XVII
As orações extremas acabaram;
O filho ao pae traidor, o audaz amante,
Tudo emfim confessou. Rapidas tocam
As horas no seu ultimo momento.
As ondadas madeichas de cabello
Já cairam no chão. O nobre manto
Bordado pelas mãos de Parisina,
Não deve acompanhal-o á sepultura.
Tentam vendar-lhe o rosto, não consente
Esta final affronta. O seu orgulho,
Comprimido no mais intimo d'alma
Pela expressão de fria indifferença,
Acorda nesse instante, repellindo
A mão do algoz que vem cobrir-lhe os olhos.
«O meu sangue, culpado, é teu, pertence-te,
Preso, algemado estou; co'a vista livre,
Quero ao menos morrer: «Fere» e dizendo
No logar do supplicio inclina a fronte.
Ao proferir esta palavra: «Fere»
Brilha o ferro no ar; silvando o golpe
Cai rapido e fatal. Rola a cabeça,
O corpo palpitante e transtornado,
Pula envolto no pó, que bebe o sangue
Saído em borbotões pelas arterias!
Inda instantes os labios estremecem,
Nos olhos inda fulge a luz da vida;
Tudo emfim acabou! Morto sem pompas,
Como deve morrer o homem culpado
Que se arrepende no momento estremo,
Elle o seu coração oppresso e triste
A Deus sómente consagrou ness'hora.
A imagem de seu pae, da propria amante
O que eram á sua alma atribulada?
Um sentimento das paixões terrestres
Não viera turbar naquelle instante
A pura contricção do seu espirito,
A não ser quando expondo a fronte nua,
Ao cutello do algoz quiz ver a morte.
Era o unico adeus que proferira,
Ás testemunhas do cruel supplicio.