II
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Casta filha do ceo, pura innocencia,
Como o sorriso alegre de teus labios
Me torna aos dias da ditosa infancia,
E me faz existir algumas horas
No doce enlevo de passados sonhos!
Quantas vezes porém ao ver-te, ó rosa,
Nas agruras da terra, eu te contemplo
Com viva compaixão! Tão facilmente
Se evapora o perfume de teu seio,
Se perde o viço de teu meigo rosto!
Caes subito no chão pallida e triste!
E porque? porque o sopro envenenado
Do mundo te crestou. Alheia ao crime,
És fulminadada pelos crimes de outros!
Eram estes, ó musa, os pensamentos
Que vinham em tropel ao meu espirito,
Quando estava disposto a dirigir-me
Ao sitio que na vesp'ra me indicára
A ingenua irmã da tentadora Julia.
Começava a morder-me na consciencia
O remorso de haver atraiçoado
Aquelle anjo de amor e de candura.
Nisto sinto parar um trem á porta;
Olho, e vejo saltar de uma caleche,
Elegante e veloz como a gazella,
A minha irresistivel peccadora.
Quantos protestos até'li fizera,
Só com sentir-lhe a voz se evaporaram!
Corro á porta, ella sóbe, e com ternura
Aos meus tremulos braços se arremeça:
—«Tardavas tanto!... as horas d'este dia
Não terminavam nunca!... vim buscar-te;
Perdoa se fiz mal; mas o desejo
De te ver e abraçar era tão forte...
Vamos dar um passeio pelo campo,
E depois... serás meu, e eu serei tua!»—
Terminado este rapido discurso,
Mas cabal, eloquente, e peremptorio,
Peguei no meu chapeo, e em continente
Descemos e partimos na caleche.
Não podes duvidar que possuia
A mais commoda amante d'este mundo.
Quando o carro passou pelo Chiado,
Mais de vinte lunetas se assestaram
A um tempo sobre nós; e é bem provavel
Que mais de vinte bocas honradoras
Me ficassem na sombra remordendo;
Tanto melhor; é bom ser invejado.
Oh! que tarde de Abril! O sol, baixando,
Illuminava de clarões suaves
O firmamento azul; nos verdes prados
A flor estremecendo de alegria
Aos doces beijos da travessa aragem,
Como offrenda enviava ao ceo propicio
A pura essencia do virgineo seio.
Scintillava o prazer nos olhos negros
Da mulher que apesar de peccadora
Era bella, oh! tão bella como os anjos
Que o tentador Satan despenha ao mundo!
Formosuras fataes qu'inda conservam
Na fórma o que é do ceo para illudir-nos!
Ai de nós se encarâmos descuidados
A morbida expressão de certas frontes,
Onde a candura nos occulta o crime!
Alva era a face da elegante Julia;
Vivo o rubor que lhe animava os labios;
Adoravel a tinta fugitiva
Que lhe tocava levemente as palpebras;
Muda a boca; no olhar toda a eloquencia!
Entrámos na allameda. Era sol posto.
Ao chegarmos á porta, appareceu-me
Um personagem que d'ali saía,
Baixo, gordo, roliço, impertigado,
Sorriso de barão, cara opulenta,
E ar de um homem contente de si proprio.
—«É de certo barão ou brasileiro.»—
—«Brasileiro e barão»—disse-me Julia.
—«Visita d'esta casa ha muito tempo?»—
—«Ha muito tempo sim»—respondeu ella
Com certa hesitação—«Não lhe fallaste?»—
—«Felizmente escapei de tal desgraça!»—
Subi; cheguei á sala; ella deixou-me
Por algum tempo só junto á janella.
Sentei-me a respirar o vivo aroma
Da fresca viração da noite amena.
Mudára tudo em mim completamente:
Resfriára-se o fogo dos desejos,
E o sentimento despontava n'alma!
Vaporosa, ideal, dentro de pouco
A meus olhos surgíra uma figura
Cuja forma gentil me arrebatava!
No purissimo azul dos olhos castos,
Tremiam, scintillando, algumas lagrimas;
O sorriso, gelado á flor dos labios,
Como gela o sorriso da virtude
Quando pára assustada ante o peccado.
Tirando a corôa de virgineas flores,
Que lhe cingia a fronte immaculada,
Olhára para mim! Oh! Deus supremo!
A expressão d'esse olhar era a do anjo
Ao contemplar um infeliz na terra!
Depois, soltando a voz, estas palavras
Com doçura e tristeza proferíra:
—«Parto, e deixo-te no mundo!
