejudicaria à perfeição, & multiplicação da semente.

Farão muita diligencia, por não fazer arrebentar os grãos, quãdo os tirarem do pano, ou papel, em que as borboletas os lançarão, & para os tirar nam se valeram de ferros, ou outros instrumẽtos, que cortão, mas sò vzarão de alguns pedacinhos de ouro, ou prata adelgaçados, & sem talho, & se os vintens del Rey D. Manoel forão hum pouco mayores, seriaõ muito bonspara este effeito.

Quando os grãos sahẽ da borboleta, são brancos, no mesmo dia se fazem como verdes, & depois vermelhos, & pouco a pouco vão tomando huma cor de pardo escuro, que sempre conseruão, & esta vltima cor he o sinal da mais perfeita semente; alguns grãos se achão, que sempre ficão brancos, & estes não prestão para nada.

De ordinario cada borboleta femea lança trezentos grãos, hũas lanção mais, & outros menos, porque muitas não podem lancar todos os que tem dentro de si, & com elles morrem.

Guardaraõ os graõs de todo o genero de bichos, ratos, formigas, grillos, & osteraõ em lugares, a que naõ possaõ chegar galinhas, nem aues, porque saõ mais golosas dos grãos dos bichos da seda, do que dos mesmos bichos viuos.

Porão os graõs dentro de hũa arca ou contador, em caxas bem fechadas, & enuoluidas em panos de lãa ou linho, que naõ tenhaõ humidade, alguma; & as teraõ em lugares izẽtos dos rigores do calor, & do frio.

Por esta razão, não os guardaràm junto das cheminés, em que de ordinario se acende o lume, nem junto das janellas expostas âs inclemencias dos ares, nem em outros lugares frios, & humidos, mas temperados, porque o calor faz nacer os bichos antes do tẽpo, o frio congela os grãos, & a humidade os corrompe.

Com estas precauçoẽs nacerão os bichos a seu tempo, & se conseruarão os grãos de ãno em ãno, seraõ mais copiosas as nouidades, & se perpetuarà em huma casa esta rica semente.

Mas he precioso renouar a semente de tres em tres annos, misturandoa com outros graõs vindos de fora, ou com os que se colherem de huma vitella morta, na forma, que fica declarado no Capitulo 6. da 2. parte porque a semente renouada torna a cobrar a virtude, & actiuidade, que se lhe vai diminuindo com o tẽpo, que tudo gasta, & tudo acaba.

CAPITVLO III.

Da forma do forno, dobadoura, & outros instrumẽtos para a tirar a seda.

Em tirar a seda do casulo, & passala a meadas com huma roda, ou dobadoura, & hũ tacho de agoa quente, jà saõ as camponezas rusticas de Tras-os-montes, taõ peritas, que facilmente podem ensinar esta arte às mais prouincias do Reyno.

Mas porque semelhantes exercicios melhor se aprendem com a vista, & experiencia, do que cõ a liçaõ, & discurso, tratarei com breuidade esta materia, apontãdo só alguns particulares, para aliuiar o trabalho, & apurar a industria das fiandeiras.

O forno se ha de fazer em lugar abrigado da chuua, & do vento, & o tacho nam ha de ser muito profundo, nem muito largo.

A portinha, por onde sa ha de por a lenha no forno, se farà dez polegadas mais abaixo do fundo do tacho, & afastada delle hum palmo, paraque o fumo se perca & se consuma no forno ao redor do fundo do tacho.

Os cazulos se poraõ na agoa hum pouco antes, que comece a feruer, porque na agoa fria, a goma dos casulos se dissolue, & o mesmo succede, quando està feruendo.

Ajũtarà á fiandeira dez ou doze fios, cõforme a seda houuer de ser fina, ou forte; para a fitaria, a seda deue ser muito delgada, & outo fios bastaõ, mas para os panos, & veludos, se deuem ajuntar doze fios ao menos.

Fiarà com a mayor presteza que for possiuel, porque quanto menos estaõ os casulos na agoa, sahe a seda com mayor lustre, & em mayor cantidade.

CAP. VLTIMO.

Do Barbilho, & do modo de o aparelhar.

O Barbilho, propriamẽte falãdo, he a quella primeira seda, a que chamaõ anafaya, que os bichos fiaõ primeiro que comecem a tecer o seu casulo.

Porem de baixo desta palaura, barbilho, se entende toda a seda, que se tira com os dedos do redor dos casulos, quando se daõ a fiar, & juntamente todos os casulos furados pellos bichos, & todos os desperdiços da seda, que a fiãdeira naõ pode inteiramente tirar.

Este genero de seda, naõ pode ser fiado em meadas na dobadoura, mas he preciso cardalo, & depois tiralo na roda, cu na roca, & para este effeito, faraõ primeiro o que se segue.

Ajuntaraõ todas estas reliquias, & sobejos da seda, tiraraõ della os bichos que acharem, & a limparão de toda a immundicia, & depois a meterão em molho em agoa clara, dentro de hum alquidar, ou em qualquer outro vazo de barro, ou cobre, pelo espaço de tres, ou quarto dias; cada dia mudaràm a agoa para que nam se corrompa, & que o barbilho se faça mais aluo.

Nesta agoa os casulos se faràm mais moles, & se dissoluerà a goma, que os bichos communicàram aos casulos, quando os tecéram.

Depois poràm tudo junto a feruer dentro de hũa caldeira, em barella clara, passada por hum pano, & purgada das cinzas, com que foi feita.

Ferueràm os casulos meya hora, & depois de desfeita a goma, que os faz tam tesos, como pergaminho, os lauarâm com agoa clara, & as molheres os fiaràm com o fuso, ou com a roda, mas primeiro os faràm cardar, para os fiar com mais facilidade.

Com este fio de barbilho muito delgadamente fiado, se podem tecer panos tam finos, como os que se fazem com a seda, tirada na dobadoura, outros fazem delle retroz para cozer, dandolhe o lustre.

Finalmente para conclusam desta obra, digamos que nos bichos da seda, tudo he milagroso em quanto viuem, & tudo o que delles fica, depois de mortos, aproueita.