DIALOGO V.

Necessidade da obediencia: elogios da naçaõ Portugueza: utilidades da Agricultura: quanto foi apreciada pelos antigos Portuguezes: castigos dos pedantes na ilha dos Mortos: chegada de Crates Mallotes, para me persuadir a ser Grammatico, &c.

LOgo que Crates Mallotes mandou os seus subditos, nada se demoráram, e eu naõ pude tambem fazer outra despedida, que voltar o rabo para o ar, e o bico para o chaõ, e fazer-me de volta com taõ respeitaveis companheiros. Accusava-vos todavia de sahirem taõ apressados, que me naõ deixaram fazer os devidos comprimentos, ao menos a todos os que haviam fallado no Congresso, de quem tinha eu recebido taõ altas mercês; porque{81} a toda a multidaõ era impossivel.

Comprimentaste a todos, disse Sanches, sem nicas, nem fingimentos dos Politicos mundanos. A obediencia he o eixo da carroça social, por falta deste dever he que ninguem hoje póde viver no mundo. A nossa sociedade compoem-se de sabios que sabem muito bem a sua obrigaçaõ, sem o conselho dos quaes nenhuma póde ser bem dirigida. O nosso velho mandou, governa, obedecemos.

Os sabios! disse Diogo de Teive com hum grande suspiro: A pedantaria!... Mas foi Deos, Gúliver, o que te fez aqui arribar: para remedio de muitos abusos literarios da minha naçaõ, que a pedantaria das outras naõ me importa. Has de achar ahi, dizia elle, has de achar, quem te ajude em este grande serviço. Já Portugal estava com seu rosto coberto de luzes, quando outros póvos estavam sepultados em as mais escuras trevas da ignorancia. Naõ ha no mundo quem tenha melhor legislaçaõ; os nossos Monarcas{82} saõ Senhores no nome, e na Magestade; pais no procedimento: has de achar hum Principe Religioso, Pio, moderado, amigo de Deos, e dos homens; hum Principe, como Tito, que chora o dia em que naõ póde fazer mercê: que está immovel aos conselhos menos piedosos: e que naõ quer tirar o paõ aos servos do Sanctuario, para sustentar o odio, que a pedantaria do tempo tem aos altares.

Na verdade, disse Sanches, nenhuma naçaõ da Europa tem tido melhores Reis, e por isso nunca outros tiveram iguaes vassallos.

Tem boa dúvida, disse Diogo de Teive, os Portuguezes pódem-se chamar melhor filhos, que vassallos dos seus Soberanos, pela fedilidade, e amor com que todo o povo os serve.

Para que estais com isso? replicou Sanches, toda a naçaõ Portugueza se tem distinguido em tudo das mais. Quem tem tido melhores Reis? quem melhores vassallos? Quem melhores letrados? Quem melhores soldados?{83}

E quem, continuou Teive, hum Joaõ das Regras? hum Camões? hum Barros? hum Heitor Pinto, gloria dos Frades de Belém, honra de Portugal?

Entaõ foi desenvolvendo a Historia de todos os Reis de Portugal, os sabios de todas as épocas: acções que pareciam fabulas: guerreiros: proezas até das proprias mulheres. O que tudo vos deixo de contar naõ tanto por se naõ engrossar o volume, como para economia da bolsa de meus apaixonados. Além de que tudo achareis em as Historias daquella naçaõ, ainda que os mortos sabiam o que ellas vos naõ contam.

Já Teive entrava a elogiar muitos dos vivos, sem todavia proferir os nomes de cada hum, até que todo inflammado disse: Será mais facil acabar toda a geraçaõ Portugueza, do que apossar-se della o inimigo.

O que saõ os Portuguezes, disse Sanches, ainda neste tempo dos chás, e dos caffés, em o Rossilhaõ, e em Napoles muito bem se conheceu.{84}

Em quanto eu hia caminhando entre os dois amigos, ouvindo attentamente os elogios dos Portuguezes, que muito me deleitáram os ouvidos: tambem hia desfructando com os olhos a linda prespectiva naõ só de verdes seáras, mas tambem de vistosas arvores, carregadas de bellas fructas, assim como risonhos prados: muitas vinhas; olivaes &c. ví muitos carreiros, almocreves: muitos homens a assar castanhas, outros a pôr hortalica, outros em fim a semear batatas. Estava na verdade ancioso por saber que gente fosse aquella: e ainda mais fiquei, quando vi outros a esfolar mosquitos: e muitissimos á caça de moscas.

Já com difficuldade me podia ter; porem Teive que previo a minha curiosidade, disse-me: Bem sei que estás admirado do que vês: por isso deves saber, que naõ pódem aqui morar senaõ Grammaticos, e Professores de ler, e á medida do seu pedantismo se lhes dá cá occupaçaõ competente: Lavradores somos nós todos: os charlatães{85} tem differentes ministerios, ou almocreves, ou carreiros, &c. os delicados assam castanhas: os negligentes caçam moscas: os que deixam de exprimir os seus pensamentos, porque naõ acham em Cicero palavras para isso, estaõ se cançando a tirar a pelle aos mosquitos. Mas como naõ gostamos de gente ociosa todos nas occasiões vaõ trabalhar em Agricultura.