Fujo, timida innocencia,
Ouvindo o rumor profundo
D'esta agitada existencia!
Vi-te um dia; era na hora
Em que a briza é mais saudosa,
Em que a luz do sol descora,
E dá mais perfume a rosa!
Est'alma toda candura,
Á tua alma se rendia;
E com que immensa ternura
Os teus protestos ouvia!
Protestos de um coração
Que sem susto, e sem tremor,
Respondia co'a traição
Ás provas do meu amor!
A grinalda qui'inda vês
Nesta fronte desbotada,
Vai cair-te em breve aos pés,
Mas vai cair desfolhada!
Na minha ingenua innocencia,
Aspiro tambem ao ceo,
Como aspira a grata essencia
Da flor que no val nasceu!
Fragil flor que em pura aurora,
Vendo o sol sorrindo, amou;
Mas d'esse amor numa hora
O vivo fogo a matou!»—
A voz emmudeceu. O olhar sereno
Sobre mim se cravou com mais ternura!
Era Lelia, ou seria a imagem d'ella
Que eu tinha ante meus olhos deslumbrados?
Tudo era incerto e vago no meu animo,
Como é vaga a impressão d'um bello sonho!
Aureola de luz resplandecente
Veiu então inundar aquella fronte.
Reconheci emfim, oh! era Lelia,
Que desprendêra a voz, que proferíra
Com tão profundo affecto aquellas fallas!
A seus pés nesse instante allucinado
Num extasi de amor me precipito,
Repetindo anhelante estas palavras:
—«Resurge outra vez das sombras
Da tristeza em que vivia
Est'alma, é toda alegria,
Volve á tua alma infantil.
És minha. Sou teu. A vida
Para nós vai ser agora
Mais risonha do que a aurora,
Mais florída do que abril!
Oh! se um dia, desvairado,
Ouzei trair-te, innocente,
Como o remorço pungente
Te veiu depois vingar!
Como agora, arrependido,
O meu coração procura
Dar-te emfim quanta ventura,
Quanto amor se pode dar!»—
Nesse momento uma infernal risada
Me fez estremecer. Subito acordo
Da suave impressão do mago sonho,
E que vejo ante mim?! uma figura
Ironica e fatal! Era o Diabo!
Tranzido de terror em vão procuro
Meus olhos desviar d'aquelles olhos,
Cuja sinistra luz me fascinava!
Suspendendo na mão livida e fria
A mesma c'roa de virginias flores,
Que eu tinha visto na graciosa fronte
Da celeste visão que me encantára,
Disse emfim com satanica ironia:
—«Olha: é esta a grinalda immaculada,
Da tua ingenua e seductora Lelia!
Agora, aqui a tens; custou cem libras,
Não ha muito, ao rotundo brasileiro
Que viste á porta d'esta nobre casa!
Julia commigo contractára a venda.
Se vens mais cedo um'hora inda podias
Das garras do falcão salvar a pomba!»—
Não ouvi nada mais: tinha perdido
A consciencia da vida nesse instante!
Quando, e como acordei d'aquelle estado,
Não t'o posso dizer; sei que a meus olhos
O espirito infernal se convertêra
Na figura gentil de um bello moço
Alto, airoso, elegante, e delicado.
—«Olha bem para mim, tornou sorrindo;
Inda te inspira horror o meu aspecto?
Já vês, meu caro amigo, que o Demonio
Não é sempre tão feio como o pintam.»—
—«Vade retro Satan»—disse eu, buscando
Uma pequena cruz que havia muito
Costumava trazer pendente ao peito,
E já forte de mim ia mostral-a,
Quando, oh Deus! me lembrei que nessa tarde
A mão fallaz de Julia m'a roubára.
Puz os olhos no chão desalentados;
O remorso cruel naquelle instante
A turvada consciencia me pungia!
—«Deixa escrupulos vãos, pobre poeta!
Olha em roda dos teus, encara o mundo,
Como o deve encarar quem tem bom senso.
Eu cheguei de Paris, e tinha medo
De perder o meu tempo nesta terra;
Mas, ah! que me enganei! tenho comprado
Um par de figurões quasi de graça!
Cantas a rosa, o nardo, a madre-silva,
Nunca tens um real, ó desgraçado!
Não faças versos mais; faze politica;
Improvisa um jornal; morde, abespinha,
Sem consciencia e sem dó, a honra alheia!
Hoje quiz apalpar a culta imprensa,
Famosa instituição que me tem dado
Ha tempos para cá milhares d'almas.
Entre um grupo de illustres publicistas,
Quasi todos catões, foi-me indicado
O primeiro catão dos nossos dias.
