II
E quem pois o amor da patria
Com vehemencia egual sentiu,
Qual o peito onde surgiu
Mais ardente hoje esse amor?
Quem, como elle, n'um só gesto,
Quando a turba se atropela,
Quebra as ondas da procella
Resistindo ao seu furor?
E se a mão da prepotencia
Procurava erguer-se altiva,
Quem mais prompta e quem mais viva
Tinha sempre a inspiração?
Era ouvil-o ouvir a patria,
Quando exclama na anciedade:
«Liberdade, oh! liberdade!»
Com a voz do coração.
Ah! no exilio, quantas vezes,
Afogada entre gemidos,
Mormurára a seus ouvidos
A voz do paiz natal!
E ouvindo-a sua alma, em impetos
Do mais sincero heroismo,
Sonhava em transpôr o abysmo
E libertar Portugal!
Então a graciosa aldêa,
O val coberto de olmeiros,
Os ingenuos companheiros
De seus jogos infantis,
Tudo aos olhos lhe sorria,
Matisado de mil côres,
Montes, valles, prados, flores,
Céo e luz do seu paiz!
Rompe um dia aurora esplendida,
O tambor toca a rebate,
No mais fero do combate
Entra, luta, conquistou!
Conquista dos proprios lares!…
Mas do campo afasta a vista,
Por que emfim n'essa conquista
Sangue de irmãos se espalhou!
Era assim: tinha lutando
No olhar o fogo supremo,
Na voz o poder extremo
Que arrebata a multidão;
Desafiando o inimigo,
Entre as nuvens da metralha,
Era um tigre na batalha,
Na victoria—era um irmão!