Se lá no mundo, disse Sanches, mandassem cultivar a terra a homens inhabeis para as letras (naõ deixando em silencio aquelles infinitos estudantes de Mathematica, que nem sabem ler) nem mortificariam a seus Mestres, nem faltaria paõ.

Assim como em meu tempo, disse Teive, em que a Agricultura era taõ estimada: entaõ naõ era preciso vir trigo de fóra, antes havia muito para vender, e quando era cáro naõ passava o alqueire do preço de trinta réis. Oh! Felizes tempos, em que haviam sabios, haviam soldados, havia de comer!

E naõ haviam, disse Sanches, casquilhos{86} sem religiaõ, a medirem as verdades Positivas a compasso: feitos Juristas, e Theologos abstractos.

Estas, e outras coisas diziam, e tinhamos já bastante caminhado; porém nunca me custou taõ pouco o andar. Eu bem podia voar; todavia por decencia hia a pé. Cada vez mais campinas cultivadas hia descobrindo, até que chegámos a hum oiteiro carregado de tójos, e de cardos, por onde pastava huma grande manada de jumentos, guardados por infinitos homens. Estes saõ os Professores de ler, disse Teive, que no mundo só ensináram os meninos a gaguejar, e que foram a causa de nunca poderem avançar ao estudo das sciencias. Naõ foram como os que viste em o congresso, os quaes aproveitáram mais ás suas respectivas nações, do que muitos Rhétoricos, e Filósofos.

A literatura, disse Sanches, he a base das sciencias, e quem poderá ser sabio, sem que saiba ler?

Resolvi-me pois, a fazer minhas{87} perguntas; mas sempre commedidas para naõ me portar, como tolo. Abrí o bico, dizendo: Aonde estaõ aquelles defunctos, que nem foram Grammaticos, nem Professores de ler?

Além daquelle rio caudaloso (respondeu Sanches, apontando com o dedo) ha muitas ilhas, e cada qual tem a sua jerarquia; porém se algum foi Mestre, ou escriptor de Grammatica, ou Professor de primeiras letras, ainda que tambem fosse Rhétorico, Filósofo, Theólogo, ou General, &c. faz-nos entaõ o favor de vir para aqui.

Em quanto Sanches me satisfazia, puxou Teive de huma luneta, e olhando para além do rio, entrou a rir como hum perdido.

Aqui me obrigou a fazer segunda pergunta; porque em similhantes occasiões tem muita desculpa a curiosidade.

Naõ ha coisa mais galante, respondeu, lá está Pythágoras, com a escudélla de Diógenes entre pernas,{88} comendo favas, como o lobo carne de borrego.

No mundo, disse Sanches, naõ houve quem mais asco lhes tivesse, e agora está capaz de engolir a mesma escudélla. Ora o certo he, que se entre os Grammaticos ha pedantes, muitos mais achareis entre os Filósofos.

Já haviamos passado as fraldas de huma montanha de mais de tres legoas de altura: quando ví os seus lados cobertos de bois, cabras, ovelhas: de maneira que naõ avistava palmo de terra; e muito tempo estive persuadido, que os pegureiros eraõ pedras cor de musgo. Mas a poucos passos ví em o cume do monte hum mirante de tal grandeza, e magestade, que a pobreza de minha penna naõ o póde debuxar. Basta dizer, que a sua escadaria principiava desde seis milhas, e era de tal arquitectura, que me parecia ir correndo por huma eira.

Ainda Sanches hia batendo nos Filósofos pedantes, dizendo raios{89} contra Voltaire, e contra outros impios: senaõ quando ahi chega Crates Mallotes em huma cadeirinha, trazida aos hombros de dois mariólas, vestidos com saiaes até o joelho de pelles de bóde côr de cinza. Tenho vergonha de dizer a naçaõ a quem pertenciam: Portuguezes naõ eram, o que digo por descargo de minha consciencia; pois que Sanches me disse, serem taõ respeitados naquella ilha os Portuguezes, que até os mesmos pedantes eram muito favorecidos.

Para que saibas, disse o meu Velho, para que saibas quanto te estimo; e para que agradecido a esta boa hospedagem, venhas em outro tempo para a nossa companhia, he que venho estar comtigo até que daqui te safes.

Dizendo isto sahio pela cadeirinha fóra, e fomo-nos sentar bem perto da entrada do mirante.

Fez varias perguntas, entre outras, que me tinha parecido a sua ilha? E tambem me disse a razaõ{90} de naõ haver nella jardim, nem coitada: e por fim levantou-se, e bateu a pórta do mirante, que logo se abrio; e o que se passou, logo o vereis: e espero que muito vos divirta, e que nada menos vos aproveite.{91}