Uma palavra só fôra bastante
Para tudo explicar entre nós ambos.
Homem da situação, ou mais exacto,
Homem das situações, sabe de quanto
Se agita em torno a si nesta republica.
O que mais me espantou foi que no mundo
Podesse haver mortal tão venturoso!
Pasmam todos ao vêr o que elle come
Desde a meza do opr'ario á meza opipara,
De opulento negreiro ou potentado
De mais alto valor se acaso existe!
Póde zumbir a inveja em volta d'elle,
Morder-lhe a fama a cavilosa intriga,
Exaltado rugir o odio implacavel,
Nada d'isto consegue perturbal-o,
Nem cortar-lhe o seu acto digestivo!
É nedio, é luzidiu, é recebondo,
Como um gallo capão! Perdoa a imagem.
Crava os olhos attentos neste exemplo
De solida moral; segue as pizadas
Deste egrejeo varão, e eu te asseguro
Que has de em breve alcançar um nome illustre.
Tudo agora me corre ás maravilhas;
Nunca pensei que em terra tão pequena
Se podessem fazer tão bons negocios.
Hoje fui contratar com certa empreza
De um moderno jornal que se atirava,
Como lobo esfaimado, ao ministerio.
Era o mimo, era a flor, era o portento
Da incorrupta e briosa mocidade!
Essa, comprei-a então por attacado;
Escaparam só dois, pobres diabos,
Que nunca hão de passar da cepa torta!
Que dia tão feliz! a toda a pressa
Fui depois assistir ao desembarque
De um nobre titular, victima imbelle,
Do veneno infernal da torpe inveja.
O honrado cidadão vinha entregar-se
Nas mãos severas da imparcial justiça.
Fazia gosto vêr a comitiva
Dos invictos heroes que o circundavam.
Algum ranço burguez inda entre dentes
Se atrevêra a dizer que não passava
De um cadímo ladrão o illustre conde;
E se eu não chego a tempo, era filado
Quando saltasse ao caes por quatro guitas.
Vê tu pois quanto póde o meu imperio!
Com raras excepções, a livre imprensa
Não soltou nem sequer uma palavra!
É tempo de voltar á bella Julia:
Esta linda mulher era beata
Da esplendida edicção que existe agora.
Encontrei-a uma vez num dia santo
De grande devoção, quando acabava
De pôr aos pés de um padre os seus peccados.
Lelia vinha a seu lado; o porte ingenuo,
A singela espressão d'esta innocente,
Soprou-me o fogo de infernaes desejos.
Como vês, é distincto o meu aspecto,
E apesar do terror que ao mundo inspiro,
Muitas mulheres ha que intimamente
Se agradam mais de mim que dos janotas.
Oh! que austeras virtudes nesse dia
Me caíram nas mãos! Lelia, embebida
Nas suas orações, passou, cravando
Com modestia no chão os olhos bellos.
Não fez reparo em mim; mais forte ainda,
Me ficára a vaidade remordendo.
Lembrei-me então da irmã como instrumento
Para alcançar o fim que ambicionava.
Por entre o raro veo que lhe encobria
O rosto seductor, de espaço a espaço
Se viam scintillar os olhos negros
Com mais fogo e mais luz do que as estrellas
Quando as nuvens do ceo se rarefazem.
(A imagem é vulgar, porém confessa
Que tu proprio tens feito outras peores.)
Ella olhou para mim, aproximei-me,
Fallei-lhe e respondeu. Na mesma tarde
Perfeito accôrdo havia entre nós ambos.
Precisava ostentar-lhe á luz do mundo
O esplendido poder dos seus encantos.
Tudo pois lhe alcancei: casa opulenta,
Joias, vestidos, trens apparatosos,
Quanto emfim dá realce á formosura,
Lhe augmenta a seducção e a faz mais bella.
Nada d'isto porém causára effeito
No joven coração da casta Lelia.
Olhava para a irmã como assustada,
Quando a via ostentar tanta grandeza.
Por mil vezes tentei ver se podia
Aproximar-me d'ella; era impossivel.
Adivinhas porque? trazia ao peito
Pendente a cruz que a mãe lhe havia dado
Pouco antes de soltar o extremo alento.
Quando na flor da vida e da innocencia
Vejo a meu lado encauta formosura,
Oh! como sou feliz!—ninguem no mundo
Presa tanto como eu uma alma ingenua,
Mas é para a perder! Desculpa ao menos
Em nome da franqueza este teu servo.
Um sacerdote ancião que alem habita,
Naquella ermida que d'aqui se avista,
Teima em não m'a deixar; tu só podias
Ajudar-me a vencer nesta batalha.
