LELIA
O POETA
Musa: o dia rompeu chuvoso e frio,
Eu não tenho um real, nem tu tão pouco,
Que és pobre como Job; por conseguinte
Que havemos de fazer?
A MUSA
Ficar em casa,
Discutindo as miserias d'este mundo.
Apraz-te a idéa? Vamos, meu poeta,
Em que estás a pensar?
O POETA
Numa aventura.
A MUSA
Não se póde contar?
O POETA
De certo póde.
A MUSA
Nesse caso aproxima-te do lume,
Accende este charuto, e principia.
O POETA
Ha dois annos, um dia, ou mais exacto,
Uma noite em que a lua resvalava
No firmamento azul, em que os modilhos
Do inspirado cantor da primavera
D'entre a balseira em flor se desprendiam,
Achava-me aspirando a branda aragem
Sentado no portal de uma vivenda
Da modesta apparencia, e collocada
Num sitio encantador. Naquella noite,
De que me hei de lembrar eternamente,
Tinham vindo esperar-me de emboscada
Alguns contrabandistas do parnazo,
D'entre os quaes destacava a face lívida
De certo esguio e pesaroso vate
Que te inspira notavel sympathia.
Fugi! elles ficaram declamando
As primeiras estrophes de uma nenia!
Vinha rompendo abril: como já disse,
Sereno estava o ceo, doce a bafagem,
E a rosa, a favorita, a bella noiva,
Por quem o rouxinol desde a alvorada
Solta a voz em prodigios de harmonia,
Corando abria o pudibundo seio
Aos doces carmes do adorado amante.
Passado pouco tempo esta cabeça
Começára a enredar-se em mil chimeras.
De repente uma voz sonora e fresca
Chegara ao meu ouvido. Era tão simples,
Tão suave, tão meiga a melodia,
Tão infantil a voz! Voltei os olhos,
E descobri um vulto na janella.
Que figura ideal! alta, mas fragil,
Como hastesinha de um arbusto novo.
A innocencia e virtude respiravam
Naquelle rosto candido e formoso.
Numa das mãos firmada a face tímida,
E na outra a madeixa loira escura
Que vinha em pittoresco desalinho
Espargir-se nos hombros de alabastro.
Como o cantor da selva que inspirado
Improvisava no florido bosque,
Cantava ella tambem; ave innocente,
Juntava mais um trilo ao hymno eterno,
Que aos pés de Deus a natureza erguia.
Oh! quão feliz seria quem no mundo
Alcançasse as primicias d'aquella alma!
Lembrei-me de as colher, e decidi-me
A apparecer-lhe no seguinte dia.
Com effeito assim fiz.
Era sol posto:
Cançada de correr pela campina,
Tinha vindo sentar-se pensativa
Nos degraus de uma cruz que se elevava
No adro estreito de modesta ermida.
Chegava emfim ess'hora em que saudosa
A mente se dilata em magos sonhos;
Hora em que alma absorta em gostos intimos
Perde a consciencia do exterior da vida.
Diversas nuvemsinhas esmaltavam
Para o lado do poente o firmamento.
O bronze deu signal d'Ave-Maria.
Ella ergueu-se, e depois, firmando os joelhos
Sobre os degraus da cruz, soltou dos labios
A singela oração; passado instantes,
A pomba estremeceu, mas de alegria.
A viva chamma de amoroso affecto
Brilhou no puro azul d'aquelles olhos,
Quando nos meus attentos se fitaram;
E um sorriso de angelica ternura
Entreabrira os seus labios purpurinos.
Eu peguei-lhe nas mãos alvas de neve,
Que estremeciam apertando as minhas,
E pronunciei mansinho estas palavras:
—«Sim, sou eu, que tu tens visto,
Tanta vez naquelles sonhos
Bellos, candidos, risonhos,
Da tua idade infantil.
És minha. Sou teu. A vida
Para nós vai ser agora
Mais alegre do que a aurora,
Mais florída do que Abril!
Oh! que longas confidencias
Nos esperam nestes prados!
Que dias tão descuidados!
Que instantes de tanto amor!
Buscando ao crescer do dia
Entre o bosque a sombra densa,
Sentindo a alegria immensa
Do sol, do campo e da flor!
És minha: do ceo proveiu
O poder que a ti me prende,
Mas diverso fogo accende
O teu e meu coração:
Tu no mundo és a innocencia,
Eu sou na terra a poesia;
Tu dás-me a tua alegria,
Eu dou-te a minha paixão!
Dou-te as sombras da tristeza
Que acertam sobre teu rosto,
Como as sombras do sol posto
Na rosa agreste do val.
Recebes num meigo abraço
Meu profundo sentimento,
E dás-me o contentamento
Do teu seio virginal.»—
Indisivel prazer brilhou nas faces
Da ingenua virgem, quando ouviu as fallas
Que ancioso proferi, e com ternura
Disse, cravando em mim seus olhos bellos:
—«Orphã de paes, só tenho neste mundo
Apenas uma irmã; nós habitamos
Naquella casa que d'aqui se avista
Entre a verdura d'esse val ameno.
Já mil vezes em sonhos encantados
Eu ouvi tua voz, vi tua imagem.
Agora emfim és meu e para sempre.
Não é verdade? dize.»—perguntava
Com extremo, firmando-se ao meu braço.
Os pallidos clarões do astro saudoso
Despontavam no ceo; por entre as ramas
A aragem susurrava brandamente,
E o rouxinol occulto nas balseiras
Soltava algumas rapidas volatas,
Experimentando a voz que dentro em pouco
Iria improvisar o hymno da noite.
Caminhámos ao longo da alameda
Que terminava em frente da vivenda
Onde Lelia (era este o nome d'ella)
Passára os dias da ditosa infancia.
Á entrada do portal dei de repente
Com a vista no pallido semblante
De uma bella mulher. Cumprimentei-a.
Ergueu-se e veiu a nós sorrindo alegre.
—«É Julia, minha irmã»—me disse Lelia.
Segundei um rasgado cumprimento,
A que ella respondeu com a gentileza
De uma senhora de elevada classe.
Convidou-me a subir, eu dei-lhe o braço,
E acceitei promptamente este convite,
No que fiz um chapado disparate!
«Tibia luz, temperada para amantes,»
Illuminava uma pequena sala,
Onde o luxo e bom gosto respiravam.
Em primeiro logar é necessario
Que eu te faça um retrato a largos traços
(Como agora se diz) da encantadora
E provocante dona d'essa casa,
Era alta, sorriso malicioso,
Boca fresca, e vermelha como a rosa,
(É velha a imagem mas é sempre boa!)
Cabello basto, fino, muito escuro,
Olhos da mesma cor, e quasi sempre
Por doce morbidez meio cerrados.
Quando porém ás vezes dardejavam
Por entre a negra sombra das pestanas
Um só raio da luz que os inflammava...
Ai d'aquelle que ousava descuidado
Mirar de leve essa traidora chamma!
Que te direi do pé pequeno e curvo,
Que na estreita prisão de uma botinha
De setim preto estava clausurado?
Não sei; mas sei que ao vel-o me esquecêra
A poesia da lua e das estrellas,
Do Tejo de cristal, da mansa brisa,
De tudo o mais que tenho por mil vezes,
Estafado em mau verso e peior prosa,
Para só contemplar os mil encantos,
Que tinha aquelle pé!
E a pobre Lelia,
A meiga apparição que nos meus braços
Tinha vindo entregar-se sem receio,
Onde estava? calada e pensativa,
Contemplando o meu rosto, onde subia
O sangue accezo em ondas de desejos.
Em presença d'aquella peccadora,
Esqueceu-me de todo o sentimento
Que me inspirára o anjo de innocencia.
Sou poeta; bem sabes que os poetas
Não são de certo os entes mais constantes!
Depois a essa mulher!... Oh! quem no mundo
Podera resistir? Se nesse instante
A visses no fauteuil reclinada!
O vestido entre roxo e cor de rosa,
Apesar da invasão das crinolines,
Deixava perceber divinas fórmas.
No cabello uma rosa perfumada,
E no turgido seio, que ondulava
Atravez da finissima cambraia,
Viçoso ramo de singelas flores.
Ella viu a impressão que produzira
No pobre peccador que a contemplava,
E descerrando a boca num sorriso
Quiz fallar, mas a voz morreu nos labios,
E a eloquencia do olhar disse-me tudo.
Pouco a pouco nas faces desmaiadas
Se accendêra o rubor; nos olhos negros
Scintillou por instantes uma lagrima,
«Precursora de languido deliquio».
Meiga, sonora então, como seria
A voz do archanjo que descesse á terra,
Junto a mim murmurou a voz de Lelia:
—«Vou deixar-te; amanhã, no mesmo sitio,
Á mesma hora, de novo nos veremos;
Vou resar a oração que me ensinára,
Minha mãe quando eu era pequenina.
Vou resal-a por ti!»—Oh! por instincto;
A innocencia fugia do peccado.
Quiz seguil-a tambem, mas por encanto,
Por encanto fatal, senti-me preso
Ao supremo poder d'aquelles olhos
Que nos meus se reviam com ternura.
De novo aquelle pé que me perdera,
Se firmou num pequeno tamborete,
E d'essa vez deixando a descuberto,
Um fragmento de perna, que faria
Morrer de desespero uma andaluza.
Esvaeceu-se então completamente
A meus olhos o anjo da candura,
Das commoções divinas, da virtude,
E achei-me só, perdido, face a face
Ante o demonio das paixões terrestres!
Dei-lhe a mão, e senti num paroxismo
De desejo e de amor fugir a vida.
Quando a razão voltou, como o murmurio
Da fresca viração da primavera,
O sopro perfumado de seus labios
Vinha affagar-me docemente a fronte.
Os anneis do cabello ondado e negro,
Espargindo-se, avaros procuravam
Occultar-me da vista aquelle seio!
Impaciente os affasto devorando,
Num beijo, em mil, um mundo de delicias!
Oh! como então no peito me pulava
O coração vaidoso e triumphante!
No languido quebranto que succede
Ao febril desvario dos sentidos,
Julia estava a meu lado; amortecida,
Por entre densa rama das pestanas,
Partia a luz das languidas pupillas.
Desmaiára de amor a rosa esplendida,
E voltava de novo áquella face,
A pallidez do lyrio das campinas.
Abatida e indolente, erguêra a fronte;
Caminhámos os dois para a janella:
Os primeiros clarões da madrugada,
Vinham rompendo já no firmamento.
Chegava emfim a hora, era forçoso
Dizer adeus á seductora imagem!