Inda ha pouco menti quando te disse
Ser tarde já para salvar a pomba.
É tempo ainda, oh! vae! Colhe as primicias
D'aquelle coração que te idolatra.
Tudo é luz, seducção, amor, encanto,
Na voz, no olhar, na languida ternura
Da rosa virginal que tu despresas!
Anhelantes te esperam já seus labios,
O seu peito infantil por ti suspira,
No ouvido sente a voz dos teus protestos,
O subito rubor lhe affronta as faces!
Não a vês hesitar, tremer, fugir-te,
Acercar-se outra vez, sorrir a furto,
Escondendo nas mãos a fronte bella?
De novo inda luctar, mas já sem forças
Caír por fim num languido deliquio?
Oh! corre a ser feliz nos braços d'ella!»—
Um momento depois d'estas palavras,
Em doce consonancia extranhas vozes
De improviso romperam neste canto:
—«Seja a breve passagem da vida
Uma serie de ardentes delirios;
Quem procura colher os martyrios
Quando existem as rosas em flor?
Venturosos ergâmos as taças
Onde brilha o licor purpurino,
E soltemos as vozes num hymno
Consagrado aos deleites do amor!
Vem poeta: as tristezas do mundo
Não comprimem jámais nossas almas;
Nós cercâmos de flórdais palmas
A existencia votada ao prazer!
O que importa que a noite succeda
Aos sorrisos do astro diurno?
Para nós o seu manto nocturno
Mil delicias nos torna a trazer!»—
Apossou-se de mim o immundo espirito.
—«Sou teu, ó tentador, emfim lhe disse;
Ao teu fatal poder entrego est'alma!
Dize, dize, onde está essa que eu vejo,
Mas que procuro em vão cingir nos braços!»—
—«Onde está? vais sabel-o, e num momento
A seus pés cairás ebrio de gosto!»—
Ao secreto aposento onde jazia
A virgem dos meus sonhos, me dirige
O torpe embaidor. Entro em delirio,
E ardendo em chammas de brutaes desejos,
No casto ninho onde vivia a pomba!
De repente uma luz serena e branda
Veiu alegrar as trevas da minh'alma.
Outra vez á razão volto, e que vejo!
Ante mim venerando sacerdote,
Pondo-me ao peito a cruz que nessa tarde
A enganadora Julia me roubára.
Lelia, a seu lado, com as mãos erguidas,
E os olhos postos no sagrado emblema,
Estas doces palavras me dizia:
—«Deixou-te o negro espirito!
Feliz de novo agora,
Sorri tua alma em extasi
Ao ver a pura aurora,
Da qual sómente é nuncia
Na terra a humilde cruz!
Só ella, eterno simbolo
De amor e de piedade,
Brilha no mundo esplendida,
E diz á humanidade:
Surge das trevas lugubres;
Ascende á etherea luz!
Só ella quando rapida
A morte nos alcança,
Diffunde em nossos animos
O lume da esperança,
Que nos descobre a patria
Da gloria perennal!
Perde a tristeza o tumulo;
O sepulcral cipreste,
Deixando o aspecto funebre,
De flores se reveste!
Soam divinos canticos
Em coro angelical!
Oh! quem podéra pintar
A expressão que nesse instante
Tinha o candido semblante
Do meu anjo tutelar!
Como a pomba da arca santa
Que um dia á terra desceu,
Vinha dizer-me: Acabaram
As tempestades do ceo!
Deixa o mundo, antro medonho
Onde sómente fulgura
Nas curtas horas de um sonho
A branda luz da ventura!
Verás a meu lado agora
Sorrir eternos amores,
Como sorriem as flores,
Á luz da punicia aurora!»—
Julguei-me nesse instante transportado
Á mansão do Senhor. Caindo em extasi,
Disse, rompendo em delicioso pranto:
—«Em nome d'esta cruz, ó doce imagem,
Jura que para sempre has de ser minha.»—
—«Juro»—disse ella então. Nesse momento
Aproximou-se a nós o sacerdote,
Cuja fronte senil resplendecia
Co'a luz celeste que illumina o justo;
E unindo as nossas mãos, com voz solemne
A sacrosanta benção proferíra!
Aqui termina, ó musa, a minha historia.
Acordei do meu sonho, e depois d'elle
Tenho visto o demonio algumas vezes;
Não menos vezes a traidora Julia;
Porem Lelia, a gentil graciosa virgem,
A predilecta noiva da minh'alma,
Essa apenas em sonhos me apparece!
Maio de 1862.